Exclusivo: Frequentadores de boate matam haitiano e ocultam crime da polícia

Espancado e empurrado para cima de um caminhão, corpo do imigrante foi levado ao IML como indigente e vítima de acidente de trânsito

Trabalhador haitiano foi espancado e morto por frequentadores da boate porque urinava do lado de fora. Foto: divulgação

O imigrante haitiano Kerby Tingue, 32 anos, foi espancado brutalmente por cinco frequentadores que saiam da casa de shows Forma Eventos, por volta de 2h30 da madrugada de domingo para segunda (3/6), em São José, município vizinho de Florianópolis (SC). A agressão, envolvendo possivelmente seguranças da casa noturna, teria ocorrido porque ele estava urinando ao lado de fora da boate, segundo moradores e testemunhas. Depois de espancado, o trabalhador e estudante foi comprovadamente empurrado para cima de um caminhão que passava pela Br-101, em frente à boate. Kerby morreu na hora, abatido no asfalto. O caminhoneiro chamou a Polícia Rodoviária Federal, que registrou a morte no Boletim de Ocorrência como atropelamento por imprudência da própria vítima. Seu corpo foi levado como se fosse o de um indigente ao Instituto Médico Legal, onde permaneceu por cinco dias, sem que a Delegacia de Polícia Civil tomasse ciência do crime. O inquérito policial só foi aberto hoje, no final da tarde, após os delegados de Biguaçu e de São José serem informados pelos Jornalistas Livres da notícia que já corria entre os imigrantes haitianos e confirmarem o crime através das imagens das câmeras de videomonitoramento da rodovia. “Foi homicídio mesmo”, reconheceu o delegado responsável, Manoel Galeno, que tem 30 dias para concluir o inquérito.

Kerby Tingue, assassinado porque urinava na rua, era considerado feliz e “irreprovável” pelos amigos

No segunda mesmo, já começaram a circular nas redes sociais e chats privados de grupos de solidariedade as informações sobre o atroz assassinato de Kerby, que cuidava de um sobrinho de 11 anos e morava no bairro Monte Cristo. Ex-estudante da UFSC, ele trabalhava na empresa Auto Viação Catarinense como mecânico desde o dia 31 de janeiro deste ano, estudava inglês no Curso de Extensão do Instituto Estadual de Educação e jogava basquete na Liga Desportiva NBA antes de vir ao Brasil. A família e os parentes no Haiti já sabiam do ocorrido e lamentavam a morte em suas páginas no Facebook, ressaltando que o rapaz estava muito feliz no Brasil com a conquista de um emprego. A irmã do jovem, Marie Tingue, chega a Florianópolis no domingo para buscar o filho que estava sob a guarda dele. “Frè pam mwen pap janm bliyew afè pam, ti mal ou kiten ak dlo nan je”, escreveu Guyto Viellot, em crioulo, que significa “Meu irmão jamais será repreensível, pessimista, fatigado”.

Entidades apoiadoras de imigrantes e refugiados e a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa estão sendo chamadas para uma reunião de emergência na segunda-feira (10), às 15 horas, na Casa da Memória, convocada pelo gabinete do vereador Lino Peres. A família não tem dinheiro para o traslado do corpo e está muito abalada, segundo a socióloga Jeruse Romão, que está em contato com a irmã. Deve ocorrer um ato no início da semana em protesto aos episódios de violência, racismo e xenofobia contra imigrantes e refugiados africanos e nordestinos, que têm sido recorrentes em Florianópolis e região, segundo Elsa Nuñez, professora voluntária de Língua Portuguesa para esse público e integrante do Grupo de Trabalho do Imigrante da Assembleia Legislativa do Estado de Santa Catarina.

No dia 30 de março, Kerby publicou uma foto na sua página do Facebook com o slogan “Eu amo a minha vida”.

Ex-estudante da UFSC, o mecânico falava inglês, francês, crioulo, português e espanhol

Imediatamente após assumir o inquérito, o delegado de São José, Manoel Galeno, afirmou que ainda não pode esclarecer os fatos, nem fornecer informações sobre quem são os autores do espancamento e do homicídio, nem concluir quem ocultou o crime ou se os seguranças estavam entre os espancadores e assassinos. “Como a polícia só tomou conhecimento do assassinato agora (através dos Jornalistas Livres), nós ainda estamos apurando e investigando tudo isso”.

A narrativa repassada à polícia foi fornecida aos Jornalistas Livres por integrantes das redes de entidades solidárias e por moradores da região. “Eu soube que ele foi espancado por seguranças da boate porque estava urinando num local inadequado, cambaleou e morreu depois de ser atropelado”, informa um estudante de jornalismo, morador do bairro, que preferiu não se identificar. Já o delegado Galeno constatou pelas imagens que o haitiano “foi empurrado para cima do caminhão que passava” pela marginal da Br, na direção Sul, o que, segundo ele, comprova o homicídio.

A boate Forma, que fica de frente para a BR 101, é famosa pelos incidentes, brigas e situações de violência, segundo o estudante de Jornalismo. “Já houve morte lá antes e nada acontece”. Conforme Elsa Nuñez, do Grupo de Apoio aos Imigrantes e Refugiados de Florianópolis (GAIRF), o motorista do caminhão parou ao colidir no jovem e foi ele quem chamou a PRF. “Tudo ainda precisa ser investigado pela polícia”, reitera o delegado.

PRIMEIRO B.O. CULPA VÍTIMA POR DESOBEDECER NORMAS DE TRÂNSITO

Boletim de Ocorrência inicial culpa a vítima por ter avançado sobre a rodovia, desrespeitando as regras de trânsito

Enquanto nas redes sociais o assassinato de Kerby corria de boca em boca, a Polícia Civil ignorava o crime. Esse descompasso aconteceu porque inicialmente a informação era que o crime havia ocorrido em Biguaçu. Procurado pelos Jornalistas Livres, o delegado do município, Carlos Diego, chegou a afirmar que se tratava de um boato antigo, recorrente há mais de dois anos. O delegado só descartou a hipótese de Fake News quando informado pelos JL de que o corpo do imigrante fora levado para o Instituto Médico Legal, segundo uma testemunha. A polícia então verificou que de fato havia um corpo não reivindicado no IML com essa procedência. A autoridade solicitou as imagens das câmeras da rodovia e confirmou que o haitiano havia sido mesmo assassinado em frente à Forma Eventos, no Bairro Serrarias, no município de São José, e não de Biguaçu.

Às 20h20, o delegado da Polícia Civil, Manoel Galeno, repassou o Boletim de Ocorrência do dia do crime, aberto pela Polícia Rodoviária Federal como acidente de trânsito, ocorrido por vota das 4h30. Registra também que o trabalhador foi atendido pela equipe de resgate da Arteris Litoral Sul, cujo médico responsável constatou o óbito no local. O documento confirma que o motorista do caminhão, Ronie Mário Petry, parou e aguardou a chegada da polícia.

A narrativa do B.O. culpa a vítima por ter avançado sobre a faixa de rolamento no km 199,1 da Br-101, “em desobediência às normas do trânsito”. Até o artigo da lei que proíbe o pedestre de avançar sobre a pista é citado para aferir a inocência do caminhoneiro, que prestou exames de alcoolemia, mas não viu que o haitiano fora empurrado para a pista, como mostram as câmeras. Depois de verificar que o crime havia sido ocultado durante cinco dias da polícia, o delegado afirmou que está a poucos passos da elucidação. “O principal já temos, que são as imagens das câmeras. Para chegarmos aos culpados é uma questão de horas”.

Também integrante do GAIRF e do GTI da Alesc, a antropóloga da UFSC, Janaína Santos, associa o ocorrido aos frequentes episódios de racismo e xenofobia que atingem os imigrantes africanos. “Mais um absurdo caso de violência e assassinato contra um jovem haitiano, que foi espancado por cinco pessoas e empurrado para ser atropelado. O racismo estrutural e abjeto segue fazendo ainda mais vítimas…”, afirma ela, que fez sua tese de doutorado sobre imigrantes.

Saída da Forma eventos, onde Kerby foi espancado e empurrado para o atropelamento.
Fotos: divulgação

Grupo de Trabalho dos Imigrantes da ALESC

Chamamos para reunião na segunda-feira, às 15 horas reunião do GTI na Casa da Memória, rua Padre Miguelinho, 58, centro, próximo da Câmara de Convidamos todxs para uma reunião, às 15 horas, na Casa da Memória, com Marie Tingue, a irmã de Kerby, que chegará no domingo do Haiti.

Já vamos apresentar as dificuldades, necessidades com sugestões de encaminhamento para este caso de violência contra o imigrante haitiano que foi espancado pelo agressores e empurrado para a Br 101, onde foi atropelado e veio a falecer.

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2 comentários:
  • Cely Rocha
    7 junho 2019 at 21:51
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    Mais um caso lamentável de preconceito contra um jovem trabalhador imigrante, que tentava ganhar sua vida honestamente. Sua vida foi ceifada por pessoas monstruosas e desumanas que certamente, diante de Deus terá sua recompensa de acordo com seu merecimento. Essa vida ceifada desse jovem contribuirá na sua sentença, pode esperar pois vai acontecer.

  • Junior Bassinet
    8 junho 2019 at 23:20
    Comente

    Justiça determina a legislação vigente para estrangeiros que contra destruição de Brasil

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