“Onde fica o povo mineiro na comemoração do dia 21 de abril?”

Texto por Aline Frazao e Caio Santos Fotos por Gustavo Fereira e Vídeo por Aloísio Moraes especial para os Jornalistas Livres

O dia de Tiradentes é comemorado em Minas Gerais com a entrega da Medalha da Inconfidência desde 1952, maior honraria concedida pelo estado. Todos os anos, no dia 21 de abril, acontece em Ouro Preto a cerimônia que condecora “a personalidades e entidades que contribuíram para o desenvolvimento do Estado e do Brasil”, segundo o governo mineiro.

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Joaquim Xavier da Silva, o Tiradentes, é tido como herói nacional e mártir da Revolta dos Inconfidentes, que lutou contra os impostos cobrados pela Coroa Portuguesa. Diz-se que o movimento, considerado libertário, muito contribuiu com a independência do Brasil. O que a gente não ouve falar e nem aprende nos livros de história, é que ele era formado por elitistas, que nunca ousaram lutar pela abolição da escravatura. Pelo contrário, consideravam a escravidão necessária para o desenvolvimento do Brasil.

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Tiradentes, o que possuía menos riqueza com relação aos outros companheiros, foi o único a pagar pelo preço, tendo o corpo esquartejado e exibido em praça pública.

Talvez pelo fato de a Inconfidência ter sido protagonizada por heróis elitistas, a cerimônia de entrega da medalha não seja, definitivamente, um evento para o povo. Talvez. Tapete vermelho, praça fechada para o grande ato, e muitos militares com os melhores trajes.

O governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel, do PT, em seu discurso se referiu orgulhoso a uma praça lotada pelo povo. Talvez ele se referia a manifestantes do MST e da CUT que acompanhavam o ato isolados por grades de ferro (por segurança, claro!) ou dos integrantes de movimentos sociais e alguns professores que puderam adentrar à praça, mas ao contrário da imprensa e de outros convidados, ficaram sob um sol forte e quase estonteante. Nem por isso deixaram de entoar, o tempo todo, gritos contra o golpe, assim como contra a mídia golpista, a Rede Globo e contra políticos golpistas, como Eduardo Cunha e Jair Bolsonaro. Talvez, em governos anteriores, movimentos nem se atreviam a se aproximar tanto.

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Um militarismo desnecessário por vezes assustou quem acompanhava a cerimônia. Pelo menos umas dez vezes, militares atiraram para cima. Os agraciados, 148 neste ano, eram na sua maioria da elite: desembargadores, políticos, empresários, e como não podia faltar, policiais militares e civis…alguns poucos representavam o povo brasileiro, como professores, integrantes de alguns movimentos sociais e o rapper Flávio Renegado.
UMA LEMBRANÇA INCONVENIENTE

À menos de duzentos metros da Praça Tiradentes, onde a cerimônia solene decorria, e depois das grades de proteção, um grupo de jovens lançavam lama nos próprios corpos, enquanto recitavam, como poemas, trechos de falas dos que testemunharam suas casas serem destruídas durante o rompimento da barragem de Fundão, a mais de cinco meses atrás.

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“Hoje a gente está aqui passando lama no corpo, no rosto, no amigo, nas imagens que referenciam a grande tragédia que aconteceu aqui, em diversas outras cidades, no Brasil e no mundo”, explica Gabriel Cafuzo, membro do grupo dos jovens artistas.

A performance foi feita por estudantes do curso de artes cênicas da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e consistiu em uma manifestação artística em memória aquilo que foi considerado o maior desastre ambiental do país: a Tragédia de Mariana, localizada a poucos quilômetros da cidade de Ouro Preto. “Acho importante dizer que nunca vamos desistir. Estamos aqui para manifestar e relembrar este acontecido em um lugar onde se reúnem diversas personalidades da política que poderiam atender nossas demandas”, acrescenta Gabriel Cafuzo.

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No dia 5 de Novembro de 2015, a barragem de Fundão, controlada pela mineradora Samarco, da Vale S.A. e da BHP Billiton, se rompeu, liberando 62 milhões de metros cúbicos de rejeitos da mineração ao meio ambiente. Considerado o maior desastre ambiental da história do Brasil, a avalanche de lama percorreu mais de 850 km desde o município de Mariana até Linhares, no litoral do Espírito Santo, deixando um rastro de destruição à fauna, à flora e às comunidades que estavam no caminho. A ruptura resultou em 19 mortes; mais de 600 desabrigados somente nas comunidades de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo; no corte de água de milhares de pessoas, além de uma enorme mortandade de espécies de plantas e peixes na bacia do Rio Doce, um dos maiores afluentes do Brasil. Até hoje, ninguém foi preso pelo desastre.

ORADOR CONVIDADO: PEPE MUJICA

A grande estrela da cerimônia neste ano e que gerou grande expectativa, foi o ex presidente do Uruguai, José Mujica. Ele foi agraciado com o Grande colar e também participou como orador do evento.

Logo no início, como dizem as atuais gírias das redes sociais, lacrou: ” Sou do Sul, venho do Sul, os eternos esquecidos do planeta. Venho ao Brasil porque a América vai ser livre com a Amazônia, ou não será “.

Seus discursos, conhecidos por emocionar quem ouve, principalmente uma juventude ávida por uma política mais moral e mais limpa, fez com que todos prestassem muita atenção à fala. Ele mais um vez falou o óbvio: “os anos de vida não se compram, a vida não é só trabalhar, tem que ter tempo para viver, para amar”.

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Se referiu a burguesia, dizendo que ela comanda a economia, e também falou sobre a atual situação do país: ” No fundo, o problema do Brasil não é de esquerda nem direita, é o problema do mundo: o capitalismo”

Depois da cerimônia, Mujica concedeu uma rápida e tumultuada coletiva à imprensa. Quando questionado por algum jornalista sobre qual conselho daria à presidenta Dilma Rousseff, disse, muito bem humorado, que não estava mandando nem na própria casa. E foi logo retirado por assessores do evento.

“Se a vida me ensinou alguma coisa, foi que os únicos derrotados são aqueles que deixam de lutar. Vocês tem que saber é que não há um prêmio no final do caminho. O prêmio é o próprio caminho, é a própria caminhada”

“Para mim, sou do sul, venho do sul e represento o sul, os eternos esquecidos do planeta. Ser do sul não é uma posição geográfica, é um resultado histórico. Venho do sul e cultivei amigos no Brasil, porque a América será livre com a Amazônia ou não será. “

“Aristóteles tinha razão quando dizia que o homem é um animal político. Porque a política não é gerar confusão e aborrecer a gente. A função da política é dar um limite a dor e às injustiças. A função da política é lutar por um mundo melhor. Mas, é buscando conciliar permanentemente as inevitáveis diferenças. A função da política não é apagar, mas negociar as diferenças sociais”

” Hai que salvar a política. Há que dar estatura a política e isso não é um problema de um partido, é um problema do Brasil”

“Pior do que as derrotas é o desencanto. Viver é construir esperança, esperança em um mundo melhor. O que seria da vida sem utopias e sonhos”

“Porque, companheiros, a igualdade é algo que temos de dentro, antropologicamente.”

“Porque, nesta vida, felicidade não é acumular dinheiro, é acumular carinho”

“Me sinto muito uruguaio e sou brasileiro, porque sou americano, porque sou da América Latina. Minha pátria se chama América Latina e meus irmãos são todos os povos esquecidos da América Latina. Os que não chegaram a nenhum lado, os que são apenas um número, os estigmatizados, os perseguidos, os abandonados. Porque democracia não é simplesmente votar a cada quatro anos. Democracia é maximizar o sentimento de igualdade básica e fundamental entre os homens.”

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