“Torre das Donzelas”: a história, a memória e o cinema

Das duras linhas da Ditadura Militar, o Presídio Tiradentes e a história das presas políticas protagonizam documentário

Pórtico de entrada do antigo Presidido Tiradentes. Foto: Karina Morais

Por Karina Morais, para o Jornalistas Livres                                                                                             

“Torre das Donzelas” é o nome que ficou conhecido o Presídio Tiradentes, em São Paulo, durante a Ditadura Militar no Brasil. O nome decorre em função de um de seus pavilhões, destinado à presas políticas, como a ex-presidenta Dilma Rousseff, que lá permaneceu por mais de três anos.

Na perspectiva de mantê-lo isolado, o local foi construído fora dos limites da cidade e conta com um longo histórico de repressões: foi criado ainda no período colonial, em 1852, enquanto Casa de Correção, para onde eram levados os negros escravizados pegos em fuga. Na jovem República, durante a ditadura Vargas, passou a receber presos políticos, função que se repetiu entre o final da década de 1960 até o início da década de 1970, com a Ditadura Militar.

O espaço foi desativado em 1972 por conta das obras no metrô, para a abertura da estação Tiradentes. De sua edificação, quase nada sobrou. No local, mantém-se apenas um arco de entrada, enquanto remanescente de suas estruturas, sendo patrimônio histórico tombado pelo CONDEPHAAT – Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo. O local entrou também para o “Guia dos Lugares Difíceis de São Paulo”, publicação organizada pelo Prof. Dr. Renato Cymbalista e lançado no último mês, na Casa do Povo, em São Paulo, na perspectiva de elucidar os espaços de conflito na cidade. Ainda que apenas um pórtico tenha sido mantido, sua preservação é importante pois registra na cidade a memória da dor e da opressão, sumariamente invisibilizadas nas linhas da história.

Neste ano, em um contexto em que saudosistas dos anos de chumbo falam abertamente sobre fechar o Congresso, instaurar um novo AI-5 e comemorar o início do período ditatorial, a “Torre das Donzelas” se tornou nome de um dos mais importantes longa-metragens produzido desde o Golpe de 2016. Dirigido por Susanna Lira e estreado no último 19 de setembro, o documentário conta com diversos relatos de mulheres que foram confinadas ao Presídio Tiradentes, enquanto presas políticas, durante a Ditadura Militar. Relatos exclusivos de Dilma Rousseff e de suas companheiras da prisão são tratados no documentário, abordando temas como o cotidiano no cárcere, os métodos de tortura e as redes de solidariedade, compondo um rico e minucioso registro de história oral.

Se você é de São Paulo, ainda não conferiu ou quer prestigiar esse importante trabalho mais uma vez, a oportunidade é essa! O Sindicato dos Advogados de São Paulo (SASP) promoverá, na próxima quinta-feira (05/12), às 18h30, uma exibição gratuita do longa contando com a presença de algumas das “donzelas”, que debaterão o tema com os convidados. O evento integra a programação do CineSASP e o sindicato está localizado na Rua Abolição, 167 – centro. Anote aí na agenda!

Nós, Jornalistas Livres, temos clareza que a história não é linear, mas de avanços e retrocessos e de que a disputa pela memória é, sobretudo, uma ferramenta política.

#DitaduraNuncaMais

Arte sobre a exibição do documentário, “Torre das Donzelas”

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