Quem tem medo de Carmen Silva Ferreira?

Será que temem a líder do Movimento dos Sem-Teto por ela ter soluções para a gestão pública, tanto na área de moradia quanto de emprego, educação e saúde?

Foto de Caco de Paula

Maria Amélia Rocha Lopes, jornalista, especial para os Jornalistas Livres

Por que o poder público teme tanto a baiana Carmen Silva Ferreira, que lidera o Movimento
dos Sem-Teto do Centro (MSTC)? Será, talvez, por ela ter soluções para a gestão pública, tanto
na área de moradia quanto de emprego, educação e saúde? Nesta terra movida a dinheiro há, provavelmente, quem desconfie de suas melhores intenções, mesmo jamais tendo sido vista pleiteando algo a seu próprio favor.

Deve ser difícil para o gestor eleito conhecer essa mulher que trabalha para os sem-teto
dentro dos rigores da lei. E a lei diz que os edifícios abandonados, cheios de dívidas com a
Prefeitura de São Paulo, deixam de cumprir sua função social. Como leiga, posso concluir que a sua
ocupação, portanto, não fere nenhum dispositivo de lei.

O Brasil é signatário da Declaração dos Direitos Humanos da ONU. E lá está escrito: “Toda
pessoa tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e à sua família saúde e bem-estar, inclusive

alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais

indispensáveis”. E isso tem força de lei, embora grande parte dos brasileiros viva muito
distante desses padrões.

Pude conhecer melhor dona Carmen quando a entrevistei no programa Bom para Todos, da
TVT. Firme, séria, determinada, objetiva, foram os primeiros adjetivos que me vieram à mente.
Suas respostas para as questões de moradia são muito simples e claras. Ela sabe como resolver
o déficit habitacional numa cidade como São Paulo, ela sabe como tirar as pessoas das ruas,
devolver-lhes a dignidade. É intuitiva e prática.

No entanto, os gestores das políticas públicas da cidade preferem ignorar a sua sabedoria.
Preferem vê-la encarcerada. Assim, talvez seja mais fácil conter a disseminação de ideias que
podem mudar a história da população miserável. Uma escravidão jamais resolvida paira sobre
as nossas cabeças. Não há empatia para com os pretos, pobres e periféricos. A eles devem ser
destinados os confins, as beiradas da cidade, sem transporte, trabalho, educação e saúde. As
senzalas do século XXI.

Carmen Silva Ferreira ousou desafiar essa lógica. Ela e seus filhos estão sofrendo na carne por
isso. Se nos resta um pouco de humanidade, solidariedade e empatia, não podemos nos
conformar.

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