A mídia fortalece ou não o controle da sexualidade das mulheres?

Por Alexandre Vega, Davi Andres, Everton Rodrigues e Felipe Kfouri, do Podemos Mais, especial para #JornalistasLivres

No último sábado, 28 de março, aconteceu o seminário “A Mídia e o Aborto”, organizado pelo Grupo de Estudos sobre o Aborto (GEA — goo.gl/dNI0wU). Seu objetivo foi “oferecer informações que permitam que os jornalistas tenham mais subsídios para tratar sobre o tema, independentemente das fontes de suas reportagens, superando algumas questões já consideradas ultrapassadas pelos especialistas da área, otimizando o tempo e o trabalho de todos os envolvidos.”

Durante o seminário, entre dados e informações, afirmou-se que “a criminalização do aborto é uma forma de controlar a sexualidade das mulheres”. Segundo Telia Negrão, da ONG Coletivo Feminino Plural, “o Estado mantem forte controle sobre o corpo das mulheres na medida em que, através das leis e das políticas públicas, se determina o grau de possibilidade das mulheres tomarem as próprias decisões”. Diante disto, surge uma questão que precisamos responder: será que o posicionamento conservador das grandes empresas de comunicação a respeito do aborto é devido a falta de dados e informações ou existem outros interesses por trás disso?

Sabemos que as igrejas católicas e evangélicas são duas instituições com grande poder político e econômico no Brasil. Históricamente, as leis brasileiras são criadas por homens religiosos. Estes homens religiosos são eleitos pela sociedade para criar leis no congresso nacional e muitos também são proprietários de veículos de comunicação. Segundo o portal do Curimataú (http://goo.gl/B07lMH), dos 513 deputados federais, 421 responderam ao questionário onde 300 (71%) afirmam ser católicos e 16% evangélicos. Em 2008, o projeto “Donos da Mídia” revelou que no Brasil 271 políticos são sócios ou diretores de 324 veículos de comunicação (http://goo.gl/sGHXpQ). A pesquisa não é atual, mas mostra uma relação direta entre as empresas da mídia e políticos eleitos para criar leis e comandar políticas públicas.

Para Thomaz Rafael Gollop, médico ginecologista e obstetra, coordenador do GEA, os jornalistas sempre inciam suas entrevistas da seguinte forma: “Doutor, sabemos que o senhor é a favor do aborto. O senhor pode nos indicar outro médico que seja contra o aborto?” Gollop costuma dizer que “ele é o os dois: que não é a favor do aborto, mas, sim, contra a mortalidade das mulheres em função dos abortos inseguros.”

O Juiz de Direito Titular da 1a Vara do Júri de Campinas, Dr. José Henrique Rodrigues Torres, defende: “de acordo com o sistema internacional de direitos humanos, é incompatível a criminalização do aborto com o direito das mulheres e o dever do Estado. A “objeção da consciência” entre os médicos é um direito, mas não é absoluto. Mesmo no código de ética médica a objeção de consciência não é válida quando existe a possibilidade de prejudicar a mulher em quaisquer aspectos.”

A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que 30% das mulheres tiveram sua primeira relação sexual de maneira forçada; 52% são vítimas de assédio sexual e 69% são vítimas de agressões físicas ou sexuais. O aborto inseguro mata entre 60mil e 70 mil mulheres por ano, no mundo. No Brasil, é a seguda ou terceira causa de morte materna.

E o que falta na cobertura da mídia sobre Aborto?

O médico ginecologista e obstetra, Jefferson Drezett, coordenador do Núcleo de Violência Sexual e Aborto Legal do Hospital Pérola Byington do SUS/SP, responde: “olha eu sinto falta de duas coisas: primeiro de ter uma conversa fora do oportunismo de uma situação. Nós somos, evidentemente, mais procurados quando acontece de o médico de Santo André denunciar uma paciente porque uma paciente do Rio de Janeiro morreu… Aí a gente é procurado… Eu sinto muita falta de ser procurado fora da oportunidade da notícia para uma conversa mais séria. Segundo, eu sinto muito falta de conversar com vocês, jornalistas, fora da estupidez daquela situação de ser contra ou a favor do aborto. Eu acho dificil de acreditar que existe um falta de disponibilidade de informações para o jornalistas”

O vice-presidente da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO), Olímpio Moraes, responde a questão: “existe uma corrente contra o direito reprodutivo, que trabalha diariamente com muito dinheiro, com mais ou menos 70% dos rádios, que todo domingo se reúnem para falar negativamente do aborto, com viés religioso sobre um assunto de saúde pública.”

A psicóloga do Núcleo de Violência Sexual e Aborto Legal do Hospital Pérola Byington do SUS/SP, Daniela Pedroso, diz que sente falta que o tema do aborto saia das páginas policiais e vá para a área da saúde. “A dificuldade maior é que a mídia não quer levar informação para as mulheres. Não é só pensar quem está por trás da mídia, mas também pensar que, se você não tem informação, você não se mobiliza. Acredito que a mídia deve desmistificar o aborto.”

O juiz José Henrique Torres afirma: “você tem uma imprensa nas mãos de um poder econômico… É lógico que essa imprensa está vinculada a este poder econômico, social, político; vinculada à questões ideológicas. Nós precisamos encontrar soluções que venham ao encontro da liberdade dos jornalistas para terem a oportunidade de produzir um jornalismo independente, de não esterem vinculados a estes interesses enconômicos. E finaliza: “precisamos encontrar uma forma de democratizar a imprensa.”

Thomaz Gollop finaliza: “o aborto é um tabu e as pessoas replicam este tabu com informações ultrapassadas, que não são baseadas em pesquisas.”

Uma coisa é certa: enquanto a mídia for monopólio nas mãos de políticos e religiosos, temas como o aborto continuarão a matar mulheres a cada dia. Ou a socidade se mobiliza ou as estatísticas de morte de mulheres continuarão aumentando.

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