Terra e comida

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Sidney Wilfred Mintz, antropólogo estadunidense, escreveu que comer é uma atividade humana central não só por sua freqüência, constante e necessária, mas também porque cedo se torna a esfera onde se permite alguma escolha. Para cada indivíduo representa uma base que liga o mundo das coisas ao mundo das idéias por meio de nossos atos. Assim, é também a base para nos relacionarmos com a realidade. A comida “entra” em cada ser humano. A intuição de que se é de alguma maneira substanciado – “encarnado” – a partir da comida que se ingere pode, portanto, carregar consigo uma espécie de carga moral. Nossos corpos podem ser considerados o resultado, o produto, de nosso caráter que, por sua vez, é revelado pela maneira como comemos.

O Brasil sempre foi grande produtor de alimentos e seu povo é grande conhecedor de refinada culinária, desenvolvida na fusão de muitos povos e apetites. Hoje vemos a expansão da produção agrícola e um presidente a negar que haja fome no país. Produzimos grãos para engordar boi, galinha, porco, pato ou tudo que anda, se cria e se come no planeta.

Nessa expansão dos negócios do campo, muita terra nova segue sendo destocada por grandes máquinas, dizimando florestas e cerrado, numa onda de liberação de agrotóxicos para controlar as pragas que querem sucesso entre a monocultura. Em 2019 já foram liberados para uso 262 novos produtos. 

Que morram fungos, vírus, bactérias, joaninhas, larvas, borboletas, formigas tenebrosas.

Abelhas? Para que abelhas!

Diz estudo da FAPESP, fundação que logo será desacreditada por Bolsonaro, que 84 mil pessoas sofreram intoxicação após exposição a defensivos entre 2007 e 2015. 

Ah, como estava boa aquela picanha assada no final de semana. Aquelas asinhas de frango, aquele porco com a maçã na boca, tão engraçadinho.

O homem quer carne, e essa carne toda comerá a carne da gente por dentro, nos condenará à tantas fomes diversas.

Teremos fome de beija-flores um dia. Teremos desnutrição de borboletas, do canto dos pássaros em noite fria. Saudades do canto da siriema teremos nos fins das tardes.

É de 2013 excelente artigo publicado pela organização não governamental Grain, que apóia camponeses e agricultores na América do Sul:

 

“Em 2003, a Corporação Syngenta publicou um aviso publicitando seus serviços nos suplementos rurais dos jornais argentinos Clarín e La Nación, batizando com o nome de “República Unida da Soja” os territórios do Cone Sul em que a soja foi plantada. -Integrado pelo Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia. A partir de então, essa declaração explícita de neocolonialismo permaneceu como uma “marca registrada” do projeto que estava sendo implementado pelas corporações.

Em 2012, houve uma onda de empresas do agronegócio nesses países em territórios e instituições que impuseram novos transgênicos, riscos maiores devido à aplicação de agrotóxicos e mudanças nas políticas que só têm precedentes na primeira imposição de transgênicos, durante a segunda metade da década de 1990. Este novo crescimento corporativo ocorre em um quadro diferente, como ocorre agora com a presença em toda a região (pelo menos até junho do ano passado) de governos “progressistas” críticos do neoliberalismo e que em algumas de suas políticas, eles começaram a modificar as políticas neoliberais impostas nos anos 90 com uma maior presença do Estado regulando a economia e assumindo um papel ativo nos aspectos sociais, educacionais e de saúde.

No entanto, em termos de modelo agrícola e produção de alimentos, não só não houve uma mudança no modelo ou uma autocrítica dos problemas causados ​​pela introdução maciça de soja transgênica com altos níveis de uso agro-tóxico. Pelo contrário, este modelo foi consolidado e é defendido à risca por todos os governos da região que o assumem como política de Estado, em todos os casos. Os graves problemas surgidos ou agravados, como os impactos dos agrotóxicos, o deslocamento de camponeses e indígenas, a concentração de terras ou a perda de produção local, são considerados “efeitos colaterais” e são abordados, quando a pressão social alcança-a de maneira fragmentada e pontual. Nós não incluímos Bolívia nesta análise, porque embora a região da “medialuna”, com Santa Cruz de la Sierra no comando, seja parte da “República Unida da Soja” as posições, políticas e debates levantados pelo Governo Evo Morales são amplamente diferenciados do resto dos governos (e isso vale o confronto com esses setores do poder do crescente que claramente aumentaram sua intenção separatista).

Já temos denunciado que esse progresso estava consolidando a imposição do modelo produtivo do agronegócio, e o Cone Sul tornou-se a região onde a maioria das culturas transgênicas é plantada no mundo e em que mais Agroquímicos são aplicados per capita globalmente. Neste A Contrapelo, tentaremos fornecer algumas luzes que ajudem a entender como esse avanço está ocorrendo e suas conseqüências ao nível das comunidades camponesas e da sociedade em geral.

Os impactos do “modelo” não reconhecem fronteiras entre o campo e a cidade e são sentidos profundamente em ambos os espaços: as populações fumigadas nos territórios rurais e nas áreas periféricas das cidades, os camponeses deslocados que dia após dia eles migram para aumentar as cadeias de pobreza das grandes cidades, as economias regionais destruídas com seus correlatos dos altos preços dos alimentos nas cidades, a comida contaminada repugnando um e outro. Em suma, uma catástrofe socioambiental que faz a água em toda parte e que não permite mais “olhar para o outro lado”.

Os responsáveis ​​por essa cadeia destrutiva são um punhado e têm nome e sobrenome: a Monsanto e algumas empresas de biotecnologia na liderança (Syngenta, Bayer); latifundiários e plantações que controlam milhões de hectares (Los Grobo, CRESUD, El Tejar e Maggi são alguns dos principais); Cargill, ADM e Bunge transportando os grãos para o outro lado do mundo. E, claro, os governos de cada um dos países que apoiam entusiasticamente este modelo. Eles são acompanhados por um grande número de empresas que aproveitam o “derramamento” e fornecem serviços, máquinas agrícolas, fumigações, suprimentos, etc.

Em números específicos, essa região cobre atualmente uma área de mais de 46 milhões de hectares de monocultura de soja transgênica, fumigada com mais de 600 milhões de litros de glifosato e provoca um desmatamento de pelo menos 500 mil hectares por ano.

Queima de uma floresta perto de Mariscal Estagarribia, na região de Boquerón, no Paraguai. A agricultura industrial nesta região muito seca está transformando esta vasta floresta em terra macia. (Foto: Amigos da Terra)

Embora as conseqüências desse modelo sejam expressas em nível regional de maneira contundente e interconectada, tentaremos dissecar seus impactos para analisá-los de maneira mais profunda. O pano de fundo do golpe de Estado no Paraguai é inevitável, pois é aí que os poderes de facto agiram de maneira mais brutal e explícita. No entanto, sua natureza exemplar é válida para toda a região e, sem dúvida, tentou definir um curso e limitar os governos da região.

Vamos rever um decálogo (com complementos) dos resultados concretos e indiscutíveis deste último ataque ao agronegócio.

Agronegócio mata

Esse fato foi expresso continuamente durante esses últimos anos e, como já dissemos, foi no Paraguai que seus impactos foram sentidos de maneira mais dura. Talvez possamos localizar o pico da violência no massacre de Curuguaty, perpetrado em 15 de junho de 2012, onde – e como resultado de tensões e repressão estatal e paraestatal – onze camponeses e seis policiais morreram. O massacre foi usado para iniciar o impeachment e dar o golpe institucional que terminou com a gestão do presidente Lugo.

Antes do golpe, e ainda mais tarde, uma onda repressiva foi desencadeada sobre os líderes camponeses que – na nova etapa – começaram a se expressar na forma de assassinatos seletivos que tiravam a vida dos líderes camponeses Sixto Pérez, Vidal Vega e Benjamín. Lezcano, crivado em um período de 8 meses do governo de Federico Franco.  CONAMURI (Coordenadora Nacional de Mulheres Rurais e Indígenas) disse que no caso do assassinato de Benjamín Lezcano, “o mesmo modus operandi que foi praticado nos casos de Sixto Pérez – em 1 de setembro, em Puentesiño ( Dep. Concepcion) – e Vidal Vega – no dia 1 de dezembro passado, em Curuguaty (Departamento Canindeyú). O objetivo, também, parece ser comum: decapitação de organizações camponesas “. 

Marcha de protesto em Buenos Aires pelo assassinato de Cristian Ferreyra, novembro de 2011 (Foto: GRAIN)Na Argentina, três assassinatos de camponeses diretamente ligados ao avanço do modelo da soja (Sandra Ely Juárez, Cristian Ferreyra e Miguel Galván) ocorreram em Santiago del Estero durante os últimos três anos e nas províncias de Formosa e Salta o assédio das comunidades é permanente e sustentada. 

No Brasil, também o movimento camponês e especialmente o MST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra) sofreram a violência do agronegócio e recentemente a Comissão Pastoral da Terra (CPT) divulgou um relatório preliminar da violência em 2012 contabilizando 36 mortes motivadas por conflitos agrários.  Durante 2013 já foram assassinados três líderes do MST (Cícero Guedes dos Santos, Regina dos Santos Pinho e Fábio dos Santos Silva).

Tudo isso ocorre no âmbito de um avanço na criminalização das lutas sociais, que não se expressa apenas na perseguição e estigmatização dos movimentos, mas também na forma concreta do avanço das leis repressivas. O caso da aprovação da Lei Antiterrorista na Argentina em dezembro de 2011 é adicionado às leis existentes em vários países da região.

O agronegócio polui

Uma das grandes mentiras das corporações, dos meios de comunicação e de um setor da academia foi usada para justificar a introdução de sementes transgênicas, é que elas ajudariam a usar menos agrotóxicos na agricultura. Como muitas organizações anunciaram durante as últimas duas décadas, a realidade marcou absolutamente o oposto e hoje o aumento no uso de agrotóxicos é cada vez mais alarmante e seus impactos em toda a região são cada vez mais difíceis de esconder.

Tudo isso não pode surpreender se assumirmos o fato óbvio de que aqueles que promovem sementes transgênicas são as corporações dedicadas à venda de agrotóxicos, com a Monsanto à frente, e que as sementes transgênicas que mais crescem têm a característica diferencial da resistência a herbicidas. .

O Brasil está na vanguarda da estatística, tornando-se o maior consumidor per capita de agrotóxicos do mundo desde 2008 e responsável por 20% de todos os agrotóxicos utilizados no planeta; com um consumo per capita de 5,2 litros de pesticidas por ano. 8 9 . A assustadora cifra de 853 milhões de litros de agrotóxicos utilizados durante o ano de 2011, com um crescimento do mercado brasileiro de 190% na última década, é mais do que eloquente. 55% desse consumo de agrotóxicos foi utilizado nas lavouras de soja e milho, sendo a soja responsável por 40% do consumo total. Apenas o glifosato representa cerca de 40% do consumo de agrotóxicos no Brasil.

A Argentina não foi deixada para trás. Durante 2011, foram aplicados 238 milhões de litros de glifosato, o que implica um aumento de 1190% em relação ao montante utilizado em 1996, ano em que a soja transgênica resistente ao glifosato foi introduzida no país. 

No Paraguai, que é o sexto produtor mundial de soja transgênica, o uso do glifosato em 2007 significou a aplicação de mais de 13 milhões de litros desse agrotóxico. 

No Uruguai, também na mão do avanço da soja transgênica, os números chegam a um mínimo em 2010 de mais de 12 milhões de litros.  É precisamente no Uruguai que, atualmente, e como resultado da poluição da água na cidade de Montevidéu, a população urbana começa a reagir com alarme diante da falta de disponibilidade de água potável para consumo.

O equilíbrio regional nos permite assumir uma aplicação mínima de mais de 600 milhões de litros de glifosato, uma figura arrepiante que tem sua contrapartida nas inúmeras queixas que ocorrem a cada dia pelos danos acima mencionados à saúde, ecossistemas, agricultura e as comunidades que tal banho de pesticidas produz.

Silvino Talavera, de onze anos, filho de Petrona Villasboa, morreu em consequência de ter sido pulverizado com pesticidas durante uma fumigação, enquanto andava de bicicleta numa estrada que liga dois campos de soja, a 80 metros da sua casa em Pirapey, Itapúa, Paraguai. (Foto: Glyn Thomas / Amigos da Terra)O glifosato, amplamente divulgado por sua “baixa toxicidade” pela Monsanto, está sendo questionado por várias razões, entre as quais devemos destacar:

– O impacto nas comunidades já é impossível de esconder e milhares de pessoas das “aldeias fumigadas” denunciam os problemas de saúde que sofrem devido à sua aplicação: nascimentos com malformações crescentes, intoxicações agudas fatais, problemas respiratórios, doenças neurológicas, aumento em casos de câncer, abortos, doenças de pele, etc.

– Pesquisas científicas independentes confirmam este grave problema e os estudos que relacionam o glifosato com o desenvolvimento de tumores e malformações no desenvolvimento de embriões foram publicados nos últimos anos nas revistas científicas de maior prestígio.

– Os efeitos na saúde dos “adjuvantes” utilizados na preparação do Roundup, principalmente o surfactante Poea (polioxietilamina), também são comprovados e associados a danos gastrintestinais e no sistema nervoso central, problemas respiratórios e destruição de hemácias em humanos

– O dano ambiental do glifosato também é amplamente confirmado na realidade dos territórios e na pesquisa realizada: sua ligação com a destruição da biodiversidade é inegável, ao mesmo tempo em que seu efeito tóxico sobre os anfíbios é demonstrado e publicado.

Mas tão sérios quanto esses números, são o aumento no uso de outros agrotóxicos que são usados ​​associados ao glifosato ou para compensar sua falta de ação diante do inevitável surgimento de ervas daninhas resistentes. Foi assim que o uso do paraquat cresceu, chegando a 1,2 milhão de litros na Argentina e 3,32 milhões nos cinco países produtores de soja. É importante lembrar que o paraquat está ligado a distúrbios neurológicos e, por essa razão, foi proibido em 13 países da União Européia em 2003.

Sem dúvida, o uso de agrotóxicos é outra das formas que o agronegócio tem que matar.

Agronegócio impõe transgênicos

A introdução de novos transgênicos ligados ao uso de novos agrotóxicos faz parte da estratégia das corporações, e tem sido a ordem do dia durante o ano de 2012.

O anúncio oficial da presidente argentina, Cristina Fernández, no Conselho das Américas, em 15 de junho de 2012, sobre os novos investimentos da Monsanto na Argentina prenunciou o que seria uma catarata de projetos, anúncios e tentativas de modificar a legislação durante o resto do ano. que marcou a agenda oficial e corporativa nos meses seguintes.

Assim, em agosto de 2012, o ministro da Agricultura, Norberto Yahuar, anunciou com os executivos da Monsanto a aprovação da nova soja rr2 “Intacta”, que traz como novidade o acúmulo de resistência ao glifosato com a produção da toxina Bt. seja que a única novidade seja a combinação das únicas duas características que a indústria de biotecnologia conseguiu colocar no mercado em 20 anos de existência.

Mas, além deste anúncio, há aprovações e testes de campo de outras culturas transgênicas, incluindo soja e milho resistentes a novos herbicidas, incluindo glufosinato e 2,4 D. Andrés Carrasco, pesquisador do CONICET (Consejo Nacional de Pesquisa Científica e Técnica) da Argentina levantou o problema há alguns meses com clareza: “há um aspecto interessante a ser considerado imediatamente na Argentina, é que 5 desses 10 eventos transgênicos aprovados, 3 de milho e 2 de soja, combinam o resistência ao glifosato com outro ao glufosinato-amônio (um bloqueador da síntese do aminoácido glutamina) para reforçar os efeitos disso. A necessidade de associar o glifosato ao glufosinato nas novas sementes explica as inconsistências na tecnologia dos transgênicos tanto em sua construção quanto em seu comportamento ao longo do tempo. No entanto, continuamos fugindo tentando remediar as fraquezas conceituais da tecnologia transgênica, com soluções que tendem a ser cada vez mais perigosas “. 15

No Paraguai, poucos meses após o golpe institucional, o Ministério da Agricultura aprovou o milho transgênico que havia sido resistido pelas autoridades do governo deposto e que enfrenta uma rejeição explícita e contundente das organizações camponesas, devido à ameaça que ele representa para o país. as muitas variedades locais de milho cultivadas por povos indígenas e camponeses. Assim, em outubro de 2012, quatro variedades de milho transgênico foram aprovadas pela Monsanto, Dow, Agrotec e Syngenta.  Já em agosto, o presidente Franco de fato havia autorizado por decreto a importação de sementes de algodão Bt-rr, provando claramente para quem ele governava.

No Brasil, a escalada começou no final de 2011, quando a aprovação foi anunciada pela CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança) do primeiro feijão comercial transgênico “totalmente desenvolvido no Brasil” e resistente ao mosaico dourado do feijão. Este evento, desenvolvido por uma instituição pública como a Embrapa e com características diferenciadas dos transgênicos mais difundidos (Bt e rr), foi utilizado como bandeira pró-transgênica, ressaltando sua importância “social e nutricional”.  No entanto, sua aprovação tem sido fortemente questionada por funcionários públicos, pela comunidade científica e pela sociedade civil. Por isso, Renato Maluf, presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), questiona sua rápida liberação em relação ao princípio da precaução.“Acreditamos que é uma temeridade a pressa em lançar um produto que consuma toda a população e sobre o qual não temos certeza da segurança alimentar e nutricional”, lamentou.Enquanto isso, Ana Carolina Brolo, assessora jurídica da organização humanitária Tierra de Derechos, concordou com Maluf, afirmando que “foi uma aprovação comercial que foi caracterizada pela falta de respeito pela legislação nacional e internacional de biossegurança”.

O balanço geral é que a avalanche de novos transgênicos se intensificou e na maioria dos casos implica seu cultivo ligado a agrotóxicos, em alguns casos os mesmos que já estão sendo utilizados (fundamentalmente o glifosato) e, em outros, introdução de novos herbicidas ainda mais tóxicos e perigosos (dicamba, glufosinato, 2,4 D). No Brasil, o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), membro da Via Campesina, denunciou em abril de 2012 a aprovação antecipada de sementes de soja e milho transgênicas resistentes ao herbicida 2,4 D. Essas mesmas sementes já estão em fase de experimentação de campo na Argentina.

O agronegócio pretende controlar absolutamente as sementes

A imposição de novas leis de sementes também tem sido a ordem do dia em toda a América Latina, mas tinha na Argentina, e com uma ligação direta ao acordo com a Monsanto mencionado acima, um dos focos de ação mais visíveis e ativos. No mesmo dia do anúncio da aprovação da soja rr2 “intacta” o Ministro da Agricultura anunciou o envio de uma Seed Bill para ser discutida no Congresso até o final de 2012.

O projeto nunca foi oficialmente tornado público, nem submetido a um amplo debate, mas foi discutido a portas fechadas no Ministério da Agricultura por uma seção dos setores de agronegócios argentinos. No entanto, seu conteúdo transcendeu as fronteiras do Ministério e sua análise confirmou o que poderia ser presumido após o anúncio oficial: a nova Lei busca subordinar a política nacional de sementes às demandas da UPOV e das transnacionais.

O Movimento Nacional Indígena de Camponeses (MNCI) denunciou que “A lei proposta não protege o conhecimento ou a biodiversidade, apenas encoraja a privatização e protege a propriedade sobre o que é uma herança coletiva de povos, especialmente comunidades camponesas e povos indígenas. ; abre as portas para aprofundar a expropriação e a privatização da biodiversidade agrícola e silvestre da Argentina; restringe ilegalmente ou severamente as práticas que estão em vigor desde o início da agricultura, tais como selecionar, melhorar, obter, poupar, multiplicar e trocar sementes livremente da colheita anterior; Fortalece as condições para o aprofundamento da introdução de novas culturas transgênicas e sua expansão, garantindo a propriedade sobre as variedades sem exigir provas efetivas de melhoria e com base na simples expressão de um caráter e confere às empresas de sementes o poder policial, que está em suas mãos para garantir que as disposições da lei sejam devidamente observadas “. 

A mobilização de diversos setores conseguiu postergar sua apresentação e debate no Congresso Nacional; mas a ameaça de sua imposição permanece latente.

É muito claro que o controle desse primeiro elo na agricultura é um dos principais objetivos das corporações, a fim de ter controle sobre todo o sistema agroalimentar e, assim, garantir um monopólio sem fissuras. E também está claro que esse controle tem um impacto direto sobre as pessoas, impedindo o exercício da soberania alimentar e condenando milhões de pessoas à fome.

O agronegócio destrói florestas

O desmatamento em toda a região tomou uma escala dramática e, mesmo com medidas que tentam impedi-lo (como a Lei de Florestas na Argentina ou as regulamentações geradas no Brasil), não só não parou, mas nos últimos anos tem sido intensificou-se, tendo como principal impulsionador o avanço da fronteira agrícola (ou o deslocamento da fronteira do gado como conseqüência do acima exposto).

Mais uma vez, o Brasil lidera as posições com 28 milhões de hectares de perdas florestais líquidas no período 2000-2010 com o desaparecimento de 641.800 hectares de florestas amazônicas entre agosto de 2010 e julho de 2011  comemorado como um grande triunfo para a região. autoridades nacionais.

Os números para a Argentina nos dizem que “entre 2004 e 2012 as escavadeiras destruíram 2.501.912 hectares, o equivalente a 124 vezes a superfície da Cidade de Buenos Aires. Outra maneira de dizer o mesmo: na Argentina, 36 campos de futebol por hora são destruídos. Os dados surgem do cruzamento de pesquisas oficiais e ONGs. O último relatório da Secretaria de Meio Ambiente da Nação aliviou o período 2006/2011 e contou que 1.779.360 hectares de mata nativa foram devastados “. 

No Paraguai, a situação é talvez uma das mais sérias em termos de porcentagem de desmatamento: por um lado, desmatamento histórico na região leste, o que significa que entre 1945 e 1997, 76,3% da cobertura florestal original foi perdida devido à sua conversão para terras para produção agrícola.  E, de outro, o desmatamento atual na região oeste (floresta do Chaco), onde o ano de 2011 terminou com uma perda de 286.742 hectares de florestas, que superaram em 23% o número de 232.000 hectares desmatados durante 2010. 

Um olhar global sobre essa tragédia nos permite ter mais em conta o que está acontecendo: um estudo publicado pela FAO em 2011  indica que a perda líquida média anual de florestas no período de 1990 e 2005 é de cerca de 5 milhões. de hectares (no mundo), dos quais 4 milhões na América do Sul.

Aqui também o agro negocio volta a matar: aos ecossistemas únicos da região e a todas as cidades que durante milênios viveram, cultivaram e conviveram com as florestas, cuidando delas e alimentando-as.

Agronegócio concentra terras em poucas mãos

A concentração da terra é outro dos fenômenos que caracterizaram os últimos anos de implantação da soja transgênica em todo o Cone Sul. Países nos quais a concentração de terras já era enorme viu durante esses anos como essa concentração se aprofundou e o número de mãos que a controlavam diminuiu.

Foi também o Paraguai, um dos países com a pior distribuição de terras na América Latina, onde o impacto foi mais sentido e hoje detém a figura arrepiante de 2% dos produtores controlando 85% da área agrícola. Essa situação se agrava ainda mais quando, dos países vizinhos – principalmente o Brasil, mas também a Argentina – há uma investida em seus territórios para avançar no cultivo de soja transgênica.

Vamos ver algumas das figuras em cada um dos países  :

Aldeias precárias ao lado da estrada, ocupadas por pessoas expulsas de suas terras por monoculturas de soja no Alto Paraná, no Paraguai. (Foto: Glyn Thomas / Amigos da Terra)

Aldeias precárias ao lado da estrada, ocupadas por pessoas expulsas de suas terras por monoculturas de soja no Alto Paraná, no Paraguai. (Foto: Glyn Thomas / Amigos da Terra)

– No Paraguai, em 2005, 4% dos produtores de soja administravam 60% da área total com essa cultura.

– No Brasil, em 2006, 5% dos produtores de soja administravam 59% da área total destinada a essa cultura.

– Na Argentina, em 2010, mais de 50% da produção de soja era controlada por 3% do total de produtores, através de extensões de mais de 5.000 hectares.

– No Uruguai, em 2010, 26% dos produtores controlavam 85% do total da terra com soja. Nesse mesmo ano, 1% do total de produtores era responsável por 35% da área cultivada com soja.

O modelo imposto significou uma profunda transformação na forma como a concentração da terra é produzida desde então e, na maior parte, não é adquirida se não for alugada pelos grandes produtores. Por outro lado, os produtores não são mais pessoas físicas identificáveis, mas sim grupos de produtores alimentados principalmente por grupos de investimentos especulativos.

As conseqüências para as comunidades locais, camponeses e indígenas são sempre as mesmas: a expulsão de seus territórios, em muitos casos pelo uso direto da violência, como já havíamos compartilhado, analisando outras facetas desse modelo.

Embora os números dos expulsos sejam difíceis de avaliar porque não há estatísticas precisas para cada país e muito menos no nível regional, alguns pesquisadores descobriram, por exemplo, que no Paraguai o avanço da soja levaria a um número de famílias camponesas expulsas. que chegaria ao número de 143 mil, mais da metade das 280 mil fazendas com menos de 20 hectares cadastradas no censo agropecuário de 1991  em decorrência do avanço da soja para atingir os 4 milhões de hectares propostos pelo agronegócio. Para a Argentina, esse modelo gerou um êxodo rural sem precedentes que, em 2007, já implicou a expulsão de mais de 200.000 agricultores e trabalhadores rurais de suas famílias da agricultura argentina (26). No Brasil, desde a década de 1970, a produção de soja deslocou 2,5 milhões de pessoas no estado do Paraná e 300.000 no Rio Grande do Sul. 

O agronegócio busca consolidar-se como ditador na República Unida da Soja

O golpe institucional no Paraguai demonstra como o agronegócio, com corporações agindo ao lado de proprietários de terras e cúmplices em nível nacional, não se detém nos avanços e limites que, mesmo timidamente, tentam implementar alguns governos.

No Paraguai, o governo do Presidente Lugo, ainda com uma minoria parlamentar, tentou de algumas áreas do governo (Ministério da Saúde, Ministério do Meio Ambiente, Serviço Nacional de Qualidade e Saúde de Sementes e Plantas – Senave) estabelecer limites para algumas questões sérias como Os impactos das fumigações e a aprovação de novos transgênicos, especialmente o milho rr e o algodão Bt, também estabeleceram um diálogo com organizações camponesas na tentativa de deter a violência histórica no campo, como resultado da tremenda concentração de terra que existe no país.

Os poderosos setores do agronegócio, agrupados na UGP (União das Guildas de Produção), que conta com o apoio de empresas como Monsanto e Cargill, desencadearam uma guerra contra as autoridades responsáveis ​​por essas áreas, pedindo sua cabeça e ameaçando e executando ações públicas. nesse sentido.

O massacre de Curuguaty foi a desculpa que eles descobriram para derrubar o presidente Lugo em menos de duas horas, a fim de derrubar seus interesses em todas as áreas.

Foi assim que, junto com o presidente Lugo, saíram todos os funcionários comprometidos com esses processos de mudança e rapidamente as medidas que o agronegócio buscou foram colocadas: os limites das fumigações foram encerrados, a aprovação de novos transgênicos, promessas de mudança na Lei de Sementes etc.

A recente eleição que consagrou o empresário Horacio Cartés como o novo presidente trazendo o governo de volta ao partido Colorado foi o último passo para consagrar a impunidade e o poder ilimitado do agronegócio.

No entanto, no resto dos países da região, a situação – embora não apresente a dura realidade do Paraguai – também é evidente na maneira como o agronegócio estabelece políticas públicas sobre questões relacionadas à agricultura e à alimentação e interfere na qualquer tentativa de modificá-los de outras perspectivas que não as dos seus interesses corporativos.

Tudo isto confirma algo que a nível global se torna evidente e que é denunciado em todo o mundo: a democracia é incompatível com o domínio do controlo empresarial e é necessário desmantelar as suas estruturas para pensar e avançar em qualquer processo de democratização que privilegie o bem comum.

Agronegócio sujeita e coloniza instituições de pesquisa e regulamenta ciência e tecnologia em cada país

Universidades e institutos de pesquisa em toda a região, com exceção de honrosas exceções, são colonizados pelo poder e pelos recursos das empresas do agronegócio que as utilizam como uma forma de impor seus modelos de produção transgênica e industrializada.

Durante o ano de 2012, um status público foi registrado e a sociedade civil denunciou o acordo da Monsanto com o INIA (Instituto Nacional de Pesquisa Agropecuária) no Uruguai para incluir no germoplasma de soja local gerenciado pelo instituto de transgenes de propriedade da empresa.  A assinatura do acordo foi questionada pela Comissão Nacional de Desenvolvimento Rural (CNFR), sindicato que agrupa e representa produtores familiares no Conselho de Administração do INIA e por várias organizações da sociedade civil, incluindo REDES-Amigos de la Terra O acordo, não acessível ao público, provocou a solicitação de relatórios dos legisladores da Frente Ampla (FA).

Também após o golpe no Paraguai, o novo Ministro da Agricultura e Pecuária do país Guarani, Enzo Cardozo, anunciou que “o Paraguai produzirá sua própria semente transgênica que estará disponível a todos os produtores”. A produção ficaria a cargo do Instituto Paraguaio de Tecnologia Agropecuária (IPTA), que receberia “transferência tecnológica” da Monsanto, para a qual o governo comandado pelo presidente de fato Federico Franco pagaria um valor a ser acordado. 

Mas a Monsanto já tem acordos de “cooperação” com instituições públicas na Argentina, Paraguai, Uruguai e Brasil desde muito antes deste último avanço e os usa como mão de obra barata para suas investigações e como uma cadeia direta para realizar a “extensão rural”. seus transgênicos Da mesma forma, muitos dos funcionários políticos atuam como o braço ideológico das corporações em suas tentativas de se impor, sendo um caso paradigmático do ministro argentino de Ciência e Tecnologia, Lino Barañao, que não perde a oportunidade de exercer seu descarado lobby pró-transgênico.

O agronegócio é outra forma de extrativismo que está saqueando os territórios

A agricultura industrial é uma actividade extractiva porque os seus princípios baseiam-se em considerar os solos num substrato inerte do qual extraem nutrientes (proteínas e minerais) com base na utilização de tecnologia e produtos químicos sem respeitar o solo como organismos vivos ou reabastecer os nutrientes extraídos naturalmente.

Esse extrativismo se expressa de forma brutal com o cultivo de soja transgênica, porque mesmo o discurso da “semeadura direta” não consegue abranger a dura realidade de que a soja não remete remotamente a quantidade de nutrientes extraídos ao solo, nem a semeadura suporte direto a estrutura e capacidade de retenção de água deles.

Em outros documentos, já dividimos a forma como o solo está sendo degradado na Argentina e milhões de toneladas de nutrientes e bilhões de litros de água estão sendo extraídos. 

Vamos ver alguns dos números concretos apenas para a Argentina (os valores não estão disponíveis para os outros países):

A monocultura de soja repetida ano após ano nos campos produz uma intensa degradação dos solos com uma perda entre 19 e 30 toneladas de solo, dependendo do manejo, da inclinação do solo ou do clima.

Soja produzida durante a safra 2006/2007 (com uma produção de 47.380.222 toneladas) uma extração líquida de:

– 1.148.970,39 toneladas de nitrogênio,

– 255.853,20 toneladas de fósforo,

– 795.987,73 toneladas de potássio,

– 123,188.58 toneladas de cálcio,

– 132.664,62 toneladas de enxofre e

– 331,66 toneladas de boro.

Além disso, cada safra de soja exportada consome 42 mil e quinhentos milhões de metros cúbicos de água por ano (dados para a safra 2004/2005).

O agronegócio atua em cumplicidade com os meios de comunicação de massa

Todo esse processo de tributação tem um poderoso aliado em toda a região: mídia corporativa e dominante que atua como um braço de comunicação incondicional do agronegócio (a única condição são os anúncios milionários que enchem páginas e horas de rádio e televisão). .

Os mecanismos com os quais essa aliança funciona são reduzidos a algumas diretrizes básicas que podemos resumir em:

– A ponderação absoluta da agroindústria como uma panacéia para a produção de alimentos, criando uma ligação absoluta com o “progresso”, “desenvolvimento” e o bem-estar da sociedade.

– A cooptação do discurso do desenvolvimento sustentável para converter, da propaganda, em “sustentável” qualquer iniciativa a partir de visões parciais e fragmentárias.

– Negação absoluta de qualquer debate ou informação sobre lutas sociais de resistência, debates científicos ou econômicos ou impactos nas comunidades e no meio ambiente.

– A estigmatização e criminalização dos movimentos e organizações sociais, mostrando-os como “subversivos”, violentos, antissociais ou “ligados ao passado”.

Talvez um dos países onde esta aliança é mais evidente seja no Paraguai, onde a mencionada UGP está ligada ao Grupo Zuccolillo, dono do poderoso jornal ABC Color, que foi um dos meios para a montagem da campanha do golpe contra Lugo. Zuccolillo é também presidente da SIP Inter-American Press Association. 

E se isso não bastasse: o agronegócio muda o clima

A ligação entre a crise climática global e a agricultura industrial é amplamente demonstrada e apresenta números alarmantes: no mínimo, entre 44 e 57% dos Gases de Efeito Estufa (GEE) se devem à cadeia de produção agroindustrial em suas diferentes etapas.

É evidente que um território onde a agricultura industrial foi imposta de maneira brutal tem de ser um dos principais contribuintes para esta crise global. Mas também é evidente em toda a região que a conjunção de problemas globais com os regionais, como o desmatamento, está trazendo consequências muito sérias, que são sofridas em áreas rurais com longos períodos de seca e ciclos de enchentes, e em cidades chuvosas. Fenómenos climáticos extremos e inundações para os quais não existe uma infra-estrutura capaz de conter e cujas principais vítimas são precisamente as expulsas do campo.

Considerações finais

Essa realidade dramática encontra em toda a região uma mobilização ampla e articulada que enfrenta a desapropriação da resistência local, a mobilização, a denúncia pública, a construção de alternativas e a luta em todas as frentes possíveis que vão desde os caminhos legais até os desobediência civil e recuperação de territórios pelas comunidades carentes.

Embora seja verdade que ainda há uma grande fragmentação das lutas sociais, também é uma realidade que nenhuma delas permanece na análise, na mera luta pontual, mas que uma visão integral está sendo construída que coloca a soberania alimentar em o centro das lutas e autonomia e o bem comum como horizontes.

Esperamos que este Contrapelo acrescente uma semente às novas culturas e culturas que estão germinando no Cone Sul.”

Leia o artigo original e as referências em:

https://www.grain.org/es/article/4739-la-republica-unida-de-la-soja-recargada 


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