MÔNICA CUNHA: Não lave as mãos para as operações policias nas favelas

Confronto como política de segurança pública deixa rastro de sangue no Rio durante a pandemia

Mônica Cunha / Foto: EBC
A fundadora do Movimento Moleque, Monica Cunha fala durante lançamento do relatório da Comissão Popular da Verdade, no Rio.

Vivemos a maior crise humanitária em mais de 100 anos. Já são mais de 20 mil mortos em decorrência da COVID 19 no Brasil, sendo o Rio de Janeiro o segundo estado em número de óbitos e infectados. Este momento de terror é compartilhado por todas as pessoas, independente de gênero, raça ou classe, embora de formas diferentes, evidentemente.

A nós, enquanto não se desenvolve tratamento efetivo ou vacina, só resta seguir à risca as recomendações de especialistas para a redução dos riscos, como permanecer em casa, higienizar as mãos e usar máscaras.

João Pedro seguia estas recomendações. Estava dentro de casa, no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, quando policiais atiraram e o mataram. Em sua casa, foram encontradas marcas de 72 disparos.

Não bastasse isso, os policiais, ao socorrê-lo, deixaram sua família sem nenhuma informação, obrigando-a a peregrinar por mais de 17 horas em vários hospitais à sua procura, em vão, pois seu corpo encontrava-se no Instituto Médico Legal.

Mas não foi só João Pedro. No Complexo do Alemão, em um só dia, uma operação policial deixou 13 mortos: uma verdadeira chacina! Na Cidade de Deus, foi João Victor. Na providência, Rodrigo Cerqueira. Ao mesmo tempo que a COVID se espalha e chega próximo ao pico de infecções, o Governador manda suas polícias para matar preto favelado, agravando ainda mais a precariedade com a qual os moradores de favelas estão enfrentando esta Pandemia. Nessas ações desastrosas, o Estado ainda interrompeu a doação de cestas básicas feita, em mutirão, pelos próprios moradores: além de não ser o agente da distribuição, o Estado ainda imprime cenas de terror quando a população se auto-organiza para salvar vidas.

Não há ninguém que considere a possibilidade de a polícia matar 13 pessoas em um condomínio da Barra da Tijuca, nem mesmo naquele em que, sabidamente, houve flagrante de tráfico de fuzis. Mas, no Complexo do Alemão, não foi a primeira e, infelizmente, pode não ter sido a última chacina. Apesar da Constituição dizer que todos os seres humanos são iguais, quando falamos de acesso a estes direitos, sabemos que não é assim que banda toca. CEP e cor são, sim, obstáculos para o exercício da cidadania e de direitos.

Isso porque a formação da sociedade brasileira se deu com base na escravidão e em uma cultura que oficialmente atribuiu a negros e negras a condição de sub-humanos. A luta pela sobrevivência diante da violência do Estado é a história do povo preto no Brasil. A negação e violação de direitos é a marca do tratamento que o Estado nos dedica desde antes e mesmo após a abolição.

Matar e torturar negros está, historicamente, autorizado no Brasil. O Estado nunca garantiu a sobrevivência dessas pessoas, pelo contrário, contribuiu desde sempre para o seu extermínio. O desmonte do SUS, a falta de controle externo das polícias, a não investigação dos autos de resistência, a precarização das relações de trabalho, o sucateamento da educação pública, todas estas políticas são racistas, pois negros e negras são a maioria da população que depende exclusivamente das políticas públicas para acessar seus direitos e, consequentemente, os mais afetados pelo seu desmonte e seletividade.

Neste momento, diversos coletivos de jovens de favelas tentam salvar as pessoas dos territórios em que nasceram e foram criados. Mais uma vez, a auto-organização do povo negro e favelado é a tona da luta pela sobrevivência diante das ofensivas do Estado. É assim que resistimos e resistiremos: nos defendendo e lembrando dos nossos. 

Por isso, na última terça, dia 26 de maio, realizamos um ato, virtual, em memória de João Pedro e todas as vítimas fatais do racismo do Estado, no qual os familiares dos jovens mortos foram os protagonistas, mas contou, também, com a participação de diversas organizações, intelectuais e artistas engajados na luta antirracista. Ao todo, mais de 74 mil pessoas participaram do ato em todo o Brasil.

A realização de operações policiais como estas, em especial numa pandemia como a que vivemos, nada mais é que o Racismo agindo objetivamente na forma de Necropolítica, em sua face ainda mais potente. Diante do aumento do número de mortos por COVID, desvia-se o foco para a violência de Estado que conta com a conivência de grande parte da população. Seguindo de forma torpe as recomendações das autoridades sanitárias, o Estado e parte da população lavam as mãos com o sangue dos negros e negras.

Mônica Cunha é colunista dos Jornalistas Livres e fundadora do Movimento Moleque. Atualmente coordenada a Comissão de Direitos Humanos da Alerj 

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