Ultraje amazônico: Bolsonaro homenageado no dia dos Direitos Humanos

Foto: Gabriela Korossy/ Câmara dos Deputados

Por Leo Moreira Sá, especial para os Jornalistas Livres

Platiny se elegeu com apenas 22 anos deputado estadual, um ano depois de liderar a greve da PM amazonense deflagrada em abril de 2014, com o compromisso de lutar por melhoria das condições de trabalho dos militares do seu Estado.

Entregar uma das maiores honrarias do Amazonas a Jair Bolsonaro, em pleno Dia Internacional dos Direitos Humanos, é uma afronta ao Estado democrático e à luta dos movimentos sociais brasileiros. É execrável, inaceitável além de ser surreal.

“A Comenda Ordem do Mérito Legislativo do Amazonas é concedida a qualquer cidadão brasileiro que tenha se destacado por seus trabalhos de relevância pelo interesse da sociedade, e não tenho dúvidas que a atuação do deputado Bolsonaro no Exército Brasileiro e na Câmara dos Deputados, em Brasília, são dignas desse reconhecimento”, afirmou Platiny Soares.

O deputado federal Jair Bolsonaro, conhecido internacionalmente por suas declarações racistas, machistas e homotransfóbicas, já foi protagonista de várias situações criminosas contra pessoas comuns e colegas de profissão.

Autor do projeto que queria instituir o “Dia do orgulho hétero”, participou de outras projetos de lei com o objetivo de barrar ou anular direitos já conquistados pela comunidade LGBT. Se tivéssemos uma legislação específica para crimes homotransfóbicos, e se nesse país não houvesse tanta impunidade relativa a ações de policiais militares fascistas, Jair Bolsonaro não estaria recebendo nenhuma homenagem no dia Internacional dos Direitos humanos, e sim voz de prisão por seus muito crimes desde que se elegeu deputado pelo Partido Progressista do Rio de Janeiro em 1990.

Entre algumas pérolas do seu discurso de ódio podemos destacar:

“Seria incapaz de amar um filho homossexual. Prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí.”

“Não vou combater nem discriminar, mas, se eu vir dois homens se beijando na rua, vou bater.”

“Eu não corro esse risco, meus filhos foram muito bem educados” (para Preta Gil, quando ela perguntou o que ele faria se seus filhos se relacionassem com uma mulher negra ou com homossexuais)

“Você é uma idiota. Você é uma analfabeta. Está censurada!”. (pra uma repórter da rede TV)

“Não te estupro porque você não merece” (para a deputada federal Maria do Rosário)

“O erro da ditadura foi de torturar e não matar”

“A PM devia ter matado 1.000 e não 111 presos.” (sobre o Massacre do Carandiru)

“Essa homenagem é negativa. O Platiny foi infeliz nesse posicionamento, uma vez que o deputado Jair Bolsonaro é declarado um opositor ao que prega o PV, e ao que preconiza a nossa plataforma política’, disse o vereador Everaldo Faria.

Colega de legenda de Platiny, Everaldo pediu a expulsão do deputado do partido durante uma reunião extraordinária com a Direção Estadual do PV, no dia 1º de dezembro , que acatou a solicitação de conduzir Platiny à Comissão de Ética.

A presidente estadual do PV, Eliana Ferreira também se posicionou:

“O Partido Verde irá se reunir para discutir a decisão pessoal do deputado estadual Platiny Soares, de homenagear o deputado federal Jair Bolsonaro, e que vai totalmente de encontro com o que preconiza o estatuto da nossa sigla. Desde já quero deixar observado que o Partido Verde é veementemente contra esta comenda”.

A Ordem dos Advogados do Brasil Seccional Amazonas (OAB/AM) divulgou uma nota de repúdio à homenagem ao deputado.

“Causa-nos estranheza os critérios utilizados na escolha para o recebimento de tamanha deferência do Legislativo Estadual, visto estarmos ladeados por um grande número de aguerridos caboclos e personagens amazonenses que se esmeram diariamente na fundação dos princípios do Estado Democrático de Direito, pois tal comenda deveria ter sido concedida apenas ao cidadão brasileiro que tenha se destacado pelos seus trabalhos de relevância pelo interesse da sociedade, qualidades estas não vislumbradas na pessoa homenageada, por conta inclusive de suas incitações e posicionamentos homofóbicos e preconceituosos.”

Platiny, mesmo ciente da possível expulsão do partido, confirmou a homenagem com a seguinte declaração:

“Estou preparado. Se pedirem a minha expulsão, não tem problema. Soldado que tem medo de ir à guerra é covarde. Não irei recuar da homenagem ao Bolsonaro”.

Um grupo de representantes de 15 instituições que trabalham em defesa dos Direitos Humanos no Amazonas foi até a Assembléia Legislativa do Amazonas para exigir do deputado uma explicação para a homenagem, mas foram barrados por seguranças e convidados a se retirarem.

De lá do Amazonas nos chega o grito de revolta de Alessandro Alcântara, um militante Homem Trans amazonense:

“Eu não quero esse homem sendo homenageado pelo poder legislativo daqui! Ainda mais que a população aqui é de majoritariamente cabocla, ou seja, de miscigenação indígena. E Jair Bolsonaro odeia indígenas, pardos e negros! É um acinte a casa do povo amazonense homenagear o algoz do seu próprio povo!”

Para piorar a vergonha amazônida, amanhã, 11 de dezembro, Bolsonaro vai “dar aula” na Ulbra, Centro Universitário Luterano de Manaus — o que será que esses alunos estão aprendendo em termos de ética e respeito ao próximo? À tarde, o “inimigo do povo” visitará o Comando Militar da Amazônia.

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