Meninos do Jardim São Jorge continuam encarcerados sem julgamento

A investigação sobre o caso continua com diversas falhas apontadas pelas famílias dos quatro meninos

Por Lucas Martins e Katia Passos, Jornalistas Livres 

Neste domingo, 10 de fevereiro de 2019 já completam dois meses de desespero e angústia para as famílias de Washington Almeida da Silva, Leandro Alencar de Lima e Silva e os irmãos Pedro e Fabrício, presos por um suposto roubo de um carro de um motorista que trabalhava na ocasião no aplicativo Uber. Enquanto amargam uma convivência catastrófica dentro de um presídio com criminosos com fichas extensas e celas insalubres. Os quatro que nunca tiveram passagem pela polícia, ainda, nem sequer, foram julgados.

Luci, com os desenhos de Pedro, seu filho Foto: Lucas Martins / Jornalistas Livres

Um Habeas Corpus que os advogados que defendem os rapazes pediram foi negado, claro.

Assim, como esse tipo de enredo macabro para quem é pobre, especialmente, periférico, se repete. A justiça e sua seletividade só funciona para aceitar pedidos como esse, de liberdade, para figurões da elite que cometem crimes contra os próprios pobres no país. 

Depois de dois meses, um julgamento foi marcado para dia 14, a próxima quinta-feira. 

E falando em enredo repetido, nesses últimos dois meses, a normal rotina das famílias desses rapazes, virou de cabeça para baixo com o caos trazido pela morosidade do sistema de justiça do país. Para que pudessem lutar pela liberdade ou ao menos, conseguir visitá-los, as famílias estão em verdadeiras peregrinações em busca de diversas possibilidades de trazer à tona a verdade sobre a inocência dos rapazes. 

No momento, os supostos réus aguardam julgamento no Centro de Detenção Provisória ll, em Osasco, São Paulo.

A mãe de Fabrício e Pedro, Luci, e a vó de Washington os visitam sempre que podem. Os quatro mantém contato com os outros familiares por meio de cartas enviadas nos encontros. 

A prisão provisória tem sido cada vez mais um instrumento normativo no Brasil. 

E vamos lembrar aqui, que no Brasil a população carcerária é 41% de presos provisórios que, como os quatro jovens, tem sua liberdade negada sem ao menos terem sido julgados.

Relembre o caso

O caso demonstrou ter falhas na investigação policial, sendo esta, inteira, baseada no reconhecimento dos quatro jovens pelo motorista do aplicativo Uber. Sim, isso e mais nada. 

Tudo aconteceu na zona oeste de São Paulo, no Jardim São Jorge. Ali, no dia 10 de dezembro de 2018, os meninos saíram da casa dos dois irmãos (Fabrício e Pedro) e passaram pela casa de Washington. Ao caminharem para voltar até a casa de Pedro e Fabrício foram abordados por Policiais Militares que haviam encontrado um carro que era de um motorista de aplicativo Uber roubado numa rua muito próxima dali. 

O motorista do Uber foi levado até o local, por outra viatura, e imediatamente, reconheceu os rapazes como sendo os quatro assaltantes. 

As famílias têm tentado provar a inocência dos meninos buscando imagens de câmeras das ruas por onde eles teriam passado naquela noite. Também apontam outros erros na investigação como o fato da roupa que os quatro usavam na noite do crime serem diferentes das roupas que os quatro indivíduos que abandonaram o carro vestiam. Essas imagens podem ser vistas em um vídeo conseguido pela família. Outra falha é a localização de itens que foram roubados de dentro do carro (três celulares e R$150,00): nenhum objeto foi encontrado com Fabrício, Pedro, Washington ou Leandro no momento da abordagem policial.

Com o objetivo de exigir justiça e uma investigação correta, os familiares já realizaram em janeiro deste ano, um ato pelas ruas do bairro. 

Reconhecimento

Dois casos recentes que ganharam repercussão, o de Barbara Querino, 20 anos, e o de Leonardo Nascimento dos Santos, 26 anos, possuem questões semelhantes com o caso dos quatro jovens.

Barbara e Leandro foram presos por terem sido reconhecidos por vítimas de crimes. Sendo esse o único elemento fica para que as investigações concluíssem que deveriam ser encarcerados. Um adendo para esse caso: ambos são negros. 

Leandro, acusado de matar um jovem ao lado de sua mãe, foi reconhecido pela mãe e preso. 

Pouco tempo depois o verdadeiro assassino foi preso e Leandro solto. O caso ganhou repercussão por conta do encontro entre Leandro e sua acusadora.

Barbara, que trabalhava como modelo, está presa e condenada a mais de 5 anos de prisão por um roubo: https://ponte.org/barbara-querino-a-babiy-como-a-justica-condenou-uma-jovem-negra-sem-provas/

Barbara Querino, a Babiy: como a Justiça condenou uma jovem negra sem provas

Mas a jovem apresentou diversas provas de que, enquanto o roubo era praticado na cidade de São Paulo, ela estava trabalhando no litoral. A condenação se baseia apenas em um reconhecimento da vítima.

O reconhecimento é entendido por muitos juristas como uma prova de pouca credibilidade. Casos como o de Bárbara e Leandro dão os exemplos de como é comum a possibilidade da vítima apontar de forma equivocada o suspeito. 

Categorias
DestaquesDireitos HumanosGeralSão Paulo
Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

AfrikaansArabicChinese (Simplified)EnglishFrenchGermanItalianJapaneseKoreanPortugueseRussianSpanish