Mateus Pereira e Valdei Araujo, professores de História na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), em Mariana
Na conversa de Whatsapp entre Moro e Bolsonaro, mostrada pelo próprio ex-juiz, lemos que o presidente utilizou o inquérito das fakes news no STF para justificar a troca no comando da Polícia Federal. Ora, por que Bolsonaro está preocupado com o inquérito das fakes news no STF? Certamente não é apenas pelo fato de as investigações estarem se aproximando de seu filho, Carlos. Os desdobramentos do inquérito podem enfraquecer uma das estruturas que mais sustentam o bolsonarismo. Vejamos. As fake news se alimentam de um discurso do “contra tudo o que está aí” que tem muitas causas, como o desgaste produzido pelos achismos impulsionados pela cultura do like e do comentário online, até a baixa confiança que há muito tempo vem desgastando o papel das mídias e de outras instituições democráticas, como a política institucional e mesmo a ciência. A pandemia tem sido um alerta para o risco que a banalização do desmonte de toda e qualquer autoridade pode trazer. Assistir os populistas, como Bolsonaro e Trump, desafiando abertamente a ciência e as verdades mais bem estabelecidas e, ainda assim, serem ouvidos, deixou de ser apenas curioso para se tornar uma ameaça à nossa existência. A desconstrução da ciência pelo novo populismo assenta em teorias conspiratórias nas quais uma suposta verdade real teria sido ocultada por estruturas de poder. Assim, agendas como o revisionismo da ditadura militar, o movimento anti-vacina, a denúncia da indústria da multa, a invenção da ideologia de gênero nas escolas, o ensino domiciliar e a crença na Terra plana são quase sempre acompanhadas de uma pseudo-ciência, de pseudos ou quase-cientistas, bem como de estratégias de desinformação e mobilização identitária e emocional. O negacionismo bolsonarista não admite seu aspecto irracional ou anticientífico. Ao contrário, alimenta as expectativas de que uma ciência verdadeira legitima suas narrativas e delírios. E sempre haverá uma pseudo-autoridade para dar um verniz de ciência à mais absurda das teorias. Quando já não podem sustentar suas farsas, os bolsonaristas recorrem ao argumento da liberdade de expressão, sempre a partir de um entendimento tão falso e deturpado quanto o de suas pseudo-teorias. Liberdade de expressão torna-se, então, direito à impunidade e a opinião um mero achismo. Vale ressaltar que opinião é um juízo que resulta de um processo de conhecimento que envolve ações como ler e ouvir pessoas qualificadas; já o achismo é o livre exercício da ignorância individual sem qualquer compromisso com a realidade. Mas, como separar o joio do trigo ou, no nosso caso, a notícia da falsa notícia? Como convencer um apoiador de Bolsonaro que o colapso da saúde em Manaus realmente existe? Em muitos casos, só o fato da notícia sobre as mortes em Manaus ser veiculada pelo Jornal Nacional faz com que perca credibilidade ou se torne uma verdade inconveniente a ser ocultada. Esses comportamentos nos mostram pelo menos dois aspectos a serem considerados: o das pessoas que são enganadas e o das pessoas que querem se enganar, pois consideram as notícias não apenas um elemento para formar opinião e decidir, mas uma arma na briga de torcidas que se tornou a política em tempos de polarização. Assim, aqueles que se informam pelo Jornal da Record ou pelo Jornal Nacional estão cada vez menos interessados na realidade e mais em como usá-la para fortalecer suas identidades e crenças. Afinal, os mesmos fatos dão lugar a climas e narrativas muito distintas em cada emissora de TV a depender das ênfases, de como o noticiário é editado e dos comportamentos dos âncoras e comentaristas. A tendência ao achismo disfarçado de jornalismo, muito piorado com a expansão dos canais de notícias 24h, também contribuiu para a confusão generalizada. A notícia tornou-se um entretenimento que mais reforça convicções do que forma opinião.A desconfiança fanática da autoridade vem disfarçada por uma retórica que simula o pensamento crítico. Todos “sabem” agora que os interesses da Rede Globo afetam a forma como seus telejornais noticiam, mas essa “crença” substitui qualquer esforço de análise individual do que é noticiado. Um juízo que inicialmente até poderia ser crítico, torna-se um dogma. Além disso, o comentário, em tempo real, em canais do Youtube que replicam ao vivo a programação dos noticiários promovem uma verdadeira guerra de guerrilha atualista. A matéria jornalística é desconstruída antes mesmo que seja concluída, como podemos ver na imagem abaixo, retirada da seção de comentários ao Jornal Nacional do dia 24 de abril em um canal do Youtube, dia da demissão de Sérgio Moro.
Cada indivíduo é hoje uma ilha cercada de telas por todos os lados. Os transtornos psicológicos causados pelas ondas de atualizações que chegam sem parar em nossas telas têm nome e siglas: SIF e FOMO. E todas elas se relacionam a uma espécie de “infoxicação”, isto é, ao medo de estar perdendo algo, de não estar atualizado, de ficar por fora. É esse medo que leva as pessoas a checar suas redes sociais compulsivamente em busca de atualizações, o que cria uma sensação de urgência e impede a escolha e a seleção do que deveria ser relevante. A popularização recente da palavra atualizar mostra o quanto estamos diante de um fenômeno novo. É somente entre as décadas de 1960 e 1970 que as ocorrências da palavra, em inglês (Update) e em português (atualização) se multiplicam e o uso associado à cultura do computador começa a definir melhor o seu sentido. Desde então, a ideia de atualizar passou a ser uma espécie de remédio para todos os males e preocupação. Quanto mais aceleramos o processo comunicativo maior é nossa demanda por estar atualizado. Daí, surge o desejo por um “tempo real” da total transparência, do total acesso às coisas e aos indivíduos. Antes da Internet era comum as pessoas passarem o dia inteiro sem falar ou saber das notícias de quem saía para trabalhar, por exemplo. Famílias ficavam meses e anos sem ter notícias de seus parentes distantes. Hoje, a ideia de não falar ou saber de alguém no momento mesmo em que se deseja é insuportável. Queremos estar 100% atualizados acerca de quem nos interessa, somos atuais em um sentido completamente novo. Mas essa atualização tem seu preço, significa ter milhares ou mesmo milhões de pessoas te cancelando no Twitter por uma frase que você acabou de postar-pensar; e sabemos que o intervalo entre o pensar e o postar é cada vez menor. Um sonho atualista é viver em um tempo em que não haja distância entre a ação e sua comunicação/integração a um sistema. É estar sempre em estado presente, o que significa que as ações passadas continuariam disponíveis sem que fosse preciso decidir sobre sua relevância e recuperação. Talvez por isso as transmissões ao vivo – chamadas de lives – vêm fazendo tanto sucesso. Enquanto você assiste a um programa “ao vivo” pode ficar focado em um único fluxo atualizado de informações, isso antes de lembrar de todas as outras coisas que continuam a acontecer enquanto você está entretido.
No Instagram a gravação das lives ficam disponíveis por algumas horas apenas, depois se esvaem como qualquer conversa presencial, sem deixar registro além da memória viva e móvel dos que a viveram. Em outros canais as gravações permanecem indefinidamente, acumulando uma multidão zumbi – não seria esse o nome para uma live que já não está ao vivo? O cinema não imaginou que o apocalipse zumbi pudesse vir na forma de uma pandemia de infoxicação. O sonho atualista torna-se pesadelo quando esse fluxo incessante é marcado pelo ressurgir constante de apreciações opostas e contraditórias, como o atual conflito Moro e Bolsonaro ilustram tão bem. É, também, o que sentimos em uma disputa de hashtags no Twitter em um dia de noticiário relevante, ou com a gritaria dos youtubers pró-governo tentando chamar nossa atenção. Quantos tuítes preciso postar ou retuitar para mudar a opinião de alguém? Quero dialogar ou silenciar? Quero informar ou infoxicar meu oponente? O ativista virtual pode ser comparado com um viciado. Ao que parece, essa experiência é análoga à maratona de séries nos canais como Netflix, com a diferença de que as as temporadas e os episódios de ativismo são intermináveis. A cada dia ogabinete do ódio oferece novas missões para sua base, e como a identidade é mais emocional que ideológica, fica fácil tornar um antigo aliado no mais terrível oponente, um campeão do liberalismo em um comunista, um tucano em petista. Como nos desenhos animados, nenhuma lei natural parece limitar a realidade desse universo paralelo. Nessa direção, asfixiar as ciências humanas é também um objetivo. Só assim se pode entender, por exemplo, sua exclusão do último edital do CNPq para bolsas de iniciação científica. Quanto menos capazes de criticar e formar opinião através da leitura e recepção inteligente das mídias, mais as pessoas vão se ancorar no achismo e no conforto do rebanho. Nossos avós chamavam isso de “maria vai com as outras”. Por preguiça ou incapacidade de formar sua opinião, a pessoa aceita como sendo sua os julgamentos de alguém que está mais próximo. Em um mundo cada vez mais solitário, este alguém mais próximo deixou de ser um ente amado ou sua comunidade e passou a ser o grupo do WhatsApp, a celebridade digital e as novas igrejas que funcionam como conglomerados de mídia. Apesar das últimas pesquisas apontarem certa divisão na direita, ainda é difícil saber o quanto da base que rachou, para apoiar o Sérgio Moro, resistirá ao afastamento do enxame ou da manada bolsonarista. Como esses viciados ficarão sem produzir e destilar o ódio que dá sentido a suas vidas e realidade? A nova direita alinhada com Moro conseguirá criar seu próprio universo sem o apoio unânime da grande mídia ou da máquina de mentira bolsonarista? Talvez a judicialização da questão ditará os rumos desta disputa. Ainda mais se o impedimento do presidente por crime comum via STF caminhar. Enquanto isso, teorias da conspiração e fake news crescem sem freios.
E o que fazer?
Parte da solução passaria por mais investimentos em instituições e sujeitos capazes de promover uma atualização responsável das crenças socialmente relevantes a fim de quebrar as máquinas de fake news. No lugar de menos, precisamos de mais profissionais das humanidades capazes de assumir o papel de curadores desse fluxo incessante de conteúdo produzido em tempo real. Esses novos profissionais trabalhariam ao lado dos especialistas em informática para propor soluções digitais mais responsáveis e eficientes no tratamento da infodemia. Uma maior regulação das grandes empresas do capitalismo de vigilância como Google, Amazon, Facebook etc, também é urgente. A quebra de seus monopólios, a imposição de limites ao uso de dados pessoais, são ações estruturantes que poderiam mudar este cenário. De todo modo, uma coisa é certa: as fake news bolsonaristas foram e serão responsáveis por muitas mortes durante a pandemia no Brasil, em especial, porque estimularam o afrouxamento da quarentena. Além disso, a política oficial de subnotificação também tem como objetivo manter essa máquina de guerra em pleno funcionamento para tentar responsabilizar o STF, os municípios e os estados pelos erros do próprio governo federal, enquanto o presidente posa de guardião dos empregos e da economia. Ou seja, Bolsonaro e os bolsonaristas têm razão para estar preocupados e irados, como fica claro nas agressões constantes à imprensa.
Enquanto isso, “Chora a nossa pátria, mãe gentil/ Choram Marias e Clarices no solo do Brasil”. Fiquem em casa.
Esse artigo foi elaborado com a pesquisa e colaboração de Mayra Marques, doutoranda em História pela UFOP.
Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa. Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta. O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.
Irã Mall Foto: Eduardo Campos
A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico. Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream. Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.
Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.
Ritual de fogo “Chaharshanbe Suri” Foto: Eduardo Campos
A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.
O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra. Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental. Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões. A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida. Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele. Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa. Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens. A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas. A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos. O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás. O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.
Assassinato de 168 meninas, além do aiatolá Ali Khamenei, no primeiro dia dos bombardeios americanos-sionistas contra o Irã, mobiliza o país persa e engaja as crianças
O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.
Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.
A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.
O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.
Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.
Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.
Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé. Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.
Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres
Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.
Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.
Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.
Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.
Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.
Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.
Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.
*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina