Nossos mitos da caverna

Vejo numa padaria uma TV ligada na Globo News. Fico curioso pra ver a repercussão deles das vergonhosas manobras jurídicas que mantiveram Lula preso ontem. A manchete: “Estresse pós-traumático preocupa”, imaginei um grande trauma nacional depois do visível colapso do nosso sistema judiciário, mas se tratava das crianças que foram resgatadas de uma caverna na Tailândia. Não ouvia o som, mas pensei em qual seria essa preocupação com o estresse pós traumático. Porque um ser humano não deveria ficar traumatizado depois de uma experiência tão forte? Que resiliência é essa que o mundo parece esperar das pessoas? Já era a terceira vez eu via essa manchete em lugares diferentes. Será que querem saber com que rapidez essas crianças podem ser reinseridas na engrenagem de exploração e consumo? Com que rapidez podem voltar a iludir seus desejos, assistir televisão, querer brinquedos de plástico?

Me choca já há algum tempo a rapidez com que se retoma, no Brasil, a aparência de normalidade. Há cerca de um mês não havia gasolina nos postos e se falava em caos. Um segundo depois, tanques cheios, foi como se nada tivesse acontecido. Há cerca de três meses Lula foi preso. Há cerca de quatro meses Marielle foi assassinada. Há cerca de dois anos Dilma Rousseff sofreu um golpe. Há trinta anos o Brasil era governado por uma ditadura. Há cento e trinta havia escravidão. E mesmo assim vivemos em suspensão, nos mitos da democracia racial, da democracia representativa, do Estado de Direito, do funcionamento normal das instituições. Não encaramos esses traumas, não olhamos, como país, propriamente para eles. A realidade, a concepção do que é possível, está golpeada, e com isso se vai a possibilidade do choque, com isso se vai a possibilidade de comover-se. Seguimos num teatro do absurdo, numa existência surreal em que nos foram roubados os limites, as ferramentas pra dizer “isso não pode”, “daqui você não passará”.

Às vezes me parece mesmo que deveríamos estar em estresse pós traumático permanente. Mas não, perecemos lentamente. Me veio não sei de que lugar obscuro do inconsciente uma imagem de que um dia nos colocarão com os cotovelos virados pra fora e, depois de uma certa gritaria, no dia seguinte, já estaremos dizendo que assim é a vida. Ou pior, nem falaremos mais sobre o assunto, apesar da visível estranheza nos abraços dos casais na novela. Perversidade e apatia.

Corta para a manchete seguinte: “Brasil tem 7.5 mil cavernas, a maioria em Minas Gerais.” Encontro uma aconchegante e perto do mar? Vejo circundar a minha cabeça e as dos meus amigos idéias de êxodo, de buscar cura nas coisas e nos ciclos eternos da natureza. A césar o que é de césar, meu reino não é deste mundo. Mas gosto ainda da luz do sol que me permite ver, mesmo quando não gosto do que vejo. Me comovo com o drama das crianças da Tailândia, desejo que elas possam lidar com o trauma de uma maneira saudável, que cresçam e contem histórias e tenham paixões. Anseio profundamente também por um Brasil livre, como um dia se vislumbrou no horizonte. Sem a dúvida que entre os comerciais me martela o pensamento: será que na caverna não já estamos?

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

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