1964: comemorar jamais

"Quem zomba dos nosso mortos mal sabe que eles não tombam nem cabem nos funerais” (Pedro Laurentino)

Registro de desfile comemorativo nos anos 70 em Campina Grande, Paraíba

Por Juliana Cardoso

Uma dúvida tomou conta do País às vésperas de 31 de março. Os quarteis iriam acatar a decisão judicial que proibiu comemorações na data do golpe que implantou a ditadura civil-militar?

Encaminhada há pouco mais de semana pelo governo Bolsonaro ao Ministro da Defesa, a ordem presidencial para celebrar a “data histórica” provocou reações imediatas no Judiciário. O Ministério Público Federal recomendou às Forças Armadas se abster de promover qualquer ato alusivo aos 55 anos do golpe que destituiu o presidente João Goulart.

Nas ruas de várias cidades do Brasil, atos de resistência contra a ditadura foram agendados. As manifestações tinham como foco rememorar os 21 anos do regime de exceção, além de prestar homenagens póstumas aos mortos e desaparecidos.

Para além das forças reacionárias que tentam reescrever a história, negando a existência da ditadura, a questão central no momento é: há motivos para comemoração de um período marcado por 475 mortes e desaparecidos reconhecidos oficialmente, além de mais de mil indígenas exterminados? Período em que centenas de brasileiros foram obrigados a se exilar para escapara das torturas e de mortes?

Existem razões para aplaudir uma página da nossa história onde foram suprimidos os direitos de reunião? Onde a liberdade de expressão era controlada? Onde vigorava a censura a imprensa? Onde as manifestações artísticas tinham de ser submetidas ao crivo de censores? Onde as violações aos direitos humanos virou regra? Onde o povo não podia eleger presidente, governador e prefeitos nas capitais?

Como se não bastasse há hoje, sobretudo disseminadas nas redes sociais as fake news que enaltecem os governos militares associando-os ao sucesso no campo econômico. Mas não custa recordar alguns números.

Em 1964 o salário mínimo era de R$ 1.232 e em 1983 o seu poder de compra foi reduzido para R$ 563. O Brasil da ditadura viveu crises de estagnação econômica como o da hiperinflação que em 1979 chegou a 77%. E em 1984 atingiu 223%.

Há ainda aqueles hoje que repetem mantras de ter sido período sem corrupção. Mesmo sob censura, a imprensa conseguiu registrar grandiosas obras sob suspeita e superfaturadas como Ponte Rio/Niteróí, Hidrelétrica Itaipu, Transamazônica e Paulipetro.

Se pelo passado não temos o que comemorar, no presente não é muito diferente. Desde a deposição da presidente Dilma Rousseff em 2016, o Brasil está mergulhado num estado de exceção, onde garantias constitucionais estão sendo atropeladas. E direitos sociais conquistados ao longo de décadas de lutas estão sendo abolidos na esfera trabalhista e previdenciária. E riquezas nacionais como o pré-sal entregues à exploração de empresas estrangeiras.

Não temos mesmo o quê comemorar com o que se passa nos dias atuais. O desemprego bate recorde e já afeta 13 milhões de brasileiros

E o arbítrio, apesar das aparências do estado democrático, está muito presente. Temos de exigir nas ruas a liberdade do ex-presidente Lula, preso sem provas e por sentença como “atos indeterminados”. Temos que saber quem são os mandantes do assassinato da vereadora Marielle Franco.

Não há como negar a história. O PT tem em seu DNA a luta pela redemocratização do Brasil. A partir dos trabalhadores do ABC, das Comunidades Eclesiasticas de Base (CEBs) e dos intelectuais e artistas foi construído um importante instrumento de luta do povo brasileiro.

Por tudo isso, esquecer as atrocidades da ditadura jamais. Comemorar jamais. Rememorar para não voltar a acontecer sim. Ditadura Nunca Mais.

Vereadora Juliana Cardoso (PT), membro da Comissão de Saúde de Direitos Humanos da Câmara Municipal de São Paulo

Categorias
DestaquesDireitos HumanosDitadura
Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta