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Tamires Sampaio: Palácio do Planalto ou Escritório do Crime, STF abre inquérito contra Bolsonaro. E daí?

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Por Tamires Gomes Sampaio, especial para os Jornalistas Livres 

O Brasil possuí a maior taxa de contágio pelo coronavírus do mundo, os casos confirmados e o número de mortes estão aumentando a cada dia e o presidente Bolsonaro deixou explicito seu total descaso com a crise que estamos vivendo no país. Bolsonaro se preocupa mais com os crimes com os quais sua família está envolvida do que com a vida de milhões de brasileiros que está em risco diante de suas ações no governo.

Depois das declarações do ex-ministro Sérgio Moro na sexta-feira (24) sobre a tentativa de Bolsonaro em interferir nas investigações da Polícia Federal e em inquéritos que correm em sigilo no Supremo Tribunal Federal (STF), fomos surpreendidos por uma revelação do site de jornalismo investigativo The Intercept que divulgou a existência de possível relação de seu  filho, Flávio Bolsonaro, com um esquema de construção civil ilegal liderado pela milícia do Rio de Janeiro. Além disso, no domingo, foi divulgado que Carlos Bolsonaro, também filho do presidente, estaria ligado a um esquema criminoso de disparos em massa de notícias falsas, fato que também está sendo investigado.

No mesmo dia da revelação de Sérgio Moro, assistimos em nossas casas, com um misto de indignação e revolta, o pronunciamento dado em resposta por Bolsonaro. Primeiro, porque sua total incompetência para ocupar o cargo de presidente fica escancarada em seus discursos Segundo, porque o ouvimos não só reconhecer a interferência em investigações na PF, como também deixar escapar que o assassinato da vereadora do Rio de Janeiro, Marielle Franco, era um dos casos que estavam sendo investigados e que ele tentava interferir.

Ao mesmo tempo, é importante que se entenda que Moro não pode se eximir de sua responsabilidade pelo tempo que ocupou o cargo de Ministro da justiça. Os crimes que hoje ele acusa Bolsonaro de ter cometido, podem ter se iniciado com sua conivência, o que igualmente merece investigação. Ele que ironicamente reconheceu em seu pronunciamento que durante as gestões do PT a PF possuía realmente autonomia para as investigações, afinal foi durante os governos Lula e Dilma que foram construídas políticas de combate à corrupção e de fortalecimento ao Ministério Público e a Polícia Federal.

A interferência de Bolsonaro na Polícia Federal, ao tentar nomear Alexandre Ramagem como diretor-geral da PF, um notório amigo de sua família, que provavelmente irá engavetar todas as investigações relacionada aos Bolsonaros, configura crime de responsabilidade e demonstra que Bolsonaro não medirá esforços para manipular qualquer investigação contra ele e sua família. Diante desse verdadeiro escândalo, o Procurador Geral da República (PGR), Augusto Aras, solicitou ao Supremo a abertura de um inquérito para apurar os fatos narrados por Sérgio Moro e solicita que ele seja ouvido pelo STF sobre as acusações que fez durante a coletiva.

O Ministro Celso de Mello determinou a abertura do inquérito e, assim, Bolsonaro será investigado pelos crimes de falsidade ideológica, pois Moro declarou que não assinou a demissão do antigo diretor geral da PF; coação no curso do processo e obstrução de justiça, pelas tentativas de Bolsonaro ter acesso às investigações feitas pela PF e aos inquéritos do STF; advocacia administrativa, ao tentar fazer os interesses de sua família se sobrepor às investigações que estão em curso; prevaricação, por agir de acordo com os interesses pessoais e não como presidente; e, por fim, corrupção passiva privilegiada.

Dentre as acusações que Moro fez, a tentativa de interferir em investigações da PF e inquéritos do STF chamaram atenção, afinal: o que estaria Bolsonaro tentando impedir de ser investigado? Em sua própria coletiva Bolsonaro nos respondeu essa pergunta ao falar sobre como a PF estava dando mais interesse ao assassinato de Marielle Franco ao invés da facada que recebeu durante a campanha em 2018. A declaração chamou atenção pois seu filho Flávio Bolsonaro foi apontado como um dos possíveis envolvidos no assassinato de Marielle por sua relação com componentes de um dos grupos da milícia do Rio de Janeiro, o Escritório do Crime.

No sábado (25), o site The Intercept Brasil divulgou provas de que Flávio Bolsonaro estava envolvido em um esquema de construção ilegal de prédios no Rio de Janeiro. A matéria publicada apresenta documentos sigilosos e dados levantados pelo Ministério Público do Rio de Janeiro a que o Intercept teve acesso.

De acordo com a investigação que o MPRJ está fazendo, Flávio Bolsonaro financiou e lucrou com a construção de prédios erguidos pela milícia usando dinheiro público. O financiamento teria sido feito por meio de “rachadinhas”, nome popularmente dado à prática de desvio de parte da remuneração de funcionários públicos, no caso, funcionários do gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio e que era organizada por seu ex-assessor Fabricio Queiroz. Esta investigação preocupa a família Bolsonaro e é um dos motivos do presidente para trocar o comando da Polícia Federal.

Gráfico com as declarações absurdas de Bolsonaro desde o início da pandemia de COVID 19 no Brasil. (Autor desconhecido)

Essa revelação do Intercept torna ainda mais próxima a relação da família Bolsonaro com o brutal assassinato de Marielle, porque após dois anos de investigações sabemos não só que o assassino era vizinho dos Bolsonaros como era membro do chamado “Escritório do Crime” (organização miliciana especializada em assassinatos por encomenda) e que seu assassinato provavelmente estaria ligado ao fato de que os milicianos acreditavam que ela poderia atrapalhar os negócios ligados à grilagem de terras na zona oeste do Rio de Janeiro, como revelado pelo Secretário de Segurança do RJ, Richard Nunes.

O cerco contra a família Bolsonaro está apertando e a sua relação com a milícia do Rio de Janeiro fica a cada dia mais escancarada. Estamos hoje, graças às “fake news” propagadas durante às eleições de 2018 – coordenadas pelo Carlos Bolsonaro de acordo com investigação feita pela PF  – e a atuação do então juiz Moro ao prender Lula injustamente e impedi-lo de concorrer às eleições, sendo governados por uma família de milicianos.

Com o Inquérito do PGR instaurado pelo STF, caso a tentativa de Bolsonaro de interferir nas investigações da Polícia Federal seja confirmada, ele não terá a menor condição de continuar ocupando o cargo de Presidente da República e deverá ser afastado de imediato, seja por meio de sua renúncia ou de abertura de processo de impeachment.

O Brasil, assim como o restante do mundo, está passando por uma crise sanitária sem precedentes em sua história com o avanço do coronavírus, que já matou mais de 5.100 pessoas e que infectou 73 mil pessoas, de acordo com o número de casos confirmados. Portanto, mais do que nunca, precisamos de um governo que garanta que a população tenha acesso a políticas de inclusão social que permitam que elas fiquem em casa e façam o isolamento com a segurança de que poderão pagar suas contas e se alimentar. Além disso, que também garanta seus direitos trabalhistas sejam assegurados e não destruídos, como está acontecendo durante a gestão Bolsonaro. No Palácio do Planalto deve ser um espaço de formulação de políticas de combate às desigualdades e de proteção da vida dos milhões de brasileiros e não esta política de morte que estamos vendo sendo implementada neste verdadeiro escritório do crime.

 

Dra. Tamires Gomes Sampaio é advogada, mestra em Direito Político e Econômico pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e militante da Coordenação Nacional de Entidades Negras (CONEN). Foi a primeira presidente negra do Centro Acadêmico de Direito do Mackenzie.

 

 

 

Fontes utilizadas no artigo:

https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2020/04/27/celso-de-mello-stf-inquerito-bolsonaro-moro.htm

https://www.jota.info/stf/do-supremo/pgr-requer-abertura-de-inquerito-ao-stf-para-apurar-fatos-narrados-por-sergio-moro-24042020

https://oglobo.globo.com/brasil/celso-de-mello-sorteado-relator-do-pedido-de-inquerito-sobre-discurso-de-moro-1-24392794

https://theintercept.com/2020/04/25/flavio-bolsonaro-rachadinha-financiou-milicia/

https://www.em.com.br/app/noticia/nacional/2018/12/14/interna_nacional,1013283/milicia-matou-marielle-pela-ocupacao-de-terras-diz-secretario-de-se.shtml

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/04/pf-identifica-carlos-bolsonaro-como-articulador-em-esquema-criminoso-de-fake-news.shtml?aff_source=56d95533a8284936a374e3a6da3d7996

 

Geral

A satanização do Irã pela mídia ocidental, um processo em desconstrução

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Eduardo Nunes Campos*

Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa.
Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta.
O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.

Irã Mall Foto: Eduardo Campos

A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico.
Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream.
Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.

Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.

Ritual de fogo “Chaharshanbe Suri” Foto: Eduardo Campos

A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.

O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra.
Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental.
Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões.
A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida.
Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele.
Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa.
Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens.
A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas.
A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos.
O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás.
O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.

(*) Jornalista

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Internacional

IRÃ: A GUERRA DAS CRIANÇAS

Irã se prepara para receber 20 milhões de peregrinos nas cerimônias de despedida do aiatolá Khamenei, que se iniciam na próxima sexta-feira (3)

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O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.

Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.

A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.

O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.

Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.

Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.

Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé.  Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.

Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres

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Geral

O caso Mariana Ferrer, por Honoré de Balzac

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

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O caso Mariana Ferrer por Honoré de Balzac

Por Dirce Waltrick do Amarante*

Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.  

Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.

Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.

Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.

Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.  

*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina

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