Documentário, ” O Oco da Fala”, revela os aspectos emocionais profundos dos traumatizados pela Ditadura

Por Joana Brasileiro

Na imagem do convite Celeste Marcondes e seu marido Toshio Kawamura.

No próximo sábado, 9/4, durante o  21º Festival Internacional de Documentários “É tudo verdade”, estréia o filme  “O Oco da Fala”, que foi produzido pela Clínica do Testemunho do Instituto Sedes Sapientiae.

O documentário, com direção de Miriam Chnaiderman, e a coordenação de Maria Cristina Ocariz, da Clínica do Testemunho Instituto Sedes Sapientiae, se mostra uma especial oportunidade para todos, principalmente diante da crise que vivemos.

Aqueles que puderam, por intermédio de um importante trabalho de apoio psicanalítico e psicológico, em umas das ações promovidas pela Comissão da Anistia do Ministério da Justiça, de reparação às violações de direitos fundamentais praticadas entre 1946 e 1988, recuperar sua memória, recontar sua história, deixam nesta obra, um pouco de suas cicatrizes.

Os relatos, frutos do terror de estado, de corte e esfacelamento de vínculos, da dor de ter perdido companheiros queridos, da impossibilidade de enterrar seres amados, do cuidado no trabalho com as ossadas, se sucedem, estampando as marcas no corpo e na alma, também refletidas em passos ainda dormentes pela cidade.

O Projeto Clínica do Testemunho formou núcleos de profissionais capacitados para desenvolver o trabalho clínico e de pesquisa teórica relacionada a traumas de violência causados por Estados autoritários, que possibilitaram aos perseguidos pela ditatura militar, uma série de formas de atendimento e apoio psicológico, tanto de âmbito coletivo como individual.

As cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Recife dispõem de entidades participantes do projeto, como o Instituto Sedes Sapientiae, que fica no bairro de Perdizes, São Paulo, e tem uma importante tradição, de mais de 30 anos, de atuação e trabalho junto à sociedade, comprometido com a defesa dos direitos humanos e da liberdade de expressão.

Veja mais informações aqui:  http://sedes.org.br/site/

Dentre tantos e fundamentais documentos de resgate da memória, verdade e justiça, gerados pelas ações da Comissão de Anistia, tanto este documentário, como o livro, “Violência de Estado na ditadura civil-militar brasileira (1964-1985) -Efeitos psíquicos e testemunhos clínicos”, organizado por Cristina Ocariz e pela equipe de terapeutas-pesquisadoras do projeto, são de fundamental importância para a reconstrução dessa memória, e para aqueles que precisam conhecer a melhor a história do país a partir de vozes verdadeiras.

É possível baixar o livro por este link, ele explica as várias dimesões do trabalho do Clinicas do Testemunho: http://sedes.org.br/projetos/Clinica_testemunho/LIVRO_violencia_estado_ditadura.pdf

Posso também deixar aqui registrado, meu testemunho pessoal, pois, sendo filha de presa política, participo do projeto, e pude dar início à reconstrução da minha história pessoal. Um aspecto fundamental na ampliação da discussão sobre reparação são os processos judiciais ligados aos filhos de mortos e perseguidos políticos pelo regime ditatorial, porque nele se instala a ausência de substrato para se fazer qualquer tipo de cálculo de reparação econômica –ou seja, não se pode “pagar” por um pai, ou mãe, ou irmãos mortos. Não é possível reparar, à luz de uma justiça que vai fazer um “cálculo” de reparação, a possibilidade de encontro com um vazio de natureza emocional, tão profunda.

Quando me vi diante da possibilidade de trabalhar outros aspectos, que a Clínica do Testemunho me proporcionou, pude ampliar a percepção sobre outros conjuntos de ações de reparação, da chamada Justiça de Transição, que nós alcançamos a duras penas, 52 anos depois do golpe de 64, é que pude perceber o valor absoluto e imprescindível da nossa memória.

O valor, de valor incalculável.

Nós, filhos e netos, temos ainda este legado hereditário, que por mais triste, e por tantas vezes aniquilante, tem o poder, se no local adequado, de permitir o surgimento de novos significados. Estes significados são, para mim, como impulsos fractais, que talvez possam atingir a mente e alma de muitas pessoas, e quem sabe iluminá-las para a ressignificação, do que é democracia, do que é pátria, do que é luta, de onde estamos e para onde iremos.

Mesmo neste momento em que nos sentimos meio no olho do furacão, meio cachorro em dia de mudança, talvez a gente consiga se olhar, se ver e se ouvir.

A Clínica do Testemunho tem como objetivo, também, produzir insumos para elaboração de políticas públicas e para a transformação das instituições em democráticas, para que o horror não se repita. Ele começa uma nova fase (2016-2017), de continuidade do projeto, que além de atendimento psicológico, individual e de grupo, elabora entre outras ações os encontros, chamados conversas públicas. A próxima, a 9ª edição, está marcada para o dia 14 de Abril de 2016, às 20h00, no auditório do Instituto Sedes Sapientiae.

unnamed (1)

“Os interessados em participar dos grupos terapêuticos ou receber atendimento psicológico individual entrem em contato com a Clínica Psicológica do Sedes (11) 3866 2736 / 3866 2735 ou pelo e-mail [email protected]

Mais informações nas páginas:

https://www.facebook.com/clinicadotestemunhoinstitutosedessapientiae/?fref=ts

https://www.facebook.com/institutosedes/?fref=ts

Categorias
Geralmemória e JustiçaPolítica
Um comentário
  • Documentário, " O Oco da Fala"…
    7 abril 2016 at 6:19
    Comente

    […] Estréia do filme no "É tudo verdade", revela em depoimentos as cicatrizes da ditadura, trabalhadas no Clinicas do Testemunho do Instituto Sedes Sapientiae.  […]

  • Deixe uma resposta