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Visibilidade Lésbica: veja em 3 relatos a importância de se fazer visível

Helena Martins, Fabiana Oliveira e Martha Raquel escrevem sobre como é ser lésbica e resistir numa sociedade patriarcal

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Ilustração especial Visibilidade Lésbica / Bacellar

Hoje, 29 de agosto, é comemorado o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica. A data foi escolhida durante a realização do I Seminário Nacional de Lésbicas (SENALE), que ocorreu 1996. Para ilustrar a importância desta visibilidade, veja três relatos de mulheres lésbicas sobre como é resistir, diariamente, numa sociedade patriarcal.

Ilustração especial Visibilidade Lésbica / Vilé

A volta pra casa

Helena Martins

Muitas vezes eu penso, mesmo ciente de que esta pode ser uma perspectiva informada pela auto sabotagem, que a lesbianidade é algo muito recente em minha vida e por isso não tenho condições ou até mesmo o direito de falar sobre ela e sobre como tem sido experienciá-la.

Depois de mais de 30 anos vividos majoritariamente na heterossexualidade, com inclusive um casamento cristão na conta, como posso de repente me entender como lésbica e falar abertamente sobre isso? É frequente que eu me sinta uma impostora. Tem sido fundamental me voltar para outras mulheres lésbicas em busca de apoio e de trocas que possam me ajudar a entender as nuances desse momento de reconhecimento, que se revela tanto maravilhoso quanto desafiador.

Recentemente li uma entrevista de Linda Bellos ao blog Feminist Current em que ela diz, sobre sua saída do armário, que “tornar-se lésbica era como voltar para casa”. Essa fala me tocou de forma muito especial, pois era precisamente o que já vinha percebendo há pouco mais de um ano, durante a terapia. É como se eu estivesse voltando a ser inteira após o abandono de mim mesma que vivi durante todos os anos de heterossexualidade compulsória.

Me dar conta disso também foi um processo interno conflituoso: como poderia ter sido compulsória, se eu consenti a essas relações? Como poderia ter sido compulsória, se eu me dizia feliz ao lado dos homens que seriam meus maridos (e dariam sentido a minha vida)? A resposta pode parecer clara para quem já é familiarizada com teoria feminista, mas os desdobramentos da socialização feminina são tão complexos quanto cruéis.

Compreender a heterossexualidade como regime político imposto para as mulheres e não apenas uma orientação sexual, bem como a lesbianidade como um posicionamento político feminista que vai além da sexualidade entre mulheres, foi fundamental para entender a minha história, analisando-a com respeito e cuidado, e me ajuda a legitimar quem sou hoje. E eu sou uma mulher lésbica!

Minha vida, assim como a de todas as mulheres, foi marcada por violências masculinas. Sofri abuso sexual no fim da pré-adolescência, praticado por um namoradinho da época, e me calei por falta de educação sexual, rede de apoio e por internalizar que aquele era um comportamento natural dos homens – só entendi que havia sido estuprada 10 anos depois, numa sessão de terapia, e isso impacta em minha vida até hoje.

Me envolvi com algumas meninas na adolescência, sem entender direito o que isso significava, mas sempre voltava minha dedicação não a elas e nem a mim mesma, mas aos homens. Namorei um rapaz da escola por cerca de três anos, depois engatei outro namoro que foi extremamente abusivo por mais sete, entre idas e vindas.

Entendi na terapia que tolerei a violência psicológica, social, sexual e até mesmo uma tentativa de agressão física por desejar a qualquer custo construir a família que julgava não ter tido, pois meu pai morreu quando eu ainda era bem pequena, e meu sonho era me casar com “um bom homem” e ter três filhos até os 28 anos, que não por acaso é a idade em que minha mãe teve sua última filha, eu.

Nessa época, conheci o feminismo pela mídia e comecei a me inteirar mais sobre política e as questões do mundo, já que entendia que minha função de vida não era mais protagonizar uma comédia romântica hollywoodiana. Comecei a namorar outro homem e foi tudo arrebatador, aceitei um pedido de casamento após cinco meses de relacionamento, o que hoje enxergo como um ímpeto de insanidade romantizada, e no ano seguinte estava finalmente casada com “um bom homem progressista” – e presa no conto de fadas heteronormativo, que acabou sendo ainda mais violento do que o relacionamento anterior. Depois de quatro anos veio o divórcio e me percebi vazia de tudo, sem saber quem eu era por nunca ter olhado pra mim, apenas para os homens e o papel que eu deveria desempenhar ao servi-los.

Falo sempre da terapia, pois ela foi uma ferramenta fundamental em todo esse processo. Terapia, o feminismo radical e o continuum lésbico, que eu nem sabia que existia enquanto conceito, mas que de alguma maneira inicial já estava presente na minha vida desde os últimos meses do meu casamento, que foram de extrema solidão doméstica, e foi essencial para que eu tomasse posse de mim pela primeira vez. Mulheres me acolheram, ergueram, apoiaram, encorajaram, instigaram, inspiraram. Tudo começou a mudar, pois eu não me dedicava mais aos homens e eles não sugavam mais de mim.

Eu descobri coisas sobre mim que nunca tinha me dado conta, descobri também sobre as mulheres ao meu redor. Passei a verdadeiramente apreciar sua companhia e tudo o que trocávamos e notei também que não faltava mais nada, que essas relações eram completas. Perceber essa genuína admiração por mulheres me levou de volta pra casa, como Linda menciona, e a descobrir todas as maravilhosas possibilidades de afeto entre nós, nesse processo que me havia sido impedido pela heterossexualidade quando ainda era muito jovem. Nada disso se dá por trauma de homens, como me acusaram em um ataque meses atrás. Não é sobre homens de forma alguma, na verdade, mas sim sobre amar mulheres e também sobre a potência revolucionária que há nas relações entre nós.

Ainda há um caminho longo pela frente, a começar pelo enfrentamento da minha família, que é muito conservadora, mas sigo me preparando para trilhá-lo quando estiver pronta para as dificuldades que possivelmente virão. Namoro uma mulher que me olha com interesse genuíno sobre mim e minhas minúcias, não pela lente de expectativas do que espera que eu seja, e isso tem me inspirado a exercitar o vislumbre de novas possibilidades para mim mesma, em diversos campos da vida. Esse é o primeiro relacionamento verdadeiramente saudável que tenho. Minhas relações de amizade foram apuradas, muitas vezes de forma dolorida pela lesbofobia de algumas delas, e minha visão de mundo mudou completamente, o que considero uma consequência natural da escolha de focar a vida em mulheres, em plena sociedade patriarcal.

Escrevo tudo isso para organizar meus pensamentos e reconhecer o que percorri até agora, mas também por imaginar que talvez existam outras mulheres de trinta e tantos anos (ou mais!) se questionando e buscando um relato similar. Eu não “nasci assim”, eu não sabia desde pequena que era lésbica, mas entendi que nunca é tarde para olhar pra si e se permitir viver num modelo diferente do que os homens planejam para nós.

Entender que toda mulher é uma lésbica em potencial não é mera propaganda, mas um convite para uma análise criteriosa de si mesma e de sua vida afetivo-sexual, que inevitavelmente é moldada pelo patriarcado. Não romantizo a jornada, pois sei que não é fácil, mas pela primeira vez me sinto verdadeiramente viva e empolgada pelo que virá.

Ilustração especial Visibilidade Lésbica

Somos muitas e estamos por todas as partes

Fabiana Oliveira

1.      Ocasiono o desaparecimento de alguma coisa sem que ninguém dê falta ou perceba.

2. Afano algo de modo sorrateiro; furto.

3. Dissimulo (alguma coisa) através de desculpas ou subterfúgios, escondo.

4. Saio sem que ninguém perceba; escapo sorrateiramente.

Uma busca rápida em um site popular de pesquisa apresenta essas significações para a palavra escamoteio. Muita gente nunca ouviu falar dela, não sabe o que significa. Tendo a acreditar, entretanto, que toda mulher lésbica sabe o que escamoteio quer dizer. Talvez a palavra seja desconhecida, mas seus significados ressoam em múltiplas experiências de uma mulher que ousou amar a outra.

Não por menos, falar de lesbianidade sempre demanda muito esforço. Talvez porque o apagamento seja tão grande que é preciso, antes de tudo, romper com os próprios silêncios para escrever sobre o tema. Talvez porque, muitas vezes, ele soe tão desimportante para a maior parte das pessoas, que se torna exaustivo afirmar – com o corpo, as palavras, a política, a raiva e o afeto – que esse é um assunto da maior importância.

Indizível. É assim que Adrienne Rich – poeta, escritora, professora, feminista e lésbica – descreve aquilo que não é nomeado, é censurado, se “disfarça com um nome falso” e é enterrado na memória. Não se trata apenas de um não-dito. Transforma-se em um indizível. Toda lésbica já foi a “amiga” próxima, muito próxima, sempre presente, quase família e depois sumiu. Já foi uma “colega de trabalho” ou qualquer classificação que falseie a verdade. A verdade é que, todos os dias, por todos os cantos, mulheres se deitam juntas e acordam para construir outros modos de se relacionarem e de se tornarem visíveis.

Ou invisíveis. Dias desses, uma amiga me narrou a desconfiança de que duas mulheres que moravam juntas e diziam serem irmãs, seriam, na verdade, namoradas. Se a afirmação fosse de que eram amigas, poderia haver mais risco de desconfiança. Optaram por mentir que eram irmãs. Se fazer invisível é violento e constrói muito profundamente a subjetividade de mulheres lésbicas. Para manter algumas das relações mais importantes que uma pessoa comumente tem, é preciso sublimar uma parte central de nossas vidas. Já estive casada com uma mulher sem que ninguém da minha família soubesse. E sou só mais uma.

Nesse mês da Visibilidade Lésbica e, mais precisamente, no Dia da Visibilidade Lésbica (29 de agosto), os modos de apagar nossas existências se refinam e são reinventados, mas não são exatamente novos. Um deles é nos nomear como LGBT, simplesmente, estabelecendo simetria entre os preconceitos e discriminações sofridos por mulheres e homens. A socióloga, lésbica e feminista, Jules Falquet afirma que simetrizar as experiências de mulheres e homens homossexuais é ignorar o peso das normas patriarcais. Embora haja, de fato, pontos em comum nas duas experiências, desconsiderar o duplo estigma vivenciado por lésbicas é contraproducente, injusto e reducionista.

Outra forma “sutil” de nos reduzir é nos taxar como sujeitas da diversidade. Cito novamente Adrienne Rich, que afirma que a suposição de que a maior parte das mulheres é naturalmente heterossexual é um problema teórico /político até mesmo para a teoria /movimento feminista. Esta naturalização aconteceria em parte pelo apagamento da existência lésbica e em parte por ser tratada como algo excepcional, diverso, mais do que intrínseca da experiência das mulheres, já que esta classificação pressupõe que haja uma norma.

Convido todas as mulheres a se perguntarem por qual razão, supostamente, a maioria das mulheres que conhecem seja heterossexual. Se a história da nossa sociedade, tal qual conhecemos hoje, é uma história de desigualdade, não haveria uma razão calcada em valores que sustentam tais desigualdades para que fosse assim? A sexualidade hegemônica não contribuiria para essa sustentação? Se a resposta for sim ou talvez, está feito o convite para refletir sobre a naturalização desta “preferência”.

Ao se debruçar sobre as medidas que asseguram o direito dos homens de acessar o corpo, o trabalho e a subjetividade das mulheres, Adrienne Rich conclui que um dos meios que reforçam esta licença é deixar invisível outra possibilidade, a das experiências amorosas entre mulheres. As práticas de reciprocidade entre mulheres somente são toleradas, de maneira geral, quando tratadas como concernentes à vida privada e separadas de práticas sociais. No entanto, é justamente a partir da conexão consciente entre práticas sexuais, amorosas e materiais entre mulheres que se produzem verdadeiras revoluções no pensamento e nas práticas, de acordo com Jules Falquet.

Encerro esse breve amontoado de palavras que são um convite, um desabafo e uma afirmação de que existimos onde querem nos soterrar, com um poema de Cheryl Clarke, feminista, negra e lésbica que fez tudo isso antes e muito melhor do que eu. Somos muitas e estamos por todas as partes.

Tribadismo* é uma panacéia ancestral

Intimidade não é luxo aqui.
Não mais telefones pendurados
ou linhas sempre ocupadas
ou conversas ainda censuradas.

Não mais mirar nossas mãos
temendo dá-las
ou se dadas
temendo soltar.

Nós estamos aqui.
Após anos de separação,
mulheres tomam seu tempo
dispensam velhas animosidades.

Tribadismo é uma panaceia ancestral e vale o risco
uma panaceia ancestral e vale o risco.

*Tribadismo = esfregar buceta com buceta.

Ilustração especial Visibilidade Lésbica

Eu não quero mais forjar nada 

Martha Raquel 

A dificuldade para escrever sobre um tema vivenciei durante toda a vida diz muito sobre  as podas que sofremos enquanto mulheres lésbicas. Falar sobre lesbianidade me faz revisitar momentos, sentimentos e angústias que por anos evitei. Não é simples relembrar de todas as vezes que me forcei ficar com homens que não me despertavam nenhum interesse, das vezes que tive que fingir gostar de alguém ou inventei algum nome para que saíssem do meu pé ou não me classificassem como sapatão. 

Não que tivesse algum problema ser vista como sapatão, mas por um tempo lutei muito para forjar a imagem da hetero legal, que vive rodeada de amigos gays e amigas lésbicas, que não tem preconceito. Me apelidaram de “rainha das bichas”. Não era sobre medo da aceitação, porque sempre tive um ambiente familiar muito acolhedor neste aspecto, era sobre uma tentativa de acreditar que as pessoas poderiam ser boas, legais, compreensivas. Eu me forjava nesse papel de pessoa hetero compreensível mesmo tendo consciência de que eu não gostava de homens. 

Numa conversa recente sobre a esperança de um mundo menos violento, um amigo que vivenciou boa parte da minha adolescência ao meu lado comentou sobre como tentei me transformar na mudança que eu queria ver no mundo. Claro que de uma forma negativa, reprimindo meus sentimentos, quereres, vontades. Uma perspectiva bem diferente da que estamos acostumados a relacionar esse ímpeto de transformar o mundo a partir de nós mesmos. 

Essas angústias, que eu pensava terem ficado para trás, vira e mexe me visitam através de inseguranças, receios, auto-sabotagem. É como se a todo momento eu precisasse me convencer que, sim, sou uma mulher lésbica. Sim, eu destino meu carinho, admiração, respeito, amor, desejo às mulheres. E não há nada errado nisso. Não é porque um dia eu senti que precisava fingir ser alguém que eu tinha plena consciência que não era que isso invalida o que eu sou. 

O mundo é um lugar inóspito para as lésbicas. Mas com o tempo a gente vai se encontrando, se reconhecendo, se fortalecendo. Priorizar mulheres, em todas as esferas da vida, numa sociedade que grita que você deve tudo aos homens é ter que fazer uma revolução diária. É ir contra tudo e todos, é desafiar a lógica patriarcal e impor que mulheres lésbicas também existem e não vão mais se forjar nesse lugar que não as representa. 

Eu não quero mais forjar nada. Eu quero viver sem medo, angústia, insegurança. Eu não quero mais viver frustrada. Eu mereço ser feliz. Eu mereço estar num relacionamento com alguém que me respeita, me admira, se importa comigo. Mereço ser amada. Sou digna de andar de mãos dadas, de levar minha namorada para almoçar na casa da minha mãe num domingo, de viver esse amor tão revolucionário. 

Não aceito mais migalhas. Não vou viver na sombra, não vou me adaptar, não vou me esconder. Ser lésbica é ser quem eu sou e isso não é motivo de vergonha. Ainda que às vezes eu me sinta como alguém que precisa sair do armário todos os dias, farei isso com orgulho, pois sei que não estou fazendo só por mim. Que o mundo seja um lugar mais acolhedor para as próximas lésbicas que o habitarão. 

Ilustração especial Visibilidade Lésbica

Veja também: Dia da Visibilidade Lésbica e a luta por dignidade no ambiente de trabalho

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Geral

A satanização do Irã pela mídia ocidental, um processo em desconstrução

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Eduardo Nunes Campos*

Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa.
Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta.
O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.

Irã Mall Foto: Eduardo Campos

A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico.
Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream.
Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.

Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.

Ritual de fogo “Chaharshanbe Suri” Foto: Eduardo Campos

A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.

O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra.
Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental.
Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões.
A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida.
Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele.
Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa.
Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens.
A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas.
A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos.
O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás.
O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.

(*) Jornalista

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Internacional

IRÃ: A GUERRA DAS CRIANÇAS

Irã se prepara para receber 20 milhões de peregrinos nas cerimônias de despedida do aiatolá Khamenei, que se iniciam na próxima sexta-feira (3)

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O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.

Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.

A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.

O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.

Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.

Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.

Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé.  Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.

Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres

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Geral

O caso Mariana Ferrer, por Honoré de Balzac

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

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O caso Mariana Ferrer por Honoré de Balzac

Por Dirce Waltrick do Amarante*

Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.  

Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.

Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.

Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.

Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.  

*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina

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