Entrada de água em barragem preocupa bombeiros

CRIME DA VALE - Trabalhos de resgate em Brumadinho necessitam de mais máquinas para remover a lama, que secou e ficou compacta

Por Nairo Alméri*

CÓRREGO DO FEIJÃO, Brumadinho (MG)- Uma nascente bem à montante na Mina Córrego do Feijão, da Vale S/A, está vertendo água para dentro de uma das duas barragens que se romperam dia 25 de janeiro. “Vimos que vai ser problema… Teremos que fazer o escoamento da água de forma diferenciada”, pontuou nessa sexta-feira, 8, o subcomandante do Centro de Operações de Resgate, major Rafael Cosendey, do Corpo de Bombeiros de MG, ontem, após as informações que a corporação (o comandante ou o subcomandante das operações) passa à comunidade, todas as noites, a partir das 20h. O oficial deixou claro que, pela altitude em que está minando, a água não poderá simplesmente ser desviada da barragem, que ainda contém enorme volume de rejeitos de minério, nem redirecionada ao Córrego Samambaia, que seria seu curso normal. “Estamos estudando (o local próximo ao Córrego Samambaia) para entender o curso da água. Não podemos interferir de imediato por ser área ambiental protegida”.

Ele esclareceu que falta determinar se essa água aflorou em função de assoreamentos na área, que possas ter alterado o nível do lençol freático. As duas barragens de rejeito de romperam às 12h28 do dia 25 de janeiro: 165 desaparecidos e 157 mortos entre empregados da Vale, terceirizados, pessoal de fornecedores, moradores de áreas vizinhas e pessoas que transitavam em estradas distantes até 7 quilômetros do ponto de origem da Portaria da Mina.

Na Instalação de Tratamento de Minério (ITM), PARTE FICOU SOB LAMA COM 30 METROS DE ALTITUDE. Cada vez mais as equipes dos bombeiros e forças estaduais (Minas e outro estados) e federais, precisarão do apoio de máquinas nos resgates dos corpos das vítimas da tragédia. Atualmente, as equipes contam com 39 equipamentos, sendo quatro caminhões. São empregadas principalmente na área interna da mina. Entre as frentes que merecem atenção das equipes está a ITM.

“Na ITM tem até 39 metros para baixo de instalações sob a lama. Muita ferragem retorcida, de um metro (de largura). Encontramos um corpo. Agora vamos contar com ajuda de pessoas sobreviventes, já estamos em contato com um, para termos mais informações da área e sobre pessoas”, informou o subcomandante do Centro de Operações, que está acompanhado do capitão Heitor, também do Corpo de Bombeiros de MG. O minério que a Vale retira da ITM “segue um plano de manejo (ambiental): é levado para dentro da cava”.

Parte dessa informação o major tinha relatado, momentos antes, na palestra que a corporação faz todas noites com pessoas do arraial, a partir das 20h. Diante da situação dos terrenos, mais secos e compactos, o major reafirma que precisarão de mais máquinas. “Pedimos à empresa (Vale) mais 20 máquinas, que devem chegar semana que vem”.

Os cães farejadores (hoje são 17) têm sido relevantes na localização de corpos soterrados. “Mas a entrada do local (na ITM), está muito complexa e os cães não conseguem entrar”, relatou o major Cosendey. “Mas temos esperanças de entrar logo e retirar possíveis corpos de vítimas nesse local”, disse aos moradores.

CONVÍVIO ALÉM DA MISSÃO

Na conversa franca, que tem sido característica do Corpo de Bombeiros com a comunidade, o major Consendey detalhou como começa o dia deles (Alvorada às 5h30) no Córrego do Feijão e o término das buscas na “zona quente” às 17h30, quando os helicópteros iniciam a retirada dos militares das frentes. As equipes chegam aos locais da tragédia por volta das 6h. Quando as condições meteorológicas permitem, os helicópteros chegam de Belo Horizonte a partir das 7h e retomam os voos nas frentes de resgates entre 7h40 e 8h. Quem está na frente das buscas faz a refeição do dia no local.

Ontem, 260 militares foram envolvidos nos trabalhos, sendo 100 no leito e dentro do Rio Paraopeba, onde foram localizados quatro segmentos e um corpo. Os helicópteros cumpriram 27 saídas ontem.
Em terra, nas partes onde a lama ainda está liquefeita, as equipes contam também com apoio de equipamento anfíbio.
O major convidou os presentes para conhecerem o Centro de Operações, montado dentro da Igreja Nossa Senhora das Dores, que fica em frente ao campo de futebol, usado como “base” para os helicópteros (média de 15; hoje, são 12). A visita foi acertada para logo as 16h. No final, os oficiais foram aplaudidos pelos presentes e convidados darem as mãos para uma oração. 

(*) Jornalista, Nairo Alméri encontra-se em Córrego do Feijão, onde tem casa, desde dois dias antes do rompimento da barragem. Sua faxineira Amarina, que trabalhava no restaurante da Vale, figura entre as pessoas desaparecidas.

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