Diário do Bolso: pensando na morte

José Roberto Torero

Diário, hoje eu não vou contar nada que eu fiz. Só o que eu penso. Dizem que é pra isso que servem os diários, não é? E eu não pagar prum médico de louco me escutar. Bom, o que acho é que: eu sou eu. Isso pode parecer pouca coisa, mas é muita. Tem gente que não sabe que ele é ele. Mas eu sei que eu sou eu. Isso quer dizer que eu sou a coisa mais importante do mundo. Pelo menos pra mim. Porque quando eu morrer, o mundo todo vai morrer, então nada mais vai existir. Pelo menos pra mim. Então o resto não me interessa muito. Só o que tá muito perto, tipo meus filhos. Porque eles são uma parte de mim. Eu que fiz eles. Então eles são um pouco eu. As mães deles, não. Vai ver por isso que eu não me importo muito com a morte dos outros. Eles vão morrer mesmo, então não faz diferença. Quando alguém morre, eu penso: ganhei desse, vivi mais que ele! Não tem mimimi. O mundo deles acaba e pronto. Mas o mundo deles não é o meu. O meu é eu. Tudo que não sou eu, por mim pode acabar: gente que eu não conheço, mato, bicho, livro. Se essas coisas acabarem, não dou a mínima. Mas eu penso em ponto na carteira de motorista, em revólver, em pescar. Nisso eu penso. Em céu e inferno eu não penso. É claro que eu não acredito nessas bobagens de vida depois da morte e o cacete. Já vi muito morto. O morto tá morto e pronto. Ele só vê uma cor preta pra sempre. Ou nem isso, que o morto nem sabe que tá morto. Uns 65 mil já morreram com essa porra de covid. Mas isso mudou meu mundo? Não. Pra mim tá tudo igual. Mas se o Brasil afundar e eu não for reeleito, aí fodeu. Morto não vota, desempregado vota. E empresário dá dinheiro pra eleição. Mas não se ele tiver prejuízo. Na verdade eu nem acredito que vou morrer. Talvez inventem alguma coisa até lá. Não consigo imaginar o mundo sem mim. Eu sempre sonho com morte. Eu tenho medo de morrer. Vai ver é por isso que eu durmo com um revólver perto da cama. Mas eu nunca sonho que alguém me mata. Só sonho que dou tiro e mato alguém. Ainda bem.

 

@diariodobolso

Por José Roberto Torero, autor de livros, como “O Chalaça”, e vencedor do Prêmio Jabuti de 1995. Além disso, escreveu roteiros para cinema e tevê, como em Retrato Falado para Rede Globo do Brasil. Também foi colunista de Esportes da Folha de S.Paulo entre 1998 e 2012.

Faltam cinco dias para o fim da campanha. O link é este: https://www.catarse.me/DiariodoBolso3?ref=project_link

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