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Exclusivo: Frequentadores de boate matam haitiano e ocultam crime da polícia

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Trabalhador haitiano foi espancado e morto por frequentadores da boate porque urinava do lado de fora. Foto: divulgação

O imigrante haitiano Kerby Tingue, 32 anos, foi espancado brutalmente por cinco frequentadores que saiam da casa de shows Forma Eventos, por volta de 2h30 da madrugada de domingo para segunda (3/6), em São José, município vizinho de Florianópolis (SC). A agressão, envolvendo possivelmente seguranças da casa noturna, teria ocorrido porque ele estava urinando ao lado de fora da boate, segundo moradores e testemunhas. Depois de espancado, o trabalhador e estudante foi comprovadamente empurrado para cima de um caminhão que passava pela Br-101, em frente à boate. Kerby morreu na hora, abatido no asfalto. O caminhoneiro chamou a Polícia Rodoviária Federal, que registrou a morte no Boletim de Ocorrência como atropelamento por imprudência da própria vítima. Seu corpo foi levado como se fosse o de um indigente ao Instituto Médico Legal, onde permaneceu por cinco dias, sem que a Delegacia de Polícia Civil tomasse ciência do crime. O inquérito policial só foi aberto hoje, no final da tarde, após os delegados de Biguaçu e de São José serem informados pelos Jornalistas Livres da notícia que já corria entre os imigrantes haitianos e confirmarem o crime através das imagens das câmeras de videomonitoramento da rodovia. “Foi homicídio mesmo”, reconheceu o delegado responsável, Manoel Galeno, que tem 30 dias para concluir o inquérito.

Kerby Tingue, assassinado porque urinava na rua, era considerado feliz e “irreprovável” pelos amigos

No segunda mesmo, já começaram a circular nas redes sociais e chats privados de grupos de solidariedade as informações sobre o atroz assassinato de Kerby, que cuidava de um sobrinho de 11 anos e morava no bairro Monte Cristo. Ex-estudante da UFSC, ele trabalhava na empresa Auto Viação Catarinense como mecânico desde o dia 31 de janeiro deste ano, estudava inglês no Curso de Extensão do Instituto Estadual de Educação e jogava basquete na Liga Desportiva NBA antes de vir ao Brasil. A família e os parentes no Haiti já sabiam do ocorrido e lamentavam a morte em suas páginas no Facebook, ressaltando que o rapaz estava muito feliz no Brasil com a conquista de um emprego. A irmã do jovem, Marie Tingue, chega a Florianópolis no domingo para buscar o filho que estava sob a guarda dele. “Frè pam mwen pap janm bliyew afè pam, ti mal ou kiten ak dlo nan je”, escreveu Guyto Viellot, em crioulo, que significa “Meu irmão jamais será repreensível, pessimista, fatigado”.

Entidades apoiadoras de imigrantes e refugiados e a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa estão sendo chamadas para uma reunião de emergência na segunda-feira (10), às 15 horas, na Casa da Memória, convocada pelo gabinete do vereador Lino Peres. A família não tem dinheiro para o traslado do corpo e está muito abalada, segundo a socióloga Jeruse Romão, que está em contato com a irmã. Deve ocorrer um ato no início da semana em protesto aos episódios de violência, racismo e xenofobia contra imigrantes e refugiados africanos e nordestinos, que têm sido recorrentes em Florianópolis e região, segundo Elsa Nuñez, professora voluntária de Língua Portuguesa para esse público e integrante do Grupo de Trabalho do Imigrante da Assembleia Legislativa do Estado de Santa Catarina.

No dia 30 de março, Kerby publicou uma foto na sua página do Facebook com o slogan “Eu amo a minha vida”.

Ex-estudante da UFSC, o mecânico falava inglês, francês, crioulo, português e espanhol

Imediatamente após assumir o inquérito, o delegado de São José, Manoel Galeno, afirmou que ainda não pode esclarecer os fatos, nem fornecer informações sobre quem são os autores do espancamento e do homicídio, nem concluir quem ocultou o crime ou se os seguranças estavam entre os espancadores e assassinos. “Como a polícia só tomou conhecimento do assassinato agora (através dos Jornalistas Livres), nós ainda estamos apurando e investigando tudo isso”.

A narrativa repassada à polícia foi fornecida aos Jornalistas Livres por integrantes das redes de entidades solidárias e por moradores da região. “Eu soube que ele foi espancado por seguranças da boate porque estava urinando num local inadequado, cambaleou e morreu depois de ser atropelado”, informa um estudante de jornalismo, morador do bairro, que preferiu não se identificar. Já o delegado Galeno constatou pelas imagens que o haitiano “foi empurrado para cima do caminhão que passava” pela marginal da Br, na direção Sul, o que, segundo ele, comprova o homicídio.

A boate Forma, que fica de frente para a BR 101, é famosa pelos incidentes, brigas e situações de violência, segundo o estudante de Jornalismo. “Já houve morte lá antes e nada acontece”. Conforme Elsa Nuñez, do Grupo de Apoio aos Imigrantes e Refugiados de Florianópolis (GAIRF), o motorista do caminhão parou ao colidir no jovem e foi ele quem chamou a PRF. “Tudo ainda precisa ser investigado pela polícia”, reitera o delegado.

 

PRIMEIRO B.O. CULPA VÍTIMA POR DESOBEDECER NORMAS DE TRÂNSITO

Boletim de Ocorrência inicial culpa a vítima por ter avançado sobre a rodovia, desrespeitando as regras de trânsito

 

Enquanto nas redes sociais o assassinato de Kerby corria de boca em boca, a Polícia Civil ignorava o crime. Esse descompasso aconteceu porque inicialmente a informação era que o crime havia ocorrido em Biguaçu. Procurado pelos Jornalistas Livres, o delegado do município, Carlos Diego, chegou a afirmar que se tratava de um boato antigo, recorrente há mais de dois anos. O delegado só descartou a hipótese de Fake News quando informado pelos JL de que o corpo do imigrante fora levado para o Instituto Médico Legal, segundo uma testemunha. A polícia então verificou que de fato havia um corpo não reivindicado no IML com essa procedência. A autoridade solicitou as imagens das câmeras da rodovia e confirmou que o haitiano havia sido mesmo assassinado em frente à Forma Eventos, no Bairro Serrarias, no município de São José, e não de Biguaçu.

Às 20h20, o delegado da Polícia Civil, Manoel Galeno, repassou o Boletim de Ocorrência do dia do crime, aberto pela Polícia Rodoviária Federal como acidente de trânsito, ocorrido por vota das 4h30. Registra também que o trabalhador foi atendido pela equipe de resgate da Arteris Litoral Sul, cujo médico responsável constatou o óbito no local. O documento confirma que o motorista do caminhão, Ronie Mário Petry, parou e aguardou a chegada da polícia.

A narrativa do B.O. culpa a vítima por ter avançado sobre a faixa de rolamento no km 199,1 da Br-101, “em desobediência às normas do trânsito”. Até o artigo da lei que proíbe o pedestre de avançar sobre a pista é citado para aferir a inocência do caminhoneiro, que prestou exames de alcoolemia, mas não viu que o haitiano fora empurrado para a pista, como mostram as câmeras. Depois de verificar que o crime havia sido ocultado durante cinco dias da polícia, o delegado afirmou que está a poucos passos da elucidação. “O principal já temos, que são as imagens das câmeras. Para chegarmos aos culpados é uma questão de horas”.

Também integrante do GAIRF e do GTI da Alesc, a antropóloga da UFSC, Janaína Santos, associa o ocorrido aos frequentes episódios de racismo e xenofobia que atingem os imigrantes africanos. “Mais um absurdo caso de violência e assassinato contra um jovem haitiano, que foi espancado por cinco pessoas e empurrado para ser atropelado. O racismo estrutural e abjeto segue fazendo ainda mais vítimas…”, afirma ela, que fez sua tese de doutorado sobre imigrantes.

 

Saída da Forma eventos, onde Kerby foi espancado e empurrado para o atropelamento.
Fotos: divulgação

 

Grupo de Trabalho dos Imigrantes da ALESC

Chamamos para reunião na segunda-feira, às 15 horas reunião do GTI na Casa da Memória, rua Padre Miguelinho, 58, centro, próximo da Câmara de Convidamos todxs para uma reunião, às 15 horas, na Casa da Memória, com Marie Tingue, a irmã de Kerby, que chegará no domingo do Haiti.

Já vamos apresentar as dificuldades, necessidades com sugestões de encaminhamento para este caso de violência contra o imigrante haitiano que foi espancado pelo agressores e empurrado para a Br 101, onde foi atropelado e veio a falecer.

 

 

 

 

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2 Comments

2 Comments

  1. Cely Rocha

    07/06/19 at 21:51

    Mais um caso lamentável de preconceito contra um jovem trabalhador imigrante, que tentava ganhar sua vida honestamente. Sua vida foi ceifada por pessoas monstruosas e desumanas que certamente, diante de Deus terá sua recompensa de acordo com seu merecimento. Essa vida ceifada desse jovem contribuirá na sua sentença, pode esperar pois vai acontecer.

  2. Junior Bassinet

    08/06/19 at 23:20

    Justiça determina a legislação vigente para estrangeiros que contra destruição de Brasil

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Geral

A satanização do Irã pela mídia ocidental, um processo em desconstrução

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Eduardo Nunes Campos*

Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa.
Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta.
O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.

Irã Mall Foto: Eduardo Campos

A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico.
Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream.
Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.

Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.

Ritual de fogo “Chaharshanbe Suri” Foto: Eduardo Campos

A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.

O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra.
Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental.
Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões.
A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida.
Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele.
Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa.
Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens.
A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas.
A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos.
O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás.
O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.

(*) Jornalista

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Internacional

IRÃ: A GUERRA DAS CRIANÇAS

Irã se prepara para receber 20 milhões de peregrinos nas cerimônias de despedida do aiatolá Khamenei, que se iniciam na próxima sexta-feira (3)

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O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.

Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.

A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.

O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.

Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.

Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.

Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé.  Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.

Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres

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Geral

O caso Mariana Ferrer, por Honoré de Balzac

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

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O caso Mariana Ferrer por Honoré de Balzac

Por Dirce Waltrick do Amarante*

Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.  

Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.

Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.

Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.

Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.  

*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina

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