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Cloroquina ou tubaína?

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ARTIGO

Mateus Pereira e Valdei Araujo, professores de História na Universidade
Federal de Ouro Preto em Mariana*

Um perigoso processo de desmonte começou pela destruição da autoridade do professor, do historiador, do jornalista, e, agora, atinge a medicina e a saúde pública

 

Quarta-feira, 19, morreram mais de mil pessoas em decorrência da
covid-19. Uma verdadeira catástrofe! Indiferente, ou mesmo para ocultar aos fatos,
Bolsonaro atualizou a disputa entre coxinhas e mortadelas para cloroquinas e
tubaínas. A que ponto chegamos! Como entender o que está por trás dessa nova
agitação presidencial?  

“Você não é obrigado a tomar cloroquina”. E, em seguida, lançou a seguinte piada:
“Quem é de esquerda deveria tomar tubaína e não cloroquina”. Nos últimos dias, os
bolsonaristas têm divulgado diversos vídeos sobre o sucesso do uso da
hidroxicloroquina em um hospital na cidade de Floriano, no Piauí. A ministra
Damares, por exemplo, foi à cidade, no último dia 14, para ver de perto “o milagre
da cloroquina”.
Acreditamos que compreender a fórmula de “sucesso” da Fox News e da
Jovem Pan News pode nos ajudar a entender o chão de realidade no qual está
assentado esse suposto “milagre”, principalmente se considerarmos as últimas
declarações de Trump de que está fazendo uso do medicamento de forma
preventiva contra a Covid-19, bem como o movimento de Bolsonaro para mudar o
protocolo de uso da cloroquina.
Tudo isso tem como uma das consequências o aumento da pressão sobre os
médicos da rede pública para prescrever o remédio. Ao mesmo tempo, ocorre em
um momento em que mais pesquisas demonstram a ineficácia e os riscos da
cloroquina e da hidroxicloroquina no tratamento da covid-19.
Mas, infelizmente, vivemos em um país em que, já faz algum tempo, as
“convicções” valem mais que as provas… Algumas mudanças no interior das mídias
nos ajudam a entender a questão: parte delas, das mídias conservadoras, vivem de
uma cortina de fumaça, do argumento de que tudo tem dois lados, de que basta
apresentar os dois lados para que não haja viés. Mas, ora, os lados podem ser
muito mais que dois e, além disso, nem todo lado tem razão.
É como um estúdio de TV discutir o uso da cloroquina e colocar de um lado
uma autoridade pública de saúde e, de outro, uma subcelebridade do Youtube. Não
é um cenário, digamos assim, que contribui para a formação de opinião, mas
apenas para que cada lado da polarização política reforce suas crenças e desejos.
É este tipo de lógica, cada vez mais hegemônica, que explica o fato, que tem
ficado cada vez mais claro, das autoridades de saúde estarem perdendo o debate
relativo ao uso da cloroquina, apesar de estarem com a razão.

O caso Fox News, com F de fake

A transformação da Fox News em uma máquina de propaganda conservadora, capaz de pautar inclusive o Partido Republicano, tem sido exaustivamente estudada nos Estados Unidos. David Brock, em livro publicado em 2012, já havia descrito com detalhes essa transformação, que na época ele chamou de efeito Fox. Brock estava à frente, na época, da Media Matters for America, instituição cujo objetivo é monitorar as notícias falsas promovidas pela imprensa conservadora. No dia 19, o site trazia uma matéria que constava que o programa predileto de Trump, o Fox & Friends, havia recebido 49 pessoas para discutir o coronavírus nos últimos quatro dias, e apenas um era especialista médico.

Em seu livro, Brock narra a participação de um dos grandes gerentes da Fox
em Washington, Bill Sammon, em seminário organizado em um cruzeiro seis estrelas
da Luxury Liner. Cada casal teria pago entre 50 e 150 mil reais, em valores de hoje,
para participar do evento com influenciadores da direita estadunidense, muitos deles
jornalistas. Em sua fala, o funcionário da Fox revelava como no contexto da eleição
de Barack Obama ele havia conscientemente distorcido um episódio da campanha
para promover a narrativa de que Obama seria um simpatizante do socialismo. Para
uma audiência conservadora, o jornalista admitia que a manipulação dos fatos era
uma atividade regular de seu trabalho na Fox News.
O que torna a questão ainda mais grave é o fato de que não se tratava de um
episódio isolado, mas uma ação coordenada por Roger Ailes, presidente e chefe do
canal Fox desde 1996. Ailes, falecido em 2017, foi uma personalidade do mundo da
comunicação que desde a polêmica eleição de Nixon, em 1968, trabalhou para
diversos presidentes e candidatos do partido republicano. Já nos anos 70 Ailes tinha
como estratégia a criação de falsas notícias ou de formatos de TV que simulavam
programas noticiosos como estratégia de marketing político.
Na última semana da eleição de 2008, Roger Ailes produziu um roteiro a
partir da leitura de uma autobiografia de Obama publicada em 1995. Usando
informações que já eram de conhecimento público, mas que descontextualizadas e
vendidas como furos jornalísticos, funcionavam como propaganda negativa para
atingir a campanha do candidato democrata. Que esse tipo de procedimento seja
feito por publicitários contratados por partidos é algo “normal”, que isso seja
produzido pelo chefe de jornalismo de um canal de TV especializado em jornalismo
indicava uma transformação substantiva nas fronteiras entre a produção da notícia e
a guerra política.
Quando questionada acerca da parcialidade de sua programação, a Fox
afirma que manteria separado o jornalismo dos programas de opinião e comentário.
Naturalmente essa separação não existe quando o próprio diretor geral do canal
coordena uma ação política direta a ser operada por sua equipe de jornalismo. A
vitória de Obama em 2008 foi recebida como um verdadeiro apocalipse por figuras
como Ailes, que a partir de então vão trabalhar para inviabilizar a agenda do
presidente democrata. Entre 2009 e 2011, a quantidade de notícias falsas cuja
origem poderia ser atribuída à Fox News passou de 33% para 54%.
Mesmo alguns republicanos moderados começaram a perceber, antes da
eleição de Trump, que o excesso de polarização que a Fox News produzia nos
eleitores dificultava a negociação no Congresso com os democratas, e se
perguntavam, então, se a Fox News trabalhava para o partido ou se era o partido
que trabalhava para ela. De algum modo, o autor não poderia antecipar a ascensão
de Trump, mas certamente essa autonomização da máquina de propaganda foi
fundamental para quebrar o establishment do partido republicano. No Brasil, o
mesmo poderia ser dito com relação ao PSDB e a direita tradicional com a eleição
de Bolsonaro.

A atualização da Jovem Pan

No contexto norte-americano, a ascensão da Fox News como principal canal de TV a cabo noticioso dos Estados Unidos é um bom exemplo de como um canal de notícias se tornou um partido político.
Como a Jovem Pan atualiza o projeto Fox no Brasil? Isto é, de ser o principal canal por onde as distorções e as mentiras conservadoras fluem para outras mídias? Ainda nos faltam pesquisas para responder ou mesmo dimensionar essa hipótese, mas temos alguns fortes indícios.
A revolução Fox News, que hoje ameaça destruir o jornalismo corporativo, omeçou com um conceito muito simples: o de construir uma rede, com base no sucesso de programas de rádio, com comentaristas conservadores sem nenhum escrúpulo em recorrer à violência e à mentira para atender aos seus objetivos políticos e comerciais. Assim, em primeiro lugar, podemos dizer que a Jovem Pan usou e abusou desse modelo, em especial, no contexto das eleições de 2014 e durante o golpe de 2016.
Em outras palavras, como todos estamos imersos no ambiente noticioso em fluxo, muito daquilo em que acreditamos depende de como esse ambiente tem sido constituído. Assim, se nos Estados Unidos a Fox News se constrói enquanto força política, reagindo ao governo de Barack Obama, no Brasil o fenômeno análogo pode ser identificado na ascensão da Jovem Pan a partir do governo Dilma.
Isso significa que a Jovem Pan transformou o noticiário em entretenimento,
incorporando à sua grade programas como o Pânico, cuja agenda conservadora é
disfarçada em elementos anti-sistêmicos. Compreender a ascensão da Jovem Pan
e o papel que ela tem hoje na produção do universo paralelo do bolsonarismo é
fundamental, ainda mais se considerarmos que ela é a rede de rádio mais ouvida no
Brasil, com maior capilaridade em diversas capitais e no interior, que acabou
promovendo e colocando em sua folha de pagamento jovens e não tão jovens
articulistas da reação conservadora brasileira. Hoje, talvez, seja na Jovem Pan que
os protagonistas do governo bolsonaro, inclusive a facção olavista, encontram a sua
maior válvula de comunicação, sem grande enfrentamento crítico ou qualquer
vestígio de boas práticas jornalísticas.
Em entrevista no portal Brazil Journal, de setembro de 2019, o Tutinha,
Antônio Augusto Amaral de Carvalho Filho, que herdou a empresa (Jovem Pan) de
seu pai, declarava: “Jornalismo é commodity. O que viraliza e gera audiência é
opinião,” “E a gente adora um pauzinho, gente se pegando de porrada”. A matéria
afirma, ainda, que, naquele momento, a rádio era líder de audiência no segmento
matutino, com cerca de 200 mil ouvintes por minuto.
A virada do negócio começou quando introduziram as transmissões das gravações dos programas de rádio para o Youtube, prática que começou com o programa Pânico, em 2002, e depois se expandiu para o show de horrores que são os seus programas, verdadeiros simulacros do ambiente jornalístico com toques de machismo, homofobia e combate ao “politicamente correto”. Uma mistura de
entretenimento e propaganda em que o produto vendido pode ser tanto um
refrigerante quanto as ideias de um charlatão como Olavo de Carvalho.
Na folha de pagamento da Jovem Pan – seguindo o modelo Fox News – se
misturam políticos fantasiados de comentaristas e jornalistas fantasiados de
ideólogos. É considerando esse modelo que já trabalharam para a rádio Reinaldo Azevedo, Marco Antônio Villa, Joice Hasselmann, Rodrigo Constantino, Augusto Nunes, Samy Dana, Caio Coppola, Felipe Moura, dentre outros. Este último foi diretor de jornalismo e apresentador entre 2017 e 2020. O que todos têm em comum é serem ou terem sido ícones da virada conservadora que ajudou a destruir a hegemonia petista na política nacional.
Além disso, os seus programas se tornaram salas de estar para agitadores de direita, como Olavo de Carvalho e a juventude do MBL. Outro dado que os estudos têm mostrado é que a maioria dos “intelectuais de direita” atua muito nas redes sociais, especialmente no Twitter. No entanto, os que possuem mais seguidores são aqueles que também atuam em programas de rádio e/ou TV e, sem dúvida alguma, a Jovem Pan é uma das suas principais vitrines.
Naturalmente, a empresa mantém alguns comentaristas à esquerda do espectro político, como Thaís Oyama, para manter a retórica da imparcialidade e do “dois ladismo”, como se todo e qualquer fato pudesse ser reduzido a isso. Como
argumentamos acima, o “dois ladismo” é uma cortina de fumaça fundamental para
sustentar a credibilidade do universo simulado que ajudam a construir.
Ao apostar na retórica do confronto e da violência, a Jovem Pan segue a
mesma cartilha da Fox News. Claro que o cenário brasileiro de mídia é um pouco
mais pulverizado que o estadunidense, afinal temos a Globo, a Bandeirantes, a
Record e, agora, a CNN Brasil, todos canais com forte presença no noticiário
televisivo e que surfam na segmentação do mercado das notícias que produzem,
mercado esse que é produzido pela polarização política.

 A Jovem Pan lançou, no dia 1º de maio, a plataforma de streaming Panflix, que oferece conteúdo novo e ao vivo todos os dias e que está disponível para download em diversas agregadoras de conteúdo. No último mês (provavelmente devido à pandemia), a audiência aumentou nas plataformas de vídeo: 57 milhões. Recentemente, o grupo fez uma parceria com a Google para veicular, diariamente, notícias sobre o novo coronavírus.
Embora a plataforma só tenha estreado em maio, em 27 de janeiro o
programa Pânico ressurgiu, já no estúdio novo da Jovem Pan, preparado para a
Panflix. O convidado especial não foi ninguém mais ninguém menos que o então
ministro da Justiça, Sérgio Moro. Inclusive, como era de se esperar, a possibilidade
de Moro ser eleito em 2022 foi comentada no programa, ao que Moro respondeu
que apoiaria Bolsonaro, pois, esse sim, tem pretensões à reeleição. Já ele, Moro, é
só um ministro do atual governo e que apoia o seu presidente. Um dos
apresentadores diz que há boatos de que há muitos atritos entre Moro e Bolsonaro, ao
que Moro diz que não, mas ninguém acredita – e, ao fim, Emílio Surita diz que,
independentemente do que cada um quer, “a voz do povo é a voz de Deus”.

O que a trajetória da Fox e da Jovem Pan pode ensinar ao campo progressista?
O que estamos assistindo é a criação de um novo tipo de “jornalismo”, que se alimenta de um discurso “antissistema”, ao denunciar o suposto viés progressista da grande imprensa, e se coloca, assim, como um contrapeso conservador. Mas o problema não é a existência em si de um viés, de certo modo inevitável, nas questões humanas, mas, sim, a licença que a ideia da compensação acaba dando para todo o tipo de falsificação e manipulação das notícias para que se encaixem no universo da polarização política.

A busca pela audiência (ou pelo aumento no númerode seguidores), agora, se sobrepõe à checagem dos fatos, às boas práticas jornalísticas e mesmo à responsabilidade que esses agentes deveriam ter ao propagar informações cujos efeitos massivos são sabidamente nocivos à coletividade. Em síntese, o que queremos dizer é que esse tipo de “jornalismo” abre portas perigosas, como as que estamos assistindo e pela qual passou a ideia de
que basta tomar cloroquina que a pandemia estaria resolvida.
Ao ceder à lógica do entretenimento, dos likes, e da polarização, os canais de
notícias 24 horas se tornaram um dos focos da grande bolha de ignorância
orgulhosa que não para de crescer. Você pode agora simplesmente escolher qual
noticiário, qual jornalista, qual jornal se enquadra no seu gosto pessoal e em suas
crenças, as empresas de jornalismo cedem cada vez mais ao seu desejo, afinal,
você quem as financia, direta ou indiretamente. São essas certezas, estimuladas
por esses noticiários, que alimentam as convicções que fazem com que até os
médicos sejam obrigados, como estão sendo, a receitar remédios sem eficácia para
as pessoas que chegam aos seus consultórios cheias de convicções e de achismos.
Um processo que começou pelo questionamento da autoridade do professor, do
historiador, do jornalista, e que, agora, atinge a medicina e a saúde pública. Talvez
agora a sociedade desperte para os riscos da ignorância e do achismo como
bandeiras políticas.

O que fazer?
Como temos destacado nos últimos artigos, é necessário combater a indústria da desinformação nos seus vários níveis e mídias. Sem dúvida, um dos caminhos passa por apoiar a PL 1429/2020, que pretende Instituir a Lei Brasileira de Liberdade, Responsabilidade e Transparência na Internet. Isso é urgente, pois do presidente aos nossos amigos, sabemos que muitos têm se formado pela internet e pelo show de “notícias” de canais como Fox e Jovem Pan e suas relações espúrias com plataformas e milícias digitais.
Enquanto isso, as redes sociais nos lembram uma fala de Bolsonaro de 2017.
O presidente teria dito a frase enquanto defendia o uso de uma possível “pílula do
câncer”, para a qual ainda não haviam estudos científicos que comprovassem sua
eficácia: “Estive à frente para aprovar a fosfoetanolamina. Cura ou não cura, não
sei. Sou capitão do Exército, a minha especialidade é matar, não é curar
ninguém. Mas apresentei, junto com mais alguns colegas, e aprovamos.”.
Perguntamos ao nosso amigo bolsonarista se ele tomará a cloroquina.
Resposta: “Eu não entendo vocês não, seus malucos comunistas. No início do ano eles
já tinham mandado retirar todas as cloroquinas da farmácia. Eu não sei quantos
artigos existem falando que a cloroquina não dá resultado. Mas, o que eu tenho
visto aqui é que tem mais artigos falando que funciona do que não funciona. Se eu
tivesse doente eu tomaria. Com a maior certeza. Eu não entendo é se pode usar e
em alguns casos funcionaram, por que esses deputados não deixam? Porque a
cloroquina custa 9 reais. Você acha que as grandes empresas farmacêuticas que
estão ganhando com a covid só vão perder. Um remédio de 9 reais para curar uma
pandemia e vocês não querem! Vocês, todo mundo, é manipulado pelas grandes
empresas. Tem gente que sarou com isso. Não funciona para quem não toma. Se
seu filho precisasse você não usaria? Ainda mais que tem um artigo que mostra que
pode funcionar. Vai ficar esperando cair do céu uma coisa que não existe? Fica
esperto. Contra o quê vocês estão lutando?”
Ele mandou também um vídeo contra a indústria farmacêutica, estrelado por
uma ativista norte-americana anti-vacina, Judy Mikovitz. Ele ainda afirmou: “Você
sabe quantas pessoas estão morrendo de outras coisas e os hospitais falam que é
para ganhar dinheiro?”
Enfim, por que a cloroquina é tão importante para Trump e Bolsonaro?
Para começar, é preciso deixar registrado que eles são os líderes de dois dos
três países mais infectados do mundo. Parte da resposta passa por entender a
penetração de canais como Fox News e a Jovem Pan. Nestes dois grandes países
seus líderes divergiram da OMS e de suas próprias autoridades de saúde, ainda
assim continuam no poder de forma mais ou menos estável e, se não estáveis,
apoiados por pelo menos um terço de sua população.
É um escândalo, mas é a realidade. E sabemos, não podemos confundir o
desejo com o diagnóstico. Há interesses comerciais na questão da cloroquina, bem
como perversidade em fazer pessoas voltarem a trabalhar, seguras de que há uma
cura, e morrerem em casa para demorarem a entrar nas estatísticas (se entrarem).
O “milagre da cloroquina” é, antes de tudo, uma fake news, uma simulação eficaz da
realidade, mais do que uma simples mentira. Essas simulações atendem a diversas
demandas e desejos, afinal, quem não quer uma cura milagrosa? Mas sua
exploração política tem como objetivo manter o auditório agitado e ativo, isto é,
garantir que a “pequena maioria” que dá suporte a esses genocidas permaneça
entretida e consumindo. O filho mais novo de Bolsonaro aguarda a sua boquinha na
próxima eleição.
A cloroquina é, assim, uma triste metáfora de como o regime de verdade, que sustentava as democracias liberais, está profundamente comprometido em países como o Brasil e os Estados Unidos. E, certamente, a trajetória da Fox News e da Jovem Pan são parte desse processo de erosão, que é bem mais complexo, como temos explorado aqui neste espaço.
A produção incessante de notícias tornou-se a mais importante fonte de poder político, mais relevante que partidos e outros sujeitos tradicionais. E o universo paralelo da simulação da notícia, o que se tem chamado de modo um tanto simplista de fake news, como arma política, com seus agentes e estruturas, é o fato mais relevante para compreendermos esse momento de pandemia que vivemos. Bolsonaro e Trump são os parasitas que em simbiose se alimentam e são alimentados por esses universos paralelos.
Ao reforçar a sensação de urgência, a pandemia acaba por aprofundar certos aspectos do atualismo, a pressa e a desconfiança com tudo e todos. Assim, por que confiar em seu médico ou nas autoridades de saúde? A verdade, como parece sugerir nosso amigo bolsonarista, agora só pode ser medida pela quantidade de atualização do artigos.
Ontem, dia 20, pela manhã, nos deparamos com uma grande reportagem do
The New York Times com o título “Como o filme Plandemic e suas falsificações se
espalharam on line amplamente”. Trata-se de uma bela investigação de como as
redes sociais e setores da mídia promoveram mais uma vez um ataque orquestrado
à verdade. A matéria registra o esforço de algumas plataformas para banir o vídeo
e de diversos grupos para produzir contra-vídeos refutando as mentiras exploradas
no falso documentário.
Mas como podemos constatar pelos comentários de ontem de nosso amigo
bolsonarista, Plandemic já está sendo tratado como a mais real das verdades nas
suas bolhas e sendo acoplado a novas narrativas que dão sentido aos multiversos
conspiracionais. Em uma pesquisa ontem cedo no Youtube, apesar de haver
realmente diversos vídeos refutando Plandemic, e de ele não estar mais disponível,
o primeiro vídeo que o Youtube nos mostrou foi a live de um youtuber inglês que
estava a caminho de uma entrevista com a controversa médica do documentário,
prometendo refutar todos os argumentos da mídia tradicional. Ou seja, hoje você
pode escolher viver no universo paralelo, agitado e divertido da cloroquina, ou
enfrentar a realidade dura e assustadora da tubaína. Qual pílula vai tomar? A
pergunta, inspirada no universo do filme Matrix, também já foi corroída pela
guerrilha digital. A Matrix é sempre a realidade do outro. Assim, na noite da selva
digital, todas as pílulas são cinzas.

Fonte: The New York Times
(*) Autores do livro Atualismo 1.0: como a ideia de atualização mudou o
século XXI e organizadores de Do Fake ao Fato: (des)atualizando
Bolsonaro, com Bruna Klem.

Esse artigo contou com a colaboração de Mayra Marques, doutoranda em
História pela UFOP

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1 Comment

1 Comment

  1. Arnaldo

    22/05/20 at 14:31

    Excelente explanação, seria muito bom se mais pessoas tivessem acesso as informações e conhecimento de como desvendar as muitas fake news.

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Geral

A satanização do Irã pela mídia ocidental, um processo em desconstrução

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Eduardo Nunes Campos*

Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa.
Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta.
O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.

Irã Mall Foto: Eduardo Campos

A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico.
Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream.
Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.

Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.

Ritual de fogo “Chaharshanbe Suri” Foto: Eduardo Campos

A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.

O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra.
Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental.
Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões.
A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida.
Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele.
Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa.
Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens.
A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas.
A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos.
O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás.
O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.

(*) Jornalista

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Internacional

IRÃ: A GUERRA DAS CRIANÇAS

Irã se prepara para receber 20 milhões de peregrinos nas cerimônias de despedida do aiatolá Khamenei, que se iniciam na próxima sexta-feira (3)

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O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.

Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.

A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.

O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.

Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.

Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.

Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé.  Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.

Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres

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O caso Mariana Ferrer, por Honoré de Balzac

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

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O caso Mariana Ferrer por Honoré de Balzac

Por Dirce Waltrick do Amarante*

Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.  

Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.

Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.

Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.

Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.  

*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina

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