Por Fernando Sato, especial para os Jornalistas Livres
Acordei às 6 da manhã. Domingo, 6 da manhã. Sacanagem. É desumano acordar às 6 da manhã. Desumano é acordar domingo às 6 da manhã. Acordei confuso. Faz dias que não durmo direito. Bom. Segui o padrão. Abri a porta pras cachorras, pus o rango, tomei água. Abri as janelas do quarto do fundo, a porta da sala e a porta do meu quarto. Peguei a toalha da mureta do corredor, entrei no banho. Banho rápido. 10 Minutos. Acordo finalmente.
Dia cheio. Logo, logo vou pra Igreja Anglicana da rua Coropé, Pinheiros. Setenta anos de Hiroshima. Setenta anos de Nagasaki. Muito tempo. Acordo pensando em Hiroshima e Osasco. De repente 200 mil mortos, de repente 18 mortos. A única conclusão a essa hora da manhã. As coisas continuam acontecendo. A imensa deterioração do significado da vida. A cultura do medo recriando mártires. Todo santo dia.
Enquanto me enxugo com a toalha nova que não enxuga nada, lembro do que fiquei pensando essa noite. Eu conheço Osasco. Já trabalhei em Osasco. Tenho amigos em Osasco. Não conheço ninguém de Hiroshima. Nem de Nagasaki. Penso também no que me toca mais. Qual desses dois absurdos me dilacera mais. Liguei pro meu pai.
— Pai, me fala de Bastos? (cidade da Alta Paulista, onde meu pai participou ativamente na história dos derrotistas e vitoristas do interior paulista durante a Segunda Guerra). Meu pai, que não era muito de telefone em 1980 imagina agora aos 90 anos… Nada. Falou pra eu passar na casa dele. Ok.
Tomo mais água. Chamo o tx. Enquanto não chega, vejo o feed do instagram. A foto com Emir Sader bombando. O tx chega. Pego tudo, faço o check list três vezes, não dou falta de nada, ponho a vasilha d’água das cachorras pra fora, tranco a porta e desço correndo. Abro e fecho o cadeado, entro no tx e bora pra missa.
No caminho, Osasco veio mais forte. Pensando em intervenção. Precisamos lembrar sempre. Os 18 de Osasco… Hiroshima me pareceu distante. Liguei pro Julinho da casadalapa. Contei a parada da intervenção. Combinamos pra essa semana. Vai rolar…
Chego em Pinheiros. Igreja Anglicana. Ninguém tinha chegado. Na placa, a primeira missa só iria começar às 9h. Errei feio. Podia ter dormido uma hora a mais. Seria quase uma noite inteira. Passei pra turma dos Jornalistas Livres pelo whasapp o erro. Fui tomar café na casa da Marlene. Água de coco, pão com manteiga e queijo (nada de mortadela).
Volto para a igreja. Assisto a primeira missa do dia, celebrada em japonês. Penso na bobagem que eu fiz de não me esforçar pra aprender japonês. Erro. Agora fico aqui, caçando as palavras no meio do sermão. Entendi umas boas cinco frases completas. Traição? Não. Tolice de criança mesmo.
Acendemos as velas, distribuímos pela escadaria da entrada. O vento que estava parado, de repente, resolveu brincar com a gente. Uma fotógrafa, que conheci ali mesmo, lembrou de algo em Heliópolis e trouxe copinhos de plástico. Resolvido o problema. Ficou bonito.
E começa a chegar gente. Muita gente. Lotou a segunda missa, em português. Poucos japoneses, muitos amigos do pessoal da Camerata. Isso me faz pensar. Tínhamos em casa, desde muito pequeno, um altar budista em que, periodicamente, minha mãe me fazia acender aquele incenso verde. Fingia rezar o que minha mãe rezava. Mas, sinceramente, gostava daquilo. Tinha a foto do meu tio já morto, que meu pai sempre dizia ser o artista da família. Gostava do seu rosto tranquilo em preto e branco. Foi meu cúmplice na decisão de fazer arte por aí. Mas, de novo, repentinamente, o altar sumiu. Acho que foi na mudança pra Zona Norte. Achei estranho, mas criança sempre acha o que fazer, e lá fui eu ser craque no campinho da rua.
Acaba a missa, os músicos se posicionam. Tocam “Stabat Mater Dolorosa”, de Vivaldi, música que permeia todo o filme “Rapsódia em Agosto” (1991), testamento de Akira Kurosawa sobre Hiroshima e Nagasaki. Tenho que tirar fotos para a matéria. Primeiro, gravei um vídeo do primeiro movimento lá de cima, depois desci e fotografei detalhes dos músicos. Dei a volta na nave e cliquei a geral. Em algum momento da música, parei de tentar achar uma foto especial. Parei. Ouvi. Fechei os olhos. E veio aquela maldita vontade de chorar.
Mater dolorosa… Mater dolorosa… Novamente penso em Hiroshima, Nagasaki. Penso em Osasco. Mater dolorosa… Mater dolorosa… Lembro das sombras impregnadas nas calçadas de Hiroshima, onde os corpos simplesmente deixaram de existir. Lembro da foto da Marlene Bergamo na capa da Folha. A mãe se confundindo com a cruz abraçada, como se ela quisesse se transformar naquela cruz. Acima da foto, dores silenciosas em abraços, olhares perdidos, lágrimas escorrendo. E aquele céu azulíssimo. Um azul provocador, indecente, injusto. Faltou a tempestade, faltou o céu cinza, faltou o vento consumindo os rostos já molhados, as roupas cheias de barro e sujeira. Faltou o sofrimento escorrer pela página do jornal e manchar a nossa roupa de domingo à beira da mesa do café da manhã.
Distribuímos os tsurus, passarinhos de origami que são prenúncio de boa sorte. Faça 1.000 tsurus e se credencie a pedir um desejo para os deuses. Hoje, eu desejaria o fim das mortes dos filhos antes dos pais. A cena mais injusta que já pude acompanhar.
Intervenção leve, tranquila e bonita. Poderia ficar mais um tempo balançando por ali, mas tenho pela frente a nossa residência artística na feira da Kantuta. Bora encontrar com os parças da casadalapa e criarmos áreas de convivência entre moradores do Pari e comunidade boliviana.
Peguei carona com o Cachoeira, passamos primeiro pelo Bixiga e depois ele me deixou no Pari. Tudo tranquilo. Achamos que teria trânsito, que seria o caos, mas o máximo que tivemos, foi um pequeno desvio na Consolação, devido a 3 caminhões. Aê CET, 3 caminhões e fodem o caminho alheio? Demos a volta e chegamos no Pari tranquilamente, sem grandes congestionamentos ou hordas da CBF atravancando o caminho. O Cachoeira me deixou na Kantuta e continuou seu caminho para a vigília do Instituto Lula.
Cheguei na Praça e tudo estava como nos domingos anteriores. Muito verde e amarelo… e vermelho, as cores da Bolívia. A oficina das crianças estava a todo vapor, Vivi contando a história dos animais para os niños e niñas, o Alvaro cuidando dos recortes e pintura. Na outra mesa, Zeca Caldeira e crianças-assistentes montavam os “FotoRegalos”. Ampliações com uma moldura das fotos tiradas anteriormente. Retratos dos passageiros da Feira da Kantuta. Bolivianos, peruanos, equatorianos, brasileiros, colombianos, bolivarianos. Nenhum sem noção de camisa da CBF foi fotografado até então. Também, aqui é Pari. Aqui não é Paris. Enquanto isso, Will Robson soltava pedradas de seu setlist de reggaeton, dancehall e cumbia. De camisa amarela. Brinquei com ele. Pô, Will, de camiseta amarela? Ele: Por quê? Eu: Por quê? Ele, depois de parar por alguns segundos: Putz! É mesmo! Mas a música estava terminando e ele colocou outro disco e outra pedrada latino-americana. E continuou lá se divertindo com a nossa “Disco de Calle” dominical.
A tarde foi passando, almocei um ceviche na barraca peruana com o próprio Will, depois fui na Praça das Bikes conversar com o pessoal do Festival de HipHop Kantupac e combinar as paredes liberadas pro grafite do dia 23. Todos vestidos de Fubu. Tudo resolvido com a irmandade, voltei pra Kantuta.
Ajudei o Zeca na confecção das molduras dos “FotoRegalos”. Teve um pai que descobrimos ser um dos fotografados de um outro domingo e preparamos a dele. Na foto, ele estava com sua filha, que a esta altura estava pintando sua girafa. Entreguei o regalo pra ele, ele olhou desconcertado, não conseguiu esconder um sorriso tímido não muito comum e perguntou quanto era. Respondi em portuñol, língua mundial: És un regalo. Regalo és regalo. No tienes que pagar nada! Nessa hora então, o sorriso tímido se tornou um sorrisão! Foi lá, mostrar pra esposa e pra filha, e até a hora de ir embora, ele ficou carregando a foto com cuidado, e às vezes, olhando para ela novamente. Aí, sim, domingão de sol!
O sol foi baixando, fomos desmontando o acampamento, dia tranquilo e valoroso. Tudo certo! Dali, iria para um casamento na Vila Ipojuca, mas fui chamado para escrever um texto sobre a manifestação da direita. E mostrar a material e as fotos da intervenção sobre Hiroshima e Nagasaki. Mudei a rota.
Saimos de lá, eu, Zeca, mais a Rafa e a Corinha, de carro, via waze, pra desviar do trânsito. E o waze nos confrontando, mandando a gente ir pelo caminho, que normalmente, é sempre cheio. Deixamos a Rafa e Cora na Barra Funda, do lado do Teatro São Pedro. Olhei para o teatro, pedi chuva pro São Pedro. Nada de CBF. Depois, continuamos o caminho.
— O que? Ir pela Santa Cecilia, Zeca? Esse waze tá louco!
— O waze não erra, Sato!
E lá fomos nós, nos aproximando da região da Paulista.
— Rui Barbosa tá liberada!
— Então vamos, Zeca! Me deixa na esquina da Brigadeiro.
— Mas não faz esquina…
— Vai pela lateral, à direita, pega a 13 de maio e me deixa na esquina. Segue em frente!
Durante o caminho, falamos sobre o Golpe. Alguns pensadores diziam que o Golpe já tinha sido efetivado. Zeca elencou todos os acontecimentos que a gente lembrava da última semana em Brasília. Fiquei ressabiado. Tudo leva a crer… Bom, chegamos!
Desci na Brigadeiro. Respirei fundo. Será que vou ter que atravessar aquela horda da CBF pra chegar na base dos Jornalistas Livres na Paulista, próximo à Gazeta?
Virei a esquina e a Brigadeiro estava completamente vazia. Eram 6 e pouco, muito cedo, achava eu. Fui subindo. Resolvi contar quantos desavisados da CBF eu encontraria pelo caminho. Eram aproximadamente 500m até a base. Um, dois, três. Primeira coisa que eu pensei. Quatro. Que saco essa porra de camisa amarela, tenho várias que nem uso mais. Cinco. Na minha frente, duas últimas viaturas saem cantando o pneu. Tem que fazer isso na minha orelha? Tudo adola. Tô achando isso. Sete. Todo puliça é adola. E adora coxinha. Oito, Nove, Dez, Onze. Primeira turminha junta. Entrei na Paulista. Um deserto. Ou um oásis, depende do ponto de vista político. Muitos ciclistas. Nenhum vestido de CBF. Vai Haddad! Atravesso o último cruzamento. Doze, Treze, Quatorze, Quinze. Uma família. Coitado do muleque! Torço pra ele ser um adolescente rebelde. Do fundo do meu coração. Olho pra antena da Gazeta. Olho pra porra do prédio da Fiesp. Dezesseis. Vergonha alheia. Dá pra falar pro Skaf que se aquela projeção fosse feita na ditadura, ele iria preso? Ou desapareceria na poeira da história? Só que não, né, minha gente. Ele estaria do outro lado e algum estagiário negro da cota, que trabalhasse no Sesi, seria abatido em seu lugar. Lembro que não tirei foto nenhuma da passeata. Olhei pro chão. Vi um cartaz rasgado com os dizeres: fora comunismo. Os caras rasgam as próprias idéias idiotas que eles próprios têm. Dezessete. Cheguei na portaria do prédio. Subi. Cheguei na base.
Dezessete. Um a menos que os mortos de Osasco. Significa algo? Pode não significar porra nenhuma, mas pode significar também: que nessa cidade se mata mais do que se luta por um ideal frouxo que não nos pertence.
Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa. Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta. O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.
Irã Mall Foto: Eduardo Campos
A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico. Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream. Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.
Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.
Ritual de fogo “Chaharshanbe Suri” Foto: Eduardo Campos
A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.
O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra. Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental. Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões. A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida. Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele. Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa. Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens. A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas. A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos. O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás. O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.
Assassinato de 168 meninas, além do aiatolá Ali Khamenei, no primeiro dia dos bombardeios americanos-sionistas contra o Irã, mobiliza o país persa e engaja as crianças
O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.
Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.
A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.
O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.
Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.
Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.
Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé. Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.
Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres
Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.
Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.
Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.
Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.
Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.
Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.
Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.
*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina