A covid-19 aumentou na quarentena em Cuiabá?

O fim da quarentena decretado pelo governador Mauro Mendes (DEM) ignorou que o pouco isolamento social em Cuiabá e Várzea Grande reduziu a transmissão do vírus
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Por: Lázaro Thor Borges *

Um dos argumentos utilizados de forma mais recorrente por aqueles que defenderam o retorno das atividades do comércio e o fim do isolamento social decretado em Cuiabá e Várzea Grande no mês passado é o de que a covid-19 aumentou no estado mesmo durante a quarentena obrigatória.

A informação foi espalhada principalmente pela Federação do Comercio de Mato Grosso (Fecomércio-MT). A entidade defendeu que somente nos primeiros 15 dias do mês de julho houve aumento de 75,5% no número de casos, de 17.401 no dia 1º para 30.536 casos até o dia 15.

Os dados apresentados convenceram muita gente, até por isso na última sexta-feira (24), o governador Mauro Mendes (DEM) publicou decreto determinando a reabertura. Muitos veículos da imprensa repercutiram a informação sem a devida checagem dos dados e, por conta disso, a história se passou como verdade.

A verdade é que a metodologia da Fecomério para analisar o impacto da quarentena é totalmente precária, se é que existe metodologia. Além de analisar um período curto de tempo, os comerciários levaram em consideração dados agregados de todo estado e não apenas das cidades com isolamento social decretado.

Não houve quarentena em todo estado. Em grandes cidades de Mato Grosso, como Sinop e Rondonópolis, não houve quarentena obrigatória e, se houve foi em um período muito curto, seguido por medidas de flexibilização. Algumas destas cidades sequer adotaram medidas rígidas de isolamento, perto daquilo que a Organização Mundial da Saúde (OMS) chama de “lockdown”.

Mas afinal qual o efeito da pandemia nas cidades que decretaram fechamento de serviços?

Para fazer esse cálculo levei em consideração o número de casos novos por dia. Aqui enfrento o primeiro problema: nem a prefeitura, nem o governo do estado disponibilizam dados detalhados sobre a pandemia, os dados não são abertos e, em alguns casos, são inconsistentes.

Para entender se houve aumento ou redução no número de casos novos subtrai o número de casos totais de um dia antes da quarentena ser decretada pelo dia anterior. E fiz o mesmo processo com o dia 25 deste mês, último dia antes do retorno dos serviços.

No dia 22 de junho Cuiabá registrou 3210 casos acumulados. No dia anterior, teve 2962 casos. Com isso, houve um aumento de 248 casos novos. No dia seguinte, dia 23 de junho, o juiz José Lindote, da Vara da Saúde, decretou a quarentena em Cuiabá e Várzea Grande.

No último sábado, dia 25 de julho, Cuiabá registrou 11.405 casosacumulados. No dia anterior, o número era de 11.241. Registrou, portanto, 164 casos novos. O que significa dizer que, desde que o isolamento social foi decretado, o número de casos novos caiu 33%. O dado é um indicativo de que a transmissão pode ter sofrido uma queda drástica na cidade.

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Interessante notar que o gráfico acima, publicado pela própria prefeitura de Cuiabá, já dá indícios visuais do resultado da quarentena: é possível perceber que, a medida que o tempo de isolamento aumentava a partir do dia 23/06 o número de casos novos caia pela primeira vez na história da pandemia na cidade. Até então, a transmissão só aumentava.

Outro dado importante sobre a eficiência do isolamento é a queda na média móvel de óbitos da doença. Segundo levantamento da Secretaria de Saúde, curva caiu de 255 para 237 mortes. O dado obviamente é preliminar porque leva em conta todo o estado, mas pode indicar redução da transmissão porque a queda ocorreu justamente no período em que a quarentena havia sido decretada.

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A média de óbitos semanais desde o primeiro caso do novo corona vírus no Estado subiu até a 15ª semana,

A análise ainda está incompleta porque para entendermos o real efeito do isolamento sobre a transmissão do vírus na cidade seria importante ter informações sobre casos novos da doença, o que possibilitaria acompanhar a média de crescimento percentual da doença antes e depois do isolamento.

Os dados mais contínuos sobre a doença estão no portal do Ministério da Saúde. Por lá, é possível acompanhar dia após dia o aumento de casos novos. Mas, como estes dados são defasados e atrasados, não foi possível analisar o aumento ou redução no período da quarentena, uma vez que as informações mais recentes sobre Cuiabá não chegaram ali.

Aplicando a mesma metodologia que apurou a redução de novos casos durante a quarentena, ou seja, sem analisar a média de novos casos, utilizei os dados do SUS para levantar o aumento de casos novos no período antes do isolamento decretado.

O resultado é interessante. No dia 23 de maio havia 65 casos novos da doença. No dia 22 de junho, um dia antes da Justiça determinar o fechamento, já existiam 217 casos novos de covid-19. O número revela, portanto, que houve um aumento percentual, antes da quarentena, de 233% em novos casos da doença.

Isto significa dizer que, mesmo com informações preliminares, é possível perceber que, na quarentena, o número de casos novos caiu em 33% enquanto sem ela o número de casos novos aumentou em 233%.

De qualquer forma, ainda é cedo para fazer qualquer diagnóstico sobre a doença. O que nós sabemos é que em todos os lugares do mundo onde a quarentena foi decretada a covid-19 teve forte redução na transmissão.

* Lázaro Thor Borges

Repórter de política em Mato Grosso, com contribuições para Folha de São Paulo, Congresso em Foco e The Intercept Brasil. Editor da Agência Vera.

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Matéria original publicada em: https://medium.com/ag%C3%AAncia-vera/a-covid-aumentou-na-quarentena-em-cuiab%C3%A1-b6c5b5e7b989

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