Diário do Bolso: carnaval é um sofrimento para mim

José Roberto Torero*

Diário, essa época de carnaval é um sofrimento para mim. Eu até sonho com esse negócio.

 

Hoje, por exemplo, acordei mais cedo por causa do pesadelo que eu tive com um desfile de carnaval.

 

Pra começar, a Comissão de Frente era formada só por generais. Eles vinham com umas fardas verdes, bonitas, e deixavam pegadas vermelho-sangue.

 

As Baianas vieram estilizadas de freiras. E a Damares era o destaque da ala. Elas tinham uma coreografia bonita: giravam bem rápido e aí levantavam a saia, mostrando que todas usavam cinto de castidade.

 

O Ricardo Salles veio em cima de uma imensa árvore carbonizada. E embaixo dele tinha um grupo com lança-chamas que soltava umas labaredas de fogo. Lindo!

 

Aliás, uma coisa que eu gostei é que não tinha nenhum índio no desfile.

 

A rainha da bateria era a Regina Duarte, que estava fantasiada de Rainha da Sucata. Ou Secretária, no caso. E os batuqueiros usavam uma roupa de empregada doméstica, mas com umas orelhas de Mickey. O mestre da bateria, claro, era o Paulo Guedes.

 

A ala “Embaixador Dudu” veio com o Eduardo fantasiado de Estátua da Liberdade. E em volta dele tinha um monte de figurantes dançando. Eles vinham enrolados numa bandeira americana e o adereço de cabeça era um topete loiro gigante.

 

Depois vinha a ala Irmãos Siameses. Cada folião estava fantasiado de uma metade de laranja. E eles usavam máscaras do Flavinho e do Queiroz. Aí, na coreografia da ala, tinha uma hora que eles se abraçam e formam uma laranja redondinha.

 

O Olavo de Carvalho vinha de destaque, sambando em cima de um carro alegórico que imitava um mapa-múndi plano.

Carluxo ganhou um carro alegórico só para ele. Era todo dourado e de vez em quando, para imitar o golden shower, soltava uns jatos de purpurina dourada pelo bilau.

 

O Roberto Alvim vinha na ala “Ser ou não ser nazista, eis a questão?”, onde todo mundo segurava uma caveira. E a fantasia era um uniforme era de soldado nazista, mas com uma suástica verde e amarela.

 

O Weintraub comandou a ala “Kafta e outros acepipes”, onde cada figurante carregava uma faixa com um erro de português dele. Uma ala imprecionante.

 

O general Heleno ganhou um carro alegórico especial. Era um tanque puxado por ex-bolsonaristas que ele chicoteava, tipo Alexandre Frota, Joice Hasselman, Witzel, Doria, Lobão, Danilo Gentili, Janaína Paschoal, Kim Kataguiri, Nando Moura e Fágner.

 

Falando em músicos, os puxadores de samba eram cinco: Roberto Carlos, Magno Malta, Sérgio Reis, Toquinho e Gusttavo Lima.

 

O Edir Macedo e o Silas Malafaia vinham de destaque. As fantasias deles tinham enormes asas de anjo, mas, em vez de penas, eram feitas com notas de cem reais.

 

Não podia deixar de ter, é claro, a Ala dos Milicianos. Tinha um Adriano da Nóbrega gigante e todo mundo pulou mascarado. Foi a Ala em que o Queiroz desfilou, assim ninguém viu a cara dele.

 

Olha, Diário, eu te confesso que até aí eu estava gostando do sonho. Mas então apareceu a dupla de mestre-sala e porta-bandeira. Eu e o Moro. Os dois cheios de plumas verdes e amarelas. Já achei isso meio estranho, mas o pior foi que, quando o samba-enredo disse:

 

“Você fez de mim um presidente,
Eu, um deputado mequetrefe,
por isso vou te dar um presente
Vou te mandar pro STF”,

 

a gente deu um passo bonito, ficou frente a frente e se beijou. Mas não foi beijinho de parabéns, não. Foi desentupidor de pia mesmo.

 

Aí que eu acordei todo suado.

 

Ah, chega logo, quarta-feira de cinzas!

*José Roberto Torero é autor de livros, como “O Chalaça”, vencedor do Prêmio Jabuti de 1995. Além disso, escreveu roteiros para cinema e tevê, como em Retrato Falado para Rede Globo do Brasil. Também foi colunista de Esportes da Folha de S. Paulo entre 1998 e 2012.

@diariodobolso

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