Cadê o T da parada LGBT?

por Leo Moreira Sá, especial para os Jornalistas Livres

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Fotos Ennio Brauns

Lésbicas, bissexuais, transexuais e travestis ficam sem espaço na maior parada LGBT do mundo, programada e dirigida ao público gay masculino.

A maior parada LGBT do mundo há tempos vem sofrendo de uma aparentemente insolúvel crise de identidade, com a fragmentação de suas bases e a evasão das letrinhas L, B e T, que, não se sentindo representadas, realizam suas próprias marchas em contraponto ao megaevento popularmente chamado de Parada Gay. A sabedoria popular acerta em cheio no título de um evento que se pretende inclusivo, mas que na prática é pensado, programado e dirigido exclusivamente ao público gay.

Lésbicas e bissexuais há 11 anos já realizam suas próprias marchas, sem muitos patrocínios, o que faz com que a ausência de trios e cenários mirabolantes coloque todo mundo no chão da rua, no mesmo nível e na mesma sintonia. Neste ano, as mulheres feministas da marcha convidaram oficialmente travestis e mulheres transexuais lésbicas não só para a caminhada como também para a construção do evento. A voz das mulheres ecoou firme no espaço publico das ruas onde os direitos civis devem ser conquistados.

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Manifestantes trans na Parada LGBT de 2003

A APOLGBT (Associação da Parada do Orgulho LGBT) funciona o ano inteiro enquanto entidade e só faz um evento anual, com debates, premiações e apresentações culturais alguns dias antes da manifestação de rua. Se isolou do processo político de suas bases, principalmente com relação à evolução do movimento organizado de travestis e transexuais. “É bem capaz de eles nem saberem que existe um movimento organizado de homens trans”, diz a antropóloga Regina Faccini que esteve à frente da APOLGBT junto com Alexandre Peixe, homem trans conhecido como Xandi. Segundo Regina, “a primeira (e única) parada que pautou a visibilidade de travestis e transexuais foi a de 2003, a Parada do 1 milhão de participantes, que paradoxalmente se chamou ‘Construindo políticas homossexuais ’”.

Regina prossegue: “Naquele momento, as pessoas à frente da entidade pareciam querer contribuir e respeitar as travestis e transexuais que ali militavam, mas não havia ainda acúmulo de reflexão que indicasse que ‘políticas homossexuais’ talvez não contemplassem as pessoas agrupadas sob o T. Na verdade, é como se as coisas tivessem mudado rápido demais e estivessem mudando numa velocidade gigantesca nos últimos anos, especialmente no que diz respeito às pessoas travestis e transexuais nos. Estou falando de algo que aconteceu há 12 anos”.

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De fato, homossexualidade diz respeito à orientação sexual, expressa nas letras L (lésbicas), G (gays) e B (bissexuais). É diferente de identidade de gênero, que diz respeito às demandas pertinentes aos segmentos de travestis, mulheres transexuais e homens trans. Essa disparidade de demandas sempre se refletiu no esvaziamento da representatividade da parada com relação à comunidade T, que no final do ano passado realizou, no dia 16 de dezembro, a I Marcha pela Cidadania T, por ocasião da abertura do IX Encontro Regional Sudeste de Travestis e Transexuais.

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O próprio tema escolhido pela organização como bandeira de luta, “Eu nasci assim, eu cresci assim, vou ser sempre assim, respeitem-me!”, embora tente trazer uma resposta à chamada “cura gay” e reforçar que a homossexualidade não é “opção sexual”, remete a uma explicação genética que é questionável e não representa a comunidade T.

LGBT-06“A gente não nasce de forma alguma (com personalidade definida), a gente simplesmente nasce”, declara Luciano Palhano, do Ibrat (Instituto Brasileiro de Transmasculinidade), “e vai ao longo do tempo se socializando, se adaptando ou não às normas de gênero hegemônicas na sociedade. Pessoas Ts, ao se descobrirem inadaptados ao seu corpo e ao gênero designado quando nasceram, vão ao longo da vida reconstruindo sua identidade corpórea e de gênero. Simone de Beauvoir crava uma verdade inabalável: não se nasce mulher (ou homem), torna-se”.

E lá vai a carreata com seus corpos coloridos e sexualizados: drags, transexuais e travestis são [email protected] corpos-objetos de enfeite, chamarizes exóticos para uma manifestação que perdeu representatividade e legitimidade perante sua própria comunidade. Sem fazer qualquer juízo de valor à caracteristica carnavalesca da Parada do Orgulho lGbt, porque celebrar e assumir publicamente o desejo é um ato político, e não podemos esquecer que não é só de pão e circo que vive uma pessoa LGBT.

A cantora transexual Renata Peron, alguns dias antes da parada, soltou uma nota pública denunciando a organização por recusar o seu tradicional número de cantar o Hino Nacional no início do evento. Liberaram depois que a nota pública repercutiu nas redes sociais.

Neste ano, o Fórum de Travestis e Transexuais conseguiu com muito custo um carro — que funcionou, pois no ano passado o que foi disponibilizado teve problemas mecânicos e não saíu do lugar. Também em 2014, pela primeira vez, foi incluído no tema da Parada a palavra transfobia: “País vencedor é país sem homo-lesbo-transfobia”. Aconteceu depois que a transfeminista Daniela Andrade, criou uma peticão on-line que obteve 6.500 assinaturas pedindo que o tema incluísse demandas da comunidade T.

Kaká di Poly

Kaká di Poly

Assim que cheguei na paulista, a primeira pessoa que vi foi a Drag Kaká di Polly, figura emblemática que esteve presente em todas as paradas desde 1997. Ela contou como fez para que a 1° Parada do Orgulho LGBT de São Paulo acontecesse: “Eu deitei no chão pra parar o trânsito, porque a polícia nao queria liberar, justificando que tinha muita gente… Naquele tempo, sendo a primeira, era mesmo muita gente, umas mil pessoas”.

Neste ano, ela reclama: “Virou um grande negócio, né? Olha eu aqui, com o pé quebrado… Mas não reclamo de estar no chão. Quem pode pagar 1.500 reais por uma camiseta que dá acesso aos trios? A cidadania não está lá, está aqui, dançando na rua”.

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Resolvo seguir o conselho de Kaká e permanecer no chão, embora o crachá de imprensa dê acesso a todos os carros. Vamos nos misturando à multidão, eu e o meu velho parceiro Ennio Brauns, espremidos nas calçadas pelos cordões de segurança, que preservavam um espaço interno grande e vazio ao redor dos carros, diminuindo excessivamente os espaços laterais por onde passavam os pedestres. Há uma multidão diversa de pessoas de todas as etnias, estilos, faixas etárias, mas predominantemente de periferia, que ocupavam o coração financeiro de São Paulo naquela manhã de sol de inverno, comemorando (ou não) o dia do Orgulho LGBT.

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Chegamos enfim ao carro 6, do Fórum Municipal de Travestis e Transexuais, e fiquei emocionado ao ver que uma foto minha ajudava compor uma linda e necessária homenagem à travesti Verônica Bolina, trazendo para a avenida a urgência do tema da transfobia de que foi vítima nossa companheira, torturada e espancada dentro das dependências de uma delegacia pelos próprios agentes que deveriam, por lei, preservar a integridade física dela.

LGBT-10A propósito, a tradicional entrevista coletiva de imprensa, que acontece horas antes da Parada e reúne entre outras autoridades o governador, o prefeito e representantes da APOLGBT, foi marcada por um ato político. O repórter Victor Amatuci, do blog Imprença e dos Jornalistas Livres, exibiu o áudio de um depoimento no qual Verônica Bolina afirmava que não havia sido torturada e entregou um dossiê sobre o caso, exigindo do governador Geraldo Alckmin (PSDB) providências imediatas na apuração dos culpados.

Subimos no carro das mulheres transexuais e travestis, que pela primeira vez podem exibir seus corpos e cidadania reconstruídos. De lá, vi uma pequena ilha de homens trans, perdidos num mar de gente… São eles, meus pares políticos. A última fronteira de resistência. Existimos.

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Exibimos também nossos corpos transformados: tórax formatados, enfaixados, envelopados… Cicatrizes ostentadas com orgulho. Pequenos peitos redondos enfeitam o tórax de Heitor Marconato, provando que não é necessário submeter o corpo a nenhuma cirurgia para ser quem se é. Cada ser transexual adapta seu corpo conforme sua necessidade. Somos dissidentes e não vamos ceder às normas.

Luciano Palhano, o coordenador do Ibrat, exibe seu corpo negro e generoso. Xandi, que um dia foi o presidente da APOLGBT, continua firme na sua militância e marcha orgulhoso. [email protected] [email protected] carregam faixas e cartazes numa microparada de orgulho T.

Desço imediatamente e vou ao encontro [email protected] [email protected] guerreiros do asfalto. Encontro surpreso um garoto que há alguns dias não queria assumir sua transexualidade, mas que desta vez exibe com orgulho seu peito enfaixado, carregando nas costas o filho, ao lado da esposa sorridente. Vamos juntos arrancar das mãos do Estado patriarcal nosso direito a existir. Somos poucos e frágeis, mas juntos somos fortes. Encontrei enfim o minúsculo t dessa sopa de letrinhas.

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