A saída de Moro dividiu, mas o vício em fake news reunirá o enxame bolsonarista

 

ARTIGO

Mateus Pereira e Valdei Araujo, professores de História na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), em Mariana

Na conversa de Whatsapp entre Moro e Bolsonaro, mostrada pelo próprio
ex-juiz, lemos que o presidente utilizou o inquérito das fakes news no STF para
justificar a troca no comando da Polícia Federal. Ora, por que Bolsonaro está
preocupado com o inquérito das fakes news no STF? Certamente não é apenas pelo
fato de as investigações estarem se aproximando de seu filho, Carlos. Os desdobramentos do inquérito podem enfraquecer uma das estruturas que mais sustentam o bolsonarismo.
Vejamos.
As fake news se alimentam de um discurso do “contra tudo o que está aí” que
tem muitas causas, como o desgaste produzido pelos achismos impulsionados pela
cultura do like e do comentário online, até a baixa confiança que há muito tempo vem
desgastando o papel das mídias e de outras instituições democráticas, como a política
institucional e mesmo a ciência. A pandemia tem sido um alerta para o risco que a
banalização do desmonte de toda e qualquer autoridade pode trazer. Assistir os
populistas, como Bolsonaro e Trump, desafiando abertamente a ciência e as verdades
mais bem estabelecidas e, ainda assim, serem ouvidos, deixou de ser apenas curioso
para se tornar uma ameaça à nossa existência.
A desconstrução da ciência pelo novo populismo assenta em teorias
conspiratórias nas quais uma suposta verdade real teria sido ocultada por estruturas de
poder. Assim, agendas como o revisionismo da ditadura militar, o movimento
anti-vacina, a denúncia da indústria da multa, a invenção da ideologia de gênero nas
escolas, o ensino domiciliar e a crença na Terra plana são quase sempre acompanhadas
de uma pseudo-ciência, de pseudos ou quase-cientistas, bem como de estratégias de
desinformação e mobilização identitária e emocional.
O negacionismo bolsonarista não admite seu aspecto irracional ou anticientífico.
Ao contrário, alimenta as expectativas de que uma ciência verdadeira legitima suas
narrativas e delírios. E sempre haverá uma pseudo-autoridade para dar um verniz de
ciência à mais absurda das teorias. Quando já não podem sustentar suas farsas, os
bolsonaristas recorrem ao argumento da liberdade de expressão, sempre a partir de um
entendimento tão falso e deturpado quanto o de suas pseudo-teorias. Liberdade de
expressão torna-se, então, direito à impunidade e a opinião um mero achismo.
Vale ressaltar que opinião é um juízo que resulta de um processo de
conhecimento que envolve ações como ler e ouvir pessoas qualificadas; já o achismo é
o livre exercício da ignorância individual sem qualquer compromisso com a realidade.
Mas, como separar o joio do trigo ou, no nosso caso, a notícia da falsa notícia?
Como convencer um apoiador de Bolsonaro que o colapso da saúde em Manaus
realmente existe? Em muitos casos, só o fato da notícia sobre as mortes em Manaus ser
veiculada pelo Jornal Nacional faz com que perca credibilidade ou se torne uma verdade
inconveniente a ser ocultada. Esses comportamentos nos mostram pelo menos dois
aspectos a serem considerados: o das pessoas que são enganadas e o das pessoas que
querem se enganar, pois consideram as notícias não apenas um elemento para formar
opinião e decidir, mas uma arma na briga de torcidas que se tornou a política em tempos
de polarização.
Assim, aqueles que se informam pelo Jornal da Record ou pelo Jornal Nacional
estão cada vez menos interessados na realidade e mais em como usá-la para fortalecer
suas identidades e crenças. Afinal, os mesmos fatos dão lugar a climas e narrativas
muito distintas em cada emissora de TV a depender das ênfases, de como o noticiário é
editado e dos comportamentos dos âncoras e comentaristas.
A tendência ao achismo disfarçado de jornalismo, muito piorado com a expansão
dos canais de notícias 24h, também contribuiu para a confusão generalizada. A notícia
tornou-se um entretenimento que mais reforça convicções do que forma opinião. A
desconfiança fanática da autoridade vem disfarçada por uma retórica que simula o
pensamento crítico. Todos “sabem” agora que os interesses da Rede Globo afetam a
forma como seus telejornais noticiam, mas essa “crença” substitui qualquer esforço de
análise individual do que é noticiado. Um juízo que inicialmente até poderia ser crítico,
torna-se um dogma.
Além disso, o comentário, em tempo real, em canais do Youtube que replicam
ao vivo a programação dos noticiários promovem uma verdadeira guerra de guerrilha
atualista. A matéria jornalística é desconstruída antes mesmo que seja concluída, como
podemos ver na imagem abaixo, retirada da seção de comentários ao Jornal Nacional do
dia 24 de abril em um canal do Youtube, dia da demissão de Sérgio Moro.

Cada indivíduo é hoje uma ilha cercada de telas por todos os lados. Os
transtornos psicológicos causados pelas ondas de atualizações que chegam sem parar
em nossas telas têm nome e siglas: SIF e FOMO. E todas elas se relacionam a uma
espécie de “infoxicação”, isto é, ao medo de estar perdendo algo, de não estar
atualizado, de ficar por fora. É esse medo que leva as pessoas a checar suas redes sociais
compulsivamente em busca de atualizações, o que cria uma sensação de urgência e
impede a escolha e a seleção do que deveria ser relevante.
A popularização recente da palavra atualizar mostra o quanto estamos diante de
um fenômeno novo. É somente entre as décadas de 1960 e 1970 que as ocorrências da
palavra, em inglês (Update) e em português (atualização) se multiplicam e o uso
associado à cultura do computador começa a definir melhor o seu sentido. Desde então,
a ideia de atualizar passou a ser uma espécie de remédio para todos os males e
preocupação. Quanto mais aceleramos o processo comunicativo maior é nossa demanda
por estar atualizado. Daí, surge o desejo por um “tempo real” da total transparência, do
total acesso às coisas e aos indivíduos.
Antes da Internet era comum as pessoas passarem o dia inteiro sem falar ou
saber das notícias de quem saía para trabalhar, por exemplo. Famílias ficavam meses e
anos sem ter notícias de seus parentes distantes. Hoje, a ideia de não falar ou saber de
alguém no momento mesmo em que se deseja é insuportável.
Queremos estar 100% atualizados acerca de quem nos interessa, somos atuais
em um sentido completamente novo. Mas essa atualização tem seu preço, significa ter
milhares ou mesmo milhões de pessoas te cancelando no Twitter por uma frase que
você acabou de postar-pensar; e sabemos que o intervalo entre o pensar e o postar é
cada vez menor.
Um sonho atualista é viver em um tempo em que não haja distância entre a ação
e sua comunicação/integração a um sistema. É estar sempre em estado presente, o que significa que as ações passadas continuariam disponíveis sem que fosse preciso decidir sobre sua relevância e recuperação. Talvez por isso as transmissões ao vivo – chamadas de lives – vêm fazendo tanto sucesso. Enquanto você assiste a um programa “ao vivo” pode ficar focado em um único fluxo atualizado de informações, isso antes de lembrar de todas as outras coisas que continuam a acontecer enquanto você está entretido.

No Instagram a gravação das lives ficam disponíveis por algumas horas apenas, depois se esvaem como qualquer conversa presencial, sem deixar registro além da memória viva e móvel dos que a viveram. Em outros canais as gravações permanecem indefinidamente, acumulando uma multidão zumbi – não seria esse o nome para uma live que já não está ao vivo? O cinema não imaginou que o apocalipse zumbi pudesse vir na forma de uma pandemia de infoxicação.
O sonho atualista torna-se pesadelo quando esse fluxo incessante é marcado pelo
ressurgir constante de apreciações opostas e contraditórias, como o atual conflito Moro e Bolsonaro ilustram tão bem. É, também, o que sentimos em uma disputa de hashtags no Twitter em um dia de noticiário relevante, ou com a gritaria dos youtubers pró-governo tentando chamar nossa atenção. Quantos tuítes preciso postar ou retuitar para mudar a opinião de alguém? Quero dialogar ou silenciar? Quero informar ou infoxicar meu oponente?
O ativista virtual pode ser comparado com um viciado. Ao que parece, essa
experiência é análoga à maratona de séries nos canais como Netflix, com a diferença de que as as temporadas e os episódios de ativismo são intermináveis. A cada dia ogabinete do ódio oferece novas missões para sua base, e como a identidade é mais
emocional que ideológica, fica fácil tornar um antigo aliado no mais terrível oponente,
um campeão do liberalismo em um comunista, um tucano em petista. Como nos
desenhos animados, nenhuma lei natural parece limitar a realidade desse universo
paralelo.
Nessa direção, asfixiar as ciências humanas é também um objetivo. Só assim se
pode entender, por exemplo, sua exclusão do último edital do CNPq para bolsas de
iniciação científica. Quanto menos capazes de criticar e formar opinião através da
leitura e recepção inteligente das mídias, mais as pessoas vão se ancorar no achismo e
no conforto do rebanho. Nossos avós chamavam isso de “maria vai com as outras”. Por
preguiça ou incapacidade de formar sua opinião, a pessoa aceita como sendo sua os
julgamentos de alguém que está mais próximo. Em um mundo cada vez mais solitário,
este alguém mais próximo deixou de ser um ente amado ou sua comunidade e passou a
ser o grupo do WhatsApp, a celebridade digital e as novas igrejas que funcionam como
conglomerados de mídia.
Apesar das últimas pesquisas apontarem certa divisão na direita, ainda é difícil
saber o quanto da base que rachou, para apoiar o Sérgio Moro, resistirá ao afastamento
do enxame ou da manada bolsonarista. Como esses viciados ficarão sem produzir e
destilar o ódio que dá sentido a suas vidas e realidade? A nova direita alinhada com
Moro conseguirá criar seu próprio universo sem o apoio unânime da grande mídia ou da
máquina de mentira bolsonarista? Talvez a judicialização da questão ditará os rumos
desta disputa. Ainda mais se o impedimento do presidente por crime comum via STF
caminhar. Enquanto isso, teorias da conspiração e fake news crescem sem freios.

E o que fazer?

Parte da solução passaria por mais investimentos em instituições e sujeitos capazes de promover uma atualização responsável das crenças socialmente
relevantes a fim de quebrar as máquinas de fake news. No lugar de menos, precisamos
de mais profissionais das humanidades capazes de assumir o papel de curadores desse
fluxo incessante de conteúdo produzido em tempo real. Esses novos profissionais
trabalhariam ao lado dos especialistas em informática para propor soluções digitais mais
responsáveis e eficientes no tratamento da infodemia.
Uma maior regulação das grandes empresas do capitalismo de vigilância como
Google, Amazon, Facebook etc, também é urgente. A quebra de seus monopólios, a
imposição de limites ao uso de dados pessoais, são ações estruturantes que poderiam
mudar este cenário.
De todo modo, uma coisa é certa: as fake news bolsonaristas foram e serão
responsáveis por muitas mortes durante a pandemia no Brasil, em especial, porque
estimularam o afrouxamento da quarentena. Além disso, a política oficial de
subnotificação também tem como objetivo manter essa máquina de guerra em pleno
funcionamento para tentar responsabilizar o STF, os municípios e os estados pelos erros
do próprio governo federal, enquanto o presidente posa de guardião dos empregos e da
economia.
Ou seja, Bolsonaro e os bolsonaristas têm razão para estar preocupados e irados,
como fica claro nas agressões constantes à imprensa.

Enquanto isso, “Chora a nossa pátria, mãe gentil/ Choram Marias e Clarices no
solo do Brasil”. Fiquem em casa.

 

Esse artigo foi elaborado com a pesquisa e colaboração de Mayra Marques, doutoranda
em História pela UFOP.

 

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

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