Os mortos do 1º de abril de 1964

por Bruno Pavan do Brasil de Fato para os Jornalistas Livres

Os primeiros mortos da ditadura civil-militar tinham ainda a lembrança do discurso de João Goulart para mais de um milhão de pessoas.

O primeiro dia do mês de abril é conhecido como o dia da mentira. Mas 1º de abril de 1964 não se trata de uma mentira na história do Brasil. Nenhuma anedota inocente deixaria 434 mortos e desaparecidos — conforme relatório final da Comissão Nacional da Verdade -, transformaria a tortura em prática estatal, cercearia a liberdade de imprensa, cassaria mandatos de opositores, censuraria músicas, filmes e peças de teatro e manteria uma lista de livros proibidos.

Para muitos, ventos golpistas começaram a soprar dez anos antes. Em 24 de agosto de 1954, Getúlio Vargas não viu outra saída para o cenário em que se encontrava completamente isolado politicamente e envolto em uma tentativa de assassinato a não ser dar um tiro no próprio peito.

Depois disso, três presidentes ocuparam interinamente a Presidência da República até o mineiro Juscelino Kubitscheck colocar em prática o seu ousado plano de 50 anos em cinco. Responsável pela idealização da moderna capital federal no centro do país, JK ainda é considerado símbolo de um governo moderno. O país estaria pronto para um salto para o progresso?

Nas eleições de 1960, a população transmitiu sua opinião diante de um quadro eleitoral confuso. Elegeu o candidato oposicionista Jânio Quadros para a sucessão de JK. O vice, no entanto, que também era eleito por voto popular, seguiu sendo o mesmo: João Goulart, o Jango.

O mandato de Jânio foi breve. Talvez já ouvindo o som do avanço dos militares, renunciou menos de oito meses após a posse. A partir do dia 7 de setembro de 1961 o trabalhista João Goulart assumiu a Presidência.

Mais de um milhão na central do Brasil pelas reformas estruturanes de Jango. Foto: Divulgação

A marcha dos golpistas estava cada vez mais perto quando Jango propôs um ousado programa de metas que visava, enfim, refundar o país. Na reforma agrária, previa expandir os direitos dos trabalhadores da cidade até o campo e desapropriação da terra que não cumprisse sua função social. Na educação, queria expandir o método Paulo Freire, que dava voz ativa aos oprimidos no processo de alfabetização. Na economia, propôs limitar a remessa de lucros das empresas estrangeiras. Também pensou em devolver o Partido Comunista Brasileiro à legalidade e estender o direito a voto aos analfabetos. Os militares, porém, acharam que Jango estava indo longe demais.

Reforma agrária, a primeira vítima

Foi no campo que as primeiras mortes da ditadura militar aconteceram. Mais precisamente no interior de Minas Gerais. O sonho da reforma agrária foi o primeiro que a ditadura militar tratou de pegar pelo pé e jogar no chão

No dia 13 de março de 1964, da Central do Brasil — no Rio de Janeiro — Jango falou ao Brasil mais profundo. Reunindo mais de um milhão de pessoas na capital carioca, o presidente destacou as ameaças à democracia. Não era o povo nas ruas, como faziam crer os defensores da tradição, família e propriedade. A verdadeira ameaça era quem, nas palavras do presidente, se mostram “surdos aos reclamos da nação pelas reformas de estrutura, principalmente a reforma agrária”.

Em algum rádio de pilha no interior de Minas Gerais sua voz ecoou na cabeça de três sonhadores: Paschoal Souza Lima, Otávio Soares da Cunha e seu filho Augusto Soares de Lima. Os três defensores da reforma agrária foram os primeiros mortos da ditadura militar.

Paschoal não chegou a ver nenhum dia do período obscuro que atingiu o Brasil por 21 anos. No dia 30 de março de 1964, estava reunido com lideranças do Sindicato dos Trabalhadores da Lavoura em Governador Valadares quando foi morto com um tiro na testa. Não há foto dele nos registros da Comissão Nacional da Verdade.

Na época, João Pinheiro Neto era superintendente da Supra — Superintendência da Reforma Agrária — e entregaria na cidade as primeiras terras aos colonos cadastrados no sindicato. Por conta do clima político a solenidade foi cancelada. Os fazendeiros da região, reunidos em milícia para evitar qualquer tentativa de democratização de suas terras, cercaram e metralharam a sede do sindicato.

Augusta e Otávio Soares de Lima: a reforma agrária sofreu o primeiro golpe — Foto: CNV

O clima de “caça aos comunistas” já estava presente desde o primeiro momento daquele regime de exceção. Tanto que, dois dias depois, no primeiro dia do governo Castelo Branco, a mesma cidade de Governador Valadares foi novamente palco de duas mortes: Otavio Soares da Cunha e seu filho Augusto Soares da Cunha.

Também defensores da reforma agrária na região, ambos foram surpreendidos na frente de casa por fazendeiros que agiram em nome do Estado brasileiro. Augusto morreu na hora. O pai dele chegou a ser socorrido, mas faleceu três dias depois.

A família Soares conseguiu que se abrisse um inquérito para a investigação da morte de ambos, mas a Justiça Militar absolveu os acusados por “estarem trabalhando em nome da revolução” para os “batalhões patrióticos”. Os patriotas defensores do verde-e-amarelo vestiam verde-oliva a partir daquele dia primeiro de abril.

Estudantes como alvos

Bem longe dali, na capital pernambucana, estudantes tomavam conhecimento de que teriam que lutar para que a democracia retornasse ao Brasil. A sede do governo pernambucano, o Palácio Campo das Princesas, foi cercada pelo Exército que exigia a renuncia do então governador Miguel Arraes. Para “não trair a vontade dos que os elegeram”, Arraes se recusou a deixar o cargo, só saindo do palácio preso.

Jonas e Ivan: Mortos por defender o governo eleito — Foto: CNV

Automaticamente, estudantes ocuparam a Faculdade de Engenharia do Recife quando o Exército invadiu o prédio e expulsou todos. Nas ruas para defender o governador eleito e alertando a população contra o golpe militar que estava acontecendo, o grupo queria chegar até o palácio do governo. No caminho, foram surpreendidos por um piquete de militares que atirou para o alto. Os estudantes não se intimidarem e começaram a lançar pedras e cocos contra o grupo, que respondeu fazendo vários disparos em direção ao piquete. Desse confronto acabaram saindo dois mortos: Jonas José de Albuquerque Barros, de 17 anos; e Ivan Rocha Aguiar, de 23.

O primeiro desaparecimento político

Uma prática comum na ditadura brasileira era o desaparecimento de corpos. Ari de Oliveira Mendes foi o primeiro dos 210 cujos restos mortais nunca foram encontrados. Labibe Elias Abduch foi a primeira estrangeira. A primeira mulher. A primeira mãe

Nada se sabe sobre Ari nas 1996 páginas do volume dedicado aos mortos e desaparecidos políticos da Comissão Nacional da Verdade. Nem data de nascimento, nem pai, nem mãe. Labibe era dona de casa, natural da Síria, e foi pra rua como uma mãe preocupada em saber sobre seu filho que estava no Rio Grande do Sul.

Populares cercaram e tentaram invadir o clube militar carioca e foram reprimidos a bala. De acordo com o relatório da Comissão Nacional de Verdade, ambos vieram a óbito no Hospital Souza Aguiar. A edição do dia 2 de abril de 1964 do jornal carioca “O Globo” celebrava triunfante na capa: “ressurge a democracia!”.

Paschoal, Otavio, Augusto, Jonas, Ivan, Ari e Labibe morreram acreditando. Morreram sem ver no que se transformaria a ditadura que estava recém-parida naquele dia da mentira. Mas a história mostrou que tinham razão. Não há motivo maior de sair as ruas do que devolver a voz ao povo.

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