Sem qualquer estrutura ou acompanhamento, 600 famílias foram jogadas na rua com seus móveis e pertences após a PM expulsá-las no dia 28 de março da Ocupação Nelson Mandela, onde moravam no Jardim Capivari, em Campinas, interior de SP. Essas 2,4 mil pessoas – entre adultos, crianças e idosos – não receberam nenhum tipo de amparo social tanto da prefeitura de Campinas, que tem como prefeito Jonas Donizette (PSB), quanto do governo estadual, que tem Geraldo Alckmin (PSDB) no cargo de governador.
Pelo contrário, os poderes executivos se abstiveram de suas responsabilidades para atender as famílias mesmo em caráter de urgência. Nem mesmo durante a reintegração de posse sofrida pela Ocupação Pinheirinho, em 2012 – famosa por ter sido extremamente violento ao retirar cerca de 9 mil pessoas de suas casas à força pela Polícia Militar – essa situação foi vista, uma vez que, na época, as famílias chegaram a receber pelo menos aluguel social. A administração municipal chegou a oferecer apenas vagas para 50 pessoas.
Com bombas e spray de pimenta, quatrocentos e cinquenta homens da Polícia Militar começaram às 4h30 da manhã o processo de Reintegração de Posse. Esse horário é proibido por lei, assim como é lei que o proprietário disponibilize transporte suficiente que estão sendo expulsos para que possa levar seus pertences a algum lugar seguro – havia apenas 15 caminhões para atender a mais de 2000 pessoas.
ENTENDA COMO TUDO COMEÇOU
Escolher entre pagar 600 reais de aluguel ou alimentar seus filhos, assim era a vida de cerca das 30 famílias que no dia 18 de julho de 2016 ocuparam um terreno vazio há mais de 40 anos no Jardim Capivari, periferia de Campinas, interior de São Paulo. Os que antes eram invisíveis, não demoraram a ser notados. Já no final do mesmo mês, a Secretaria de Habitação do município enviou uma notificação aos proprietários do terreno, afirmando que teriam de adotar medidas judiciais para a retirada dos moradores que passaram a residir no local e criaram a Ocupação Nelson Mandela.
Em agosto, no mês seguinte,a ocupação sofre seu primeiro ataque e as famílias são expulsas. A justificativa era ali havia dano ambiental e o parcelamento clandestino da área, Aqui a publicação Diário Oficial do município na época. Sem terem para onde ir, os moradores voltaram ao terreno.
Protesto em defesa da Ocupação Mandela 26.01.2017 | Foto: Ana Carolina Haddad
FUNÇÃO SOCIAL DA TERRA
A propriedade em questão,, assim como diversas outras no país, não cumpre com a função social especificada no Estatuto da Cidade. De acordo com a Constituição de 1988, é obrigatório que os terreno sejam utilizados para “o atendimento das necessidades dos cidadãos quanto à qualidade de vida, à justiça social e ao desenvolvimento das atividades econômicas”. Normalmente esses espaços acabam sendo usados para especulação imobiliária, ou seja, ficam parados à espera de valorização e acumulam dívidas com o poder público.
O número de famílias pulou de 30 para 140 nos meses seguintes. No início de 2017, já somavam aproximadamente 2.400 pessoas na ocupação, sem nenhum acesso aos direitos mínimos previstos na Constituição Federal em seu artigo artigo 6º – “São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 90, de 2015)”.
Protesto em defesa da Ocupação Mandela 26.01.2017 | Foto: Ana Carolina Haddad
Reuniões com a Comissão da Ocupação Mandela foram negligenciadas pelos governos municipal e estadual, segundo relatos de moradores e advogados da comunidade. O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), em entrevista à Rádio Brasil Campinas, no dia 28 de março, chegou a afirmar que os moradores estariam “furando a fila” ao ocuparem a área no Jardim Capivari.
A urbanista Raquel Rolnik, professora da USP e especialista em política habitacional, criticou a postura do governador, durante o Fórum “Direito à Cidade – Desafios para uma agenda metropolitana”, realizado na Unicamp, no último dia 5 de abril. Ela, junto a outros acadêmicos, assinaram uma nota pública em solidariedade à Ocupação Mandela.
“A questão da moradia não é quantas casas novas nós vamos construir. Uma família que está numa situação de emergência habitacional, que não tem dinheiro para morar, pagar um aluguel, que não vai comer, não pode ficar esperando o dia em que vai chegar uma unidade. Portanto, uma política habitacional tem que trazer alternativas imediatas e emergenciais para quem tá sofrendo essa questão”.
Sem respostas do Poder Executivo, o Mandela continuava a resistir e a Polícia Militar fazia várias “visitas” à ocupação “avisando” que a reintegração iria acontecer a qualquer momento. As famílias que chegaram ali em busca de um lugar pra se proteger seus filhos e conseguir sobreviver agora viviam sob intensa pressão. O aviso oficial veio no dia 27 de março, por volta das 15h. A reintegração iria ocorrer já no dia seguinte. Mais uma vez a lei foi jogada na lata do lixo. Segundo a legislação brasileira, moradores de ocupações devem ser avisados sobre a reintegração de posse pelo menos 48 horas antes. O frio de começo de outono contrastava com o medo e a tensão no Mandela.
O relógio já marcava meia-noite, e as lonas, normalmente colocadas no chão para evitar que o frio da terra penetrasse os colchões, estavam levantadas na parede para que não atrapalhassem a passagem dentro das casas. As crianças, que deveriam estar dormindo para ir à escola no dia seguinte acompanhavam o desespero de seus pais, abraçadas aos animais de estimação, noite adentro, à espera do futuro sombrio que se aproximava.
Homens da Polícia Militar enfileirados às 04h30 em uma das entradas da Ocupação Mandela | Foto: Martha Raquel Rodrigues
A sentença veio às 4h30 da manhã, antes do sol nascer e também antes do horário permitido por lei para que a ação seja feita (Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015). Um cheiro forte de gás lacrimogêneo invadiu a principal entrada da ocupação, e, num primeiro instante, os moradores comentaram: “estamos tão tensos que já sentimos o cheiro de bomba antes mesmo de chegar”. Mas o Polícia Militar, de forma covarde e traiçoeira, já entrava soltando o gás ardente por uma das oito entradas existentes no terreno.
Ocupação Mandela 28.02.2017 | Foto: Ana Carolina Haddad
Antes, casas, vendinhas, comércios e até salão de beleza, tudo feito de madeira e de forma improvisada, assim como as portas com fechaduras que, na verdade, eram, furos por onde se passavam correntes presas com cadeados. Agora restam as lembranças desse cenário cotidiano de quem morava na Ocupação Mandela.
Ocupação Mandela 28.02.2017 | Foto: Ana Carolina Haddad
Sem ter para onde ir, muitas famílias acabaram dormindo na rua de terça para quarta, junto de suas roupas, móveis e outros pertences. Havia promessa do proprietário do local de disponibilizar contêineres para armazenar os bens, que não foi totalmente cumprido. Já a prefeitura de Campinas se absteve. Por meio do Secretário de Relações Institucionais, Wanderley de Almeida, informou que não tem equipamentos suficientes para abrigar as famílias. Um dos moradores que ficou na rua após a reintegração desabafou: “o barraco foi destruído, mas a nossa força só aumentou”.
Parte das pessoas que ficaram sem moradia foi acolhida por voluntários e familiares. Igrejas e outras instituições também abriram suas portas para receber os desabrigados, como é o caso da Comunidade Nossa Senhora da Paz, localizada nas proximidades da área da Ocupação. O padre Marcel Alvarenga, responsável pela igreja, lembrou que a atuação dessas organizações é limitada.
“A responsabilidade é do Estado. Não é só a questão de a gente acolher o pessoal que está sem casa, que está nas ruas. É função do Estado dar moradia, educação, saúde e segurança para todas as pessoas. O que a Igreja tá fazendo aqui, acaba sendo uma coisa para remediar a falta da ação do Estado, que age muito porcamente”.
Ocupação Mandela 28.02.2017 | Foto: Ana Carolina Haddad
Há quem continue nas ruas do entorno do local. Algumas pessoas relataram que, em alguns casos, não há sequer o que comer. Muitas foram parar no hospital por causa da fumaça causada por incêndios durante a reintegração de posse, como é o caso das filhas de 6 e 5 anos da moradora Patrícia, que saíram do hospital apenas alguns dias depois.
“Eles disseram que estavam conversando com o proprietário da terra para entrar em um acordo. Todo mundo ficou feliz e saiu comemorando, e depois vieram dizer que era mentira, que estavam inventando pra gente ficar desestabilizado. A polícia começou a botar fogo nos barracos com tudo as nossas coisas dentro, eles fizeram muita coisa errada com a gente lá.”
Crianças que moravam na Ocupação Mandela 31.03.2017 | Foto: Fabiana Ribeiro
As filhas de Patrícia ainda não voltaram para a escola, assim como outras crianças das 282 que moravam na Ocupação Mandela. Elas estavam matriculadas em creches, pré-escolas e escolas de ensino fundamental da região. Depois da reintegração de posse, muitas crianças que foram abrigadas na casa de parentes em outros bairros, tiveram que deixar de frequentar as escolas da região onde viviam por falta de dinheiro para o transporte.
Crianças que moravam na Ocupação Mandela 31.03.2017 | Foto: Fabiana Ribeiro
Sobre a situação das crianças, de acordo com o Conselho Tutelar de Campinas, foi acordado que a coordenação faria um levantamento do número de alunos que necessitam de locomoção, para que a Prefeitura disponibilize o transporte escolar. No entanto, segundo órgão, a lista não foi enviada.
Dona Luiza, antiga moradora da Ocupação Mandela 31.03.2017 | Foto: Fabiana Ribeiro
Para que qualquer reintegração de posse seja realizada, a lei especifica que todos os aparatos necessários devem ser garantidos durante a ação. O proprietário é quem deve arcar com todo o maquinário (como tratores, retroescavadeiras, caçambas) e funcionários, além de disponibilizar transporte para os moradores e os seus bens, como explica antigo Coronel e Especialista em Direitos Humanos, Adilson Pães.
“Os policiais não estão ali para ameaçar moradores, como já aconteceu em outras reintegrações de posse. De colocar cachorro com coleira perto dos moradores para assustá-los, nem pra meter o pé na porta e derrubar parede. Os policiais estão ali para garantir a integridade física do Oficial de Justiça e para manter a ordem. Se alguém resistir, prende por desobediência apenas aquele que resistir, mas não faz do local uma praça de guerra com bomba e tiro de borracha”.
Uma série de procedimentos devem anteceder qualquer reintegração de posse, segundo o Código de Processo Civil. Os moradores devem ser avisados sobre a ação além de ter direitos garantidos por Oficiais de Justiça, a Secretaria de Habitação, a Empresa Municipal de Desenvolvimento, o Departamento de Proteção e Bem-Estar Animal, a Assistência Social e o Conselho Tutelar, e membros da Advocacia Pública e Particular. Todos esses detalhes devem ser acertados em reuniões com a comissão dos moradores, antes que a ação seja realizada.
Em nota, a Secretaria de Segurança Pública assumiu que a Polícia Militar entrou no terreno de 118.480,65 m², às 04h30 da manhã, horário proibido de realizar a Reintegração de posse. De acordo com o Capítulo III, da Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015, uma Reintegração de Posse só pode acontecer das 06h às 18h ou, em horário de verão, das 06h até o pôr-do-sol.
O deputado estadual Orlando Silva, do PCdoB, afirmou em entrevista aos Jornalistas Livres que irá denunciar à Corregedoria porque a lei não foi cumprida.
Já o advogado representante da Ocupação Mandela afirmou que, no momento, a preocupação imediata é quanto ao abrigamento das famílias, mas que depois, junto à comissão dos moradores, pretende avaliar os meios cabíveis para denunciar as autoridades responsáveis.
Agora, essas famílias do Mandela ficam à espera dos Programas Sociais da COHAB (Companhia de Habitação Popular de Campinas), junto a cerca de 35 mil famílias que aguardam para serem sorteadas por uma moradia. A prefeitura de Campinas afirma que o papel da administração municipal seria trabalhar com a situação “pós-reintegração”.
Crianças que moravam na Ocupação Mandela 31.03.2017 | Foto: Fabiana Ribeiro
Enquanto isso, o morador Samuel Amorim, que estava na Ocupação Mandela desde o começo, continua sem condições de pagar por aluguel para ele, a esposa e os filhos, e agora também sem lugar para morar.
“Antes da gente morava de aluguel, não dava nada. Só uma pessoa trabalhando, tinha que sustentar meu filho e tinha 600 reais só de aluguel. Ou você pagava aluguel ou você comia. Aí surgiu a oportunidade do Mandela e fomos pra lá”.
OUTROS CASOS
O caso lembra o que aconteceu com o Parque Oziel, hoje bairro de Campinas. A sua história teve início em 8 de fevereiro de 1997, também na periferia do município, quando pessoas em situação de vulnerabilidade, sem emprego e sem onde morar, ocuparam a área que estava em débito com o poder executivo na época. Ela se tornou a maior ocupação da América Latina, com 3 mil pessoas, equivalente a 30 mil famílias.
Outra ocupação famosa da Região Metropolitana de Campinas é a Vila Soma, em Sumaré. A propriedade, que é oficialmente de uma companhia e à massa de falida de outra, reúne cerca de 10 mil residentes em quatro anos de existência. Segundo a Defensoria Pública, o número populacional supera 2,4 mil cidades brasileiras contabilizada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Ela ficou famosa principalmente depois de ter tido a reintegração de posse suspensa pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Ricardo Lewandowski, no começo de 2016. O impasse entre os moradores e a prefeitura municipal continua até hoje.
Parabéns pela reportagem meninas! Excelente e emocionante. O trabalho de vcs é indispensável pra fazer a galera pensar nesse país de mídia comprada e golpista.
Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa. Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta. O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.
Irã Mall Foto: Eduardo Campos
A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico. Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream. Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.
Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.
Ritual de fogo “Chaharshanbe Suri” Foto: Eduardo Campos
A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.
O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra. Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental. Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões. A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida. Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele. Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa. Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens. A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas. A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos. O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás. O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.
Assassinato de 168 meninas, além do aiatolá Ali Khamenei, no primeiro dia dos bombardeios americanos-sionistas contra o Irã, mobiliza o país persa e engaja as crianças
O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.
Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.
A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.
O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.
Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.
Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.
Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé. Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.
Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres
Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.
Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.
Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.
Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.
Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.
Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.
Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.
*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina
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Natalia Zanella
13/04/17 at 16:27
Parabéns pela reportagem meninas! Excelente e emocionante. O trabalho de vcs é indispensável pra fazer a galera pensar nesse país de mídia comprada e golpista.
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