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Bolsonaro perde ou ganha com a pandemia?

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Mateus Pereira e Valdei Araujo, professores da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) em Mariana

 

Temos acordado com a sensação de que pouco podemos fazer para reverter possíveis tragédias, já que a onda mais forte da crise se aproxima. Ao que parece, o presidente aposta que o seu futuro político depende mais do controle das narrativas em sua base de apoio do que da realidade da pandemia. Se o cenário for controlado pelas políticas de isolamento, que ele tanto critica, ele vai reafirmar o tema da gripezinha, e se a situação sair de controle haverá a herança maldita petista e os chineses para culpar.

O que parece certo, no entanto, é que a máquina de comunicação atualista montada pelo bolsonarismo estará pronta para explorar qualquer cenário. Em 2016, para exemplificar o quão fiel era sua base de apoio nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump disse que poderia atirar em alguém no meio da rua que, ainda assim, não perderia um voto. Bolsonaro tem exposto seus os apoiadores ao vírus diariamente e, até agora, não parece ter perdido muitos votos.

Para garantir esse nível inédito de fidelidade é preciso manter um fluxo incessante de narrativas que moldem a realidade aos interesses do líder atualista e de sua base. É preciso ainda que o líder e a base sintam-se um só. De certa forma, Bolsonaro não apenas representa sua base de apoio, ele a corporifica, por isso essa necessidade contínua de exibição de apoio mútuo em manifestações públicas. Enquanto escrevemos estas linhas, em 11/4, a imprensa noticia mais uma quebra da quarentena, com o presidente aglomerando apoiadores em visita a obra de hospital de campanha em Goiás.

No artigo da semana passada dissemos que a experiência do tempo atualista se relaciona com a digitalização da realidade e a realidade digital. Assim, essa experiência tem relação direta com a infodemia. A explosão de notícias em fluxo contínuo é um fenômeno que evoluiu com a internet e o capitalismo de vigilância. Nesse processo, percebemos que o valor da verdade é constantemente confundido com o valor de novidade ou atualização da informação recebida.

Essa estrutura atualista impede que o passado, mesmo o mais recente, seja trazido à reflexão. Outro elemento que parece sustentar essa forma de comunicação é o diagnóstico em tempo real dos valores e disposições das bases de apoio. Esse diagnóstico está amparado em novos e velhos canais, desde a sinergia com os líderes evangélicos, militares e grupos empresariais, até o uso legal e ilegal do mapeamento e manipulação de dados digitais.

E não é justamente isso que Bolsonaro tem feito nas últimas semanas? A oscilação em suas afirmações, uma certa revisão da postura negacionista, isto é, nomear a Covid-19 de “gripezinha” certamente tem a ver com a percepção, por parte de sua equipe, da queda de sua popularidade, em especial, entre os mais ricos.

Ainda assim, seus índices de aprovação têm ficado mais ou menos estáveis, variando entre 33% a 40%, considerando as margens de erro. Uma pesquisa Datafolha do dia 8/4 mostrava que 83% das pessoas que votaram em Bolsonaro, no segundo turno, não se arrependeram do voto. Trinta e três por cento achavam ótima ou boa a conduta do presidente na atual crise, e 25% achavam regular, isto é, a maioria. Para 39% a conduta do presidente na crise era ruim ou péssima. Considerando a margem de erro de três pontos é possível que o número de aprovação e reprovação fosse o mesmo, ou seja 36%. Pesquisa do Ideia Big Data, do mesmo dia, indicava percentuais semelhantes.

O que aconteceu, já que a popularidade do presidente estava caindo? Como bem mostra um artigo do site da revista Piaui, assinada por José Roberto de Toledo, Bolsonaro fez duas mudanças táticas: moderou o discurso, mas só para inglês ver, e mudou a agenda ao passar a defender, ainda mais, o remédio milagroso para a cura da Covid-19: a cloroquina.  

No pronunciamento, também no dia 8, ele chegou a elogiar o médico do ex-presidente Lula que afirmou ter utilizado a cloroquina em seu tratamento, acompanhado por outros médicos. No mesmo discurso, ele se solidarizou, pela primeira vez, com a família das vítimas. Além disso, reafirmou que a responsabilidade do isolamento é dos governadores e prefeitos, e voltou a fazer oposição ao seu próprio ministro da Saúde.

Nesse movimento, como em outros, Bolsonaro segue de perto a agenda de Trump, com diferenças acessórias e de ênfase. No Brasil, Bolsonaro briga com Mandetta, nos EUA Trump seguidamente desautoriza e é desautorizado pelo Dr. Anthony S. Fauci, especialista médico da Casa Branca. O Dr. Fauci teve, inclusive, sua segurança pessoal reforçada após receber diversas ameaças de morte por parte de apoiadores de Trump que acreditam que as medidas de quarentena fazem parte de um complô para sabotar o presidente.

Em ambos os casos os presidentes lucram por supostamente terem escolhido um técnico competente à frente da resposta à crise e, ao mesmo tempo, alimentam-se de teorias da conspiração contra esses mesmos técnicos. A insistência de Trump nos poderes de cura da hidroxicloroquina motivou o The New York Times a publicar, no dia 9 de abril, uma matéria especial sobre os mitos envolvendo a droga que começa com a seguinte frase: “Não há provas de que qualquer droga possa curar ou prevenir a infecção do coronavírus”.  Enquanto isso, no Twitter brasileiro, diversas pessoas publicam em seus perfis o mesmo relato de cura de um mesmo primo, que depois se tornaria um meme. Fica a pergunta, quantos apoiadores do presidente estão dispostos a espalhar mentiras para defender suas narrativas?

Nos dias 8 e 9, o Jornal Nacional mostrava que um dos efeitos da ação de Bolsonaro era a diminuição e o relaxamento do isolamento social. Enquanto isso, em três investidas, até o dia 11, o presidente provocava aglomerações em passagens por espaços públicos. E em sua postagem ao vivo no Facebook, no dia 8, faz uma provocação ao afirmar que queixas sobre a quarentena devem ser encaminhadas aos governadores.

O cálculo parece ser o seguinte: caso o número de mortes seja elevado, e ainda que a sua popularidade caia, é provável que ele diga que o isolamento não funcionou. Caso o desdobramento da pandemia não seja tão trágico, ele vai atribuir aos governadores a crise econômica, além da imprensa, por ter causado a “histeria”.

Ou seja, é possível que ele ganhe (ou lucre) em qualquer que seja o cenário, mesmo com e apesar do “isolamento” atual. Ainda assim, paradoxalmente, ele sai dessa crise mais fraco do que entrou. Certamente o vírus, em três meses, causou mais danos em sua imagem e seu governo do que a oposição em um ano. Além disso, desde o dia 10/4 as panelas e vozes contra a atuação do presidente estão mais presentes no espaço público e na mídia. Até mesmo nos muros das grandes cidades, como na marginal Pinheiros, em 10/4, em São Paulo.

Ainda assim, acreditamos que ele ganhará mais se a crise epidêmica for menor.

E o impeachment?

No momento, parece ser uma opção difícil de se concretizar, até porque a base bolsonarista continua mobilizada e disposta a lutar e defender seu presidente. Difícil avaliar a extensão do trauma que uma interrupção precoce de mandato provocaria em uma base tão fiel. E, caso aconteça, esse fato realizaria as fantasias de perseguição e conspiração.

Mesmo na esquerda há quem duvide de que a substituição de Bolsonaro por Mourão representaria  algum avanço. As elites do atraso, ditas ilustradas, que se distanciaram do bolsonarismo, podem voltar a se aproximar, particularmente quando a agenda do ajuste fiscal ressurgir como a panaceia para a crise econômica. Afinal, as direitas mundiais têm sido eficazes em reagrupar, com agilidade, os setores obsoletos e atualizados em seus campos. 

A questão, portanto, é entender o bolsonarismo.

A esse respeito, destacamos o áudio recebido de um amigo, acerca do nosso texto, sobre os 100 primeiros dias da pandemia. De acordo com ele, nós, os autores, estamos ajudando a jogar o país no buraco, pois só criticamos o presidente, coisa que, ainda segundo ele, não acontecia com a “p*ta da Dilma”. As mídias estariam interessadas em derrubar o presidente, em especial a Rede Globo. “Em vez de falar sobre Bolsonaro, ‘vocês’ deveriam alertar as pessoas não sobre as mortes, mas, sim, sobre os doentes que se recuperaram da Covid-19; alertar que quem é jovem deve trabalhar e quem deve ficar em casa é ‘velho’.”

Ele tem medo de que o Brasil vire uma Cuba ou Venezuela. Nosso amigo grita ainda que a oposição deveria respeitar o presidente e deixá-lo governar, que a esquerda e os comunistas devem ser extintos do Brasil: esse parece ser o desejo com maior conteúdo emocional, embora comunista possa ser qualquer coisa neste tipo de discurso, não há um contorno ideológico claro. Repete, quase em transe, diversos temas da propaganda bolsonarista: a crise é apenas um pretexto para derrubar o presidente; a quarentena é uma forma de implantar o comunismo no Brasil, já que ele não pode dispor de seu negócio, não pode ir e vir.

Infelizmente, essa reação não parece ser um caso extremo ou isolado. Então, fica a pergunta: qual é o espaço para diálogo e argumentação com este tipo de reação? Qual percentual da base bolsonarista chegou a esse ponto de radicalização que parece sem volta? Alguma mudança na realidade poderá quebrar esse círculo de fidelidade e identificação emocional? 

Nas redes bolsonaristas os comunistas chineses são os inimigos da vez. Ainda mais com o PT e o Lula sumidos do noticiário. Tudo isso pode ser visto em imagens que circulam nos grupos de Whatsapp.

Articular o bolsonarismo com o atual capitalismo de vigilância pode contribuir para superar certas ilusões. Como a de que a democracia brasileira havia se consolidado e estava sólida. Ilusão que levou a maioria do campo progressista a não ver o ativismo de direita e centro-direita, particularmente após 2013. Desse modo, é preciso entender que o negacionismo bolsonarista não admite seu aspecto irracional ou anticientífico, ao contrário, alimenta as expectativas de que uma “ciência verdadeira” legitima suas narrativas.

Diante disso, podemos nos perguntar até que ponto vivemos uma real guerra de ideologias e até que ponto as estratégias deliberadas de desinformação tornam mesmo impossível falarmos em ideologias. Também não sabemos até onde figuras como Bolsonaro e Olavo de Carvalho apresentam um grande conhecimento intuitivo e um controle “carismático” sobre seus seguidores.

Na atual guerra cultural, talvez o primeiro passo a ser dado por uma parcela significativa da esquerda fosse reconhecer a derrota, isto é, aceitar que o bolsonarismo tem uma base social que o apóia e o defende ativamente, apesar da nossa tendência em não querer aceitar. Isso significa compreender que a atual pandemia, assim como o bolsonarismo, se articulam com um dado de fundo: a tragédia humana produzida pelo capitalismo em seu estágio digital. Muitas pessoas que tiveram e têm as suas vidas destruídas por esse modelo econômico, desigual e cruel, tiveram esperanças de transformação a partir da voz de Bolsonaro. Do nosso ponto de vista, as vítimas desse modelo econômico são alvos fáceis para a desinformação, que deve ser separada da apropriação espontânea das narrativas, e dos discursos de ódio.

Considerando o grave momento que vive a humanidade, gostaríamos de não ter que discutir os ganhos ou perdas das irresponsáveis disputas políticas de Bolsonaro, em um cenário em que o mais relevante é, no final das contas, a luta pela sobrevivência da vida humana, sem distinção de credo étnico, religioso ou político. Isso, já sabendo que as pessoas negras, pardas, indígenas e pobres, tanto no Brasil como em outras partes do mundo, estão sendo e serão as mais atingidas, infelizmente.

Bolsonaro não irá cair de maduro, como muitos esperam. E sua reeleição não é algo inviável, como muitos acreditam. Despidos de qualquer teoria, ou paixão política, podemos dizer que é chocante e revoltante ver a autoridade máxima do nosso país brincando com a morte alheia. Infelizmente, enquanto não formos capazes de voltar a ter algum controle coletivo sobre a produção e circulação de dados e informações, os políticos atualistas continuarão a dobrar a realidade a seu favor. Mas isso já é o tema do próximo artigo.

Até breve! E fiquem em casa!

P.S. Esse artigo foi escrito a duas mãos, algumas vezes em tempo real, na plataforma do Google drive e com o apoio de Mayra Marques.

 

 

 

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A grande Mosalla em Teerã

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Jornalistas visitam complexo religioso onde está ocorrendo o funeral e as homenagens ao ex-líder supremo Ali Khamenei, assassinado no dia 28 de fevereiro pelos EUA e Israel

Tudo é grandioso na Grande Mosalla, oficialmente Mosalla Imam Khomeini de Teerã, um gigantesco complexo religioso-comunitário localizado em Teerã. Construída em estilo persa, a Grande Mosalla foi escolhida para a abertura das últimas homenagens ao ex-líder supremo Ali Khamenei, assassinado no dia 28 de fevereiro, quando se iniciaram os mais recentes ataques dos EUA e Israel contra o Irã, e que levaram a uma escalada de guerra que afetou todo o mundo nos últimos quatro meses. Por questões de segurança, o velório de corpo presente de Khamenei precisou ser adiado todo esse tempo e agora, com o precário acordo de paz celebrado com os Estados Unidos, o povo iraniano poderá se despedir do seu líder, em cerimônias fúnebres de corpo presente, que se iniciarão em Teerã e percorrerão as cidades sagradas de Qom (no sul do país), Najaf e Kerbala, centros espirituais no vizinho Iraque. Só em Teerã, é esperado o comparecimento de 20 milhões de pessoas.

Uma delegação de jornalistas brasileiros compareceu à Grande Mosalla na véspera da abertura do velório ao público. E pôde ver em primeira mão as cenas emocionantes que serão franqueadas ao público a partir de hoje: ao entrar na mesquita, músicos em uniformes militares executam hinos, enquanto os visitantes caminham sobre tapetes vermelhos (a cor símbolo do martírio) até a câmara ardente, em que estão dispostos os ataúdes de Khamenei e de quatro familiares mortos no mesmo ataque que o vitimou. São ataúdes simples, pintados com as cores da bandeira iraniana. O de Khamenei pode ser identificado por estar acima dos demais e exibir sobre sua tampa o turbante negro que identifica os descendentes do profeta Muhammad, fundador do islamismo. Mais abaixo, estão os caixões de familiares do ex-líder supremo, especial destaque para um, bem pequeno, que contém o corpo da neta de Khamenei, morta com apenas 1 ano e dois meses, no mesmo ataque que o vitimou.

Retratos de Khamenei em várias fases de sua vida estão espalhados por toda a Teerã e é evidente a comoção popular e a profunda conexão espiritual entre o clero xiita e a população em geral. Em um Centro Cultural, por exemplo, jovens voluntários já pela manhã cantavam hinos de vingança contra os EUA e Israel, enquanto preparavam refeições e sanduíches para serem distribuídos aos peregrinos. Apenas nesse centro Cultural (são vários), a expectativa era que mais de 100 mil pessoas recebessem gratuitamente os alimentos ali preparados. Também se montavam tendas, destinadas a acolher famílias de fora de Teerã.

Hoje é o dia do povo prantear o seu líder, ainda sem saber se o sucessor de Khamenei, Moqtaba Khamenei, escolhido pelo Conselho de Especialistas do clero xiita para suceder ao pai na liderança suprema do país, aparecerá em público. Ele foi ferido no atentado que matou o pai e não é visto desde então.

Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres

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IRÃ: A GUERRA DAS CRIANÇAS

Irã se prepara para receber 20 milhões de peregrinos nas cerimônias de despedida do aiatolá Khamenei, que se iniciam na próxima sexta-feira (3)

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O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.

Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.

A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.

O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.

Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.

Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.

Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé.  Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.

Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres

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O caso Mariana Ferrer, por Honoré de Balzac

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

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O caso Mariana Ferrer por Honoré de Balzac

Por Dirce Waltrick do Amarante*

Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.  

Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.

Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.

Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.

Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.  

*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina

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