Ruas de São Paulo homenageiam empresários que apoiaram o golpe e a ditadura

 

Nem só de militares viveu a ditadura; confira lista de ruas, praças e escolas que usam nomes de empresários que financiaram o golpe

Nesta quinta-feira (13/8), às 9 horas, o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT-SP), lançará o programa Ruas de Memória. Organizada pela Secretaria Municipal de Direitos Humanos, a iniciativa pretende chamar a atenção para nomes de ruas da cidade que homenageiam agentes da repressão do Regime Militar brasileiro. Uma série de projetos de Lei será proposta na Câmara Municipal dos Vereadores para que os logradouros sejam rebatizados.

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No entanto, apesar dos esforços de reparação feitos pela administração municipal, nem só de militares viveu a ditadura. Antes, durante e depois do golpe que depôs o presidente João Goulart, não foram poucos os empresários que participaram ativamente da elaboração, construção e sustentação do regime de exceção. Como reconhecimento pelos esforços, muitos seriam homenageados com seus nomes em placas de ruas, praças e até mesmo escolas.

Um dos exemplos mais famosos é o do dinamarquês Henning Albert Boilesen, presidente do grupo Ultra durante a Ditadura Militar, morto por um comando da ALN (Ação Libertadora Nacional) e do MRT (Movimento Revolucionário Tiradentes) no dia 15 de abril de 1971, na alameda Casa Branca, nos Jardins, bairro nobre de São Paulo. Boilesen foi assassinado após vários presos políticos terem relatado sua participação em sessões de tortura que ocorriam na Oban (Operação Bandeirantes), centro de repressão política localizado na rua Tutóia, na Vila Mariana, zona sul da cidade. Alguns presos diziam, inclusive, que o empresário trouxera dos Estados Unidos uma máquina especial para dar choques elétricos, que ficou conhecida como pianola Boilesen.

Dois anos após a morte do empresário-torturador, no dia 3 de abril de 1973, a então prefeitura de São Paulo, comandada por José Carlos Figueiredo Ferraz, homenageou o empresário dinamarquês com o nome de uma rua no bairro do Jaguaré. Boilesen não ajudava a Oban apenas com máquinas de tortura, ele ajudava no financiamento sistemático do aparelho repressivo montado para combater os resistiam à ditadura, pedindo dinheiro a outros empresários. Seu envolvimento com a ditadura era antigo. Ao lado de muitos empresários paulistas, Boilesen ajudou a financiar tanto o golpe em março de 1964 como a montagem do aparelho repressivo da ditadura.

Empresários golpistas

Reunidos em torno de uma entidade privada, o Ipês (Instituto de Estudos e Pesquisas Sociais), e da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado e São Paulo), os empresários paulistas passaram conspirar contra o governo de João Goulart logo nos seus primeiros dias de governo. Em suas memórias, o marechal Cordeiro de Farias conta que ajudou a reunir o grupo, pensando na grande capacidade de mobilização industrial que já havia sido conseguida durante a revolução de 1932. Essa mobilização de empresários, além das reuniões em que se discutiam as políticas do governo e as eventuais mudanças pós-golpe, também implicava no recolhimento de verbas para as despesas da “revolução”.

Esse dinheiro, que vinha de diferentes formas direto do caixa das empresas, foi arrecadado para que tudo fosse perfeitamente organizado tanto para a conspiração como para os dias do golpe propriamente dito. Era preciso comprar bilhetes de avião, reservar hotéis, pagar refeições, comprar armas e alugar um quartel-general. Segundo relato de Paulo Egydio, ex-governador paulista, o QG ficava no Pacaembu e tinha duas saídas para ruas diversas.

O clima de desestabilização do governo Jango também foi cuidadosamente pensado com a contratação de uma assessoria de imprensa para pautar os jornalistas contra o governo constitucional. Livros, entrevistas, programas de televisão e outros diversos tipos de veículos de comunicação eram mobilizados para dar a impressão de que o governo estava à beira de um colapso.

Como aconteceu com Henning Albert Boilesen, esse apoio do empresariado ao golpe e a ditadura militar foi largamente recompensado pelo poder público. Muitos dos empresários que conspiraram para a derrubada do governo constitucional de João Goulart e depois contribuíram para a montagem de seu aparelho repressivo mais cruel, a Oban, foram homenageados com seus nomes estampados em logradouros públicos.

Em um primeiro levantamento, percebemos que a cidade de São Paulo tem pouco mais de 20 lugares com nomes de empresários que apoiaram a ditadura. São locais como a Av. Luiz Dumont Villares, na zona norte da capital, homenagem ao industrial do ramo de metalurgia que fez parte do Conselho Orientador do Ipês e que aparece na lista de empresas doadoras para o GPMI (Grupo Permanente de Mobilização Industrial) da Fiesp, criado logo após o golpe para organizar as demandas das empresas paulistas.

Outros nomes de ruas e praças também tiveram ativa participação no Golpe Militar, como Humberto Reis Costa, que se tornou uma praça em Sapopemba; Jaime Pinheiro de Ulhoa Cintra, membro da Escola Superior de Guerra, que deu nome a outra praça, em Pirituba. No Lauzane Paulista, uma travessa recebeu o nome do advogado Trajano Puppo Netto. Todos, sem exceção, conspiraram e fizeram doações para derrubar o governo de Jango.

Escândalos financeiros

Também é o caso da Escola Estadual Engenheiro Octavio Marcondes Ferraz (1886–1990), perto da av. Itaquera. O engenheiro elétrico foi o responsável por uma das maiores negócios dos primeiros meses da ditadura: a venda da Amforp para o governo brasileiro. Empresa de energia norte-americana responsável pelo abastecimento de grande parte dos Estados Unidos, a Amforp andou no vermelho por anos, não fazia os investimentos necessários para aumentar a rede e, por conta disto, não conseguia dar conta do consumo que crescia no país. O governo norte-americano queria se livrar do problema e ainda pressionar o Brasil a pagar um preço abusivo por uma massa falida.

O preço pedido pelos Estados Unidos era considerado absurdo e o governo de João Goulart vinha levando a questão calmamente, negociando valores e juros. Tanto Carlos Lacerda, governador do Rio de Janeiro, como Magalhães Pinto, governador de Minas Gerais, ambos apoiadores do golpe, eram contra a estatização a Amforp. De nada adiantaram as reclamações dos governadores e a gritaria na imprensa.

Em novembro de 1964, poucos meses após o golpe, depois de uma extensiva troca de telegramas com os Estados Unidos, a Amforp foi estatizada pelo preço que americanos queriam. Foram pagos 135 milhões de dólares pelos bens da empresa, além do pagamento de 10 milhões de dólares como compensação do atraso e 7,7 milhões de dólares aos juros e dividendos. Quem cuidou da negociação com os americanos foi, justamente, o engenheiro Octavio Marcondes Ferraz.

Outras ruas também têm seus nomes ligados a escândalos financeiros durante a ditadura. É o que ocorreu com Fuad Lutfalla, sogro do Paulo Maluf (pai de Silvia, sua mulher), que hoje dá nome a uma avenida na Lapa. Participante de primeira hora do Ipês, Fuad conspirou ativamente para derrubar Jango. A família Lutfalla possuía uma grande fábrica têxtil em São Caetano — o próprio Fuad foi eleito o “empresário têxtil de 1967”. Anos depois, em meados da década de 1970, as empresas Lutfalla estavam praticamente falidas. Paulo Maluf, presidente da Caixa Econômica Federal entre 1967 e 1969 e depois prefeito de São Paulo, entre 1969 e 1971, intercedeu politicamente para conseguir um empréstimo junto ao BNDE, o então Banco Nacional de Desenvolvimento, por meio do então Ministro de Planejamento, João Paulo dos Reis Veloso (ele passou por dois governos militares, o de Medici e o de Geisel). Todos os pareceres, tanto do banco como do próprio governo, eram contra o empréstimo, que acabou saindo em 1977. Dois anos depois, Maluf foi eleito, indiretamente, governador do Estado. A empresa foi à falência, e os recursos do BNDE, perdidos. O inquérito para apurar o caso está obstruído pela Justiça até hoje.

Na Vila Nova Conceição, Luís Eulálio de Bueno Vidigal (1911–1995) dá o nome a uma praça perto da avenida Hélio Pellegrino. Luís Eulálio foi dirigente da empresa Cobrasma (Companhia Brasileira de Metais Ferroviários), em Osasco, durante a Ditadura Militar, sendo eleito presidente da Fiesp em 1980. Palco de uma das greves mais combativas contra o regime militar, a paralisação da Cobrasma deu o tom sombrio ao movimento sindical dos anos posteriores. No dia 16 de julho de 1968, mais da metade dos funcionários da Cobrasma parou de trabalhar. Entre várias reinvindicações estava o protesto explícito contra a Ditadura Militar. Outras empresas da região aderiram à paralisação, como a Braseixos, a Fósforos Granada e a Lonaflex e a notícia de uma greve contra a ditadura se espalhou pelos jornais de São Paulo. Os grevistas haviam tomado a fábrica. A repressão foi rápida e violenta, com 1.000 soldados invadindo o local e mais de 300 operários presos. Os líderes das graves foram presos e sofreram torturas. Luís Eulálio, na direção da empresa, apoiava em seu escritório a repressão dos movimentos aos trabalhadores.

Mas a história da família Bueno Vidigal não se resume apenas na repressão à greve dos trabalhadores da Cobrasma em 1968. Luís Eulálio é um dos irmãos mais velhos de Gastão Eduardo de Bueno Vidigal, diretor-presidente do Banco Mercantil, instituição fundada por seu pai Gastão Vidigal, nome de uma importante avenida na Vila Leopoldina. Gastão Eduardo foi um dos banqueiros mais envolvidos na montagem da estrutura repressiva da ditadura, a Oban. Entre agosto e setembro de 1969, ele convidou diversos empresários da cidade para um almoço no Clube São Paulo onde recolheu o dinheiro que serviria para comprar alguns dos equipamentos que montariam a Oban. Na reunião, e em várias outras que se seguiram, estava presentes tanto Pery Igel, presidente do grupo Ultra, como Henning Albert Boilesen.

Lista de logradouros

Numa pesquisa inicial que levantou 180 empresários que financiaram a implantação da ditadura em 1964, descobriu-se que 21 homens-fortes do regime militar se tornaram nomes de lugares públicos na cidade de São Paulo — abaixo, listamos 12 dos mais conhecidos. Outros quase 50 se transformaram em logradouros públicos no Estado.

A pesquisa foi feita nos últimos dois anos por uma equipe de dois historiadores e três jornalistas, que cruzaram informações de livros, jornais da época, documentos, entrevistas, ganhadores da medalha pelo regime, membros de instituições que abertamente apoiavam o regime, agências de publicidade e políticos que ajudaram a derrubar Jango. Foi montada uma tabela com os nomes dos empresários mais envolvidos na repressão e, a partir daí, chegou-se aos nomes dos empresários haviam se tornado nome de rua, avenida, praça, travessa ou escola e que participaram ativamente da ditadura.

Não foram considerados nomes de parentes ou afiliados na pesquisa. A mãe de Paulo Maluf, Maria Maluf, que se tornou um túnel em 1994 e que faz a ligação da av. Bandeirantes com a av. Tancredo Neves, por exemplo, está de fora do levantamento. Assim, as citações em seguida ficaram restritas aos empresários que estiveram pessoalmente envolvidos com a ditadura e não suas mães, avós, mulheres, pais, primos ou irmãos, que também nomeiam logradouros públicos.

Confira abaixo nossa seleção:

Rua Henning Albert Boilesen, Jaguaré

Empresário dinamarquês, Boilesen foi um dos articuladores do golpe militar

Presidente da Ultragás durante a Ditadura Militar, Boilesen é o caso mais conhecido de empresário que frequentava os porões (ver o documentário Cidadão Boilesen). A empresa emprestava caminhões que participaram de emboscadas e sequestros de militantes de oposição.

Av. Luiz Dumont Villares, Parada Inglesa

Luiz Dumont Villares (1889–1979) integrou o Conselho Orientador do Ipês e a diretoria da Fiesp. Depois do golpe, continuou atuante no Ipês, fortaleceu o contato com thinks tanks internacionais, especialmente norte-americanos.

Escola Estadual Octavio Marcondes Ferraz, Itaquera

Octavio Marcondes Ferraz (1886–1990) integrava o Conselho Orientador e o Grupo Especial de Conjuntura do Ipês — e mais dois outros grupos de trabalho do instituto. Após o golpe, acertou a compra da Amforp pelo governo brasileiro — negócio ao qual João Goulart resistiu até o fim de seu governo.

Rua Rui Gomes de Almeida, Penha

Rui Gomes de Almeida era do Conselho Orientador, do Conselho Diretor e do Grupo de Estudos e Ação do Ipês. Também integrava a Associação Comercial do Rio de Janeiro e nessa condição cedeu o espaço e participou da fundação do instituto.

Praça Luís Eulálio Bueno Vidigal

Luís Eulálio Bueno Vidigal presidia a Cobrasma, de Osasco, em 1968, epicentro de uma das greves mais duramente reprimidas pela ditadura. Presidiu a Fiesp nos anos 1980. Seu irmão, Gastão Vidigal, é apontado como um dos principais articuladores do “caixinha” que alimentou a Oban (Operação Bandeirante) em 1969.

Praça Humberto Reis Costa, Sapopemba

Humberto Reis Costa foi diretor da Fiesp e do Ciesp. Em 1963, em sua casa, na praça Roosevelt, teria sido organizada uma reunião de industriais que conspiravam contra Jango: “A realização de uma reunião na residência de um senhor de nome Humberto Reis Costa, na praça da Roosevelt, com mais de 60 industriais paulistas, na qual Adhemar convocava-os a fornecerem recursos para uma caixinha que tinha como intuito adquirir três mil caminhões para dar ampla mobilidade a tropas do Estado de São Paulo, inclusive armando-os, a fim de defender a legalidade, a ordem ameaçada em nosso país…”, denunciou, na tribuna da Câmara dos Deputados, em 29 de maio de 1963, o líder do governo em exercício, deputado Bocayuva Cunha (PTB-GB).

Rua Dr. José Bento Ribeiro Dantas, Nova Piraju (perto do Aeroporto de Congonhas)

José Bento Ribeiro Dantas foi do Conselho Orientador Nacional e do Conselho Orientador do Ipês. Também integrava o Centro das Indústrias do Rio de Janeiro. Dirigia a companhia de aviação Cruzeiro do Sul, uma das principais financiadoras do instituto.

Rua Dr. Paulo Assis Ribeiro, Cangaíba

Paulo de Assis Ribeiro integrou o Grupo de Estudos e Ação e o Grupo de Informação do Ipês. Fez o plano de “reforma agrária” adotado pela ditadura após o golpe. Colecionou uma grande quantidade de documentos do Ipês. Esses papeis integram o acervo do Arquivo Nacional.

Travessa dr. Trajano Pupo, Lauzane Paulista

Trajano Pupo Neto integrava a AmCham (American Chamber, a Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos), que colaborava na organização das contas do Ipês e no fluxo de recursos pró-golpe vindos do exterior.

Av. Fuad Lutfalla, Freguesia do Ó

Outro integrante do Conselho Orientador do Ipês e do Grupo de Informação do instituto. Empresário do ano em 1967, o grupo de Fuad Lutfalla foi à falência, mas não sem antes receber um polpudo e mal explicado empréstimo do BNDE graças à intervenção política de Paulo Maluf, seu genro.

Av. Nadir Dias Figueiredo, Vila Guilherme

Sócio de Roberto Simonsen na Companhia Bandeirantes de Seguros Gerais, Nadir Dias Figueiredo não integrava formalmente nenhuma instituição de classe em 1964 e não fazia parte do Ipês. “Dono de um sorriso enigmático, fala mansa e sempre a bordo de um terno escuro, elegeu todos os presidentes da Fiesp por três décadas, até 1980”, resumiram assim sua influência na entidade os jornalistas Chico Otávio e José Casado, de O Globo, em reportagem que explica os elos da Fiesp com a Oban.

BIBLIOGRAFIA

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Casado, José e Otávio, Chico. “O elo da Fiesp com a ditadura”. O Globo, 9/3/2013. http://oglobo.globo.com/brasil/o-elo-da-fiesp-com-porao-da-ditadura-7794152. Acesso em 11.ago.2015.

Dreifuss, René. 1964 — A conquista do Estado. 5ª Edição. Petrópolis: Vozes, 1987.

Esteves, Carlos Leandro da Silva. “O agrarismo ipesiano nos projetos de Paulo de Assis Ribeiro”. Saeculum — Revista de história, nº 26. João Pessoa, jan./jun. 2012

Gaspari, Elio. A ditadura escancarada. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

Melo, Jorge José de. Boilesen, um empresário da ditadura — a questão do apoio do empresariado paulista à Oban/Operação Bandeirantes — 1969–1971. Niterói: UFF, 2012.

Ramírez, Hernán Ramiro. “A ditadura fala? Reflexões sobre os testemunhos orais através de entrevistas concedidas por Ernesto Geisel e Jorge Oscar de Mello Flôres”. Revista Tempo e Argumento. Florianópolis, v. 2, n. 1, p. 21–51, jan. / jun. 2010.


Originally published at painelacademico.uol.com.br.

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