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“A periferia não pode surtar. E a gente sabe que está ao Deus dará”

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Ane Sarinara, de 31 anos, professora de história da rede pública e moradora da periferia de Osasco: "as políticas públicas chegam por último aqui, a ficha ainda não caiu para muitos moradores e para milhares não há como deixar de ganhar o sustento" (Foto: Acervo pessoal)

Com reportagem de Isabela Alves, especial para o blog MULHERIAS 

A chegada do coronavírus no Brasil escancarou as várias faces da nossa desigualdade. A primeira geração de casos no país é, em geral, na classe média e alta, de pacientes que viajaram para a Europa. A segunda, não por acaso, é dos empregados do entorno dessa classe social – o que evidencia a construção histórica do trabalho escravizado da população negra e pobre que permanece em constante estado de emergência e precariedade de direitos.

Até as orientações mais importantes dos especialistas em saúde pública para evitar o contágio do vírus – como higienizar as mãos com álcool gel, ficar em casa e evitar locais aglomerados – não levam em consideração as condições sociais de uma imensa parcela da população brasileira. Será que todas as famílias podem comprar álcool gel? Podem parar de trabalhar? Ter rendimentos em isolamento em casa? Com quem deixar os filhos fora da escola e sem merenda?

O blog MULHERIAS entrevistou sete mulheres das quebradas para alertar as autoridades que vivemos num país que, no fundo, é uma gigantesca periferia cercada por pequenas ilhas de prosperidade e precisa, no mínimo, ser atendida em suas peculiaridades. E não se trata de nada extraordinário! É unânime entre as entrevistadas a necessidade de o poder público oferecer kits gratuitos de álcool gel, máscaras e acesso à alimentação, por exemplo. Tão óbvio, também, é o fato de a crise sanitária refletir o descaso com a população mais vulnerável do país.

Elas mostram a real na periferia 

“Estamos ao Deus dará”, resume a professora da periferia Ane, uma das entrevistadas de Osasco, na Grande São Paulo. Já Gisele, trancista de cabelos e cuidadora de idosos recém-demitida do interior do estado, compartilha a angústia de manter dentro de sua casa de dois cômodos os seus três filhos em idade escolar sem merenda “que comem o dia todo”. Ela sabe que vai faltar sustento, comida na mesa e o mínimo de paz. “Tem hora que não sei para onde correr”, desabafa.

Rafaela também não. Atendente de telemarketing, ela cumpre jornada de trabalho “normalmente” no escritório lotado como terceirizada de uma grande empresa que, por sua vez, liberou seus “funcionários próprios” para home office. “Os nossos corpos periféricos são menos importantes que o da classe média”, analisa Rafaela, na mira.

Confira ainda o relato da atendente de farmácia Daiane que testemunhou o aumento do preço do litro do  álcool gel direto de fornecedores. O produto saltou de R$ 14,90 para inacreditáveis R$ 49,90 em apenas uma semana. É hora também de ouvir a motorista de aplicativo das empresas bilionárias que a deixaram sem nenhuma garantia de sustento em caso de saúde. Apenas na doença haverá algum amparo ainda incerto por 14 dias.

Sintomático também é o depoimento de duas moradoras do Capão Redondo, o bairro paulistano periférico famoso pelo rap, índices de violência dos anos 90 e, também, pelo emaranhado de moradias precárias dos trabalhadores que fazem o mecanismo da cidade rodar.

É urgente, pra já, pra ontem: evitar o colapso na saúde é cuidar da engrenagem de todo o nosso sistema democrático. Ou seja, é cuidar das pessoas, não apenas da economia. É enfrentar a desigualdade, não apenas o coronavírus.

“Mesmo quem está consciente da gravidade não tem como deixar de ganhar o sustento do mês!”

Foto da laje da casa de Ana, na periferia de Osasco: " " (Foto: Acervo pessoal)

Foto da laje da casa da professora Ane, na periferia de Osasco: “estou preocupada realmente com as famílias que não tem hábito de exigir seus direitos. A saúde é precária, a alimentação é precária, são problemas estruturais” (Acervo pessoal)

“A gente não pode surtar, não podemos mesmo. Sabemos que estamos ao Deus dará”, resume a professora Ane Sariana, de 31 anos, professora de história da rede pública e moradora da periferia de Osasco. “As políticas públicas sempre chegam por último para nós e não está sendo diferente.” Ela deu aula até quarta-feira, dia 18, e com outros professores explicou aos alunos o tamanho do desafio. “Avisamos que não eram férias. Mas sei quanto é complexo. Há mães trabalhando porque não podem parar. E aí as crianças estão sozinhas ou sendo cuidadas por irmãos maiores ou adolescentes do bairro que a mãe paga para cuidar.” Outra questão: no bairro há casas de dois cômodos com nove pessoas. “Como deixar todos trancados? A rua está cheia de criança zanzando normalmente. ”

Ane conta que nos bares vê senhores que conhece de seu dia-a-dia. “São homens que vivem de bico e estão parados, ficam no bar conversando, jogando carteado. Muitos são do grupo de risco, ou seja, mais velhos, fumantes, com pressão alta.” A professora acredita que informação sempre chega muito tarde na região. “E mesmo que a ficha tenha caído para muitos moradores, o fato é que mesmo quem está consciente da gravidade do vírus não tem como deixar de ganhar o sustento do mês!”

Ane tem muitos amigos que trabalham em telemarketing e não foram dispensados também. São terceirizados que prestam serviços para grandes empresas. “Eu já trabalhei em lugar assim. É insalubre. São locais fechados com 200 pessoas trancadas com ar condicionado. E elas vão ao trabalho nos centros com transporte público. É muito perigoso.”

A professora frisa outro temor: as medidas do governo do Estado para as periferias diante de uma situação caótica. “Se por acaso essa pandemia ficar grande demais, meu medo é eles não mandarem agentes de saúde mas, sim, a polícia!”  Tornar crime o não cumprimento de home office, por exemplo, ou estipular horários para se transitar nas ruas, pode gerar nas regiões periféricas violência policial. “Não vão chegar com informação, mas com cacete.”

“A cada dia a gente percebe mais que s situação é grave. Estamos com medo, sim. E sabemos que vamos ter que nos juntar para nos ajudar”

Numa comunidade do interior de São Paulo, na cidade de São José dos Campos, a trancista de cabelos, cuidadora de idosos e poeta de saraus Gisele Luciene, de 34 anos, se questiona: “sem a escola, como vou ficar em isolamento com três filhos numa casa de dois cômodos? Meus filhos têm 9, 10 e 13 anos. Estou em casa, confesso, surtando”.

Desde o começo da semana, Gisele se desdobra para entreter os filhos diante do fechamento obrigatório das escolas públicas sem uma preparação prévia de quem são os alunos e famílias atingidas.  Sem nenhum tipo de apoio para lidar com a nova demanda, ela ainda buscar meios de conseguir alimento para a quarentena. “Já fui dispensada como cuidadora de uma idosa. E não tem trança marcada para fazer. Criança em casa come o tempo todo… E não é férias, né? O clima está tenso, eles estão tensos. Não tem o futebol que faziam todo dia, não tem parque, nada.”  

Gisele conversa com vizinhas e outras mães do bairro para encontrar saídas. “Desabafamos. Muitas também se sentem sozinhas como eu. Tem as que estão perdidaças em tudo, não deixam ninguém colocar a cara na rua. Outras estão deixando as crianças no vai e volta na porta de casa e desinfectando depois. Mas como vai ser isso por meses?”, pergunta.

Na comunidade, ela sabe que encontrará ajuda. “Aqui, todos sabem que será complicado, a gente vai se juntar, é o único jeito”, diz.

“Meu trabalho no telemarketing continua ‘normal’. Parece que meu corpo periférico não é tão importante quando os da classe média”

Na quinta-feira, dia 19, Rafaela foi trabalhar "normalmente" com funcionária de telemarketing terceirizada de uma empresa que liberou seus funcionários contratados para home office (Acervo pessoal)

A trabalhadora periférica não importa? Na quinta-feira, dia 19, Rafaela cumpriu sua rotina “normalmente” como funcionária de telemarketing terceirizada que presta serviços para uma outra empresa que liberou seus “funcionários  próprios” para home office (Acervo pessoal)

Para Rafaela Henrique, de 24 anos, a situação de alarme da classe média não contempla a periferia. Trabalhadora do telemarketing e moradora do Parque Santa Rita, na zona leste de São Paulo, ela se sente marginalizada. Nesta quinta-feira, dia 19, Rafaela conta que ela e outras profissionais do setor trabalharam como se fosse um dia de rotina “normal”. “A empresa para a qual prestamos serviços adotou aos seus funcionários próprios o home office. Nós, que somos terceirizados, não. ” A seletividade é evidente. “Nossos corpos periféricos, nossa saúde mental e física parece que não importam tanto.”

“Trabalho em farmácia e vi o preço do fornecedor de um litro de álcool gel saltar de R$ 14,90 para R$ 49,90!!!”

Daiane Novas, funcionária de uma farmácia: "o O capitalismo é um sistema de morte" (Foto: Acervo pessoal)

Daiane Novaes, funcionária de uma farmácia: “o capitalismo é um sistema de morte” (Foto: Acervo pessoal)

“Na semana passada o pessoal estava desdenhando, seguindo a onda do presidente de que o coronavírus era histeria, exagero, tava longe. Nessa semana mudou. A farmácia onde trabalho, numa região que atende a periferia, de frente para uma comunidade, não parou um minuto. Todos estão fazendo questão de ter álcool gel e máscara consigo”, conta a estudante e atendente de farmácia Daiane Novaes, de 38 anos. “Ainda assim, tem muita gente na rua, sabe? Mas o terrível agora, mesmo, foi ver o preço do fornecedor de álcool gel pular de R$ 14,90 para R$ 49,90. É um absurdo.”

Os consumidores reclamaram. “Os fornecedores estão aumentando o valor diariamente e infelizmente as lojas acabam tendo que reajustar também. Dá dó. Eu sei da dificuldade que é ter essa nova despesa inesperada e sei também que a culpa não é da gente que está no balcão”, relata a atendente, que é mãe de um filho de 11 anos e não poderá se ausentar do trabalho nesse momento. “Farmácia não pode fechar, né?”

Daiane mora na COHAB de Vila Prudente e conta que lá as crianças estão ficando com as avós. “Eu mesma, com o fechamento da escola, fui obrigada a deixar meu menino um dia com a minha mãe. Mas ela é paciente respiratória de alto risco e eu o levei para casa da outra avó, que mora mais longe, mas que não é idosa e tem boa saúde. Então, essa semana não estou vendo meu filho e ela está segurando as pontas”, conta, ainda sem saber se a situação poderá se estender por muito tempo. “Deixá-lo sozinho eu não posso, né? Por sorte tenho com quem contar. E quem não tem?”

Para Daiane, um salário-mínimo deveria ser o básico para amparar a população numa situação como a do coronavírus. “A gente é tão desassistida de políticas públicas, creches, saúde básica… As farmácias que cumprem esse papel que seria do Estado, de instruir, fazer primeiros atendimentos. Mas diante de uma epidemia, deveria existir um fundo para pagar quarentena compulsória, sabe?” Ela defende que não se deve deixar o empresário escolher quem trabalha num contexto assim “porque ele vai escolher o lucro”.

Aos seus olhos, todos os serviços que não são de assistência básica deveriam liberar as mulheres para ficar em casa, como nos casos em que a trabalhadora precisa ser afastada por motivo de doença. “Saúde não é só ausência da doença, é prevenção também. Por isso, em momentos como o nosso, começo a acreditar que esse descaso é uma agenda política mesmo, pra matar pobre, velho e criança pobre, que para esse Estado representam apenas gastos. O capitalismo é um sistema de morte.”

“Como motorista de aplicativo, estou desprotegida em todos os sentidos”

Tatiana recebeu das empresas milionárias mensagens com orientações para trabalhar no carro. "Desde então, faço tudo direitinho." Mas auxílio financeiro na falta de clientes não vai ter. Uma das empresas criou um fundo de emergência apenas para quem ficar doente (Foto: Acervo pessoal)

Tatiana recebeu das empresas milionárias mensagens com orientações para trabalhar no carro. “Desde então, faço tudo direitinho.” Mas auxílio financeiro na falta de clientes não vai ter. Uma das empresas criou um fundo de emergência apenas para quem ficar doente (Foto: Acervo pessoal)

“Ser motorista de aplicativo sempre foi correr risco de assaltada e ter que rodar no mínimo de 11 a 14 horas por dia para sobreviver pagando as contas, incluindo o carro alugado por mais de R$ 1500 por mês para trabalhar. Nunca foi fácil e agora piorou”, revela Tatiana Mendonça dos Santos, de 38 anos. Na última quarta-feira (18), em quatro corridas, ela ganhou R$ 34. “Não pagou nem o álcool. No dia seguinte não ganhei nem isso porque praticamente não tem mais chamados.”

Com a chegada do coronavírus no Brasil, Tatiana recebeu das empresas milionárias mensagens com orientações para trabalhar no carro. “Desde então, faço tudo direitinho. Tenho meu kit completo de desinfecção no carro com álcool gel, água sanitária, lenços umedecidos. Pergunto aos passageiros se posso deixar os vidros abertos também e não pego corridas do aeroportos e rodoviárias.” Nessa semana, um dos apps mandou mensagem sobre a criação de um fundo para cobrir alguns custos por 14 dias para o caso de a motorista ser infectado. “Infelizmente não acho suficiente. Sabemos que teremos que nos virar sem respaldo.”

Tatiana mora com o marido e sua mãe, de 62 anos, na periferia da Zona Norte de São Paulo e a família adotou o protocolo de ter tubo de álcool gel na parede perto da porta e deixar sapatos da rua por ali para só circular de chinelos na residência. Apesar de tudo isso, ela reconhece, corre riscos diários se sai para trabalhar.

“Penso que mesmo com esse confinamento será preciso ter carro na rua. E mesmo se não sairmos para trabalhar seria importante se essas grandes empresas tomassem providências para não passarmos necessidades.” Ela sugere descontos nas locações de carro, bônus diários mesmo em caso de motoristas parados. “Trinta reais de crédito inicial já faria muita diferença para o motorista não ficar totalmente na mão enquanto está sem trabalho. Há muitas mães solo nesse ramo que dependem disso para alimentar os filhos.”

“Moro com meu pai de 70 anos que sofre de asma. Estou tomando todos os cuidados. Mas aqui no bairro as pessoas vivem, literalmente, umas em cima das outras”

A estudante Marianna Alves, moradora do Capão Redondo, na zona sul de São Paulo, reforçou os cuidados com a higiene mas sua preocupação vai além. “Se nos bairros ricos quem tem sintomas está sendo mandado pra casa sem cuidado no atendimento, a situação nas UBS’s de periferia será muito pior”  (Foto: Acervo pessoal)

“Moro com meu pai, que tem 70 anos e sofre de bronquite asmática. Tenho muito medo de contrair o vírus e acabar passando pra ele, que com certeza ficaria muito vulnerável. O cuidado está sendo mais com relação à higiene, compramos álcool gel, reforçamos a limpeza dos espaços de uso comum.Mas em uma casa pequena todos os espaços acabam sendo divididos”, conta a estudante de letras Marianna Alves, de 22 anos.

Ela traz o olhar crítico ao efeito vizinhança, ou seja, o favorecimento de transmissão do vírus pela proximidade e forma aglutinada de a periferia morar. “As pessoas vivem, literalmente, umas em cima das outras, irmãos dividem quartos entre cinco e até mais pessoas; o espaço é bastante limitado.”

Se a coisa apertar e o surto chegar no seu pico, ela sabe que os bairros da quebrada também serão os mais afetados com desabastecimento de supermercados, fechamentos de comércios, falta de medicamentos. “Fora a dificuldade para obter atendimento médico. Se nos bairros ricos as pessoas que apresentam sintomas já estão sendo mandadas pra casa sem nenhum cuidado no atendimento, imagino que a situação nas UBS’s de bairro será ainda pior.”

“Aqui no Capão não estão estocando comida, ainda bem. Mas está faltando álcool gel, máscaras! As pessoas estão engajadas em ficar em casa. Quem sai é porque não pode mesmo parar de trabalhar”

A jovem Lavínea ressalta a necessidade do olhar atento do governo à população periférica, uma vez que estas pessoas são responsáveis pela manutenção da economia, por serviços básicos que atingem toda a sociedade (Foto: Acervo pessoal)

A jovem Lavínea ressalta a necessidade do olhar atento do governo à população periférica, uma vez que estas pessoas são responsáveis pela manutenção da economia, por serviços básicos que atingem toda a sociedade (Foto: Acervo pessoal)

“Se tem pão de manhã, se tem um ônibus funcionando e mercados abertos é porque a periferia acordou cedo pra que tudo isso acontecesse”, diz a estudante Lavínea Soares, de 17 anos, moradora do Capão Redondo, no extremo Sul de São Paulo. “Então, a gente merece e tem direito de pelo menos ter o básico, principalmente uma saúde digna, completa.

Lavínea conta que em seu bairro as pessoas estão se cuidando, sim. “Eu tô vendo poucas pessoas sairem, principalmente senhores de idade. Como se nada tivesse acontecendo, não esta, não. É bem movimentado por aqui. Mas tem bastante gente que precisa sair para trabalhar como a minha mãe, que é analista de processos e precisa do transporte público, e o meu pai, que é vendedor de sacos de lixo, panos de prato, e precisa estar na rua. Não tem jeito”

Ela reitera que não é possível parar os comércios, de imediato, uma vez que são fontes de renda de inúmeras pessoas. “Ainda bem que por aqui não vejo ninguém estocando comida. Pobre não tem como fazer isso. Porém, está faltando álcool, máscaras. Não pode…”

 

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Internacional

IRÃ: A GUERRA DAS CRIANÇAS

Irã se prepara para receber 20 milhões de peregrinos nas cerimônias de despedida do aiatolá Khamenei, que se iniciam na próxima sexta-feira (3)

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O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.

Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.

A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.

O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.

Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.

Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.

Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé.  Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.

Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres

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Geral

O caso Mariana Ferrer, por Honoré de Balzac

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

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O caso Mariana Ferrer por Honoré de Balzac

Por Dirce Waltrick do Amarante*

Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.  

Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.

Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.

Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.

Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.  

*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina

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Geral

O show de Trump: renovação ou cancelamento?

A eleição nos EUA e o destino da democracia na condição atualista

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Nos EUA voto popular não significa vitória. Biden terá mais votos do que Trump e ainda assim o resultado da eleição continuará indefinido por algum tempo. Apesar dos descalabros que marcaram a gestão Trump antes e durante a pandemia, o seu desempenho na atual corrida eleitoral será muito forte.

Mateus Pereira, Valdei Araujo e Walderez Ramalho, professores da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) em Mariana, MG

A disputa está sendo muito mais acirrada do que era inicialmente previsto pela maior parte dos institutos de pesquisa e da mídia americana, embora a cautela e o medo nunca deixaram de estar presentes. Sob esse ponto de vista, as eleições deste ano são como uma repetição do que vimos em 2016, ainda que o resultado possa ser a derrota eleitoral para Trump. Em 2016 foram os democratas que denunciaram a interferência russa, agora é o presidente-agitador que se apressa em questionar a legitimidade do pleito, sem mostrar nenhuma prova. Sabemos que no ambiente do atualismo provas têm como base apenas convicções.

Um sistema eleitoral que sobreviveu por séculos, sem grandes mudanças, pode ter se tornado obsoleto desde a eleição de Bush, em 2000. Um lembrete do possível declínio da democracia americana: das últimas oito eleições presidenciais desde 1992, os democratas venceram no voto popular as últimas sete, mas em apenas quatro ocasiões ganharam o colégio eleitoral e fizeram o presidente.

Acreditamos que as eleições nos EUA são um exemplo do confronto entre duas estratégias e duas concepções sobre fazer política: de um lado, Trump e sua promessa de eterna atualização da atualidade em modo nostálgico; e Biden, com sua aposta moderada no cansaço na agitação atualista que seu adversário republicano encarna e radicaliza, e a retomada da política em moldes liberais. Essa retomada é feita sem uma crítica efetiva ao modelo neoliberal abraçado pela cúpula do partido democrata. Uma aposta radical, como Sanders, teria se saído melhor? É difícil dizer, mas tudo leva a crer que não, tendo em vista o complicado xadrez do voto estado a estado.

A escolha entre as duas estratégias/concepções se mostrou muito mais difícil e apertada do que se imaginava. A tal “onda azul” anunciada por parte da imprensa estadunidense esteve longe de acontecer. De fato, Trump se mostrou eleitoralmente muito mais forte do que os analistas supunham. Considerando que esta não é a primeira vez que os institutos de pesquisa falharam em captar esse movimento no eleitorado americano, e considerando também que fenômeno semelhante ocorreu no Brasil em 2018, coloca-se a questão de saber se as tradicionais pesquisas de opinião tornaram-se de alguma forma obsoletas em um mundo atualista. Esse quadro muda pouco, mesmo com uma  eventual vitória de Biden ou pior, com uma inconveniente reeleição de Trump.

São vários fatores que devem ser considerados para avaliar essa questão. Os próprios institutos se apressaram a ensaiar algumas explicações ao público. O diretor da Trafalgar Group, Robert Cahaly, afirmou que muitos eleitores “esconderam”, como já havia acontecido, sua preferência por Trump por algum receio ou constrangimento social.[1] Não podemos desconsiderar algum tipo de boicote/sabotagem dos eleitores republicanos, já que na retórica do trumpismo as pesquisas de opinião fazem parte da mídia vendida. Outros recorreram à justificativa de que as pesquisas anteriores representavam apenas fotografias do momento específico em que as entrevistas foram feitas, e não o que se poderia esperar na eleição propriamente dita. Isso poderia ter sido de fato observado pela tendência de redução da vantagem de Biden nos últimos 15 dias. Afinal, o episódio da contaminação de Trump e sua rápida recuperação pode ter tido um saldo positivo, ao menos na mobilização de sua base, como já havíamos especulado em coluna anterior.

Aceite-se ou não essas justificativas, fato é que os institutos de pesquisa sairão dessas eleições com sua credibilidade e imagem pública mais arranhadas, sobretudo diante das especificidades do sistema eleitoral americano. Como afirmamos, muitos fatores concorrem para esse desgaste. Um deles está relacionado à condição atualista que caracteriza o nosso presente e como cada um dos candidatos se coloca frente a tal condição.

Trump é um político bastante sintonizado com o ambiente da comunicação atualista onde as provas dispensam comprovação factual. Seja nas redes sociais, seja em seus concorridos comícios, o presidente se revela um comunicador difícil de ser batido. Dentre os aspectos associados à condição atualista, destacamos a intensidade e velocidade sem precedentes do fluxo de notícias, em detrimento dos protocolos de verificação e checagem da informação veiculada. Esse ambiente infodêmico[2] é particularmente fértil para a produção de desinformação e sua disseminação como misinformação.[3] Além das informações imprecisas, para não dizer apenas falsas, que a infodemia trumpista ajuda a difundir, é preciso levar em consideração a agitação/ativação que produz. É como se a oposição se agitasse confusamente e a base trumpista se ativasse a cada um de seus comentários polêmicos. Assim, o uso constante das redes sociais para disseminar fake news ou comentários faz com que, seja de modo positivo ou negativo, o presidente esteja sempre no foco da mídia. O acúmulo de notícias sobre suas falas ou atos inconsequentes faz com que seja difícil recuperar qual foi o absurdo dito ou feito na semana anterior. Na condição atualista há um valor excepcional em estar mais atualizado (e exposto) que o seu adversário. 

Ainda assim, a manipulação das fake news como ferramenta política supõe uma linguagem organizada para se tornar eficaz. Essa afirmação pode soar chocante à primeira vista: como podemos atribuir coerência a um discurso fundamentado em desinformação e que frequentemente e sem o menor pudor afirma hoje o contrário do que disse ontem, como o exemplo do uso de máscaras na pandemia?[4] O ponto aqui é que a condição atualista coloca muitos obstáculos para que o passado, mesmo o mais recente, seja trazido à reflexão. Assim, quando confrontados com suas próprias contradições, políticos atualistas como Trump e Bolsonaro simplesmente atualizam suas narrativas e afirmações quando as anteriores se tornam insustentáveis. Com muita frequência, os seus discursos mudam em função da conveniência da atualidade, sem a mínima necessidade de se prestar conta da contradição com o que eles mesmos diziam no dia anterior.

Essa estrutura atualista do discurso político só se torna eficaz, porém, no interior de uma linguagem organizada e facilmente identificável pelo público que a compartilha, no interior de uma condição material de reorganização do mundo do trabalho e do capital. A crise de 2008, concentração de renda, neoliberalismo, capitalismo de vigilância e a formação do atual “precariado” são elementos, dentre outros, fundamentais para entender a emergência de líderes que governam e são eleitos por pequenas maiorias mobilizadas pela historicidade e ideologia atualista. Só assim podemos entender a força de Trump na eleição independente do resultado final, ainda que sua derrota  interesse a todos os democratas do mundo.

Trump lança mão de artifícios retóricos quando confrontado com suas afirmações evidentemente baseadas em mentiras e contradições, de tal maneira que ele consegue, mesmo em tais situações, transmitir e reforçar o código entre o seu público. O código se estrutura em uma lógica antagonista, na qual o portador é sempre vítima de perseguição por parte do establishment e da imprensa vendida para a “esquerda corrupta” ou as corporações globalistas.

O ponto principal a ser considerado é que para ser politicamente eficaz não é necessário que o código seja compartilhado por todos; mas que seja continuamente ativado junto aqueles que já o compartilham. Por mais que esteja sustentado em desinformações, o fato é que o código é bastante poderoso na ativação de afetos políticos centrais como o medo, ódio e ansiedade, vetores de forte engajamento e agitação política que Trump e Bolsonaro sabem tão bem promover.

O sucesso dessa estratégia se coaduna com a popularização das redes sociais e dos smartphones, bem como das novas tecnologias de processamento de dados manipulados para fins políticos. Nesse contexto, tornou-se possível criar e difundir mensagens sob medida para cada tipo de público, cada indivíduo ou grupo formula suas próprias percepções sobre o mundo a partir de narrativas (códigos) que não mais precisam ser expostos publicamente a todos para serem eficazes. Após alguns reconhecimentos iniciais, os algoritmos se encarregam de abastecer-nos das notícias que nos mobilizam, sempre com o mesmo teor e formato. Reforça-se, assim, o fenômeno das “bolhas”.[5] Esses códigos podem circular de forma subterrânea, de tal modo que o que parece absurdo e chocante para uns, é perfeitamente aceitável e normalizado para outros.

Esse ambiente de circulação de notícias e códigos é condizente com a ordem atualista de nosso tempo e, ao nosso ver, é um fator importante a ser considerado no desempenho surpreendente de Trump nestas eleições. E um dos preços a se pagar para tal sucesso é a radicalização do clima de agitação que tem marcado a nossa época. Esse quadro tem resultado inclusive em distúrbios psicológicos cada vez mais comuns, como o “transtorno do estresse eleitoral”, que segundo estimativas afeta sete em cada dez cidadãos estadunidenses.[6]

Os políticos atualistas claramente não se importam em pagar esse preço, na verdade eles têm lucrado com isso. Mas, ao fim e ao cabo, eles não podem evitar completamente os efeitos colaterais de suas apostas. Agitação e dispersão geram também cansaço no eleitorado. Biden e os democratas tomaram esse efeito como vetor de suas estratégias para estas eleições. Frente à irrefreável agitação de Trump, Biden se vendeu como a opção mais “centrista”, de moderação e convergência. A divergência entre as duas estratégias foi mais uma vez demonstrada logo após o fechamento da votação: enquanto Trump se apressou em declarar-se vencedor e dizer que irá judicializar a eleição em caso de derrota, Biden classificou tal postura como “ultrajante” e pregou calma aos seus apoiadores[7].

Mesmo que a vitória do democrata seja confirmada, é inegável que o preço desse lance foi bastante alto. A imprensa americana noticiou como parcelas importantes do eleitorado negro, que o próprio Biden afirmou ser “a chave para a vitória”, relataram estarem pouco motivados a votarem no candidato democrata.[8] O mesmo ocorreu entre parte do eleitorado hispânico, em especial na Flórida e no Texas. O conservadorismo nos costumes, a adesão a denominações evangélicas que tem crescido entre hispânicos e a tradição anticomunista dos cubanos, e agora também venezuelanos, na Flórida, são fenômenos a serem considerados. Enquanto fechamos essa coluna Trump ainda lidera na Pensilvânia, estado no qual o operariado branco migrou dos democratas para o trumpismo. No último debate, Biden acabou por reconhecer que teria que acabar com a exploração do altamente poluente gás de xisto, o que foi imediatamente explorado por Trump: “Eis uma declaração importante”, ironizou o presidente. Caso perca por margem apertada na Pensilvânia, onde os trabalhadores dessa indústria são amplamente sensíveis ao tema, talvez essa declaração tenha custado a eleição.

Para entender melhor essas flutuações teríamos que fazer algo pouco praticado durante a campanha, uma avaliação retrospectiva fundada em boa informação acerca das políticas públicas implementadas por democratas e republicanos, em especial nos governos Obama e Trump. O apoio ao republicano não é apenas resultado da mágica da comunicação, deriva também da tibieza das políticas democratas e dos acertos de Trump. Reforma do sistema criminal, política externa menos intervencionista, foco na economia e na criação de empregos, com bons resultados, ao menos até a pandemia.

A decisão das eleições primárias do Partido Democrata em nomear um candidato “centrista” para concorrer nessas eleições – ao contrário de uma opção mais radical do populismo de esquerda como Bernie Sanders – foi importante para unificar o partido (em especial o seu establishment) e angariar o apoio do eleitorado “cansado” da agitação radicalizada. Por outro lado, a figura moderada de Biden não se mostrou capaz de promover um grau de engajamento e mobilização do público à altura do seu adversário agitador, nem está claro ainda se seu discurso de união nacional conseguiu atrair eleitores de Trump. Essa diferença é importante em um contexto onde o voto não é obrigatório e, no caso particular das eleições deste ano, ainda mais desencorajado pela pandemia do coronavírus.

Mesmo assim, a moderação pode ter sido eficaz para para derrotar a agitação, mas não para desativá-la. E ainda não podemos assegurar como os EUA sairá dessas eleições, pois Trump continua sendo quem é. Há ainda o risco de o agitador perder e não aceitar sair, e as consequências disso poderão ser catastróficas. E mesmo que ele saia, o trumpismo – o negacionismo, o anti-esquerdismo, o desejo de retorno a um passado glorioso e mítico – ainda permanecerá em parcelas consideráveis da população.

O que tudo isso ensina para o campo democrático brasileiro, que tem de enfrentar a sua própria versão de agitador atualista? Desde o início da votação nos EUA, Bolsonaro disparou freneticamente uma série de tweets ressoando as alegações infundadas de seu ídolo sobre as eleições serem “fraudadas” a favor dos democratas, o que seria um risco para a “liberdade” e para o Brasil. Afinal, nosso agitador atualista tupiniquim sabe bem que a permanência de Trump é uma força de sustentação fundamental para ele. As relações entre EUA e Brasil deixaram de ser uma relação entre Estados, mas sim uma relação de “amizade” (leia-se emulação e, do nosso ponto de vista, subserviência) entre os chefes de turno da Casa Branca e do Palácio do Planalto.

Assim, e seguindo o estilo atualista de fazer política, Bolsonaro ressoa as afirmações sem fundamento de Trump, sem se preocupar com a veracidade e desprezando o princípio diplomático básico da impessoalidade. Mas Bolsonaro também tem seu próprio código “alternativo”, cujo enfrentamento é a tarefa prioritária das forças democráticas no Brasil, que deverá avaliar e tomar suas próprias escolhas para vencer o confronto. Assim como o trumpismo, nos Estados Unidos, o bolsonarismo é um fenômeno que não necessariamente depende da permanência de Bolsonaro no poder: ele mobiliza parcelas consideráveis da população através de seus discursos, que defendem o conservadorismo nos costumes, o liberalismo na economia, a luta contra “o sistema”, a religião e a admiração pelo militarismo.

Será que a aposta moderada e centrista será suficiente para derrotar o bolsonarismo aqui? Mesmo que por pouco? Ou, em nosso contexto particular, faz-se necessário redobrar a aposta na radicalização pela via da esquerda? Mesmo que a vitória de Biden seja confirmada, ainda não está claro qual das duas vias parece a mais indicada para o Brasil. Enfim, tudo indica um destino trágico da democracia liberal de “pequenas maiorias” em tempos de agitação atualista. Sem negar a nossa atual realidade, cabe a nós pensar e imaginar alternativas, por mais difícil que pareça ser em nosso atual nevoeiro e impregnados por uma sensação de asfixia. Além disso, a lentidão com que a apuração avança em alguns estados decisivos promete nos deixar hipnotizados pelos mapas eleitorais na expectativa da atualização decisiva.

(*) Mateus Pereira e Valdei Araujo escreveram o Almanaque da Covid-19: 150 dias para não esquecer ou o encontro do presidente fake e um vírus real com Mayra Marques. Ambos são professores de História na Universidade Federal de Ouro Preto, em Mariana (MG). Também são autores do livro Atualismo 1.0: como a ideia de atualização mudou o século XXI e organizadores de Do Fake ao Fato: (des)atualizando Bolsonaro, com Bruna Klem. Walderez Ramalho é doutorando em História na mesma instituição. Agradecemos à Márcia Motta e ao grupo Proprietas pelo apoio e interlocução nesse projeto.


[1] https://noticias.uol.com.br/colunas/thais-oyama/2020/11/04/o-eleitor-oculto-de-trump-e-o-novo-erro-dos-institutos-de-pesquisa.htm

[2] PEREIRA, Mateus; MARQUES, Mayra; ARAUJO, Valdei. Almanaque da COVID-19: 150 dias para não esquecer, ou a história do encontro entre um presidente fake e um vírus real. Vitória: Editora Milfontes, 2020.

[3] Usamos aqui um neologismo para dar conta da diferença que em inglês é mais clara entre a produção deliberada de notícias falsas (disinformation) e sua disseminação involuntária (misinformation).

[4] https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2020/07/20/trump-muda-discurso-e-agora-diz-que-usar-mascara-e-patriotico.htm

[5] EMPOLI, Giuliano Da. Os engenheiros do caos: como as fake news, as teorias da conspiração e os algorítimos estão sendo utilizados para disseminar ódio, medo e influenciar eleições. São Paulo: Vestígio, 2019.

[6] https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/10/quase-sete-em-cada-dez-americanos-relatam-transtorno-do-estresse-eleitoral.shtml

[7] https://br.noticias.yahoo.com/em-pronunciamentos-biden-prega-calma-e-trump-faz-acusacao-de-roubo-065922289.html

[8] https://www.aljazeera.com/news/2020/9/12/biden-battles-trump-lack-of-enthusiasm-among-black-voters

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