Guerra pela vida na Itália: “Para resistir, temos que acreditar que coronavírus há de passar”

Repórter brasileira escreve diário da luta contra pandemia no país, onde índice de mortos não para de crescer

É como se toda a população de uma cidade como Garopaba, em Santa Catarina, tivesse morrido, de “resfriadozinho”!, escreve jornalista do seu confinamento na Itália. (Foto: enfermeira desmaia de exaustão sobre prontuários após horas e horas de trabalho)

Por Raquel Moysés*, do isolamento em Matera, na Itália

*Jornalista, professora e servidora aposentada da UFSC/ Instituto de Estudos Latino Americanos

É como se toda a população de uma cidade como Garopaba, em Santa Catarina, tivesse morrido: de um “resfriadinho”!

Dividida entre a dor pelo Brasil e pela Itália, repórter escreve diário da luta contra o vírus indignada com a irresponsabilidade do governo brasileiro. Foto: Arquivo pessoal

Meu coração está em lágrimas…
Dividido entre os meus dois mundos de afetos íntimos, separados pelo oceano e agora unidos pela pandemia do coronavírus.
Assisti, paralisada, o desvelamento das imagens dos caminhões do exército italiano levando, de Bergamo, os corpos solitários daqueles que deixaram seus queridos, sem direito a um beijo, um abraço, um olhar, um aperto de mão.

A cidade da Lombardia mais dilacerada pelo coronavírus nas últimas semanas não pode mais dar um lugar de descanso aos seus “paesani” (aldeões) e eles precisam ser sepultados ou cremados fora de casa, em outras cidadezinhas do território de Bergamasco.

Até a última viagem eles fizeram isolados, exatamente como haviam vivido seus últimos dias na UTI de um hospital. São anônimos nas notícias, apenas citados como cifras que aumentam todo dia e não contam a história de alguém que era sujeito de uma vida até ter tido a desventura de um encontro imprevisto com um mal invisível.

A doença contagiosa impede a presença, nas áreas de isolamento, de sacerdotes para oferecer conforto espiritual aos doentes e para dar a extrema-unção aos que se vão. Afinal, os sacerdotes também são vítimas da pandemia.

A igreja católica ainda não tem a dimensão exata da ferida no seu corpo religioso, mas já se sabe que há mais de 50 vítimas entre os padres, 20 apenas na diocese de Bergamo

O próprio Papa Francisco e os bispos a pediram a médicos e enfermeiros que ofereçam consolação aos doentes. E muitos deles, na hora mais difícil, abençoam o paciente com um sinal da cruz na testa e rezam junto com ele, quando é possível.

Itália enfrenta crise humanitária histórica,: corpos levados para as Igrejas devido à super lotação dos cemitérios. Foto: Pleno.News

Hoje os italianos são os mais afetados pela pandemia depois dos chineses e isso me parece um pesadelo. O preço mais alto até agora paga a Lombardia, onde se concentra mais de 45 % dos infectados e o número maior de vidas perdidas.

É também na Lombardia, na sua cidade mais ferida, Bergamo, que está hoje o maior número de jovens na faixa dos 30 anos internados com pneumonia intersticial, num total de 1800. Isso comprova mais uma vez como o novo coronavírus pode contagiar e adoecer qualquer um de nós.

Nesses dias sombrios, a Espanha também faz o seu caminho dramático, pois é o segundo país europeu mais atingido. Nesta quarta-feira, 25 de março, já são quase 48 mil infectados, com um aumento de 8 mil casos em 24 horas e mais de 3.400 mortos que não encontram lugar onde descansar, pois o sistema como um todo já está em colapso. Faltam inclusive caixões.

O vírus faz mais de uma vítima a cada 15 minutos em Madrid, disse, alarmado, o prefeito da capital espanhola, em uma entrevista na Radio Televisione Italiana, a Rai.

Mas a realidade já superou as suas palavras.

Esse mundo de números que escondem vidas entra pela minha porta trancada aumentando a minha agitação interior. Assombrada por esses fantasmas, me perco entre os afazeres, não concluo nada por inteiro. Está sendo difícil para mim contar à minha família, a amigas e amigos, à gente que pulsa de vida no meu Brasil, os sentimentos que experimento nestes dias em que quase toda a nação italiana está em quarentena, enquanto um pingo de gente continua a trabalhar.

A trabalhar, para cuidar de nós, para tentar nos curar, para tomar decisões difíceis sobre o destino do país, para nos dar de comer, para nos prover de medicamentos, para fabricar respiradores, máscaras…

São pessoas comuns, não heróis quase por milagre, como muitos agora parecem enxergar esses trabalhadores.

Não são heróis os que trabalham por todos, expondo seus corpos fora de casa enquanto, para o bem de todos, nos refugiamos em nossos lares.

São apenas pessoas como nós, cheias de falhas. Humanas, tão humanas em sua fragilidade.

Soa triste, quase cruel, elevar trabalhadores à categoria de heróis em momentos de dor ou durante eventos catastróficos.

Todos os dias seria preciso que enxergássemos os anônimos que fazem seu trabalho em silêncio. Fazem o bem sem fazer barulho, sem levantar a voz…

É um ato bem simples, miudinho, invisível, escondido no simples gesto de nos preparar na lanchonete um café, uma média, um pão com manteiga…

É apenas o movimento de nos servir um prato de comida nos restaurantes populares, de nos dar gotas de remédio para aliviar uma dor forte.

Muitos deles fazem isso com um sorriso, talvez depois de passar uma noite sem dormir, cuidando de uma criança com febre ou vigiando um doente de Alzheimer.

Geralmente recebem uma miséria no fim do mês. Trabalham sem saber se vão continuar a ter o emprego amanhã e uma aposentadoria no futuro, ou se na velhice vão precisar juntar moedas para comprar o pão ou fazer bicos para pagar a conta da água, da luz, comprar remédios.

Apesar do desconforto que me invade, insisto em escrever, na tentativa de compartilhar algumas das minhas impressões e para registrar esse momento de sombras, em que a “paúra”, o medo, se mescla com a nossa esperança ameaçada.

Durante este primeiro mês em que a emergência explodiu na Itália (tudo começou em 21 de fevereiro), a esperança, ainda que medrosa, teima em sair do esconderijo e observar o mundo das sacadas, das varandas, do teto de um prédio onde um padre reza a missa, nos concertos on line (cada músico ou cantor tocando ou cantando na própria casa), nos aperitivos e conferências de família compartilhados pela Web.

Mas há quem critique as manifestações ecoadas desde terraços e janelas. Os críticos, inclusive o grande compositor de trilhas sonoras para o cinema Ennio Morricone, dizem que cantar, bater palmas, tocar, nessa hora de dor, é um desrespeito com os mortos e seus familiares aflitos pela perda.

Parece difícil para os críticos entender que nessa hora incerta ressurge o nosso grito ancestral, que escapa da prisão da dor, elevando vozes e tocando instrumentos para celebrar as vidas dos que amamos.

Sábado, 21 de março, noite silenciosa, estava tentando me distrair vendo um filme quando a cena foi interrompida por um novo pronunciamento do Primeiro Ministro Giuseppe Conte, que anunciou a “serrata” (fechamento) quase total da Itália, até 3 de abril.

Agora fecham, em todas as regiões do país, inclusive fábricas, indústrias e todo tipo de atividade não considerada indispensável ao funcionamento da saúde, a prover alimentação, a fornecer água, energia… Em resumo, só ficam abertos os serviços essenciais.

Não sem polêmica por parte de empresários e até mesmo ameaças de greves de trabalhadores, que não chegaram ainda a um acordo sobre o que é essencial.

Por exemplo: para continuar produzindo remédios, as indústrias farmacêuticas necessitam de embalagens de vidro, tampas plásticas. Mas isso não seria produto essencial, avaliam alguns.

Confesso que na hora que o filme parou para dar voz a Conte, eu estremeci. Sábado tinha sido um dia de “banzo”, como os africanos chamavam o sentimento de melancolia dos escravizados longe da África. “La giornata più buia”, o dia mais escuro, como diriam os italianos, desde que a pandemia estourou na Itália.

Os números divulgados ao anoitecer pela defesa civil não davam margem a qualquer otimismo.

Num só dia haviam morrido quase 800 pessoas, e o número de contagiados tinha superado a marca de 53.500, numa escalada de mais de cinco mil em 24 horas.

Tenho tentado aparentar calma, principalmente para dar coragem a meu filho, que teve suas aulas interrompidas no Conservatório e tem apenas um professor que dá aulas on-line.

Ele está agitado, ansioso.

Sabe que o estado de emergência nacional foi declarado até 31 de julho e que as medidas de contenção podem ser renovadas mês a mês até aquela data, se for necessário, o que comprometeria de vez o ano letivo.

Ele teme pelos dois lados onde pulsa seu coração, exatamente como eu. Agora está preocupado também com o amigo-irmão, que poderia ter que ir para a linha de frente das batalhas da saúde.

Os estudantes de medicina estão sendo chamados a colaborar com a campanha de vacinação que se inicia esta semana no Brasil, mas o amigo conta que nos postos de saúde, UPAs 24 horas e hospitais faltam todos os tipos de equipamento de proteção e inclusive não há kits para testar se uma pessoa foi contagiada por coronavírus.

É uma penúria, não tem quase nada, faltam até máscaras, se preocupa
o amigo, que se forma este ano e está amedrontado com o que vem pela frente. Até agora, os jovens estão sendo poupados no Hospital Universitário, pois a UFSC decidiu não colocar os estudantes em risco de contágio, já que não pode oferecer os equipamentos de proteção.

É um momento complicado para a juventude, com a vida travada, sem perspectiva imediata de recomeçar de onde parou.

Mas a incerteza dessa juventude é ainda incomparável ao drama dos que já estavam travados antes mesmo de nascer, pela condição social a que estão submetidos com suas famílias.

Nas favelas do Rio de Janeiro, pessoas das várias comunidades denunciam que não têm em casa nem sabão para lavar as mãos.

Do outro lado do Atlântico, a República do Níger, que acolheu 220 mil refugiados nesses tempos de novos êxodos forçados pelas guerras e a pobreza, se prepara para enfrentar a batalha da pandemia com o mesmo produto prosaico que falta nas favelas do Rio.

Escutei no Programa “Radio 3 Mondo”, da Rai Radio 3, uma das três emissoras de rádio públicas da Itália que ouvimos o dia inteiro (a tevê só ligamos de noite), que parte dos refugiados, ajudados por ONGs humanitárias, começaram esses dias a fabricar sabão.

É um gesto de agradecimento por parte de quem foi recebido naquela nação africana entre as mais pobres do mundo, com alto índice de analfabetismo.

Em Níger, onde 49% da população tem menos de 15 anos, o sistema de saúde conta com apenas dez leitos de terapia intensiva.

Assim, absolutamente desprotegida, a Mãe África, origem de todos nós, começa sua impensável batalha contra o coronavírus, que ameaça a vida dos mais frágeis entre os fracos.

Agora que a pandemia se esparrama como uma mancha de óleo pelo planeta, na Itália desde domingo se reduz um pouco o número de contágios, mas voltam a subir as mortes.

Nesta quarta, 25 de março, as vítimas foram 683. Um total de 3.489 pacientes estavam em terapia intensiva.

Foram esses números elevados que determinaram a decisão do governo italiano, apoiado pela comunidade científica, a promover a nova “serrata” no país, chegando desta vez às fábricas.

A leve queda do número de contagiados não faz ninguém cantar vitória.

Nenhuma autoridade política ou sanitária arrisca-se a afirmar que a corrida do contágio começa a descer a ladeira num cenário desalentador de 7.503 mortos, bem mais que o dobro das vidas perdidas na China (3.283).

Certamente o número de contagiados é bem superior àquele divulgado todo dia, às 18 horas, por Angelo Borrelli, coordenador nacional da Proteção Civil italiana, na coletiva de imprensa, pois os dados se referem apenas aos que fizeram o teste e sabem ser positivos. Os que não sabem que estão infectados pelo coronavírus podem ser mais algumas dezenas de milhares. Ninguém pode afirmar com certeza.

É provável que os contagiados hoje na Itália sejam pelo menos 600 mil, afirma Angelo Borrelli, embora os números oficiais sejam de 74.386 casos, pois se referem apenas aos positivos confirmados.

Para cada doente certificado pelo teste, devem existir pelo menos dez outros contagiados não conhecidos.

A alternativa de fazer testes em massa para ter dados talvez mais precisos, como fez a Coreia do Sul, também não convence diversos epidemiologistas e virologistas, pois isto poderia ser apenas a fotografia de um instante.

A pessoa poderia não aparecer infectada ao fazer um teste hoje. Mas depois de 12 horas, se o fizesse de novo, o resultado poderia ser diferente, positivo, pois o vírus incubado já estaria ativo e apto para o contágio.

Um dos problemas de fazer muito mais testes na população, além de ser de difícil realização em todo o país, seria o de dar uma falsa sensação de segurança.

A verdade é que o vírus está colocando o mundo científico numa sinuca de bico. Há muitas visões contrapostas e ainda muita incerteza quanto ao novo coronavírus.

Alguns virologistas levantam a hipótese de que o coronavírus que atinge a Lombardia possa ser mutante, pois não se entende porque é tão agressivo ali.

O que se nota é que a maioria dos contagiados escapa, mas os que adoecem levam o sistema de saúde ao colapso. E ficam muito tempo internados, mais de 20 dias, se tudo correr bem.

Em meio a dúvidas e incertezas, esperamos que a curva de contágio comece a cair de modo nítido, principalmente na Lombardia.
Outra expectativa é de que no sul a situação não fuja do controle. Por isso foram proibidos os deslocamentos de uma cidade para outra.

Dividida entre meus dois mundos em perigo, percebo que nesses dias pouco se fala do horror das guerras, que não pararam, apesar dos apelos da ONU de que cessem as hostilidades em todas as zonas de conflito.

Na Líbia prosseguem os bombardeios, enquanto refugiados sírios continuam espremidos entre duas fronteiras, sem ter para onde ir, expulsos pela Turquia e rejeitados pela Grécia.

Eram famílias que tinham uma casa, uma vida. Agora amontoadas em um não-lugar, no meio do lixo, enquanto a epidemia
ameaça entrar sorrateira entre elas, mesmo sem ter uma porta onde bater.

Parece só questão de tempo.

Saber que pelo menos os Estados brasileiros tomam algumas providências me conforta de algum modo.

Mas não dá para esperar do desgovernante que ameaça tudo o que toca apenas horror. É nojento tudo o que ele diz e faz.

Para resistir, temos que acreditar que há de passar… Só nos resta esperar que passe.

E vai passar. Toda epidemia/pandemia tem seu ciclo e passa. Nosso conforto é conhecer o passado. A história nos ensina.

Meu irmão, que é um professor e sanitarista, diante da minha tristeza e assombro, me abre uma janela de esperança.

Ele me escreveu, em duas mensagens lúcidas:

–  O essencial quando medidas de contenção já não são suficientes, e as medidas de mitigação se impõem na fase de transmissão comunitária, é “achatar” ou alongar no tempo a curva de distribuição de casos, para dar fôlego aos sistemas de saúde.

Do confinamento em Matera, no Sul da Itália, repórter escreve o diário da guerra: “Esperança medrosa”. Foto: Raquel Moysés

Vivemos ciclos pandêmicos muito, mas muito, piores. Traduzir como “circo dos horrores” não deve corresponder à realidade. Imagine no passado com milhões de infectados e mortos, sem ciência e sem tecnologia, sem entender o agente causal…
O importante é manter também a racionalidade, buscar de algum modo em nosso centro espiritual a calma e aguardar.”

Também aguardava o fim deste pesadelo a gente de Zagabria, capital da Croazia quando um terremoto de magnitude 5,5 atingiu a cidade e obrigou a sair às ruas uma multidão em quarentena.

Uma garota de 15 anos morreu, 27 pessoas ficaram feridas, 18 delas gravemente, tantas outras não puderam voltar para suas casas com perigo de desmoronamento e tiveram que ir para um abrigo arrumado às pressas, para evitar dar asas ao contágio no país. Diante de dois inimigos, um invisível e outro imprevisível, o que pode fazer a gente? Em Zagabria certamente ninguém tem a resposta.

Ninguém no mundo tem, pensava eu, na madrugada em que me chegavam ecos de panelaços no Brasil, em protesto a um pronunciamento entorpecido, de quem certamente não ama o próprio povo, ao afirmar, na mais absoluta má-fé, que o Covid-19 é apenas uma “gripezinha”, não passa de um “resfriadinho”.

O “resfriadinho”, no dia em que o inominável pronunciou essas palavras tão irresponsáveis, causara (apenas dados oficiais, sem considerar os não documentados) um total de: 39.827 novos casos e 1.722 mortes. Globalmente havia 372.757 confirmados e 16.231 mortes. Hoje, 25 de março, somente 24 horas depois, os casos confirmados já são
414.179 e os mortos 18.440.

É como se toda a população de uma cidade como Garopaba, em Santa Catarina, tivesse morrido, de “resfriadinho”!
“E tem quem ache ‘histeria’, porque ainda não aconteceu na própria família”, escreve o meu irmão.
Há dez mil quilômetros de distância, as suas palavras
se abraçam às minhas…

Edição: Raquel Wandelli

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