• Ando possuído

    Não sei se é questão de remédios, óculos ou maus médicos, mas algo não vai certo. Foge ave, foge passarinho, foge gavião; o céu anda excêntrico. Ando com sentimento estranho, profunda tristeza: esse homem presidente não gosta das árvores, não gosta de nordestino, não gosta de índio, não gosta...
  • Licença para matar

    Derrubam-se árvores, o fogo lambe a terra. Tudo vira pó. Milhões de seres em pó: bactérias, fungos, formigas, caramujos, macacos, onça, anta. Tantos enfim unificados. Solidariedade é própria dos ventos, Leva, compartilha. Pedaços da Amazônia, poeira fina, estão em meio a meu quintal, piso frio, depois de leve chuva....
  • O dente da onça

    Onça, bicho de respeito. Sei por medo ou pura adoração, feroz vontade e fome. . É tempo de fogo. História? Seu ciclo, morte. Renascimento? , ilusão, fé, átomo, ferro na calçada aviso. Preciso movimento, morde, suga. A Terra muda o eixo e a luz sua incidência. Há degelo, novas...
  • Jair não gosta de passarinho

    O poeta Manoel de Barros falava que sabedoria era estar árvore. O presidente não sabe quem é Manoel. O presidente não sabe o que é poeta e poesia. Greta Thunberg, a menina, tão jovem mulher, pegará um barco solar para chegar à América, a falar do clima, da importância...
  • Se ferir a existência, serão resistência

    Disseram ao mundo que estão em permanente processo de luta em defesa do território. Prometem: se fere a nossa existência, seremos resistência. É fato, afirmo e confirmo. Em cada centímetro que andei atrás delas, na amplitude da capital do país, digo que vi até Glauber Rocha fumando, embriagado com...
  • A marcha

    Se fere nossa existência, nós dizemos resistência, afirmam milhares de bocas. Existe fome de cura, e o que vejo são mulheres, muitas mulheres que cantam e tanto falam enquanto dançam, preenchem todas as carências que sinto como cidadão. Elas chegaram onde queriam, sorriem em brado. Me sinto totalmente dispensável,...
  • A primeira marcha

    É como mexer em formigueiro, atiçar casa de abelha. É como abrir represa e inundar o campo,  há um canto, uma música de muitas línguas. Tudo se aviva numa atenção e objetivo de defesa, é um ofício conjunto.  A larga avenida se inunda de cores, como se uma revoada...
  • Porque choram as mulheres indígenas

    A capital está úmida. Não chove há um bom tempo, mas está úmida. Creio ser o pranto das mulheres indígenas que a todos limpam. Tão diferentes em seus jeitos, tão iguais no ver do mundo, mulheres que cantam em grupo, falam da mãe terra, de seu útero, do sangue...
  • Não suba no foguete

    A figura que acena não é a sombra que espreita. O guarda belo dá espaço a um batalhão de homens de preto, jovens simples vestindo ternos fora de medida. Segurança particular, devotos? Não sei, a tudo vigiam em dia de marcha para Jesus. Brasília, espaço público por natureza.  Logo...
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