COVID-19 e a luta de classes

COVID-19
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por Karina Iliescu para os Jornalistas Livres

Mike Davis traça o histórico de pandemias mundiais e recorda de um familiar próximo da COVID-19, a SARS, seus nomes originais são identificados por SARS-Cov-1 (2002) e SARS-Cov-2 (2020). E voltando em 1976, tivemos o Ebola. Davis traz à tona esses vírus como exemplos para entendermos a COVID-19 e seus efeitos.

Apesar de já ter sido sequenciado o genoma, alguns problemas fatais são apresentados por Davis: a desinformação e a falta de kits de testes que resultam na falha dos parâmetros e na falta de dados das mutações e das infecções. O vírus se modifica em diferentes locais e, através da experiência com a gripe espanhola e a H1N1, o resultado do contágio nos mais jovens vai ser radicalmente diferente nos países e grupos mais pobres.

Através da história, Davis relata quais foram os acontecimentos entre diferentes imunológicos (tanto os fortes quanto os fracos), a desnutrição e as infecções existentes das diferentes populações e como o vírus se adapta.

Com anos de cortes na área da saúde nos Estados Unidos, inclusive no governo Trump, uma resposta à COVID-19 que não fosse lenta, seria quase impossível. Davis também analisa outras consequências: “os hospitais se tornaram estufas para superbactérias resistentes a antibióticos, como S. aureus e C. difficile, que podem se tornar grandes assassinos secundários em unidades hospitalares superlotadas”, além dos asilos que foram revelados como “o primeiro epicentro da transmissão comunitária” em alguns subúrbios dos Estados Unidos.

Diante destas questões que só são reconhecidas como emergentes durantes as epidemias, Davis enfatiza a desigualdade social exposta. Quem pode se isolar e trabalhar de home office se salvaguarda e cuida de seus próximos, enquanto milhões de trabalhadores e desempregados vivem a escolha injusta e mortal entre comer e se expor dissipando o contágio à desconhecidos e familiares.

A luta por uma política pública internacional agora se expande durante a atual pandemia em um sistema de globalização capitalista.

Dona Ritalina, empregada doméstica, recentemente desempregada por conta da COVID-19. Ela trabalhou por anos numa casa e para ter a carteira assinada, precisou aprender a escrever. Dona Ritalina passou meses estudando para ter a carteira assinada, mas não conseguiu a tempo com a chegada da pandemia e seu patrão à demitiu sem nenhum benefício. Por ser budista e ter contato com uma comunidade budista, hoje ela recebe cestas básicas dessa comunidade, mas não sabe o que será no dia de amanhã.

POLÍTICA ANTICAPITALISTA EM TEMPOS DE COVID-19

David Harvey analisa o sistema capitalista e como se compõe na teoria e na prática. Na prática, o capital tende a quebrar-se diante da desigualdade social, do crescimento tecnológico constantemente está substituindo e reconfigurando e entre outras mutações inevitáveis. O sistema capitalista produz a sua própria contradição.

Quando Harvey observou o crescente contágio na China, logo viu a crise econômica que estaria por vir. A China, como segunda maior economia do mundo, reflete diretamente nos outros países.

A natureza quando observada, não é possível encontra-la a parte do social, da cultura e da política. É fato que os vírus altamente contagiosos retornaram consequentes à falta de higiene e de como as relações se consolidam em um modelo neoliberal.

Harvey nos traz o entendimento que, apesar da demora ao entender o que de fato acontecia na China, logo vimos uma resposta drasticamente rápida de atendimento à saúde e à contenção do vírus através do isolamento social, muito diferente de países com 40 anos de neoliberalismo. Décadas de cortes na área da saúde e uma indústria farmacêutica que lucra escandalosamente com uma população doente, a resposta será violenta e desregular como o próprio sistema. Principalmente quando a resposta ao contágio é atrasada.

Ao reconhecer que no sistema capitalista o consumo cria a demanda e que sem essa demanda, em tempos de pandemia mundial, Harvey alega que não vai acontecer uma flutuação na economia, e sim uma quebra. Boa parte da economia é abastecida pelo turismo e pelo consumo.

“As companhias aéreas estão perto da falência, os hotéis estão vazios e o desemprego em massa no setor hoteleiro é iminente. Comer fora não é uma boa ideia e os restaurantes e bares fecharam em muitos lugares. Até mesmo entregas a domicílio parece arriscado. O vasto exército de trabalhadores uberizados ou em outras formas de trabalho precário está sendo dispensado sem nenhum meio visível de apoio. Eventos como festivais culturais, torneios de futebol e basquete, concertos, convenções empresariais profissionais, e até reuniões políticas em torno de eleições foram cancelados. Estas formas de ‘consumismo experiencial baseado em ventos’ foram extintas.”

Harvey expõe o que vivem os trabalhadores que estão na linha de frente e que não podem parar pois, inclusive, atendem aqueles que estão em quarentena e/ou doentes. Inclui que existe todo um sistema que é altamente sexista, racializado e etnizado nestes trabalhos geralmente informais e altamente precarizados.

E principalmente neste contexto de pandemia, o aumento de desempregados e assalariados sem benefícios será grande. Por quanto tempo vamos passar por isto?

“As únicas políticas que funcionarão, tanto econômica quanto politicamente, são muito mais socialistas do que qualquer coisa que Bernie Sanders possa propor e esses programas de resgate terão de ser iniciados sob a égide de Donald Trump, presumivelmente sob a máscara do ‘Make America Great Again’”, cita Harvey com ironia ao final de seu texto.

Karen e Kelly aguardam por ônibus no centro de Atibaia, interior de São Paulo, após compras no mercado.

FRANÇA: PELA SOCIALIZAÇÃO DO APARATO DE SAÚDE

Alain Bihr rebate as teses que vinham sendo defendidas contra uma saúde pública de qualidade. As condições insalubres dos trabalhadores, as “junk foods” e a poluição é responsabilidade daqueles que nos governam. Mas quando realizam cortes na saúde pública e os hospitais privados prosperam (com ajuda do próprio governo) eles passam a idéia de que a responsabilidade a todos estes efeitos e o direito a saúde é exclusivamente individual.

Agora, mais do que nunca, Bihr convoca as forças anti-capitalistas, associativas, sindicais e políticas para defender arduamente a saúde pública e de qualidade. Após o chamamento, apresenta 12 propostas a serem defendidas na França referente a saúde pública e que podemos usar como estudo, mesmo tendo um sistema de saúde diferente em diversos aspectos.

COVID-19: A MILITARIZAÇÃO DAS CRISES

Raúl Zibechi analisa o formato de controle da China para conter o vírus e critica todo o método de isolamento e contenção que a China utilizou e traz questões como: E a liberdade das pessoas saudáveis que não podiam sair?

Zibechi compara o isolamento à campos de concentração e insiste que o medo circula maior do que o próprio vírus. Quando Zibechi faz essas comparações, ele tende a ir para uma orientação sobre controle em massa, como se chamasse nossa atenção para possíveis testes de militarização que está por vir.

Na contra-mão dos outros autores, Zibechi nos faz lembrar de um inimigo que nunca sumiu: a desnutrição. E também relembra de outras gripes que matam todos os anos meio milhão de pessoas, mas que não são tratadas com a mesma emergência que a COVID-19.

SOBRE A SITUAÇÃO EPIDÊMICA

Alain Baidou traça o históricos de gripes virais e nos mostra que a pandemia atual não é uma surpresa. O único argumento surpresa é a falta de instrumentos para o combate, justamente por já termos passado por outras pandemias.

Observa as diferentes reações diante a pandemia e expõe com críticas aqueles que se sujeitam à “misticismo, fabulação, oração, profecia e maldição”. A partir daí, começa a revelar as ideias mais simplistas que podem, de fato, resolver alguns problemas.

Primeiro, Baidou coloca como essencial o entendimento científico da atual pandemia, para que, inclusive, derrube as falas racistas de que a culpa é dos chineses.

Segundo, observa o valor econômico do mercado na China e como ele funciona por décadas e traça as contradições deste sistema quando se relaciona ao Estado mundial capitalista.

Após culpar, verdadeiramente, os países pelo total despreparo, relata que o mundo ocidental não esperava que uma crise e um vírus dessa grandeza fosse afeta-los. Ele critica: “muitos provavelmente pensavam que este tipo de coisa era boa para a África negra ou para a China totalitária, mas não para a Europa democrática”.  Recriminando a atitude da França quando o vírus já estava circulando pela China, Baidou nota: “até muito recentemente, assembleias descontroladas e manifestações ruidosas, o que deveria desqualificá-los hoje, sejam eles quem forem, de denunciar em alto e bom som os atrasos das potências em tomar as medidas necessárias para o que estava acontecendo. Verdade seja dita, nenhuma força política na França tomou realmente esta medida perante o Estado Macroniano.”

Por fim, Baidou analisa este momento de isolamento (na sua localização francesa), como uma oportunidade de reconfigurar projetos políticos com uma abertura a um possível comunismo, que devidamente sofra críticas mas que a própria epidemia evidenciará.

“Não demos crédito, mesmo e sobretudo no nosso isolamento, a não ser às verdades controláveis pela ciência e às perspectivas fundadas de uma nova política, das suas experiências localizadas, bem como dos seus objetivos estratégicos.”

Estabelecimento fechado em tempos de quarentena

UM GOLPE COMO O DE “KILL BILL” NO CAPITALISMO

Slavoj Žižek mostra a dualidade entre as ideologias que acreditam em um “novo Chernobyl” e que defendem o capitalismo, e consequentemente, esperam a queda no comunismo chinês. E, por outro lado, uma ideologia muito mais benéfica: a oportunidade de ver, no inevitável golpe ao capitalismo a partir de uma catástrofe, a defesa de uma rede global de saúde pública. Afinal, podemos observar já uma lista de medidas neoliberais que vem sendo destruídas com esta pandemia em curso.

Žižek, apesar do olhar positivo a novos formatos de higiene e solidariedade, também traz uma triste realidade: um vírus real que vai voltar e provavelmente pior. E um outro vírus ainda desconhecido: o vírus virtual que atua através das redes. “As infecções virais atuam lado a lado, tanto na dimensão real como na virtual.”

SOBRE OS AUTORES

MIKE DAVIS é um escritor americano, ativista político, teórico urbano e historiador. Ele é mais conhecido por suas investigações de poder e classe social em sua terra natal no sul da Califórnia.

DAVID HARVEY é um teórico da Geografia britânico formado na Universidade de Cambridge. É professor da City University of New York e trabalha com diversas questões ligadas à geografia urbana. Em 2007 foi classificado como o décimo oitavo teórico vivo mais citado nas ciências humanas.

ALAIN BIHR é um sociólogo francês ligado à corrente do comunismo libertário. Conhecido por seus estudos acerca da extrema-direita francesa, em especial do Front National, é também utor de vários estudos sobre socialismo e o movimento operário e um dos fundadores e editores da revista À Contre Courant.

RAÚL ZIBECHI é jornalista, escritor e pensador-ativista, dedicado ao trabalho com movimentos sociais na América Latina.

ALAIN BADIOU é um filósofo, dramaturgo e novelista francês nascido no Marrocos. É conhecido por sua militância maoísta, por sua defesa do comunismo e do trabalhadores estrangeiros em situação irregular na França.

SLAVOJ ŽIŽEK é um filósofo, professor do Instituto de Sociologia e Filosofia da Universidade de Ljubljana e diretor internacional da Birkbeck, Universidade de Londres.

COMENTÁRIOS

  • Ótima matéria. Expõe bem diversos fatores desta pandemia com relação a sociedade de classes. Irei buscar mais sobre a autora e os escritores citados.

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