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Mamba Negra e o protagonismo político da música eletrônica em São Paulo

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Por Monica Ferreira, Maíra Vargas e Paula Pretel, especial para os Jornalistas Livres.

Mamba negra, uma das cobras mais venenosas do continente africano, também é o nome do coletivo de música eletrônica mais popular da emergente cena underground paulistana. Capaz de reunir em um único espaço o que há de mais moderno e inclusivo na cidade, já firmou seu nome na noite, dando voz à luta dos marginalizados, e é protagonizado por mulheres, transexuais, negros e identidades diversas que foram historicamente excluídas dos ambientes conservadores e heteronormativos.

Se representatividade importa, o coletivo é liderado por duas mulheres. Carol Schutzer, dj internacionalmente conhecida como Cashu, e a cantora, atriz e militante Laura Diaz, que também dá voz ao Teto Preto, grupo conhecido pelo single GASOLINA. Precursoras do movimento de ocupação dos espaços públicos como forma de lazer e sociabilidade no centro, a Mamba Negra começou em 2013, “em uma conjuntura de bastante efervescência política, urbana e cultural em São Paulo. Todo esse circuito mais independente e de festas menores começou a se reaquecer, muito além dos clubes”, completa Laura.

 

DJ Cashu

Ela também destaca que as ocupações de moradia influenciaram essa movimentação cultural, pois “sempre foram pontos muito importantes do centro de São Paulo, de resistência, e de atividade para crianças e pessoas carentes de programação cultural”, diz. O palco da Mamba Negra quase sempre é a rua, e os eventos fechados costumam ocorrer em prédios degradados ou locais ignorados pelo poder público. A Mamba Negra já esteve presente na ocupação das escolas secundaristas, em 2016, no Cine Marrocos, prédio tombado nos arredores do Teatro Municipal de São Paulo, e na Cracolândia.

Embalada pela sonoridade techno, o coletivo já atraiu atenção de festas consagradas no exterior, a exemplo da Dekmantel, na Holanda. O que tornou possível até mesmo a participação de Mirik Milan, prefeito da noite de Amsterdam, em evento realizado em São Paulo no último mês, quando foi debatida a dificuldade encontrada pelos coletivos de cultura independente em estabelecer um debate frutífero com a Prefeitura Municipal. Debate este que inclui discussões acerca da regulamentação das festas e formalização por alvarás.

A Prefeitura precisa democratizar a informação básica para legalização dos eventos de coletivos como a Mamba Negra, que esbarram na burocracia e na necessidade de emissão de muitos laudos técnicos – de órgãos distintos – para a formalização de um único ato. Isso sem falar nos ditos imóveis “inalvaráveis”. Acerca disso, Laura Diaz propõe a criação de uma espécie de aluguel social que permita a utilização de imóveis abandonados, direcionando o valor arrecadado ao abatimento das dívidas fiscais e tributárias dos seus proprietários. De quebra, tornaria possível fugir dos preços exorbitantes das locações firmadas nos últimos três anos.

 

 

 

 

Cantora, atriz e militante, Laura Diaz

O processo de desestatização do Governo Dória trouxe ainda mais dificuldades para coletivos como a Mamba Negra, visto que ampliou a atuação das parcerias público privadas e ainda criou a ANEP – Associação da Noite e Entretenimento Paulistano, que representa o alto empresariado de casas noturnas, dificultando ainda mais o diálogo entre a cultura independente e a Prefeitura.

Os atentados à existência e à legitimidade do movimento provocaram uma onda de resistência da contracultura, uma vez que o público vê ameaçado esse ambiente de acolhimento e liberdade. Dani Ishikawa, 38, diz que frequenta as festas desde que elas começaram a ocorrer fora do circuito de clubes. “Acho que isso representa mais o underground. Me sinto melhor, sim, como mulher”, fala a respeito, ressaltando que todas as festas possuem recomendações e regras contra machismo, abuso e homofobia. Guilhermina Biazzon, 24, que se identifica como travesti, acredita que a Mamba é indispensável à continuidade do protagonismo de minorias. “É nessa cena que me sinto livre para ser quem eu sou”, garante Gui.

Pela porta que eu escancarei passarão todas as minhas irmãs

Euvira começou a carreira fazendo Artes Visuais na UFBA, com o coletivo artístico Baphão Queer. Depois de viajar pelo Brasil e América do Sul, retornou a Salvador, onde a cultura drag é muito influente. A personagem foi criada completamente avessa aos padrões comuns daquela localidade, que até o momento exacerbavam o feminino e limitavam-se a reconhecer como drag apenas quem se montasse dentro do estereótipo de beleza imposto à mulher. Foi no Âncora do Marujo, bar soteropolitano, que encontrou espaço para mostrar sua personagem de novo conceito ao público. Após um ano performando, Euvira decidiu vir a São Paulo.

Não demorou muito para captar a atenção das curadorias artísticas das festas do circuito de música eletrônica. Começou a atuar como performer nas festas ODD, Mamba Negra e Capslock. Num processo de tornar crítica a sua atuação e de enriquecer a diversidade nos meios em que estava, Euvira notou que a cena tinha muito a caminhar quando o assunto era representatividade.  “Só o fato de eu ser negro, bicha, pobre, nordestino, da periferia e ocupar um lugar de destaque em uma festa onde majoritariamente as pessoas são brancas, de classe média, sulistas, héteras, já é um grande diálogo, já tô falando muita coisa. Porque não era pro meu corpo estar ali, era pra eu estar ou num presídio, ou num caixão, ou limpando vidro de carro, ou vendendo bala. Enfim, este foi o lugar escolhido pra mim e este é o lugar que habitam a maior parte das pessoas que eu vivi próximo… vizinhos, amigos, primos…“.

Sob a percepção de que o negro ocupava somente demandas braçais e que não habitava um lugar de protagonismo na cena, nasceu a Coletividade Namíbia.

Formada por artistas visuais, djs, produtores e performers, a Coletividade tem como símbolo um raio, sinônimo de propagação, e procura inserir esses profissionais nas cenas que antes não manifestavam preocupação em, de acordo com Euvira, “desembranquecer” o seu pessoal. Com isso, uma gama de artistas que não viam seus trabalhos contemplados puderam desfrutar de visibilidade no underground.

Sobre o assunto, Euvira ainda destaca que “A música eletrônica é tão negra quanto atabaque”, e traz à tona o fato da house e do techno terem por base artistas negros, como os pioneiros Frankie Knuckles, Juan Atkins e Kevin Saunderson. Após a difusão desses estilos musicais pela mídia e a popularização das festas eletrônicas em clubes, a periferia se distanciou dessa cultura. Agora, quem não desfrutou desse protagonismo reescreve sua própria história. “Pela porta que eu escancarei passarão todas as minhas irmãs”, finaliza.

Euvira é a idealizadora da Coletividade Namíbia

Já, Ana Giselle começou sua carreira discotecando em Recife no ano de 2014. A convite de Euvira veio para São Paulo, lugar onde encontrou uma forma remunerada de expressar-se artisticamente, como dj e performer.  Para Gisa, que se identifica como travesti e “transalien”, quando está performando no palco leva consigo a luta diária de todas as travestis, pretas e periféricas que almejam serem reconhecidas civil e profissionalmente. Estar em lugar de destaque nestas festas e exercer uma função artística é mostrar a toda uma comunidade que é possível galgar um caminho diferente daquele que a sociedade historicamente induz. “Na minha época eu não tinha nenhum exemplo e foi bem mais difícil aceitar quem eu sou, porque o medo de sofrer o tanto que uma travesti sofria, e ainda sofre, sempre vinha em primeiro lugar. Mas viver uma vida numa pele que não é a sua é, na realidade, a maior violência que podemos cometer conosco. Enfrentar o mundo sendo quem se é de verdade é incrivelmente mais poderoso”, acrescenta.

Ana Giselle é performer

A “lista trans”, que concede acesso gratuito aos transexuais em festas, surgiu nesta efervescência de protagonismos, fruto de um diálogo aberto sobre inclusão. Da mesma forma que Euvira se incomodava com negros exercendo papéis condicionados, as pessoas trans cansaram de ser vítimas da transfobia estrutural, responsável por marginalizar a comunidade no mercado de trabalho. Segundo Gisa, a lista trans não é mais que um processo de regularização do acesso ao lazer e cultura. E mais, a oportunidade de trabalhar em festas garante às pessoas trans a sua própria subsistência.

Este momento de representatividade trans na noite tem trazido muitos artistas pra contribuir com a cena. Porém, segundo Ana Gisa, é preciso disseminar este exemplo e exigir que mais espaços sejam abertos, não apenas de maneira paliativa. “Representatividade trans é muito sobre o processo de humanização dessa população na sociedade. É sobre ver uma pessoa trans ou travesti, enquanto um ser humano que pode transitar em todo e qualquer espaço como qualquer outro. Fora da margem, fora das ruas, fora da prostituição, lugares estes para onde sempre fomos empurradas, onde acostumaram a nos ver e acreditaram que estávamos por opção. Quando eu estou performando, às vezes passa pela minha cabeça quantas Ana Giselles não poderiam estar lá brilhando tanto quanto eu, mas não tiveram a chance porque a sociedade as tirou todas as expectativas de uma vida melhor e as mataram antes, mataram seus sonhos”, completa Ana Gisa.

Tantos feitos devem ser comemorados, mas a Mamba Negra constata que a sobrevivência da cena está diretamente ligada ao reconhecimento da música eletrônica como cultura. Além disto, a não abrir mão dos espaços que já conquistou, mas expandí-los.

Frente às dificuldades criadas pela especulação imobiliária e a ausência de interesse do Estado em dialogar com o movimento, o futuro da festa pode parecer incerto. Diferente disso, acabou despertando um sentimento de urgência e resistência. Verbalizando a postura que a Mamba Negra tomará ante esse painel, Laura Diaz é incisiva em sua última mensagem para os Jornalistas Livres: “Bate mais!”.

Fotografias: Núbia Fernandes Moraes / @nubiafernandesmoraes

Geral

A satanização do Irã pela mídia ocidental, um processo em desconstrução

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Eduardo Nunes Campos*

Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa.
Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta.
O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.

Irã Mall Foto: Eduardo Campos

A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico.
Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream.
Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.

Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.

Ritual de fogo “Chaharshanbe Suri” Foto: Eduardo Campos

A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.

O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra.
Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental.
Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões.
A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida.
Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele.
Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa.
Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens.
A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas.
A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos.
O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás.
O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.

(*) Jornalista

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Internacional

IRÃ: A GUERRA DAS CRIANÇAS

Irã se prepara para receber 20 milhões de peregrinos nas cerimônias de despedida do aiatolá Khamenei, que se iniciam na próxima sexta-feira (3)

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O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.

Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.

A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.

O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.

Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.

Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.

Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé.  Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.

Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres

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Geral

O caso Mariana Ferrer, por Honoré de Balzac

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

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O caso Mariana Ferrer por Honoré de Balzac

Por Dirce Waltrick do Amarante*

Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.  

Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.

Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.

Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.

Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.  

*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina

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