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Estado suicidário, covid-19 e Black Brecht: os planos de emergência do teatro negro

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Black Brecht foi dirigido por Eugênio Lima

por Rosane Borges, especial para os Jornalistas Livres 

Fotos: Cristina Maranhão 

Em tempos de estado suicidário, expressão cunhada por Paul Virillo, onde o investimento se desloca dos meios de produção para os meios de destruição, é preciso “imaginar gestos que barrem o retorno da produção pré-crise do coronavírus”, conforme afirmou em texto recente Bruno Latour, renomado filósofo da ciência.

De acordo com Paul Virillo o que define o fascismo não é o Estado totalitário, mas a noção de Estado suicidário: “a guerra dita total aparece aí menos como empreendimento de um Estado do que de uma máquina de guerra que se apropria do Estado, fazendo passar através dele o fluxo de guerra absoluta que não terá outra saída senão o suicídio do próprio Estado”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Bolsonaro e Paulo Guedes são operadores dessa máquina de guerra, e eles lutam incessantemente contra o país, o Estado e a Nação, já que não a querem perdida. Em meio ao desespero, remasterizam a velha máxima de Hitler: “se a guerra está perdida que pereça a Nação.”

A pandemia da covid-19 reatualiza a guerra que alcança escala inaudita em tempos de globalização, atingindo em um só golpe o planeta (as pandemias anteriores, a gripe espanhola e a peste negra, por exemplo, ocorreram em épocas onde “o mundo era pequeno porque terra era grande, hoje o mundo é muito grande, porque terra é pequena”, como nos ensina poeticamente Gilberto Gil).

Mas uma advertência se impõe: a guerra reatualizada pela pandemia não é necessariamente contra o vírus, até porque tecnicamente não há um exercito, não há invasão do território de um país, não existem dois agentes humanos em combate, não há estratégias. O termo guerra só ganha legitimidade se considerarmos que ela é de outra ordem e segue quase sempre o mesmo curso. É a guerra entre os holofotes do poder, os defensores da globalização financeirizada, e os pequenos vaga-lumes, que lutam por outro mundo, os destituídos de poder. (Holofotes e vaga-lumes integram a linda metáfora do crítico de arte George Didi-Huberman).

Seguindo o fio da argumentação de Latour, talvez estejamos frente a uma oportunidade única de mudança radical do nosso modo de vida. Todas as tentativas de correção de rota, de consolidação de propostas que visam a construção de outros paradigmas, como as enunciadas pelos vaga-lumes, nomeadamente os ecologistas, as feministas, especialmente as mulheres negras, os povos originários, os trabalhadores espoliados,  foram severamente criticadas e bloqueadas sob a justificativa de que o mundo não podia parar, pois o dinheiro que circulava livremente pelo globo na velocidade da luz  tinha que se manter livre sem nenhum bloqueio.

Só que o mundo parou! E se é possível parar o mundo por força de um vírus microscópico, é igualmente possível mudar não apenas as atitudes, mas o enquadre, a moldura que as torna possíveis. Como estamos sentindo na pele, o vírus nos empurra para uma realidade irreversível, árida, mas os desdobramentos dessa realidade podem ter as nossas digitais se concebermos o tempo presente como o tempo da decisão, como bem disse o papa Francisco em seu belo discurso da benção.

É preciso, assim, que se expresse a vontade de revolver o sistema de produção globalizado, de propor outros paradigmas. Trata-se de uma urgência e emergência, visto que ainda são altissonantes as vozes daqueles que aproveitam a ocasião para sepultar o pouco do que restou do Estado de bem-estar social, rasgar a rede de proteção de direitos dos mais vulneráveis e tentar, de todas as formas, se livrar de “gente improdutiva, feia, pobre, inútil que povoa o planeta”.

Costuma-se dizer que as pandemias favorecem momentos efusivos a mudanças. Medo, sobressaltos, angústia paralisante são sentimentos que tipificam a nossa travessia da quarentena, mas nela se vê também brechas, fendas, que nos franqueiam o exercício da imaginação.

E nada mais propício para tal exercício do que a arte, onde se pode desenhar um futuro no presente e, assim, projetar horizontes do possível. O espetáculo “Black Brecht: e se Brecht fosse negro?” é um belo exemplar de como a construção do porvir, em aliança com a experiência do passado e do presente, mostra-se como um plano de emergência inescapável para a ascensão de fundamentos e matrizes quase sempre ignorados, silenciados, subalternizados.

 

 

 

Culturas e artes: a insurreição de corpos em prol de novas matrizes  

O canto fúnebre que se elevou para o campo da cultura e das artes não conseguiu silenciar o coro de múltiplas vozes que laboram para a sobrevida daquilo que os donos do poder, os operadores do Estado suicidário, querem morto ou inerte no nosso país.

Para quem vinha acompanhando a nossa cena cultural no estágio pré-confinamento, sentia lufadas de oxigênio advindas do renascimento do teatro, que se mostrou com extraordinária vitalidade. Sem sombra de dúvidas, as artes cênicas estão no epicentro de transformações estruturais que não apenas resistem às tentativas de embalsamento operadas por um governo que nasce morto, mas, num movimento duplo, põem também em xeque as tradicionais formas de fazer teatro. Pela resistência, persegue-se a instauração do novo.

O pesquisador Luiz Fernando Ramos refere-se à essa renovação assinalando a  febre criativa que vem contagiando grupos de diversas procedências em todas as regiões do Brasil: “o teatro brasileiro perfez um ciclo virtuoso nas duas primeiras décadas do século 21. Os 20 anos de governos social-democratas apoiaram a cultura e as artes, e a cena teatral se fortaleceu, tanto na produção artística como teórica, pelo menos nas universidades públicas. Programas de apoio à criação e pesquisa de longo prazo permitiram que centenas de grupos novos, operando em direções várias, se estabelecessem e passassem a viver de teatro. Experiências proliferaram por todo país, e um novo público passou a frequentá-las.”

Ramos apresenta a diversidade do espectro: nele cabem o Teatro Oficina, o Grupo Vertigem, a Cia. do Latão, a Armazém e a Vértice, o Galpão e encenadores como José Fernando Azevedo, atrizes e diretoras do quilate de Grace Passô. No âmbito da escrita dramática, o pesquisador arrola nomes como Alexandre Dal Farra, Dione Carlos, a dramaturga de Black Brecht: e se Brecht fosse negro?. Menciona ainda, nas artes performáticas, a companhia de dança de Lia Rodrigues e o improviso poético de Roberta Estrela D´Alva.

Não à toa, pinça desse oceano várias gotas da presença negra. O que essa renovação, com participação expressiva de realizadores negros e negras, aporta para o momento presente? Cogito que o teatro negro, em geral, e o espetáculo Black Brecht: e se Brecht fosse negro?, em particular, se constituem numa espécie de laboratório, de incubadora de um futuro em que se barra as experiências que subalternizam as humanidades postas à margem da distribuição da riqueza desse sistema frenético.

A cena teatral negra nos lega um ensinamento precioso para esses tempos: o que é considerado a boa rotina do mundo, realidade imutável sobre a qual não temos ingerência, tal como o levantar do sol, deve ser examinado sob a lente do espanto e da indignação. Faz poucos dias que a Attac France,  associação independente francesa que mobiliza a sociedade por justiça social e ecológica, publicou um texto analítico do mundo pós-epidemia do coronavírus. Neste texto, a associação afirma categoricamente que não devemos desejar um retorno à normalidade, “porque a normalidade neoliberal e produtivista é o problema”.

 

 

 

 

Black Brecht: corporeidades insurgentes que rompem com a normalidade

Em linhas gerais, podemos afirmar que “Black Brecht: e se Brecht fosse negro?” é filho legítimo da profícua renovação posta em destaque por Luis Fernando Ramos. Dirigido por Eugênio Lima e sob a escrita dramatúrgica de Dione Carlos, profissionais de talento descomunal, o espetáculo é uma adaptação livre do julgamento de Luculus, de Bertolt Brecht.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Perante o Supremo Tribunal do Reino das Sombras apresenta-se Luculus Brasilis, o general civilizador, que precisa prestar contas da sua existência na Terra para saber se é digno de adentrar no Reino dos Bem-Aventurados. “Sob a presidência do juiz dos Mortos, cinco jurados participam do julgamento: um professor, uma peixeira, um coveiro, uma ama de leite e um não-nascido. Estão sentados em cadeiras altas, sem mãos para segurar nem bocas para comer, e os olhos há muito apagados. Incorruptíveis.”

As bases conceituais que sustentam o espetáculo repousam nas categorias de afrotopia, afropolitanismo e afrofuturismo, que, juntas, retratam como o futuro foi sempre  subtraído das vidas negras de diversas maneiras (a falta de tratamento adequado para o coronavírus aos habitantes da borda, em sua maioria pessoas negras, é uma delas). Inevitavelmente, ao falar de futuro, Black Brecht retorna ao passado para recolher o que foi deixado para trás, como reza a filosofia africana dos povos Acã.

A pergunta e se Brecht fosse negro? elimina qualquer fragmento de dúvida quanto à força pedagógica do espetáculo em tempo de pandemia. Embora faça uma crítica mordaz, ácida, desestabilizadora, Black Brecht não flerta com a destruição apocalíptica que não abre espaço ao porvir; ao contrário, oferta, generosamente, possibilidades outras manufaturadas pelos condenados da terra, expressão do pensador negro Frantz Fanon, mencionado à mancheia no espetáculo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A escolha do dramaturgo alemão não podia ser melhor. Bertolt Brecht foi um contraponto na ambiência efervescente das vanguardas artísticas, reconhecidas por alimentarem o franco desejo de destruir a instituição arte. Brecht, diferentemente, consegue desenvolver o conceito de refuncionalização para transformar radicalmente, e não destruir, o teatro da burguesia culta. O dramaturgo alemão alcançou o equilíbrio entre a destruição e a adesão, sintetizada nos posicionamentos dos filósofos Theodor Adorno e de Georg Lukács, cravando sua contribuição particular para a dita arte moderna.

A título de lembrete, para Lukács, a arte vanguardista não tinha caráter de protesto, era desprovida de perspectiva histórica, mostrava-se indiferente às forças reais de oposição que se engajavam na superação do capitalismo. Já segundo Adorno, as vanguardas expressavam o protesto radical de oposição à toda e qualquer falsa reconciliação com a arte existente, o que fazia delas,  das vanguardas, a única forma de arte historicamente legítima.

Como se vê, o espetáculo Black Brecht assume as soluções encontradas por Brecht, transformando-as no presente em sua continuidade histórica. Institui-se, assim, como mais um empreendimento da gente negra em prol da refuncionalização da instituição teatro. Mas vai além: mostra-se como um inventário de possibilidades com potência para restituir algumas matrizes políticas e romper com outras.

Recuperando o que diz Bruno Latour, quando postulamos a ideia de que devemos brecar a produção do sistema capitalista pré-crise da pandemia, não se trata de imaginar ingenuamente que passaremos a viver de brisa, mas de “abandonar a produção como o único princípio de relação com o mundo. É antes uma dissolução, do que uma revolução.”

Black Brecht dissolve as cadeias que devemos romper e nos brinda com um futuro em que todos os corpos, por serem humanos, devem importar. Ao ultrapassar o umbral da revolta (contra o extermínio da população negra, ontem e hoje, contra as injustiças raciais, contra as desigualdades sociais…) restitui a humanidade à população negra.

O diretor Eugenio Lima afirma que o espetáculo “é para, por e com a memória de nossos ancestrais. Um grito poético que diz querer a sua matriz de volta”. Esse grito poético se contrapõe à matriz reinante financeirizada, globalista que quer a todo custo manter as suas engrenagens funcionando à custa de corpos que não importam. Por outras matrizes e outros fundamentos, ouçamos as vozes desses corpos insurgentes que ultrapassam as paredes da cena teatral e, se ressoadas no mundo ordinário, promoverão a suspensão da normalidade. Aproveitemos a quarentena para comunicar aos donos do poder que quando o isolamento passar não mais aceitaremos as regras do jogo. Desobedeçamos. É possível, o vírus provou que é.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Quem faz Black Brecht 

Direção: Eugênio Lima
Dramaturgia: Dione Carlos
Intervenção Dramatúrgica: Legítima Defesa
Elenco: Eugênio Lima, Walter Balthazar, Luz Ribeiro, Jhonas Araújo, Palomaris Mathias, Tatiana Rodrigues Ribeiro, Fernando Lufer, Luiz Felipe Lucas, Luan Charles, Marcial Macome e Gilberto Costa.
Produção Executiva: Iramaia Gongora
Direção Musical: Eugênio Lima e Neo Muyanga
Música: Luan Charles, Eugênio Lima, Neo Muyanga, Roberta Estrela D’Alva, Dropê Selva, Suyá Nascimento, Atila F. Silva, Everton Martins, Danilo Rocha, Thiago Bernardes e Pedro Teixeira
Cenário: Renato Bolelli
Iluminação: Matheus Brant
Fotografia: Cristina Maranhão
Vídeointervenção: Bianca Turner
Vídeodocumentário e Filme: Ana Júlia Travia
Trilha do Filme: letra Azagaia, voz Roberta Estrela D’alva, música Eugenio Lima
Figurino: Claudia Schapira

 

 

 

 

 

Rosane Borges é jornalista, pesquisadora do Colabor (ECA-USP), integrante da CORE (Comunidade Reiventando a Educação), autores de diversos livros, entre eles: Espelho infiel: o negro no jornalismo brasileiro (2004), Mídia e racismo (2012) e Esboços de um tempo presente (2016).

E se Black fosse Brecht, Negro seria
Eu derrubo qualquer Eugenia
Palavra Negra é a minha magia 
Dione Carlos, Black Brecht

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2 Comments

2 Comments

  1. Antonio

    10/04/20 at 14:22

    Maravilhoso. Todos necessitam ver essa “reflexâo” que é uma obra de arte, se pela leitura já virei fã, imagina ao vivo!!!

  2. Beatriz Bittencourt Lino

    15/05/20 at 15:31

    Nossa deve ser forte, ao vivo ou assistir mesmo quê em vídeo! Pelo texto e contexto!

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Geral

A satanização do Irã pela mídia ocidental, um processo em desconstrução

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Eduardo Nunes Campos*

Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa.
Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta.
O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.

Irã Mall Foto: Eduardo Campos

A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico.
Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream.
Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.

Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.

Ritual de fogo “Chaharshanbe Suri” Foto: Eduardo Campos

A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.

O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra.
Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental.
Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões.
A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida.
Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele.
Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa.
Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens.
A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas.
A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos.
O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás.
O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.

(*) Jornalista

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Internacional

IRÃ: A GUERRA DAS CRIANÇAS

Irã se prepara para receber 20 milhões de peregrinos nas cerimônias de despedida do aiatolá Khamenei, que se iniciam na próxima sexta-feira (3)

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O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.

Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.

A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.

O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.

Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.

Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.

Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé.  Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.

Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres

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Geral

O caso Mariana Ferrer, por Honoré de Balzac

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

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O caso Mariana Ferrer por Honoré de Balzac

Por Dirce Waltrick do Amarante*

Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.  

Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.

Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.

Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.

Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.  

*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina

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