Conecte-se conosco

“A periferia não pode surtar. E a gente sabe que está ao Deus dará”

Publicadoo

em

Ane Sarinara, de 31 anos, professora de história da rede pública e moradora da periferia de Osasco: "as políticas públicas chegam por último aqui, a ficha ainda não caiu para muitos moradores e para milhares não há como deixar de ganhar o sustento" (Foto: Acervo pessoal)

Com reportagem de Isabela Alves, especial para o blog MULHERIAS 

A chegada do coronavírus no Brasil escancarou as várias faces da nossa desigualdade. A primeira geração de casos no país é, em geral, na classe média e alta, de pacientes que viajaram para a Europa. A segunda, não por acaso, é dos empregados do entorno dessa classe social – o que evidencia a construção histórica do trabalho escravizado da população negra e pobre que permanece em constante estado de emergência e precariedade de direitos.

Até as orientações mais importantes dos especialistas em saúde pública para evitar o contágio do vírus – como higienizar as mãos com álcool gel, ficar em casa e evitar locais aglomerados – não levam em consideração as condições sociais de uma imensa parcela da população brasileira. Será que todas as famílias podem comprar álcool gel? Podem parar de trabalhar? Ter rendimentos em isolamento em casa? Com quem deixar os filhos fora da escola e sem merenda?

O blog MULHERIAS entrevistou sete mulheres das quebradas para alertar as autoridades que vivemos num país que, no fundo, é uma gigantesca periferia cercada por pequenas ilhas de prosperidade e precisa, no mínimo, ser atendida em suas peculiaridades. E não se trata de nada extraordinário! É unânime entre as entrevistadas a necessidade de o poder público oferecer kits gratuitos de álcool gel, máscaras e acesso à alimentação, por exemplo. Tão óbvio, também, é o fato de a crise sanitária refletir o descaso com a população mais vulnerável do país.

Elas mostram a real na periferia 

“Estamos ao Deus dará”, resume a professora da periferia Ane, uma das entrevistadas de Osasco, na Grande São Paulo. Já Gisele, trancista de cabelos e cuidadora de idosos recém-demitida do interior do estado, compartilha a angústia de manter dentro de sua casa de dois cômodos os seus três filhos em idade escolar sem merenda “que comem o dia todo”. Ela sabe que vai faltar sustento, comida na mesa e o mínimo de paz. “Tem hora que não sei para onde correr”, desabafa.

Rafaela também não. Atendente de telemarketing, ela cumpre jornada de trabalho “normalmente” no escritório lotado como terceirizada de uma grande empresa que, por sua vez, liberou seus “funcionários próprios” para home office. “Os nossos corpos periféricos são menos importantes que o da classe média”, analisa Rafaela, na mira.

Confira ainda o relato da atendente de farmácia Daiane que testemunhou o aumento do preço do litro do  álcool gel direto de fornecedores. O produto saltou de R$ 14,90 para inacreditáveis R$ 49,90 em apenas uma semana. É hora também de ouvir a motorista de aplicativo das empresas bilionárias que a deixaram sem nenhuma garantia de sustento em caso de saúde. Apenas na doença haverá algum amparo ainda incerto por 14 dias.

Sintomático também é o depoimento de duas moradoras do Capão Redondo, o bairro paulistano periférico famoso pelo rap, índices de violência dos anos 90 e, também, pelo emaranhado de moradias precárias dos trabalhadores que fazem o mecanismo da cidade rodar.

É urgente, pra já, pra ontem: evitar o colapso na saúde é cuidar da engrenagem de todo o nosso sistema democrático. Ou seja, é cuidar das pessoas, não apenas da economia. É enfrentar a desigualdade, não apenas o coronavírus.

“Mesmo quem está consciente da gravidade não tem como deixar de ganhar o sustento do mês!”

Foto da laje da casa de Ana, na periferia de Osasco: " " (Foto: Acervo pessoal)

Foto da laje da casa da professora Ane, na periferia de Osasco: “estou preocupada realmente com as famílias que não tem hábito de exigir seus direitos. A saúde é precária, a alimentação é precária, são problemas estruturais” (Acervo pessoal)

“A gente não pode surtar, não podemos mesmo. Sabemos que estamos ao Deus dará”, resume a professora Ane Sariana, de 31 anos, professora de história da rede pública e moradora da periferia de Osasco. “As políticas públicas sempre chegam por último para nós e não está sendo diferente.” Ela deu aula até quarta-feira, dia 18, e com outros professores explicou aos alunos o tamanho do desafio. “Avisamos que não eram férias. Mas sei quanto é complexo. Há mães trabalhando porque não podem parar. E aí as crianças estão sozinhas ou sendo cuidadas por irmãos maiores ou adolescentes do bairro que a mãe paga para cuidar.” Outra questão: no bairro há casas de dois cômodos com nove pessoas. “Como deixar todos trancados? A rua está cheia de criança zanzando normalmente. ”

Ane conta que nos bares vê senhores que conhece de seu dia-a-dia. “São homens que vivem de bico e estão parados, ficam no bar conversando, jogando carteado. Muitos são do grupo de risco, ou seja, mais velhos, fumantes, com pressão alta.” A professora acredita que informação sempre chega muito tarde na região. “E mesmo que a ficha tenha caído para muitos moradores, o fato é que mesmo quem está consciente da gravidade do vírus não tem como deixar de ganhar o sustento do mês!”

Ane tem muitos amigos que trabalham em telemarketing e não foram dispensados também. São terceirizados que prestam serviços para grandes empresas. “Eu já trabalhei em lugar assim. É insalubre. São locais fechados com 200 pessoas trancadas com ar condicionado. E elas vão ao trabalho nos centros com transporte público. É muito perigoso.”

A professora frisa outro temor: as medidas do governo do Estado para as periferias diante de uma situação caótica. “Se por acaso essa pandemia ficar grande demais, meu medo é eles não mandarem agentes de saúde mas, sim, a polícia!”  Tornar crime o não cumprimento de home office, por exemplo, ou estipular horários para se transitar nas ruas, pode gerar nas regiões periféricas violência policial. “Não vão chegar com informação, mas com cacete.”

“A cada dia a gente percebe mais que s situação é grave. Estamos com medo, sim. E sabemos que vamos ter que nos juntar para nos ajudar”

Numa comunidade do interior de São Paulo, na cidade de São José dos Campos, a trancista de cabelos, cuidadora de idosos e poeta de saraus Gisele Luciene, de 34 anos, se questiona: “sem a escola, como vou ficar em isolamento com três filhos numa casa de dois cômodos? Meus filhos têm 9, 10 e 13 anos. Estou em casa, confesso, surtando”.

Desde o começo da semana, Gisele se desdobra para entreter os filhos diante do fechamento obrigatório das escolas públicas sem uma preparação prévia de quem são os alunos e famílias atingidas.  Sem nenhum tipo de apoio para lidar com a nova demanda, ela ainda buscar meios de conseguir alimento para a quarentena. “Já fui dispensada como cuidadora de uma idosa. E não tem trança marcada para fazer. Criança em casa come o tempo todo… E não é férias, né? O clima está tenso, eles estão tensos. Não tem o futebol que faziam todo dia, não tem parque, nada.”  

Gisele conversa com vizinhas e outras mães do bairro para encontrar saídas. “Desabafamos. Muitas também se sentem sozinhas como eu. Tem as que estão perdidaças em tudo, não deixam ninguém colocar a cara na rua. Outras estão deixando as crianças no vai e volta na porta de casa e desinfectando depois. Mas como vai ser isso por meses?”, pergunta.

Na comunidade, ela sabe que encontrará ajuda. “Aqui, todos sabem que será complicado, a gente vai se juntar, é o único jeito”, diz.

“Meu trabalho no telemarketing continua ‘normal’. Parece que meu corpo periférico não é tão importante quando os da classe média”

Na quinta-feira, dia 19, Rafaela foi trabalhar "normalmente" com funcionária de telemarketing terceirizada de uma empresa que liberou seus funcionários contratados para home office (Acervo pessoal)

A trabalhadora periférica não importa? Na quinta-feira, dia 19, Rafaela cumpriu sua rotina “normalmente” como funcionária de telemarketing terceirizada que presta serviços para uma outra empresa que liberou seus “funcionários  próprios” para home office (Acervo pessoal)

Para Rafaela Henrique, de 24 anos, a situação de alarme da classe média não contempla a periferia. Trabalhadora do telemarketing e moradora do Parque Santa Rita, na zona leste de São Paulo, ela se sente marginalizada. Nesta quinta-feira, dia 19, Rafaela conta que ela e outras profissionais do setor trabalharam como se fosse um dia de rotina “normal”. “A empresa para a qual prestamos serviços adotou aos seus funcionários próprios o home office. Nós, que somos terceirizados, não. ” A seletividade é evidente. “Nossos corpos periféricos, nossa saúde mental e física parece que não importam tanto.”

“Trabalho em farmácia e vi o preço do fornecedor de um litro de álcool gel saltar de R$ 14,90 para R$ 49,90!!!”

Daiane Novas, funcionária de uma farmácia: "o O capitalismo é um sistema de morte" (Foto: Acervo pessoal)

Daiane Novaes, funcionária de uma farmácia: “o capitalismo é um sistema de morte” (Foto: Acervo pessoal)

“Na semana passada o pessoal estava desdenhando, seguindo a onda do presidente de que o coronavírus era histeria, exagero, tava longe. Nessa semana mudou. A farmácia onde trabalho, numa região que atende a periferia, de frente para uma comunidade, não parou um minuto. Todos estão fazendo questão de ter álcool gel e máscara consigo”, conta a estudante e atendente de farmácia Daiane Novaes, de 38 anos. “Ainda assim, tem muita gente na rua, sabe? Mas o terrível agora, mesmo, foi ver o preço do fornecedor de álcool gel pular de R$ 14,90 para R$ 49,90. É um absurdo.”

Os consumidores reclamaram. “Os fornecedores estão aumentando o valor diariamente e infelizmente as lojas acabam tendo que reajustar também. Dá dó. Eu sei da dificuldade que é ter essa nova despesa inesperada e sei também que a culpa não é da gente que está no balcão”, relata a atendente, que é mãe de um filho de 11 anos e não poderá se ausentar do trabalho nesse momento. “Farmácia não pode fechar, né?”

Daiane mora na COHAB de Vila Prudente e conta que lá as crianças estão ficando com as avós. “Eu mesma, com o fechamento da escola, fui obrigada a deixar meu menino um dia com a minha mãe. Mas ela é paciente respiratória de alto risco e eu o levei para casa da outra avó, que mora mais longe, mas que não é idosa e tem boa saúde. Então, essa semana não estou vendo meu filho e ela está segurando as pontas”, conta, ainda sem saber se a situação poderá se estender por muito tempo. “Deixá-lo sozinho eu não posso, né? Por sorte tenho com quem contar. E quem não tem?”

Para Daiane, um salário-mínimo deveria ser o básico para amparar a população numa situação como a do coronavírus. “A gente é tão desassistida de políticas públicas, creches, saúde básica… As farmácias que cumprem esse papel que seria do Estado, de instruir, fazer primeiros atendimentos. Mas diante de uma epidemia, deveria existir um fundo para pagar quarentena compulsória, sabe?” Ela defende que não se deve deixar o empresário escolher quem trabalha num contexto assim “porque ele vai escolher o lucro”.

Aos seus olhos, todos os serviços que não são de assistência básica deveriam liberar as mulheres para ficar em casa, como nos casos em que a trabalhadora precisa ser afastada por motivo de doença. “Saúde não é só ausência da doença, é prevenção também. Por isso, em momentos como o nosso, começo a acreditar que esse descaso é uma agenda política mesmo, pra matar pobre, velho e criança pobre, que para esse Estado representam apenas gastos. O capitalismo é um sistema de morte.”

“Como motorista de aplicativo, estou desprotegida em todos os sentidos”

Tatiana recebeu das empresas milionárias mensagens com orientações para trabalhar no carro. "Desde então, faço tudo direitinho." Mas auxílio financeiro na falta de clientes não vai ter. Uma das empresas criou um fundo de emergência apenas para quem ficar doente (Foto: Acervo pessoal)

Tatiana recebeu das empresas milionárias mensagens com orientações para trabalhar no carro. “Desde então, faço tudo direitinho.” Mas auxílio financeiro na falta de clientes não vai ter. Uma das empresas criou um fundo de emergência apenas para quem ficar doente (Foto: Acervo pessoal)

“Ser motorista de aplicativo sempre foi correr risco de assaltada e ter que rodar no mínimo de 11 a 14 horas por dia para sobreviver pagando as contas, incluindo o carro alugado por mais de R$ 1500 por mês para trabalhar. Nunca foi fácil e agora piorou”, revela Tatiana Mendonça dos Santos, de 38 anos. Na última quarta-feira (18), em quatro corridas, ela ganhou R$ 34. “Não pagou nem o álcool. No dia seguinte não ganhei nem isso porque praticamente não tem mais chamados.”

Com a chegada do coronavírus no Brasil, Tatiana recebeu das empresas milionárias mensagens com orientações para trabalhar no carro. “Desde então, faço tudo direitinho. Tenho meu kit completo de desinfecção no carro com álcool gel, água sanitária, lenços umedecidos. Pergunto aos passageiros se posso deixar os vidros abertos também e não pego corridas do aeroportos e rodoviárias.” Nessa semana, um dos apps mandou mensagem sobre a criação de um fundo para cobrir alguns custos por 14 dias para o caso de a motorista ser infectado. “Infelizmente não acho suficiente. Sabemos que teremos que nos virar sem respaldo.”

Tatiana mora com o marido e sua mãe, de 62 anos, na periferia da Zona Norte de São Paulo e a família adotou o protocolo de ter tubo de álcool gel na parede perto da porta e deixar sapatos da rua por ali para só circular de chinelos na residência. Apesar de tudo isso, ela reconhece, corre riscos diários se sai para trabalhar.

“Penso que mesmo com esse confinamento será preciso ter carro na rua. E mesmo se não sairmos para trabalhar seria importante se essas grandes empresas tomassem providências para não passarmos necessidades.” Ela sugere descontos nas locações de carro, bônus diários mesmo em caso de motoristas parados. “Trinta reais de crédito inicial já faria muita diferença para o motorista não ficar totalmente na mão enquanto está sem trabalho. Há muitas mães solo nesse ramo que dependem disso para alimentar os filhos.”

“Moro com meu pai de 70 anos que sofre de asma. Estou tomando todos os cuidados. Mas aqui no bairro as pessoas vivem, literalmente, umas em cima das outras”

A estudante Marianna Alves, moradora do Capão Redondo, na zona sul de São Paulo, reforçou os cuidados com a higiene mas sua preocupação vai além. “Se nos bairros ricos quem tem sintomas está sendo mandado pra casa sem cuidado no atendimento, a situação nas UBS’s de periferia será muito pior”  (Foto: Acervo pessoal)

“Moro com meu pai, que tem 70 anos e sofre de bronquite asmática. Tenho muito medo de contrair o vírus e acabar passando pra ele, que com certeza ficaria muito vulnerável. O cuidado está sendo mais com relação à higiene, compramos álcool gel, reforçamos a limpeza dos espaços de uso comum.Mas em uma casa pequena todos os espaços acabam sendo divididos”, conta a estudante de letras Marianna Alves, de 22 anos.

Ela traz o olhar crítico ao efeito vizinhança, ou seja, o favorecimento de transmissão do vírus pela proximidade e forma aglutinada de a periferia morar. “As pessoas vivem, literalmente, umas em cima das outras, irmãos dividem quartos entre cinco e até mais pessoas; o espaço é bastante limitado.”

Se a coisa apertar e o surto chegar no seu pico, ela sabe que os bairros da quebrada também serão os mais afetados com desabastecimento de supermercados, fechamentos de comércios, falta de medicamentos. “Fora a dificuldade para obter atendimento médico. Se nos bairros ricos as pessoas que apresentam sintomas já estão sendo mandadas pra casa sem nenhum cuidado no atendimento, imagino que a situação nas UBS’s de bairro será ainda pior.”

“Aqui no Capão não estão estocando comida, ainda bem. Mas está faltando álcool gel, máscaras! As pessoas estão engajadas em ficar em casa. Quem sai é porque não pode mesmo parar de trabalhar”

A jovem Lavínea ressalta a necessidade do olhar atento do governo à população periférica, uma vez que estas pessoas são responsáveis pela manutenção da economia, por serviços básicos que atingem toda a sociedade (Foto: Acervo pessoal)

A jovem Lavínea ressalta a necessidade do olhar atento do governo à população periférica, uma vez que estas pessoas são responsáveis pela manutenção da economia, por serviços básicos que atingem toda a sociedade (Foto: Acervo pessoal)

“Se tem pão de manhã, se tem um ônibus funcionando e mercados abertos é porque a periferia acordou cedo pra que tudo isso acontecesse”, diz a estudante Lavínea Soares, de 17 anos, moradora do Capão Redondo, no extremo Sul de São Paulo. “Então, a gente merece e tem direito de pelo menos ter o básico, principalmente uma saúde digna, completa.

Lavínea conta que em seu bairro as pessoas estão se cuidando, sim. “Eu tô vendo poucas pessoas sairem, principalmente senhores de idade. Como se nada tivesse acontecendo, não esta, não. É bem movimentado por aqui. Mas tem bastante gente que precisa sair para trabalhar como a minha mãe, que é analista de processos e precisa do transporte público, e o meu pai, que é vendedor de sacos de lixo, panos de prato, e precisa estar na rua. Não tem jeito”

Ela reitera que não é possível parar os comércios, de imediato, uma vez que são fontes de renda de inúmeras pessoas. “Ainda bem que por aqui não vejo ninguém estocando comida. Pobre não tem como fazer isso. Porém, está faltando álcool, máscaras. Não pode…”

 

LEIA TAMBÉM:

DANIEL HÖFLING: A Casa-Grande propaga o coronavírus Covid-19

João Doria resolve economizar na pandemia demitindo trabalhadores

Geral

A satanização do Irã pela mídia ocidental, um processo em desconstrução

Publicadoo

em

Eduardo Nunes Campos*

Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa.
Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta.
O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.

Irã Mall Foto: Eduardo Campos

A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico.
Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream.
Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.

Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.

Ritual de fogo “Chaharshanbe Suri” Foto: Eduardo Campos

A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.

O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra.
Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental.
Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões.
A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida.
Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele.
Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa.
Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens.
A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas.
A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos.
O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás.
O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.

(*) Jornalista

Continue Lendo

Internacional

IRÃ: A GUERRA DAS CRIANÇAS

Irã se prepara para receber 20 milhões de peregrinos nas cerimônias de despedida do aiatolá Khamenei, que se iniciam na próxima sexta-feira (3)

Publicadoo

em

O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.

Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.

A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.

O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.

Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.

Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.

Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé.  Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.

Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres

Continue Lendo

Geral

O caso Mariana Ferrer, por Honoré de Balzac

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

Publicadoo

em

O caso Mariana Ferrer por Honoré de Balzac

Por Dirce Waltrick do Amarante*

Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.  

Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.

Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.

Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.

Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.  

*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina

Continue Lendo

Trending