As sociedades indígenas e o desencontro das políticas do capital

AILTON KRENAK – in Cátedra Olavo Setúbal de Arte, Cultura e Ciência, Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, 2019.

Obrigado aos colegas que me antecederam por essa rica narrativa sobre o Ocidente. Quero dizer que não falo do Ocidente, falo de outra cosmologia, dos povos originários deste continente. Foi maravilhoso ouvir como vocês vieram para cá. Na verdade, vocês estão declarando como invadiram essa parte do mundo. Queria falar com vocês da perspectiva de quem estava aqui sendo invadido por árabes, judeus, portugueses, todos os que vieram de outra matriz cultural e implantaram aqui a narrativa ocidental. Assim como Mário de Andrade observou a Amazônia da perspectiva de um paulista, a maioria de vocês observa este continente na perspectiva do Ocidente. E o que criou uma condição prévia para se estabelecerem aqui foi o genocídio dos povos originários. Não há história de cordialidade, nem convivência ou tolerância. Isso é mito. Assim como Macunaíma com acento no i é um mito. Mito paulista, no caso.

A ideia de que esses povos acrescentaram a este lugar do mundo uma espécie de florescimento cultural é, obviamente, uma narrativa que atribui virtude e caráter iluminador à vinda do europeu. Os europeus ocuparam o Planeta inteiro, a pretexto de levar luz para os lugares. Inclusive para o mundo árabe. O mundo árabe pode se declarar numa coexistência pacífica com os outros povos, mas o árabe sofreu e continua sofrendo uma violenta discriminação. Hoje, se um árabe aparecer num aeroporto importante do Ocidente, ele terá que tirar a roupa, vai ser alvo de uma busca pelado – como viviam os índios, quando vocês chegaram. Nós éramos alvos de busca pelados o tempo inteiro.


Tem uma parte da narrativa que nós estamos compartilhando que não pode passar, assim, tranquilamente. Ela tem que ser denunciada como narrativa colonialista. Mesmo quando o debate pretende ser decolonial, ele se faz na matriz de pensamento ocidental, que despreza os outros povos, as outras cosmogonias, as outras ontologias e não admite que exista uma epistemologia fora da mentalidade e da narrativa europeias. A narrativa europeia é constituída pela narrativa judaico-cristã, pela narrativa do Islã árabe, pela narrativa do Ocidente na Idade Média. O Ocidente se impõe ao mundo de uma maneira tão definitiva, que os outros povos se tornam pigmeus. As universidades, as instituições relevantes do Ocidente só fazem perpetuar o colonialismo. Infelizmente eu não poderia fazer outra fala, nessa circunstância, que não a de denunciar o continuado genocídio, o colonialismo, e a falsificação da história que continua se repetindo.

Chegamos ao século XXI com uma grave cegueira. Talvez aquela denunciada pelo escritor português José Saramago. Não queremos ver o óbvio. Estamos diante de uma realidade global de povos refugiados no mundo inteiro: refugiados do Haiti na Amazônia, refugiados venezuelanos na Amazônia, bolivianos, refugiados de todos os cantos do mundo chegando em diferentes lugares. Será que a parábola sobre as navegações e a colonização dos continentes tem algo a ver com o fenômeno recente de povos terem que sair de seus lugares de origem para irem pedir esmola na Europa? Quando os curdos são bombardeados, quando os turcos são azucrinados pelos bombardeiros americanos, quando a Síria e a Líbia são destruídas, será que isso tem a ver com o Renascimento surgido dos ciclos de navegação? Da bússola e das coisas incríveis que Darcy Ribeiro elogia? Gosto muito do professor Darcy Ribeiro, mas um grave equívoco dele foi pretender ser o profeta da civilização misturada, morena; aquilo é uma piração, porque a realidade que vivemos hoje é que estamos sendo depredados.


O Planeta está sendo destruído, a Amazônia está sendo incendiada com convocatória no Twitter, estamos com nossas praias cheias de petróleo podre, o Rio Doce, na margem do qual meu povo sempre viveu, foi plasmado pela lama da mineração. Completam-se quatro anos agora no dia 5 de novembro e a empresa, que deveria ser punida, acabou de ter sua licença atualizada, para continuar fazendo o mesmo estrago. Carlos Drummond de Andrade morreu denunciando a Vale do Rio Doce. A Vale do Rio Doce é uma das corporações mais ricas do mundo, hoje, e ela é responsável por ter matado o rio que passa na minha aldeia. Quero saber se o rio que passa na minha aldeia tem a mesma importância do rio que passa na aldeia do querido poeta português Fernando Pessoa e todos os seus outros nomes. Será que só o Tejo é um rio de aldeia? E o Rio Doce, o Paraopeba, os outros rios nossos, que estão sendo envenenados, drogados, destruídos? E a volta do Xingu que ganhou Belo Monte de presente do último período áureo da economia brasileira, quando o Brasil podia gastar bilhões para fazer uma barragem? Aonde estamos indo?


Não consigo pensar em arte e cultura separadas do rio, da floresta, das montanhas e da vida das pessoas que só sabem habitar esses lugares. Por só saberem habitar esses lugares, nunca colonizaram lugar nenhum do mundo. Os únicos que nunca colonizaram lugar nenhum do mundo são os povos originários. Não conheço a história de índios que colonizaram outras partes do Planeta, a não ser aquelas de sua própria origem. Em suas narrativas sobre a criação do mundo, são capazes de mostrar, na pedra às margens do rio, a marca que seu herói cultural deixou quando passou por ali, ao pisar e deixa um rastro. Fico me perguntando: até quando vamos continuar privilegiando a visão hegemônica, europeia, colonialista, e reproduzir isso em todos os espaços da vida cultural brasileira? Não sou um autor indígena, no sentido que alguém pode imaginar, porque viu uma publicação ali na entrada assinada por mim. Aquele livro são três conferências que dei, falando do mesmo assunto de que falo agora: de minha incapacidade de coexistir com um tempo de tanta falsificação e hipocrisia, e do mundo acabando aos nossos pés, enquanto a gente projeta botar estação espacial em Marte.

Se a arte, a ciência e a tecnologia que todos esses povos incríveis divulgaram serviram para chegar aos dias de hoje e construir uma plataforma em Marte para botar gente lá, depois que a gente destruir essa Terra – que é o único lugar em que eu sei viver –, acho que realmente foi uma viagem inútil, como foram inúteis a ciência, a tecnologia e a arte. Venho de uma memória de cultura onde não existe separação entre os termos arte, cultura, natureza, tecnologia, ciência, e aquilo que chamam mito – o lugar que a nossa memória habita. Davi Kopenawa Yanomami, que talvez além de mim seja a segunda ou terceira pessoa indígena que assina uma obra escrita no Brasil, declara, no livro A queda do céu, que o homem branco escreve tudo, porque ele tem uma memória cheia de esquecimento. Achei essa uma bela maneira de traduzir a longa tradição escrita do Ocidente, que serve para ocultar os esquecimentos da sua própria experiência humana. Há povos que continuam sendo capazes, hoje, de contar oralmente a história de como o Rio Amazonas nasceu. De como o Irariquera nasceu. De como o Watu, que é o rio na margem esquerda da nossa aldeia, conversa, coexiste e vive com os outros seres não humanos ou humanos. As montanhas que estão ao redor do nosso vale são seres, são entidades com as quais a gente negocia e convive.

De repente eu me encontro no meio dos meus colegas que não são originários desta terra, trazendo uma verdadeira epopeia sobre a civilização, que, na verdade, a única coisa que fez aqui foi matar os rios, destruir as florestas e acabar com as montanhas. Além de ter matado os povos originários daqui. Sobraram tão poucos, tão poucos, que nós estamos ameaçados, agora, por esse governo. Há o risco de ele tacar fogo na mata e acabar com o resto dos índios que estão lá dentro. Nós vivemos uma tragédia social grave.

Agradeço imensamente o convite para estar aqui com vocês vivendo esta experiência que me lembra muito, não no conteúdo, mas no formato, as reuniões que nós fazemos nos pátios das aldeias onde todo mundo se senta e tem a oportunidade de falar, de pensar, de filosofar, de trazer para as novas gerações novas ideias e visões sobre o mundo, o que prova que não estamos parados no tempo, estamos sempre refletindo sobre cada momento que vivemos, contando o tempo de uma outra maneira. Não essa história linear do século XVII, século XVIII, século XIX. Alguns dos nossos anciãos, quando escutam os brancos, mesmo os cientistas brancos, falando sobre a sua história, olham bem e dizem: olha como eles já se esqueceram de tudo.

Numa das narrativas de origem dos povos daqui – e, felizmente, o povo que narra essa origem ainda está vivo –, a maioria dos parentes deles foi extinta, mas eles não acabaram todos. Dizem que os dois heróis culturais, os dois gêmeos, o Yo’i e o Ipi, estavam na construção do mundo, e eles iam fazendo os rios, botando as criaturas nas águas, e o irmãozinho mais novo, muito rebelde, sempre anunciava alguma coisa que poderia ser um perigo. Então o irmão mais velho, Yo’i, fala: “não, não, não, não conte isso agora, não fale isso agora”. Porque ele tinha o poder de, com a enunciação das palavras, criar o mundo, criar as coisas. E o irmãozinho, lá em cima da palmeira da Jaci, olha, vê o irmão que está no chão, eles são clarividentes. Ele percebe que o irmão mais novo vai pronunciar uma palavra, e pede: “não, não, não, não fala isso”. Mas o irmão já tinha gritado lá de cima: “lá vem os brancos, aqueles que se retiraram daqui um dia, não sabem mais quem são e vão acabar com a gente”.


Essa história deve ter uns 2 mil anos, talvez mais, e ela nunca foi
esquecida. Faz parte da narrativa Mãgutá, a criação do mundo na tradição Ticuna. Vocês podem buscar e ler a história inteira. Em outros povos, nos Guarani, nos Tupi, em vários povos, nos Yanomami, de nosso querido Davi Kopenawa, se diz:


[…] essa gente que pensa que são os brancos, viveram com a gente nos primórdios. Eles não lembram, eles pensam que são outra coisa, mas viveram nos primórdios com a gente. E nos traíram. E foram embora. E nós pensamos que a gente nunca mais ia vê-los, até que um dia eles voltaram, e a gente não sabia se eles estavam voltando para nos abraçar ou se eles estavam voltando para nos decapitar. Ficamos esperando para ver o que eles iam fazer.


Tem história Bororo, Xavante, Krenak, Yanomami, Ticuna, Guarani que diz o seguinte: essa gente toda, que virou judeu, árabe, chinês e tudo, eles todos vêm do mesmo povo de origem que nós, só que não lembram disso. E, por não lembrarem, vivem infernizando a nossa existência.

A maioria dos registros de narrativas de nossos povos antigos não elimina o Outro: o Outro existe. É uma ontologia do outro. Acho interessante quando ouço o pessoal fazendo a crítica do colonialismo, fazem referência a esse Outro como se ele fosse um extraterrestre. Fico tentando entender, que Outro é esse de que se está falando?
Se esse Outro não está o tempo inteiro presente na sua experiência, afetando a sua experiência de vida, onde é que ele está, então? No espaço? Na Lua? Você estar diante do seu irmão, diante dos outros, não significa renunciar a ser você. É ser você com o Outro. No Ocidente tem uma história de hegemonia que não tolera o Outro. O Outro pode existir desde que fique parecido comigo. Se o Outro tiver rusga e diferença comigo, aí não dá. Nós queremos que o Outro seja a nossa cópia. Tem uma canção de Caetano Veloso que fala “Narciso acha feio o que não é espelho”, não é isso? Os ocidentais estranham os costumes originários que a gente preservou, porque eles queriam que a gente tivesse virado branco.A ideia da miscigenação, cultivada até outro dia, pretende integrar os índios. Assim como tentam fazer o negro virar branco, tentam fazer o índio virar branco.

Já que uma das chamadas desse encontro nosso fala do “sideral”, a gente não precisa ficar só no limitado campo da realidade cartesiana. Quando a gente faz uma crítica sobre o passado mítico e o presente idealizado, estamos quase censurando a possibilidade de uma perspectiva outra que não seja a cartesiana da realidade.É o ambiente em que a ciência opera. A ciência só sabe operar no campo da razão. Com a lista de filósofos que vocês adoram e citam. Vocês citam mais seus filósofos do que seus profetas ou talvez seus poetas. A história antiga de um dos nossos povos diz que, quando os espíritos saem da terra, eles têm que fazer uma longa jornada. Essa jornada não precisa ser para fora da atmosfera deste Planeta nem para o Cosmos, pode ser só num outro lugar, uma realidade paralela a essa em que a gente vive. Se o sujeito, aqui no mundo, não fez alianças, não criou relações para fazer essa travessia, quando ele estiver fazendo a passagem dele num lugar debaixo de uma rede onde uma coruja fica dormindo, a coruja vai dar um grito tão grande com a passagem dele que ele vai morrer de novo e vai voltar para cá como um zumbi, e vai ficar zoando por aí. Uma alma, um ser que teve uma existência e não se iluminou, vai voltar para cá de novo. Essas narrativas incluem todas as outras humanidades possíveis. A onça, a coruja, o macaco, os árabes, os judeus, os americanos, os tailandeses, holandeses, os chineses, outras etnias.

Na maioria das narrativas que não são dos povos originários, trata-se o sonho como uma experiência onírica, como disse Davi Kopenawa Yanomami, sonhando consigo mesmo ou com o próximo carro, a próxima propriedade, a próxima aquisição. Infelizmente é a marca desses sonhos, Freud também já viu isso, não foi só o Kopenawa. Os povos ameríndios passam por outra experiência que a gente poderia chamar de visões. Tem um livro com o título Palavras do Chefe Alce Negro, que reúne histórias transcritas com certa fidelidade de um xamã que viveu no norte da América, no final do século XIX. São exatamente visões. Os Maia, os Asteca, os Uichole, o povo Hopi, que vive no Novo México, os Ticuna, os Kuna e Emberá na Baía de São Braz, no Panamá, muitos outros povos vivem a experiência das visões que a gente chama de sonhos. A experiência do sonho atravessa o lugar experimentado na vigília. Na grande literatura do Ocidente, dos ingleses, dos portugueses, dos árabes, o sonho sempre aparece como uma experiência menor do que a realidade, sendo ambos distintos e incomparáveis. Porém, alguém formado nessa outra tradição do sonho, acessa, por meio das visões, lugares capazes de produzir experiência e conhecimento, de alimentar a subjetividade e o sentido da vida.

Não deixei a minha formação se limitar ao meu aprendizado com o povo da minha cultura Krenak ou da cultura Xavante ou Yanomami. Sobre os sonhos eu li, por exemplo, Aldous Huxley, que ensina, em As portas da percepção e em outros textos, que a realidade careta dentro da qual a gente convencionou ficar é uma prisão, porém tem outras janelas. Assim como o rabino diz que a sinagoga tem que ter janela, no nosso mundo também tem que ter janelas para todo lado, inclusive para outras percepções, porque senão a gente fica quadrado dentro dessa realidade convencional, racional, com a razão do Ocidente, aquela de que Kant gosta muito.


Em algumas culturas, preparam-se as crianças desde os 8, 9 anos de idade para sonhar, com a ajuda de mestres. No Brasil, um exemplo desta prática está entre os Xavante. Umari Tegewa é o dono do sonho, ele estudou assim como vocês, de cabelo branco, estudaram para serem doutores. Ele também é um doutor, ele é pós-doutor em visões, que aprendeu e agora pode ensinar para jovens de 9 anos, 12 anos, 15 anos. Quando esses moços, por sua vez, estiverem com seus 20 ou 30 anos, serão incluídos numa categoria de idade mais experiente e poderão ensinar outros jovens. A transmissão dessa antiga tradição do sonho ainda subsiste, tem gente com esse conhecimento, é maravilhoso. Conheço também experiências similares de alguns grandes pensadores do Ocidente, um inclusive teria tido visões de algumas de suas invenções tecnológicas em sonhos. Ouvi um relato de alguém que dormiu e sonhou com a solução de uma equação que tinha que resolver. Essa operacionalidade no campo dos sonhos especiais que ficaram registrados é parecida com as visões que Umari Tegewa treina as pessoas para ter. Eu falo que é uma instituição, porque ela pode formar a nova geração, transmitir as práticas que habilitam a pessoa a ficar quieta e a sonhar quando quer, e não quando o sonho vem. Você não precisa estar dormindo, você entra em meditação e tem as visões que está buscando. Vejo outro tipo de ontologia, outra experiência de saber, que não tem que estar obrigatoriamente registrada em nenhum lugar, porque é experiência viva de gente que quer viver, escolheu viver, se arrisca para viver num lugar que é o lugar da incerteza.

Há dois anos tivemos uma Bienal em São Paulo com o lema “Incerteza Viva”. Tive a possibilidade de participar com Bené Fonteles e discutir o lugar do mito referenciado nas nossas falas em vários lugares. Afirmei que o lugar do mito é fora da história, justamente no lugar da incerteza viva. Quem tem a coragem de viver dentro desse lugar vive uma incerteza sobre o que será depois, que é muito assustadora para quem quer viver dentro da lógica, do tempo e do amanhã.

Com relação à arte, acho que as aproximações entre o campo da arte e a causa ou a questão política dos povos indígenas acontecem por sazonalidade. Não sou crítico de arte. Não é desse lugar que estou falando. Sou um ativista da causa indígena, nunca vou a lugar nenhum fazer um debate longe dessa posição. Sou uma pessoa que tem estado no mato brigando para que os nossos territórios não sejam invadidos e as nossas casas não sejam destruídas. Quando falo tudo o que falei aqui não é para ofender ninguém, é só para acordar as pessoas.

*ilustrações e fotografias por Helio Carlos de Mello

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