Tiradentes, o bode expiatório

Autor de biografia de Joaquim José da Silva Xavier, Lucas Figueiredo fala sobre seu personagem

Depois de cinco anos de trabalho, com pesquisas em arquivos do Brasil, de Portugal, França e dos Estados Unidos, finalmente o livro ficou pronto. O Tiradentes – Uma biografia de Joaquim José da Silva Xavier será lançado nesta segunda-feira, 30/7, pela Companhia das Letras. Seu autor, o jornalista mineiro Lucas Figueiredo, conversou com Jornalistas Livres e conta aqui um pouco de sua obra em torno deste interessante personagem na Inconfidência Mineira.

Quais foram as surpresas com as quais que você deparou ao vasculhar a história do Tiradentes? O que mais o impressionou?

Tiradentes sempre foi tratado de maneira institucional. O que importava na história era seu papel na Conjuração Mineira. Na pesquisa, o que mais me surpreendeu foi conhecer a história do homem, que é bem diferente do mito. Uma história que nunca tinha sido contada, por incrível que pareça. Tiradentes era um homem com frustrações, sonhos, devaneios, equívocos e grandes qualidades. Tinha grandes ambições pessoais, queria muito vencer na vida, e deu muito duro para isso. Foi mascate, fazendeiro, minerador, militar, dentista e médico prático. Um homem intenso.

 

Como surgiu a ideia da biografia? Quanto tempo demorou sua pesquisa e quais os principais lugares percorreu?

A ideia surgiu quando eu fazia meu livro Boa Ventura!, sobre a corrida do ouro no Brasil no século XVIII. Percebi que um capítulo seria pouco para contar a história da Conjuração  Mineira e principalmente de Tiradentes, então revolvi fazer a biografia. Passei cinco anos pesquisando em arquivos do Brasil e do exterior, Portugal, França e Estados Unidos. E tabulei todo o processo judicial da Conjuração, os 12 volumes dos Autos de Devassa. É um documento incrível, com mais de 300 depoimentos.

 

Como Tiradentes tornou-se o líder e o centro da conjuração mineira? Ele realmente era tido como um líder?

Sem dúvida, Tiradentes foi um dos líderes da Conjuração Mineira. Não era do grupo da formulação política, mas da ação, sobretudo da propaganda e do recrutamento. Tinha um grande carisma, e por isso exerceu um papel importante, trazendo muitos elementos para as trincheiras rebeldes, sobretudo no meio militar. Também tinha uma enorme capacidade de trabalho e era extremamente dedicado, o que o destacava dos demais. Era também um dos mais destemidos, e sabia que seu pescoço estava em risco por causa de sua militância aberta.

 

Pelo o que você pesquisou, ficou confirmada a ligação dele com a maçonaria? 

Em relação a Tiradentes, não há nenhuma prova documental a esse respeito. Sabe-se, porém, que muitos conjurados eram ligados à maçonaria, e foi através dos laços da maçonaria que chegaram até Thomas Jefferson, que na época era embaixador dos Estados Unidos em Paris.

Como foi a relação amorosa de Tiradentes com Perpétua Mineira e com o Rio de Janeiro, onde teria chegado até a propor a canalização dos rios Andaraí e Maracanã?

Tiradentes era boêmio, gostava de frequentar prostíbulos. O único amor documentado de sua vida foi Antônia Maria do Espírito Santo. Quando se conheceram, em Vila Rica, ele tinha 40 anos e ela, 15. Ele levou-a para viver com ele e juntos tiveram uma filha, Joaquina. Como a relação se tornou um escândalo na época, Joaquim acabou prometendo casamento a Antônia, mas logo depois viajou ao Rio de Janeiro para organizar a conjuração por lá. Joaquim queria se tornar homem de negócios. Quanto já tramava a revolução, que prometia ser sangrenta, ele fez vários requerimentos à Coroa solicitando autorização para abrir três frentes de negócio: Canalizar águas dos córregos Laranjeiras e Catete e do rio Andaraí (também conhecido como Maracanã) para vender água potável no chafariz da Carioca, no centro da cidade, e para mover moinhos; construir armazéns no porto Valongo, área de comércio atacadista; transportar passageiros e cargas na baía da Guanabara por meio de barcas. Os projetos de Tiradentes bateram de frente com setores da elite carioca, e encontraram grande oposição.  

 

Tiradentes foi condenado à morte por ser o único inconfidente de classe social mais baixa?

A Coroa e os governadores de Minas e do Rio não quiseram fazer grande estardalhaço em torno da conjuração, pois temiam parecer frágeis perante os colonos e as nações estrangeiras. Mas precisavam de um exemplo a futuros candidatos a rebelde. Então, escolheram aquele que não tinha relevância política, que não era rico e que não vinha de família importante. Tiradentes foi um bode expiatório.

O que você pôde detectar como equívocos na historiografia sobre nosso herói republicano? Ocorreram?

Ao sabor das conveniências, Tiradentes teve sua história manipulada e apropriada por movimentos das mais variadas tendências. Começou servindo ao movimento republicano no século XIX, que criou a fantasia um Tiradentes barbado, à semelhança de Jesus Cristo. Depois, foi apropriado por ‘n’ setores. Basta dizer que Tiradentes é o patrono da Polícia Militar de Minas Gerais e, durante a ditadura civil-militar, teve seu nome incorporado pelo MRT (Movimento Revolucionário Tiradentes), que pregava a luta armada.

 

Por que você fixou residência na Suíça? Pretende permanecer mais tempo neste país?

Eu pretendia morar em Paris, mas o destino acabou me trazendo para a Suíça. Morei no campo, tendo vacas e vinhedos como vizinhos, e agora moro próximo a um lago, numa cidade de 5 mil habitantes. Por ora, vou ficando. Mas sempre ligado no que acontece no Brasil.

Sobre o autor

Foto Pablo SaboridoO jornalista e escritor Lucas Figueiredo nasceu em Belo Horizonte em 1968. Recebeu três Prêmio Esso, dois Vladimir Herzog e os prêmios Jabuti, Folha, Direitos Humanos de Jornalismo, Imprensa Embratel e BDMG Cultural.

Foi repórter da Folha de S.Paulo e colaborador da rádio BBC de Londres. Também atuou como pesquisador da Comissão Nacional da Verdade e consultor da Unesco. Em 2015, foi um dos autores convidados do 35º Salão do Livro de Paris, que teve o Brasil como país homenageado.

É autor dos livros-reportagem Morcegos NegrosMinistério do SilêncioO OperadorOlho por OlhoBoa Ventura!, Lugar Nenhum e O Tiradentes (leia mais sobre os livros de Lucas Figueiredo aqui).

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