PM prende quatro em protesto contra ‘reorganização escolar’ de Alckmin

Por Rafael Tatemoto do Brasil de Fato para os Jornalistas Livres com fotos de Mídia NINJA e colaboração de Bruno Pavan

Foto: Mídia NINJA

Quatro pessoas foram detidas pela Polícia Militar durante uma manifestação ocorrida na Avenida Paulista na manhã desta sexta-feira (9), em São Paulo (SP). Um professor, dois estudantes e um profissional de imprensa foram encaminhados à delegacia.

Os manifestantes — estudantes, professores e pais — protestavam contra a proposta de “reorganização” da rede estadual de ensino, anunciada no fim do mês passado pela Secretaria de Educação, do Governo Geraldo Alckmin (PSDB). O ato, o segundo do ano sobre o tema, começou por volta das 8h e fechou as duas vias da Paulista.

Foto: Mídia NINJA

Repressão

A atuação da PM contra a manifestação começou quando um policial abordou um rapaz negro que cobria o rosto, atraindo outros manifestantes que pretendiam impedir que o jovem fosse encaminhado à delegacia. P.N., estudante do ensino médio de uma escola da região central da capital, que acompanhava a manifestação, afirma que, após a abordagem ao rapaz, “a polícia distribuiu cacetadas nos que estavam em volta, e muita gente saiu machucada”.

Foto: Mídia NINJA
Foto: Mídia NINJA
Foto: Mídia NINJA

P.N., como a maior parte dos presentes, não pertence a nenhum partido e compõe o Grupo Autônomo Secundarista, uma “organização independente”, segundo o estudante. De acordo com seu relato, no momento da abordagem da polícia, o jovem com pano no rosto “não fazia nada”. Um vídeo postado no Facebook, em uma página chama Território Livre, mostra o momento do ocorrido.

A atuação da Polícia resultou em quatro detidos, entre eles Caio Castor, fotojornalista do Coletivo Comboio. Rafael Vilela, fotojornalista da Mídia Ninja e dos Jornalistas Livres, concorda com a versão de P.N.. “A PM fez de tudo pra tirar eles [jovens com o rosto coberto], mesmo não tendo qualquer tipo de depredação”, afirma.

Foto: Jardiel Carvalho / Rua Fotocoletivo

“A sensação que tive é que eles queriam tentar acabar com o ato na base do medo”, afirma Vilela, que ainda disse que as prisões por ele acompanhadas — de Caio e do professor Luiz Carlos, docente da escola Raul Fonseca, localizada no bairro da Saúde — foram “completamente sem razão”.

O próprio Vilela teve a sua atuação profissional limitada: “Eu tive dois momentos. No primeiro, fui impedido fisicamente de documentar a prisão do professor, com uso de violência, e, na sequência, sofri represália por conta do capitão Santos, que me atacou num momento de calmaria com um cassetete, atingindo a minha [lente fotográfica] objetiva, que foi quebrada”, relata.

Todos os detidos foram liberados na delegacia.

Foto: Mídia NINJA

Proposta

A Secretaria de Educação anunciou no final de setembro um projeto de “reorganização” da estrutura escolar no estado. A pasta não liberou mais informações, mas, segundo dados obtidos pelo portal G1, mais de 400 escolas devem ser fechadas em todo o estado e mais de um milhão de alunos transferidos de unidade.

Para o estudante secundarista P.N., “se trata de uma medida meramente técnica e orçamentária, não pedagógica, que prejudica alunos e professores”. “A reorganização é só uma maneira de fazer os filhos da classe trabalhadora pagarem pela crise”.

Foto: Mídia NINJA

Na opinião de Leonardo da Vincci, 19, aluno de EJA na escola Clara Montério, no bairro do Belém, região leste da capital, a medida afeta toda a “comunidade escolar”. Da Vincci é um dos criadores da página de Facebook “Não Fechem a Minha Escola”, que reúne relatos e manifestações de todo o estado.

“Alckmin afirma que vai reduzir a lotação das salas, gostaria de entender como isso é possível fechando escolas e cortando períodos”, questiona da Vincci. Segundo ele, cerca de 50 escolas na capital estão mobilizadas.

Carolina Ariar, professora de línguas e mãe de uma estudante do 9º ano na escola Américo Brasiliense, em Santo André, se mobilizou junto à filha contra as mudanças. “A reorganização das escolas em São Paulo nunca considerou os interesses dos estudantes”, afirma.

Foto: Mídia NINJA

Ariar ressalta a ausência de diálogo com os estudantes, “as propostas de mudanças devem vir dos e das estudantes, que passam seis horas diárias trancados em estabelecimentos precários. Ao sair das escolas, não há qualquer perspectiva para o futuro”.

Um novo ato está previsto para o dia 15 de outubro, em frente ao Palácio dos Bandeirantes. No dia 20, batizado de Dia-E, mobilizações locais ocorrerão por todo o estado.

Resposta

A Secretaria Estadual de Educação informou à reportagem do Brasil de Fatoque ainda não há nenhuma confirmação de fechamento de escolas. A secretaria anunciou que estuda um remanejamento para as unidades escolar atenderem somente a um dos ciclos de ensino e que os pais dos alunos que passarem por esse remanejamento serão informados até novembro.

A reportagem entrou em contato com a Secretaria de Segurança Pública questionando os métodos e as razões da atuação da PM, mas não obteve resposta.

Foto: Mídia NINJA
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