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Regina Duarte tem medo da Comissão da Verdade da Covid-19

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ARTIGO

 

Mateus Pereira e Valdei Araujo são professores de História na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), em Mariana

 

O Brasil já tem, provavelmente, o segundo maior número de casos e mortes do mundo, considerando as subnotificações. É sempre bom lembrar que somos um dos países que menos realiza testes para a covid-19 do mundo. Exemplos: Cuba testou quatro vezes mais do que nós, o Peru sete vezes e Portugal 30 vezes. Nós estamos testando 0.6 para cada 1.000 habitantes. Os que mais testaram foram: Alemanha (25/1.000h), Itália (23/1.000h), Estados Unidos (12/1.000h) e Coréia do Sul (11/1.000h).

Boa parte dessas mortes estão diretamente ligadas às irresponsabilidades do Governo Federal, do presidente e sua equipe. Também o são os casos não notificados, mesmo depois dos corpos já enterrados, os “desaparecidos da Covid-19”. No entanto, estes desaparecidos não o são apenas por não estarem presentes nas estatísticas, mas por sofrerem, também, um apagamento ativo por meio dos discursos do presidente e de seus apoiadores.

Pesquisadores brasileiros estimam que o número de contaminados pelo novo coronavírus no Brasil é de 1,6 milhão, número 14 vezes maior que o registro oficial. Outros estimam que o número pode ser até 50 vezes maior que a notificação oficial. A isso soma-se o fato de que nas áreas periféricas das grandes cidades, como São Paulo, a mortalidade por Covid-19 tem sido dez vezes maior. Ou seja, os mais vulneráveis do Brasil são as maiores vítimas. São eles os pobres, pretos, pardos, mulheres e jovens.

É considerando esse contexto que devemos entender a entrevista concedida por Regina Duarte ao jornalista Daniel Adjuto da CNN Brasil, no dia 7 de maio. Ela criticou as pessoas que ficam “cobrando por coisas que aconteceram nos anos 60, 70, 80” e disse que é preciso olhar pra frente, cantarolando a música tema da copa de 1970. Quando o jornalista disse que na Ditadura havia desaparecido muita gente e havia censura, ela rebateu com um simplório “Cara, desculpa, eu vou falar uma coisa assim: na humanidade, não para de morrer. Se você falar ‘vida’, do lado tem ‘morte’. Por que as pessoas ficam ‘oh, oh, oh!’? Por quê?!” e “Por que olhar pra trás? Não vive quem fica arrastando cordéis de caixões”. Ela, que vinha sendo cobrada por não se manifestar pelas mortes de importantes artistas por Covid-19, interrompeu a entrevista bruscamente após a transmissão de um vídeo onde Maitê Proença critica a sua gestão à frente da Secretaria de Cultura.

A Secretária da Cultura de Bolsonaro se recusou a ouvir ou a responder qualquer coisa, dizendo que os jornalistas estavam “desenterrando mortos” e que deveriam ser mais “leves”, ao que a âncora do jornal, Daniela Lima, responde que eles não estão desenterrando mortos, e, sim, enterrando, visto que no momento o país já havia perdido milhares de brasileiros para o coronavírus, dentre eles pessoas da classe artística, da qual faz parte a própria secretária.

A fala de Regina Duarte, para a qual faltam adjetivos, e que deixou estarrecida boa parte dos brasileiros, deve ser contextualizada a partir de outros acontecimentos recentes. Um deles, protagonizado pelo ministro Dias Toffoli, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), anulou a decisão do Tribunal Regional Federal a 5ª Região (TRF-5) que determinava a retirada de uma publicação, do dia 31 de março, em defesa do golpe de 1964, do site do Ministério da Defesa. Tofolli balizou a sua decisão utilizando-se do argumento de que há um excesso de judicialização em atos públicos, e de que esta decisão censurava a livre expressão do ministro de Estado.

Outro acontecimento foi o encontro no dia 4 de maio entre Bolsonaro e Sebastião Rodrigues de Moura, o Major Curió, acusado de assassinato, tortura e ocultação de cadáveres na Guerrilha do Araguaia. Vale lembrar que no dia anterior, no domingo, houve mais uma manifestação em apoio ao presidente, contra o STF, o Congresso, a imprensa e Moro. Nesse dia, o presidente afirmou que ele tem o apoio do povo, das Forças Armadas e de Deus, e por isso faria cumprir a Constituição “a qualquer preço”. Já no dia 6, em reunião com o ministro Dias Toffoli, do STF, Bolsonaro defendia a flexibilização do isolamento social, dizendo que a liberdade (no sentido de ir e vir) é mais importante do que a própria vida.

A negação, justificação e apologia da ditadura, contrariando toda a literatura especializada, e a negação da Covid-19, desafiando as recomendações mais básicas da autoridades de saúde, são dois exemplos de um mesmo fenômeno: a exploração ilegal da desinformação como arma política. Vamos lembrar que mesmo empresas como Google e Twitter, que eram muito reticentes em eliminar de suas plataformas as fake news, revisaram suas políticas e hoje não permitem postagens que contrariem recomendações da OMS como a necessidade de quarentena no combate à pandemia. Foi por essa nova orientação que o Twitter apagou postagens do próprio Bolsonaro.

A Lei da Anistia, de 1979, é o vício de origem no qual assenta a Nova República. Ela consagrou a impunidade de torturadores, agora celebrados pelo presidente e outras autoridades públicas. A Constituinte, o Congresso e o STF escolheram não revisá-la. E onde isso foi dar? Em Bolsonaro e seus asseclas. Enquanto não enfrentarmos esse passado, não será possível impedir sua re-atualização em suas variadas formas.

Por isso, é preciso urgentemente combatermos as mentiras que afirmam que não houve corrupção na Ditadura; que aquela época foi um tempo melhor e mais seguro do que hoje; de que os conflitos e crimes devem ser esquecidos. Sem isso, Regina Duarte continuará a representar o que uma parte significativa da sociedade brasileira acredita. Em especial, as novas gerações que se identificam politicamente com esse tipo de discurso. Afinal, no Brasil, uma parte considerável dos jovens apoiam discursos e ações da chamada nova direita.

Nem sempre é fácil traçar as fronteiras entre a direita que se acredita iluminista, vide as recentes declarações do ministro do STF Luís Roberto Barroso, e a direita que alguns chamam de chucra. A ilustração brasileira foi construída pela escravidão, e muitos paladinos da democracia foram direta ou indiretamente sócios e beneficiários da Ditadura. A própria Regina Duarte é filha de militar e até hoje recebe pensão pelo pai falecido em 1981. Não sabemos ao certo até onde essa memória incômoda não está embaraçada com sua biografia. A Regina secretária de Bolsonaro é a mesma que apoiou José Serra na eleição de 2002 contra Lula, o mesmo medo, a mesma direita em formas distintas.     

A fala de Regina Duarte se assemelha com o discurso bolsonarista de que “quem procura osso é cachorro”. Assim como a secretária fecha os olhos para os mortos por Covid-19 e diz que quer ir “pra frente”, Bolsonaro, várias vezes, também defendeu que o passado ficasse a cargo dos historiadores – talvez ele estivesse se referindo aos olavistas, que estão produzindo uma falsa história nacional que já orienta a produção de material didático. A insistência em “seguir em frente”, sem olhar para trás, nos faz temer o futuro que Regina Duarte e Bolsonaro esperam construir. Será, certamente, um governo assentado sob cadáveres, a exemplo, aliás, do que fizeram os generais da Ditadura Militar. 

Maria Herminda Tavares, no mesmo dia da famigerada entrevista, lembrou uma frase que “quase” foi dita por Regina Duarte: “Viva a morte! Abaixo a inteligência”. Essa frase foi proferida pelo general fascista espanhol Millán-Astray em 1930. Apesar de ser difícil aceitar, não podemos negligenciar o fato de que, em várias dimensões, o governo bolsonaro é uma atualização do fascismo, e ainda mais eficaz, porque livre de qualquer coerência ideológica e detentores de ferramentas de propaganda com as quais os fascistas nem sonhavam. E isso é mais do que uma mera assombração que retorna. Não podemos negar a realidade, do contrário, quando acordarmos pode ser tarde.

A negação, e em especial o revisionismo, é um tipo radical e perigoso de fundamentalismo. Diverso, portanto, do relativismo cultural, que é inclusivo e reconhece o valor da diversidade e o diálogo livre e aberto como condição de produção de conhecimento. Já o negacionismo e revisionismo autoritário coloca em questão o poder de veto das fontes, utiliza-se de maneira aberta e sistemática da mentira e da desinformação, está baseado em lógicas de justificação e dissimulação que pretendem extrapolar, estender, manipular, minimizar e, no limite, negar o próprio poder de veto das fontes e a existência e valor das posições contraditórias, da existência mesma das minorias.

Em outros termos, nega e/ou revê a dimensão política e a intenção ética que valoriza e estimula o dissenso, a pluralidade e o diálogo que fundamenta a experiência democrática. A interação entre a ética e a política pressupõe a exigência de um reconhecimento mútuo. A ética do político, nessa perspectiva, visa criar espaços de liberdade, o que implica olhar para trás, para o agora e para frente ao mesmo tempo. Essa intenção ética, na esfera do político, não depende apenas das vontades individuais, mas também do Estado de direito que tem sido omisso em várias esferas. Além da refutação e da desconstrução factual, é preciso criar espaço de diálogo, de liberdade e de pluralidade para estabelecermos os limites legais e éticos, das narrações, interpretações e representações.

Os historiadores e historiadoras profissionais devem desempenhar um papel central nesse processo, seja por sua perícia de especialistas, seja como educadores; mas é a sociedade civil que precisa construir espaços institucionais autorizados para mediar e reprimir os abusos do poder ao mobilizar as novas ferramentas de comunicação para distorcer a história. É certo que a regulamentação da profissão de historiador vetada por Bolsonaro teria sido uma oportunidade para avançarmos nesta fronteira, com a criação, por exemplo, de conselhos de auto regulamentação. 

Assim, o que fazer frente ao desprezo pela vida?

Uma boa sugestão para impedirmos que a impunidade do presente perdure no tempo foi dada por Gregório Duvivier ao afirmar que os crimes cometidos pelo governo Bolsonaro devem ser julgados por uma Comissão da Verdade em tempo real. O medo dos mortos que tanto assombra Regina Duarte é o medo da verdade e da justiça. Qualquer sociedade que queira sobreviver precisa ter a coragem de cuidar também de seus mortos, de sua memória, de sua história e da verdade coletiva. Quantas mortes pela Covid-19 poderiam ter sido evitadas? A ciência tem respostas para essa pergunta. Conseguiremos punir as autoridades por esses crimes, ou o modelo da anistia e da impunidade vai prevalecer mais uma vez?

Enquanto isso, esperamos no mínimo que o Parlamento, presidido por Rodrigo Maia, essa pessoa que nasceu no exílio político da Ditadura, aprove uma lei punindo toda e qualquer apologia à violência, em especial, a de Estado. Mas parece que cabe a nós, da sociedade civil, o impulso e a pressão para que isso se realize.  

Outra ação urgente é cobrar a retirada dos militares da ativa e da reserva de postos políticos reservados aos civis. Sobre esse último ponto cabe dizer que, infelizmente, as Forças Armadas (sob o disfarce do combate ao comunismo – mais uma vez estão manchando a reputação da instituição ao darem o suporte a esse governo genocida, respaldando enquanto instituição as ambições de poder pessoal de alguns generais. Depois pouco vai adiantar a revolta contra a verdade histórica, mais uma vez terão seus nomes arrastados na infâmia da memória.  A lembrança das mortes que poderiam ter sido evitadas acompanharão as famílias e as gerações que estão vivendo essa tragédia nacional, mais de 10 mil mortes oficiais. Todos os dias pessoas estão sendo enterradas em covas coletivas em Manaus! A insensibilidade e os crimes de muitos, em especial, do presidente, não podem ser justificados sob nenhuma hipótese, nem muito menos esquecidos. Além de sermos impedidos de velar nossos mortos, querem também que os esqueçamos, e tudo isso em nome de um projeto sórdido de poder.

Enquanto não enfrentarmos o nosso passado-presente de violência, isto é, a Ditadura Militar, a escravidão, o racismo, o etnocídio, o patriarcalismo, dentre outros, o passado continuará a se atualizar negativamente, impedindo a construção de uma país efetivamente menos desigual e mais justo. Cabe ainda destacar que, agora, além do estudo coordenado pela professora Fernanda Cimini da UFMG, também o editorial da prestigiosa revista The Lancet  aponta para o fato de que Bolsonaro é a maior ameaça ao combate à Covid-19.

Portanto, a fala de Regina Duarte enquanto Secretária de Cultura do governo federal deve ser entendida como uma atualização do discurso autoritário e criminoso da Ditadura Militar, no sentido de que ela tenta proteger a entrada de qualquer “vírus” no interior desse sistema. Essa atualização só é possível pela desinformação atualista que silencia o conhecimento e a experiência sobre o passado e coloca em seu lugar uma espécie de réplica fantasmática. Regina não quer ouvir os mortos, apenas o jingle de propaganda “Pra frente Brasil, Brasil…”.

Em outras palavras, ela pretende se antecipar a qualquer tipo de julgamento, não da história, mas das cortes penais que finalmente venham a combater crimes contra a humanidade, de ontem e de hoje, ou seja, a busca pela verdade e justiça dos mortos e desaparecidos da Ditadura Militar e do Governo Bolsonaro. Para muitos não foi novidade saber que Regina Duarte tem medo, tem medo da esperança e do futuro, tem medo de seu passado de culpa. Nesse sentido, devemos aplaudir o manifesto em repúdio às declarações da secretária de Cultura assinada por mais de 500 artistas. A sociedade civil brasileira não está morta! E não podemos esquecer, por fim, que tudo poderia estar muito pior. Só não está porque existe um patrimônio do povo brasileiro chamado Sistema Único de Saúde.

 

Esta coluna foi escrita com a colaboração de Mayra Marques, doutoranda em História pela UFOP.

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1 Comment

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  1. Dinei Rinaldi

    10/05/20 at 21:00

    A seu próprio modelo, Bozo escolhe equipe de governo sempre pela sua incapacidade mental e mau caratismo..

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Geral

A satanização do Irã pela mídia ocidental, um processo em desconstrução

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Eduardo Nunes Campos*

Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa.
Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta.
O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.

Irã Mall Foto: Eduardo Campos

A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico.
Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream.
Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.

Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.

Ritual de fogo “Chaharshanbe Suri” Foto: Eduardo Campos

A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.

O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra.
Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental.
Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões.
A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida.
Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele.
Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa.
Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens.
A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas.
A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos.
O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás.
O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.

(*) Jornalista

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Internacional

IRÃ: A GUERRA DAS CRIANÇAS

Irã se prepara para receber 20 milhões de peregrinos nas cerimônias de despedida do aiatolá Khamenei, que se iniciam na próxima sexta-feira (3)

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O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.

Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.

A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.

O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.

Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.

Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.

Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé.  Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.

Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres

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Geral

O caso Mariana Ferrer, por Honoré de Balzac

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

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O caso Mariana Ferrer por Honoré de Balzac

Por Dirce Waltrick do Amarante*

Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.  

Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.

Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.

Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.

Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.  

*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina

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