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Bolsonaro perde ou ganha com a pandemia?

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Mateus Pereira e Valdei Araujo, professores da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) em Mariana

 

Temos acordado com a sensação de que pouco podemos fazer para reverter possíveis tragédias, já que a onda mais forte da crise se aproxima. Ao que parece, o presidente aposta que o seu futuro político depende mais do controle das narrativas em sua base de apoio do que da realidade da pandemia. Se o cenário for controlado pelas políticas de isolamento, que ele tanto critica, ele vai reafirmar o tema da gripezinha, e se a situação sair de controle haverá a herança maldita petista e os chineses para culpar.

O que parece certo, no entanto, é que a máquina de comunicação atualista montada pelo bolsonarismo estará pronta para explorar qualquer cenário. Em 2016, para exemplificar o quão fiel era sua base de apoio nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump disse que poderia atirar em alguém no meio da rua que, ainda assim, não perderia um voto. Bolsonaro tem exposto seus os apoiadores ao vírus diariamente e, até agora, não parece ter perdido muitos votos.

Para garantir esse nível inédito de fidelidade é preciso manter um fluxo incessante de narrativas que moldem a realidade aos interesses do líder atualista e de sua base. É preciso ainda que o líder e a base sintam-se um só. De certa forma, Bolsonaro não apenas representa sua base de apoio, ele a corporifica, por isso essa necessidade contínua de exibição de apoio mútuo em manifestações públicas. Enquanto escrevemos estas linhas, em 11/4, a imprensa noticia mais uma quebra da quarentena, com o presidente aglomerando apoiadores em visita a obra de hospital de campanha em Goiás.

No artigo da semana passada dissemos que a experiência do tempo atualista se relaciona com a digitalização da realidade e a realidade digital. Assim, essa experiência tem relação direta com a infodemia. A explosão de notícias em fluxo contínuo é um fenômeno que evoluiu com a internet e o capitalismo de vigilância. Nesse processo, percebemos que o valor da verdade é constantemente confundido com o valor de novidade ou atualização da informação recebida.

Essa estrutura atualista impede que o passado, mesmo o mais recente, seja trazido à reflexão. Outro elemento que parece sustentar essa forma de comunicação é o diagnóstico em tempo real dos valores e disposições das bases de apoio. Esse diagnóstico está amparado em novos e velhos canais, desde a sinergia com os líderes evangélicos, militares e grupos empresariais, até o uso legal e ilegal do mapeamento e manipulação de dados digitais.

E não é justamente isso que Bolsonaro tem feito nas últimas semanas? A oscilação em suas afirmações, uma certa revisão da postura negacionista, isto é, nomear a Covid-19 de “gripezinha” certamente tem a ver com a percepção, por parte de sua equipe, da queda de sua popularidade, em especial, entre os mais ricos.

Ainda assim, seus índices de aprovação têm ficado mais ou menos estáveis, variando entre 33% a 40%, considerando as margens de erro. Uma pesquisa Datafolha do dia 8/4 mostrava que 83% das pessoas que votaram em Bolsonaro, no segundo turno, não se arrependeram do voto. Trinta e três por cento achavam ótima ou boa a conduta do presidente na atual crise, e 25% achavam regular, isto é, a maioria. Para 39% a conduta do presidente na crise era ruim ou péssima. Considerando a margem de erro de três pontos é possível que o número de aprovação e reprovação fosse o mesmo, ou seja 36%. Pesquisa do Ideia Big Data, do mesmo dia, indicava percentuais semelhantes.

O que aconteceu, já que a popularidade do presidente estava caindo? Como bem mostra um artigo do site da revista Piaui, assinada por José Roberto de Toledo, Bolsonaro fez duas mudanças táticas: moderou o discurso, mas só para inglês ver, e mudou a agenda ao passar a defender, ainda mais, o remédio milagroso para a cura da Covid-19: a cloroquina.  

No pronunciamento, também no dia 8, ele chegou a elogiar o médico do ex-presidente Lula que afirmou ter utilizado a cloroquina em seu tratamento, acompanhado por outros médicos. No mesmo discurso, ele se solidarizou, pela primeira vez, com a família das vítimas. Além disso, reafirmou que a responsabilidade do isolamento é dos governadores e prefeitos, e voltou a fazer oposição ao seu próprio ministro da Saúde.

Nesse movimento, como em outros, Bolsonaro segue de perto a agenda de Trump, com diferenças acessórias e de ênfase. No Brasil, Bolsonaro briga com Mandetta, nos EUA Trump seguidamente desautoriza e é desautorizado pelo Dr. Anthony S. Fauci, especialista médico da Casa Branca. O Dr. Fauci teve, inclusive, sua segurança pessoal reforçada após receber diversas ameaças de morte por parte de apoiadores de Trump que acreditam que as medidas de quarentena fazem parte de um complô para sabotar o presidente.

Em ambos os casos os presidentes lucram por supostamente terem escolhido um técnico competente à frente da resposta à crise e, ao mesmo tempo, alimentam-se de teorias da conspiração contra esses mesmos técnicos. A insistência de Trump nos poderes de cura da hidroxicloroquina motivou o The New York Times a publicar, no dia 9 de abril, uma matéria especial sobre os mitos envolvendo a droga que começa com a seguinte frase: “Não há provas de que qualquer droga possa curar ou prevenir a infecção do coronavírus”.  Enquanto isso, no Twitter brasileiro, diversas pessoas publicam em seus perfis o mesmo relato de cura de um mesmo primo, que depois se tornaria um meme. Fica a pergunta, quantos apoiadores do presidente estão dispostos a espalhar mentiras para defender suas narrativas?

Nos dias 8 e 9, o Jornal Nacional mostrava que um dos efeitos da ação de Bolsonaro era a diminuição e o relaxamento do isolamento social. Enquanto isso, em três investidas, até o dia 11, o presidente provocava aglomerações em passagens por espaços públicos. E em sua postagem ao vivo no Facebook, no dia 8, faz uma provocação ao afirmar que queixas sobre a quarentena devem ser encaminhadas aos governadores.

O cálculo parece ser o seguinte: caso o número de mortes seja elevado, e ainda que a sua popularidade caia, é provável que ele diga que o isolamento não funcionou. Caso o desdobramento da pandemia não seja tão trágico, ele vai atribuir aos governadores a crise econômica, além da imprensa, por ter causado a “histeria”.

Ou seja, é possível que ele ganhe (ou lucre) em qualquer que seja o cenário, mesmo com e apesar do “isolamento” atual. Ainda assim, paradoxalmente, ele sai dessa crise mais fraco do que entrou. Certamente o vírus, em três meses, causou mais danos em sua imagem e seu governo do que a oposição em um ano. Além disso, desde o dia 10/4 as panelas e vozes contra a atuação do presidente estão mais presentes no espaço público e na mídia. Até mesmo nos muros das grandes cidades, como na marginal Pinheiros, em 10/4, em São Paulo.

Ainda assim, acreditamos que ele ganhará mais se a crise epidêmica for menor.

E o impeachment?

No momento, parece ser uma opção difícil de se concretizar, até porque a base bolsonarista continua mobilizada e disposta a lutar e defender seu presidente. Difícil avaliar a extensão do trauma que uma interrupção precoce de mandato provocaria em uma base tão fiel. E, caso aconteça, esse fato realizaria as fantasias de perseguição e conspiração.

Mesmo na esquerda há quem duvide de que a substituição de Bolsonaro por Mourão representaria  algum avanço. As elites do atraso, ditas ilustradas, que se distanciaram do bolsonarismo, podem voltar a se aproximar, particularmente quando a agenda do ajuste fiscal ressurgir como a panaceia para a crise econômica. Afinal, as direitas mundiais têm sido eficazes em reagrupar, com agilidade, os setores obsoletos e atualizados em seus campos. 

A questão, portanto, é entender o bolsonarismo.

A esse respeito, destacamos o áudio recebido de um amigo, acerca do nosso texto, sobre os 100 primeiros dias da pandemia. De acordo com ele, nós, os autores, estamos ajudando a jogar o país no buraco, pois só criticamos o presidente, coisa que, ainda segundo ele, não acontecia com a “p*ta da Dilma”. As mídias estariam interessadas em derrubar o presidente, em especial a Rede Globo. “Em vez de falar sobre Bolsonaro, ‘vocês’ deveriam alertar as pessoas não sobre as mortes, mas, sim, sobre os doentes que se recuperaram da Covid-19; alertar que quem é jovem deve trabalhar e quem deve ficar em casa é ‘velho’.”

Ele tem medo de que o Brasil vire uma Cuba ou Venezuela. Nosso amigo grita ainda que a oposição deveria respeitar o presidente e deixá-lo governar, que a esquerda e os comunistas devem ser extintos do Brasil: esse parece ser o desejo com maior conteúdo emocional, embora comunista possa ser qualquer coisa neste tipo de discurso, não há um contorno ideológico claro. Repete, quase em transe, diversos temas da propaganda bolsonarista: a crise é apenas um pretexto para derrubar o presidente; a quarentena é uma forma de implantar o comunismo no Brasil, já que ele não pode dispor de seu negócio, não pode ir e vir.

Infelizmente, essa reação não parece ser um caso extremo ou isolado. Então, fica a pergunta: qual é o espaço para diálogo e argumentação com este tipo de reação? Qual percentual da base bolsonarista chegou a esse ponto de radicalização que parece sem volta? Alguma mudança na realidade poderá quebrar esse círculo de fidelidade e identificação emocional? 

Nas redes bolsonaristas os comunistas chineses são os inimigos da vez. Ainda mais com o PT e o Lula sumidos do noticiário. Tudo isso pode ser visto em imagens que circulam nos grupos de Whatsapp.

Articular o bolsonarismo com o atual capitalismo de vigilância pode contribuir para superar certas ilusões. Como a de que a democracia brasileira havia se consolidado e estava sólida. Ilusão que levou a maioria do campo progressista a não ver o ativismo de direita e centro-direita, particularmente após 2013. Desse modo, é preciso entender que o negacionismo bolsonarista não admite seu aspecto irracional ou anticientífico, ao contrário, alimenta as expectativas de que uma “ciência verdadeira” legitima suas narrativas.

Diante disso, podemos nos perguntar até que ponto vivemos uma real guerra de ideologias e até que ponto as estratégias deliberadas de desinformação tornam mesmo impossível falarmos em ideologias. Também não sabemos até onde figuras como Bolsonaro e Olavo de Carvalho apresentam um grande conhecimento intuitivo e um controle “carismático” sobre seus seguidores.

Na atual guerra cultural, talvez o primeiro passo a ser dado por uma parcela significativa da esquerda fosse reconhecer a derrota, isto é, aceitar que o bolsonarismo tem uma base social que o apóia e o defende ativamente, apesar da nossa tendência em não querer aceitar. Isso significa compreender que a atual pandemia, assim como o bolsonarismo, se articulam com um dado de fundo: a tragédia humana produzida pelo capitalismo em seu estágio digital. Muitas pessoas que tiveram e têm as suas vidas destruídas por esse modelo econômico, desigual e cruel, tiveram esperanças de transformação a partir da voz de Bolsonaro. Do nosso ponto de vista, as vítimas desse modelo econômico são alvos fáceis para a desinformação, que deve ser separada da apropriação espontânea das narrativas, e dos discursos de ódio.

Considerando o grave momento que vive a humanidade, gostaríamos de não ter que discutir os ganhos ou perdas das irresponsáveis disputas políticas de Bolsonaro, em um cenário em que o mais relevante é, no final das contas, a luta pela sobrevivência da vida humana, sem distinção de credo étnico, religioso ou político. Isso, já sabendo que as pessoas negras, pardas, indígenas e pobres, tanto no Brasil como em outras partes do mundo, estão sendo e serão as mais atingidas, infelizmente.

Bolsonaro não irá cair de maduro, como muitos esperam. E sua reeleição não é algo inviável, como muitos acreditam. Despidos de qualquer teoria, ou paixão política, podemos dizer que é chocante e revoltante ver a autoridade máxima do nosso país brincando com a morte alheia. Infelizmente, enquanto não formos capazes de voltar a ter algum controle coletivo sobre a produção e circulação de dados e informações, os políticos atualistas continuarão a dobrar a realidade a seu favor. Mas isso já é o tema do próximo artigo.

Até breve! E fiquem em casa!

P.S. Esse artigo foi escrito a duas mãos, algumas vezes em tempo real, na plataforma do Google drive e com o apoio de Mayra Marques.

 

 

 

Geral

A satanização do Irã pela mídia ocidental, um processo em desconstrução

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Eduardo Nunes Campos*

Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa.
Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta.
O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.

Irã Mall Foto: Eduardo Campos

A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico.
Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream.
Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.

Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.

Ritual de fogo “Chaharshanbe Suri” Foto: Eduardo Campos

A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.

O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra.
Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental.
Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões.
A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida.
Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele.
Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa.
Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens.
A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas.
A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos.
O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás.
O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.

(*) Jornalista

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Internacional

IRÃ: A GUERRA DAS CRIANÇAS

Irã se prepara para receber 20 milhões de peregrinos nas cerimônias de despedida do aiatolá Khamenei, que se iniciam na próxima sexta-feira (3)

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O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.

Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.

A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.

O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.

Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.

Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.

Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé.  Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.

Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres

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Geral

O caso Mariana Ferrer, por Honoré de Balzac

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

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O caso Mariana Ferrer por Honoré de Balzac

Por Dirce Waltrick do Amarante*

Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.  

Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.

Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.

Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.

Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.  

*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina

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