S.O.S. Cinemateca, um grito contra o descaso

Ato contra o desmanche da Cinemateca Brasileira aconteceu na frente da sede, na Vila Mariana

SOS Cinemateca

A manifestação da manhã desta quinta-feira, 4 de junho, foi idealizado organizada pelo “Grupo de Trabalho Cinemateca” da APACI – Associação Paulista de Cineastas, com apoio do Movimento “Cinemateca Acesa”. Aconteceu em frente à sede da Cinemateca Brasileira, no bairro de Vila Mariana, em São Paulo, e contou com vários profidssionais da área do cinema e audiovisual, obedecendo as regras de proteção e distanciamento por causa da pandemia do novo coronavírus. Uma faixa com os dizeres SOS CINEMATECA – nome do movimento, foi extendida na porta da Cinemateca.

No Largo em frente à Cinemateca, leu-se um Manifesto explicando o movimento, assinado pelas mais importantes associações cinematográficas do Brasil e que conta com importantes adesões internacionais como Cineteca di Bologna, Cinémathèque  Française; FIAF International Federation of Film Archives (152 cinematecas do mundo), Festival de Cannes e  CLAIM – Coordenadoria Latinoamericana de Archivos de Imágenes em Movimento.

Estiveram presentes ao ato Roberto Gervitz, Cristina Amaral, que cuida do acervo de Andrea Tonacci, Tata Amaral, Rodrigo T. Marques, Joaquim Castro, Francisco Martins, Raquel Gerber, Alain Fresnot, Daniel Santiago, Gustavo Vinagre, Caetano Gotardo, Eliane Coster, Rubens Rewald, Mauro D’Addio, Fabio Yamaji, Renato Ciasca, Leandro Saraiva, Ícaro Martins, Fernanda Tanaka, Renata de Almeida, diretora da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, a diretoria da ABPA, Debora Brutuce, pesquisadores Piqueras Carango Sá, Flora Rouanet, Eloá Chouzal, Celso Jamelo, Fernanda Costa Paulino, mais diretorias da ADB, APACI, Sindicato de Radialistas de São Paulo e representantes de outras associações de cinema, entre outres.

O movimento pretende articular novas ideias, produções e processos de criação em defesa da Cinemateca Brasileira com o objetivo de manter a luz acesa da Cinemateca. Pretendem, com o video manifesto que está sendo criado e outras ações, provocar a participação e articulação daqueles que querem defender a Cinemateca Brasileira e o Cinema Brasileiro. Planejam, também,  uma série de intervenções no entorno da Cinemateca Brasileira e da cidade de São Paulo com uma proposta de Vigília Criativa.

SOS Cinemateca

O Manifesto

CINEMATECA BRASILEIRA. Patrimônio da Sociedade

A comunidade cinematográfica brasileira, representada por suas entidades, vem manifestar a sua inconformidade com a grave crise que se aprofunda e pode levar à falência da Cinemateca Brasileira.

A Cinemateca é uma conquista histórica do cinema brasileiro. Nela está depositada a maior parte das imagens domésticas, filmes de todos os gêneros e bitolas, programas de TVs e jornais televisivos que o nosso país já produziu ao longo dos últimos 100 anos. Ela é a memória viva de nosso país e o testemunho da grandeza atingida por nosso cinema ao longo da sua existência. O trabalho de restauro desenvolvido pela Cinemateca foi considerado de excelência pelos principais centros especializados do mundo.

No entanto, estamos assistindo à inaceitável deterioração de suas funções que já atingiu um patamar absolutamente incompatível com a sua importância. Técnicos valiosos e especializados foram demitidos e as atividades foram reduzidas drasticamente. Entre outras coisas, isso se refletiu na subutilização dos equipamentos de ponta, fruto de vultosos investimentos, que correm o risco de sucateamento.

Há muito a Cinemateca, em grave crise financeira, não recebe recursos governamentais necessários para o seu pleno funcionamento. Desde de abril, está com os salários dos poucos funcionários que restam atrasados e luta para pagar a conta de luz, que pode ser cortada a qualquer momento. Um eventual apagão elétrico será desastroso, pois atingirá a climatização das salas onde estão arquivados verdadeiros tesouros de seu acervo histórico. Sem refrigeração e inspeção constante, os filmes em nitrato de celulose- material altamente inflamável – ficarão expostos ao tempo e podem entrar em autocombustão como já ocorreu em 2016. A lista de obras ameaçadas inclui filmes da Atlântida, da Vera Cruz, tudo o que restou do cinema silencioso brasileiro, arquivos históricos de Glauber Rocha e grandes filmes restaurados pela cinemateca – a história do audiovisual nacional corre enorme risco.

Todo esse processo de irresponsável negligência se combina com o afastamento da comunidade cinematográfica nacional que não é consultada ou sequer informada a respeito dos rumos desta instituição.

Por acreditarmos que a interlocução da Cinemateca Brasileira com a comunidade cinematográfica é essencial para o seu urgente e devido resgate, reivindicamos a formação de uma comissão com membros indicados pelas principais entidades cinematográficas do país a fim de que se estabeleça um contato formalizado e periódico, condição sine qua non para que se trabalhe com transparência e a Cinemateca volte a assumir a sua vocação pública primeira de preservar e difundir o cinema brasileiro.

Para isso, exigimos que o governo federal providencie imediatamente a dotação urgente e necessária para que a Cinemateca Brasileira volte a funcionar plenamente e em bases seguras para os filmes nela depositados – patrimônio cultural e histórico de nosso país.

SOS Cinemateca

ENTIDADES QUE ASSINAM O MANIFESTO ENTIDADES NACIONAIS – ORDEM ALFABÉTICA

ABC Associação Brasileira de Cinematografia, ABD Associação Brasileira de Documentaristas , ABPA Associação Brasileira de Preservação Audiovisual, ABRA Associação Brasileira de Roteiristas, ABRACCINE – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, ABRACI Associação Brasileira de Cineastas, ABRANIMA Associação Brasileira de Animação, ACCIRS -Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul, ANDAI Associação Nacional Distribuidores do Audiovisual Independente, APACI Associação Paulista de Cineastas, APAN Associação Paulista do Audiovisual Negro, API Associação das Produtoras Independentes do Audiovisual Brasileiro, APRO Associação Brasileira da Produção de Obras Audiovisuais, APROCINE Associação de Produtores e Realizadores de Cinema e Audiovisual DF, CONNE Conexão Audiovisual Centro-Oeste, Norte e Nordeste, DBCA Diretores Brasileiros de Cinema e Audiovisual, FORCINE Fórum Brasileiro de Ensino de Cine e Audiovisual, FÓRUM DOS FESTIVAIS – Fórum Nacional dos Organizadores de Festivais de Cinema, FUNDACINE Fundação de Cinema do Rio Grande do Sul, SANTACINE Sindicato da Indústria do Audiovisual de Santa Catarina, SIAESP Sindicato da Indústria Audiovisual do Estado de São Paulo, SIAV Sindicato da Indústria Audiovisual do Rio Grande do Sul, SICAV Sindicato da Indústria Audiovisual, SINDAV-MG Sindicato da Indústria Audiovisual de Minas Gerais, SINDCINE Sindicato dos Trabalhadores na Indústria Cinematográfica e do Audiovisual, SOCINE Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual, STIC Sindicato Interestadual dos Trabalhadores na Indústria Cinematográfica e do Audiovisual, Mostra Internacional de São Paulo, PAVI – Pesquisadores do Audiovisual e da Iconografia

ENTIDADES INTERNACIONAIS – ORDEM ALFABÉTICA

BIBLIOCI – Red de Unidades de Información Especializadas en Cine y Medios Audiovisuales, Cinémathèque Française – França, Cinémathèque Suisse – Suíça, Cineteca di Bologna – Itália, CLAIM – Coordenadoria Latinoamericana de Archivos de Imágenes em Movimento, FIAF International Federation of Film Archives (152 cinematecas do mundo), FIPCA Federación Iberoamericana de Productores Cinematográficos y Audiovisuales, FIACINE – Federación Iberoamericana de Academias de Cine, Locarno Film Festival – Suíça

Os organizadores explicam a situação

“Estamos atravessando um momento terrível para todas a cultura brasileira com o governo Bolsonaro. Nesse contexto, a Cinemateca Brasileira passa por sua maior crise desde a sua fundação a 7 de outubro de 1946.

Há alguns anos esta instituição não recebe recursos governamentais necessários para o seu funcionamento pleno. Técnicos valiosos e especializados foram demitidos e as atividades foram reduzidas drasticamente. Entre outras coisas, isso se refletiu na subutilização dos equipamentos de ponta, fruto de vultosos investimentos, que correm o risco de sucateamento.

Desde de abril deste ano, está com os salários dos poucos funcionários que restam atrasados e luta para pagar a conta de luz, que pode ser cortada a qualquer momento. Um eventual apagão elétrico será desastroso, pois atingirá a climatização das salas em que estão arquivados verdadeiros tesouros de seu acervo histórico. Sem a climatização e inspeção constante, os filmes em nitrato de celulose-material altamente inflamável – ficarão expostos ao tempo e podem entrar em autocombustão como já ocorreu em 2016 –  a história do audiovisual nacional corre enorme risco.”

SOS Cinemateca

A Cinemateca Brasileira

A Cinemateca Brasileira é a instituição responsável pela preservação e difusão da produção audiovisual brasileira. Tem o maior acervo da América do Sul, formado por cerca de 250 mil rolos de filmes e mais de um milhão de documentos relacionados ao cinema, como fotos, roteiros, cartazes e livros, entre outros.

A origem da Cinemateca aconteceu quando Paulo Emílio Sales Gomes, Décio de Almeida Prado, Antonio Candido de Mello e Souza, entre outros, fundaram o Primeiro Clube de Cinema de São Paulo, que se propunha a estudar o cinema como arte independente por meio de projeções, conferências, debates e publicações. Em 1949, foi aprovado um acordo entre o recém-criado Museu de Arte Moderna de São Paulo – MAM/SP e o Clube, para a criação da Filmoteca do Museu de Arte Moderna de São Paulo. Em 1956, a Filmoteca se desligou do Museu de Arte Moderna, transformando-se em Cinemateca Brasileira, uma sociedade civil sem fins lucrativos. Cinco anos depois, a Cinemateca tornou-se uma fundação, personalidade jurídica que lhe permitiu estabelecer convênios com o poder público estadual. Em 1997, a sede da Cinemateca Brasileira foi definitivamente instalada na Vila Clementino, onde está até hoje. Os edifícios históricos depois foram tombados pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo – Condephaat, e pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo – Conpresp. Em toda esta história, o acervo sofreu em quatro incêndios, perda de muito material histórico. Em 2016, o antigo Ministério da Cultura, através de sua Secretaria do Audiovisual, assinou contrato com a Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto – Acerp, organização social qualificada pelo Ministério da Educação, para execução de um projeto de preservação e acesso de acervos audiovisuais, da Cinemateca Brasileira, e em março de 2018, foi assinado um Contrato de Gestão, parceria entre o antigo Ministério da Cultura e o Ministério da Educação, em que a Cinemateca passou a ser administrada integralmente pela Acerp por um período de 3 anos.

Ofício do Ministério Público Federal pediu um posicionamento do Governo e da Secretaria Estadual da Cultura sobre a falta de repasses dos recursos direcionados à Cinemateca, De acordo com o MPF, essa situação “vem prejudicando o funcionamento da unidade e causando danos ao acervo audiovisual brasileiro”.

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Campanha Emergencial

Foi criada em paralelo, uma campanha pública em apoio aos trabalhadores da Cinemateca Brasileira. “Em respeito do quadro emergencial em que se encontra o acervo da Cinemateca Brasileira, que abriga mais de 120 anos de história da cultura audiovisual brasileira. Mas pouco tem se falado sobre a situação do seu corpo de trabalhadores, cuja sobrevivência também se encontra inteiramente em risco. Apoie os trabalhadores da Cinemateca Brasileira que permanecem com salários e notas de prestação de serviços atrasadas, e sem os benefícios essenciais durante a pandemia da COVID-19.”

Campanha emergencial

Campanha emergencial para os trabalhadores da Cinemateca

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