Guarulhos muito além do aeroporto: cinema e resistência.

Literalmente à margem de São Paulo, Guarulhos apesar da nulidade em incentivo à cultura, possui um cenário cinematográfico intenso, o que pode ser conferido na 6ª Mostra Guarulhense de Cinema que começa no dia 24.
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Por André Okuma (*)

Conhecida como a cidade do aeroporto, Guarulhos é a segunda cidade mais populosa e a quarta com maior PIB no Estado de São Paulo, entretanto, na área cultural não há políticas públicas efetivas na área audiovisual, principalmente se comparado com sua vizinha São Paulo, que mesmo com seus problemas e contradições tem grande oferta de cursos, oficinas de formação, editais voltados a produções audiovisuais e diversos espaços culturais públicos e privados voltados para exibição de filmes, o que propiciou o surgimento de diversos coletivos, cineastas, projetos e filmes de grande relevância em regiões periféricas durante a última década.

Diante da falta de políticas públicas para cultura em Guarulhos, realizadores têm travado intensa luta por melhores condições para o setor junto ao poder público, mas com pouca efetividade prática. Produzir filmes na cidade de Guarulhos, portanto, é uma tarefa bastante complicada.

Porém, ainda que existindo de forma precária, a cena audiovisual de Guarulhos nunca parou de produzir, e de alguns anos para cá, eles têm criado organicamente um sistema próprio de ações culturais, produzindo de forma independente não apenas seus próprios filmes, mas também seus próprios espaços de formação e de exibição. Para sustentar este cenário, realizadores e coletivos audiovisuais têm sobrevivido através de colaborações mútuas, seja com mão-de-obra, seja compartilhando equipamentos.

Nos últimos anos, muitos destes realizadores começaram a dar oficinas de cinema em regiões periféricas da cidade formando ainda um novo público e uma nova geração de produções na cidade.

Diante deste contexto, ocorre entre os dias 24 de outubro e 1 de novembro, a 6ª Mostra de Cinema Guarulhense, mostra que privilegia as produções recentes da cidade, dos realizadores mais experientes às produções estudantis. Divididas em 6 sessões/programas exibidos de forma online, a mostra é organizada pelo Cineclube Incinerante, importante projeto de cineclube criado pelo Coletivo Polissemia, que exibe filmes não comerciais e produções locais em diversos espaços culturais da cidade de forma itinerante. Uma vez por ano, o cineclube organiza este evento com o objetivo de promover o encontro e fortalecimento da cena audiovisual da cidade.

fotografias por Helio Carlos Mello

Nesta edição, mesmo em um contexto de pandemia, desmonte de políticas públicas de forma geral, houve um recorde no número de produções, 38 curtas-metragens e um longa, sendo que a média dos últimos anos era em torno de 20 curtas-metragens.

Além desta ser a primeira edição a contar com um longa-metragem produzido na cidade, o filme “Para Miguel com Amor” produzido pela Cia. Bueiro Aberto, a mostra conta com diversas produções realizadas em contexto de isolamento social, além de muitos documentários com temas e personagens da cidade, ficções geralmente ligadas a temas sociais, e um aumento expressivo em vídeos experimentais e de gênero fantástico.

O perfil de realizadores é ainda mais diverso, composto por produções coletivas, cineastas periféricos, estudantes de cinema, entre outros. Um dado relevante é o aumento exponencial de mulheres que assinam a direção de filmes nesta edição, praticamente metade dos filmes da mostra. São elas: Juliana Seabra (6 Almas), Reiko Otake (Impróprios e Nuvem Baixa), Fabiana Barbosa (Escravidão 2.0), Letícia Alves (Ruptura), Ingrid Novak e Fernanda Campos (Dias de Glória), Bruma Bruna (_Vermelho), Pâmy Rodrigues (Pelas Tuas Mãos), Isa Molica (Elos, as teias), Fernanda Carvalho (Eu), May Alves (Novo Normal e Tô indo), Janaína Reis que participa com quatro filmes (Minha vida em Quarentena, Cartas de um poeta, Roda de Histórias e Nós das Ruas, esse último dividindo a direção com outra mulher, Angel Lima) e Pamela Regina que faz orientação de direção do curta A caixa Misteriosa produzido por seus alunos da rede pública de ensino. Sem dúvida isso é uma marca desta edição que aponta um novo momento do cinema na cidade, até então dominado por homens.

Os filmes independentes apresentados na mostra trazem um vigor arriscando e experimentando possibilidades de linguagem e forma, abordando questões sociais e políticas alinhadas a nossa contemporaneidade ao mesmo tempo que abre espaço para reflexões e interações com jovens realizadores em processo de formação.

O cinema guarulhense, mesmo com suas dificuldades, é uma fresta de vislumbre para a resistência de um cinema em constante crise e à beira do abismo, mas que ao invés de cair, pode voar, e isso nada tem a ver com o aeroporto inserido na cidade.

https://www.facebook.com/1724931750857352/videos/3815815101764636/

6ª Mostra Guarulhense de Cinema

De 24 de outubro a 1º de novembro

Exibição online e informações no site: http://www.mostraguarulhensedecinema.com.br/

Facebook https://www.facebook.com/MostraGuarulhenseDeCinema/

YouTube https://www.youtube.com/channel/UC0EcRiYuMcQCyGRpTWLvQ4w

André Okuma é mestre em História da Arte pela UNIFESP, faz filmes independentes, é arte-educador e mora em Guarulhos-SP

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