No dia 19 de agosto, seis juristas brasileiros realizaram a tribuna destinada a apresentar as condutas de Bolsonaro e a detalhar os procedimentos legais necessários para que, dentro da lei, ele seja afastado do cargo e responsabilizado pelos crimes contra a Humanidade, Meio Ambiente e Responsabilidade.
Bolsonaro é um criminoso.
A crise sanitária em curso, representada pelo ameaçador coronavírus, foi potencializada pela gestão assassina de Jair Bolsonaro –apenas pelos registros oficiais, descontada a subnotificação, já se contam quase 100 mil brasileiros cujas vidas foram ceifadas pela doença, sem que o governo do ex-capitão tenha enunciado qualquer plano para evitar o contágio ou para minorar o sofrimento dos doentes. Em vez disso, Bolsonaro tripudiou sobre a dor e o luto de tantas famílias brasileiras, tratando a Covid-19 como uma “gripezinha”, esquivando-se de suas responsabilidades. “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?”, perguntou ele quando confrontado com o fato de o País então contabilizar 5 mil mortos. E emendou, de forma jocosa: “Sou Messias, mas não faço milagre.”
O escracho presidencial incluiu ainda essa fake news, perfeita síntese de sua crueldade: “O brasileiro tem de ser estudado, não pega nada. O cara pula em esgoto, sai, mergulha e não acontece nada.” Isso quando se sabe que o Brasil, por conta das mais do que precárias condições sanitárias de vida dos mais pobres, é recordista mundial em doenças extintas ou controladas em países desenvolvidos, como a tuberculose, a leishmaniose, hanseníase, sarampo e outras.
Negacionista em relação aos severos danos da pandemia, o presidente do Brasil estimulou e personificou atitudes francamente anticientíficas e em oposição às diretrizes da Organização Mundial de Saúde. Chegou ao cúmulo de orientar seus seguidores a invadir hospitais para filmar supostos leitos vazios. Colocou assim em risco as vidas de pacientes, do corpo clínico que os assistia e dos próprios invasores. Estudo da Universidade Federal do ABC revelou que o discurso negacionista de Bolsonaro pode ter contribuído para a atitude igualmente negacionista de muitos de seus eleitores, inclusive levando não poucos a se negarem a usar máscaras de proteção contra o vírus.
Há método, contudo, nessa aparente insanidade. Bolsonaro ataca tudo o que lhe pareça representar as populações mais pobres e mais vulneráveis, e não seria diferente na Covid-19. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios –Pnad Covid-19, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), demonstrou que os brasileiros mais afetados pela doença, e a esmagadora maioria dos mortos, são pretos, pardos, pobres e sem estudo. O Brasil apresenta o vergonhoso número de mais de mil mortes diárias por conta do vírus há dois meses. Trata-se de um número assustador –como se caíssem todos os dias dois Boeings 747, matando todos os passageiros. Todos os dias. Seria esse o novo normal?
Bolsonaro é um criminoso.
O presidente também vem promovendo políticas econômicas perversas, que estão jogando milhões de pessoas na miséria, ao mesmo tempo em que vem destruindo a educação, a saúde, a cultura, e a segurança públicas. Como se já não fosse o bastante, o primeiro mandatário da nação ufana-se de perseguir e tentar desmoralizar diuturnamente professores, médicos, policiais, a imprensa e todos os que ousem desafiá-lo.
As ações do governo Bolsonaro, principalmente durante a pandemia, provocaram o aumento do desemprego. De acordo com o IBGE, 12,4 milhões de brasileiros estavam em busca de trabalho no final de junho. Fora os milhões de trabalhadores que deixaram de procurar emprego porque, afinal, não há vagas mesmo. Da força de trabalho total do Brasil de 105,2 milhões de pessoas, apenas 35,9 milhões têm carteira de trabalho assinada. Os demais submetem-se às condições sub-humanas da precarização. São coagidos a aceitar condições degradantes de trabalho porque ou é isso ou não se põe comida na mesa.
Bolsonaro é um criminoso.
Mas Bolsonaro não para por ai. Seus crimes não atingem somente a população pobre, os trabalhadores, os negros, as mulheres, os indígenas do Brasil. Eles ultrapassam nossas fronteiras e também afetam o Planeta. Bolsonaro ameaça o futuro da Terra. A Humanidade corre perigo quando homens como ele assumem o comando de uma nação como o Brasil, cujos recursos naturais, florestas e rios, respondem por boa parte do equilíbrio climático global.
Bolsonaro está umbilicalmente atado aos interesses do que existe de mais predador, egoísta e cruel do espectro humano. Ele avança sobre Terras Indígenas e sobre a maior floresta tropical do mundo. No último ano, mais de 1 milhão de hectares foram queimados na Amazônia e no Pantanal, resultado de incêndios criminosos, provocados por fazendeiros e grileiros animados com o plano macabro de Bolsonaro de afrouxar a fiscalização do Ibama e ampliar na marra a fronteira agrícola. Quem não lembra do “Dia do Fogo”, quando fazendeiros, madeireiros e empresários bolsonaristas da cidade de Novo Progresso, no sul do Pará, fizeram uma “vaquinha” para comprar combustível e incendiar a Floresta em “apoio” ao Presidente?
Levantamento realizado em maio deste ano pela Agência Pública mostra que mais de 2 mil propriedades privadas, autorizadas pelo governo federal, invadiram 250 mil hectares de Terras Indígenas, incluindo áreas onde vivem povos isolados. Além do aumento descomunal do desmatamento, os índios estão morrendo cada vez mais, vítimas da pistolagem contra os guardiões da floresta. E morrem também em decorrência da Covid-19, que está ceifando as vidas exatamente dos homens e mulheres mais velhos desses povos indígenas, cortando-lhes o acesso à sabedoria ancestral.
Em poucos anos, entraremos no que os cientistas chamam de “irreversibilidade”, um caminho sem volta. Nossas matas e florestas não terão mais capacidade de se regenerar e problemas como falta de água, desertificação e acidificação dos mares irão afetar a todos, sem distinção. Todos os que não sejam bilionários com capacidade para comprar uma nave espacial e um pedaço de terra em outro planeta serão afetados.
Bolsonaro é um criminoso.
O racismo, o machismo e a homofobia também ganharam força no governo Bolsonaro. Assassinato de jovens cada vez mais jovens no Rio de Janeiro, por exemplo, tornou-se a triste rotina nas favelas e comunidades pobres. Lembre-se de Jenifer, Kauan, Kauã, Kauê, Ágatha e Kethellen, crianças entre 5 e 12 anos assassinadas em intervenções policiais. Segundo apuração do G1, em 2019, o Brasil teve aumento de 7,3% de casos de feminicídio em comparação com 2018. Pesquisa publicada pelo jornal Folha de S.Paulo, em março de 2019, comprovou o aumento da violência contra a população LGBT desde a eleição de Bolsonaro.
Esses e outros indicadores da realidade brasileira demonstram a urgência da retirada de Jair Bolsonaro do governo. Contudo, o impeachment deverá ser apenas um passo nesse processo. Jair Bolsonaro precisa ser responsabilizado pelo descaso com a vida, precisa ser responsabilizado pela morte de milhares de brasileiros e pelos crimes ambientais cometidos no período de seu governo.
A Tribuna de Juristas que acontecerá no dia 19 de agosto, às 14h, será um espaço privilegiado para a exposição das provas dos crimes do presidente à luz das leis vigentes do Brasil.
Conduzida pela Desembargadora Kenarik Boujikian, a Tribuna dos Juristas pretende também chamar à responsabilidade o Judiciário brasileiro a respeito da criminosa condução do país por Jair Bolsonaro.
Como será?
Kenarik Boujikian, especialista em Direitos Humanos e cofundadora da AJD e ABJD, fará a abertura (10min), a condução da Tribuna e o encerramento (10min). Cada jurista falará durante 15min.
Integrantes da Tribuna
Deborah Duprat – desenvolveu a carreira de jurista, atuando em defesa dos Direitos Humanos.
Isadora Brandão – Defensora Pública de SP e coordenadora do Núcleo de Defesa da Diversidade e da Igualdade Racial.
Ivo Cípio Aureliano – advogado indígena do Povo Makuxi. Membro da Rede de Advogados do Brasil. Membro da Comissão Especial da Defesa dos Direitos dos Povos Indígena do Conselho Federal da OAB.
Roberto Tardelli – integrante da Comissão de Direitos Humanos da OAB/SP e do Coletivo Transforma MP.
Sheila Santana de Carvalho – advogada de Direitos Humanos e da Coalizão Negra Por Direitos.
Thiago de Souza Amparo – ministra cursos sobre Direitos Humanos, diversidade e direito internacional.
A idealização e a organização do evento são dos professores universitários Rose Naves e Plínio de Arruda Sampaio Jr.
A transmissão será feita pelas redes sociais do Portal Jornalistas Livres.
Um agradecimento especial para os parceiros que retransmitiram o Tribunal em suas páginas:
– Comitê NACIONAL Lula Livre – ABJD (Associação Brasileira de Juristas pelo Democracia) – CTB (nacional) – PCdoB – SP – Frente Brasil Popular – FBP – FBP – SP – Barão de Itararé – Barão de Itararé – SP – Movimento Paulista de Solidariedade a Cuba – MST – Brasil de Fato – Opera Mundi – CUT – SP – Vermelho – PCdoB Nacional – UNE – GGN – Coletivo Transforma MP – SASP- Sindicato dos Advogadxs SP – CTB – SP – SindJor-SP – MAB – UBES – Uniao Brasileira dos Estudantes Secundaristas – Central de Movimentos Populares – CMP – TVT – CA 22 de Agosto – Grupo Prerrogativas
Alguém tem que salvar este país das mãos dos facínoras FASCISTAS, enquanto há país. Supremo e legislativo estão com seus respectivos RABOS PRESOS com o GOLPE desde sua concepção. Então, cabe à sociedade civil e às cortes internacionais intervirem, antes que se estabeleça a barbárie generalizada e com desfecho imprevisível.
#ForaBol卐onaroGenocida !.!.!
Respeito opiniões, mas não consegui ouvir sequer uma opinião com inteligência mínima ou fato. Um monte de mimimi, simplesmente um NADA. Posicionamento político irrelevante e sem conteúdo.
Consegui assistir na íntegra a videoconferência e entre meias verdades e muitas mentiras, o forte teor conotativo das opiniões, certamente fará das denúncias simples verborréia para inocuidade. Pelo menos no Youtube, dos 6,9 mil comentários, as reações negativas foram tantas, que ao que pareceu, o assunto só despertou interesses dos contrários.
Assassinato de 168 meninas, além do aiatolá Ali Khamenei, no primeiro dia dos bombardeios americanos-sionistas contra o Irã, mobiliza o país persa e engaja as crianças
O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.
Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.
A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.
O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.
Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.
Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.
Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé. Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.
Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres
Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.
Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.
Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.
Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.
Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.
Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.
Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.
*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina
Nos EUA voto popular não significa vitória. Biden terá mais votos do que Trump e ainda assim o resultado da eleição continuará indefinido por algum tempo. Apesar dos descalabros que marcaram a gestão Trump antes e durante a pandemia, o seu desempenho na atual corrida eleitoral será muito forte.
Mateus Pereira, Valdei Araujo e Walderez Ramalho, professores da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) em Mariana, MG
A disputa está sendo muito mais acirrada do que era inicialmente previsto pela maior parte dos institutos de pesquisa e da mídia americana, embora a cautela e o medo nunca deixaram de estar presentes. Sob esse ponto de vista, as eleições deste ano são como uma repetição do que vimos em 2016, ainda que o resultado possa ser a derrota eleitoral para Trump. Em 2016 foram os democratas que denunciaram a interferência russa, agora é o presidente-agitador que se apressa em questionar a legitimidade do pleito, sem mostrar nenhuma prova. Sabemos que no ambiente do atualismo provas têm como base apenas convicções.
Um sistema eleitoral que sobreviveu por séculos, sem grandes mudanças, pode ter se tornado obsoleto desde a eleição de Bush, em 2000. Um lembrete do possível declínio da democracia americana: das últimas oito eleições presidenciais desde 1992, os democratas venceram no voto popular as últimas sete, mas em apenas quatro ocasiões ganharam o colégio eleitoral e fizeram o presidente.
Acreditamos que as eleições nos EUA são um exemplo do confronto entre duas estratégias e duas concepções sobre fazer política: de um lado, Trump e sua promessa de eterna atualização da atualidade em modo nostálgico; e Biden, com sua aposta moderada no cansaço na agitação atualista que seu adversário republicano encarna e radicaliza, e a retomada da política em moldes liberais. Essa retomada é feita sem uma crítica efetiva ao modelo neoliberal abraçado pela cúpula do partido democrata. Uma aposta radical, como Sanders, teria se saído melhor? É difícil dizer, mas tudo leva a crer que não, tendo em vista o complicado xadrez do voto estado a estado.
A escolha entre as duas estratégias/concepções se mostrou muito mais difícil e apertada do que se imaginava. A tal “onda azul” anunciada por parte da imprensa estadunidense esteve longe de acontecer. De fato, Trump se mostrou eleitoralmente muito mais forte do que os analistas supunham. Considerando que esta não é a primeira vez que os institutos de pesquisa falharam em captar esse movimento no eleitorado americano, e considerando também que fenômeno semelhante ocorreu no Brasil em 2018, coloca-se a questão de saber se as tradicionais pesquisas de opinião tornaram-se de alguma forma obsoletas em um mundo atualista. Esse quadro muda pouco, mesmo com uma eventual vitória de Biden ou pior, com uma inconveniente reeleição de Trump.
São vários fatores que devem ser considerados para avaliar essa questão. Os próprios institutos se apressaram a ensaiar algumas explicações ao público. O diretor da Trafalgar Group, Robert Cahaly, afirmou que muitos eleitores “esconderam”, como já havia acontecido, sua preferência por Trump por algum receio ou constrangimento social.[1] Não podemos desconsiderar algum tipo de boicote/sabotagem dos eleitores republicanos, já que na retórica do trumpismo as pesquisas de opinião fazem parte da mídia vendida. Outros recorreram à justificativa de que as pesquisas anteriores representavam apenas fotografias do momento específico em que as entrevistas foram feitas, e não o que se poderia esperar na eleição propriamente dita. Isso poderia ter sido de fato observado pela tendência de redução da vantagem de Biden nos últimos 15 dias. Afinal, o episódio da contaminação de Trump e sua rápida recuperação pode ter tido um saldo positivo, ao menos na mobilização de sua base, como já havíamos especulado em coluna anterior.
Aceite-se ou não essas justificativas, fato é que os institutos de pesquisa sairão dessas eleições com sua credibilidade e imagem pública mais arranhadas, sobretudo diante das especificidades do sistema eleitoral americano. Como afirmamos, muitos fatores concorrem para esse desgaste. Um deles está relacionado à condição atualista que caracteriza o nosso presente e como cada um dos candidatos se coloca frente a tal condição.
Trump é um político bastante sintonizado com o ambiente da comunicação atualista onde as provas dispensam comprovação factual. Seja nas redes sociais, seja em seus concorridos comícios, o presidente se revela um comunicador difícil de ser batido. Dentre os aspectos associados à condição atualista, destacamos a intensidade e velocidade sem precedentes do fluxo de notícias, em detrimento dos protocolos de verificação e checagem da informação veiculada. Esse ambiente infodêmico[2] é particularmente fértil para a produção de desinformação e sua disseminação como misinformação.[3] Além das informações imprecisas, para não dizer apenas falsas, que a infodemia trumpista ajuda a difundir, é preciso levar em consideração a agitação/ativação que produz. É como se a oposição se agitasse confusamente e a base trumpista se ativasse a cada um de seus comentários polêmicos. Assim, o uso constante das redes sociais para disseminar fake news ou comentários faz com que, seja de modo positivo ou negativo, o presidente esteja sempre no foco da mídia. O acúmulo de notícias sobre suas falas ou atos inconsequentes faz com que seja difícil recuperar qual foi o absurdo dito ou feito na semana anterior. Na condição atualista há um valor excepcional em estar mais atualizado (e exposto) que o seu adversário.
Ainda assim, a manipulação das fake news como ferramenta política supõe uma linguagem organizada para se tornar eficaz. Essa afirmação pode soar chocante à primeira vista: como podemos atribuir coerência a um discurso fundamentado em desinformação e que frequentemente e sem o menor pudor afirma hoje o contrário do que disse ontem, como o exemplo do uso de máscaras na pandemia?[4] O ponto aqui é que a condição atualista coloca muitos obstáculos para que o passado, mesmo o mais recente, seja trazido à reflexão. Assim, quando confrontados com suas próprias contradições, políticos atualistas como Trump e Bolsonaro simplesmente atualizam suas narrativas e afirmações quando as anteriores se tornam insustentáveis. Com muita frequência, os seus discursos mudam em função da conveniência da atualidade, sem a mínima necessidade de se prestar conta da contradição com o que eles mesmos diziam no dia anterior.
Essa estrutura atualista do discurso político só se torna eficaz, porém, no interior de uma linguagem organizada e facilmente identificável pelo público que a compartilha, no interior de uma condição material de reorganização do mundo do trabalho e do capital. A crise de 2008, concentração de renda, neoliberalismo, capitalismo de vigilância e a formação do atual “precariado” são elementos, dentre outros, fundamentais para entender a emergência de líderes que governam e são eleitos por pequenas maiorias mobilizadas pela historicidade e ideologia atualista. Só assim podemos entender a força de Trump na eleição independente do resultado final, ainda que sua derrota interesse a todos os democratas do mundo.
Trump lança mão de artifícios retóricos quando confrontado com suas afirmações evidentemente baseadas em mentiras e contradições, de tal maneira que ele consegue, mesmo em tais situações, transmitir e reforçar o código entre o seu público. O código se estrutura em uma lógica antagonista, na qual o portador é sempre vítima de perseguição por parte do establishment e da imprensa vendida para a “esquerda corrupta” ou as corporações globalistas.
O ponto principal a ser considerado é que para ser politicamente eficaz não é necessário que o código seja compartilhado por todos; mas que seja continuamente ativado junto aqueles que já o compartilham. Por mais que esteja sustentado em desinformações, o fato é que o código é bastante poderoso na ativação de afetos políticos centrais como o medo, ódio e ansiedade, vetores de forte engajamento e agitação política que Trump e Bolsonaro sabem tão bem promover.
O sucesso dessa estratégia se coaduna com a popularização das redes sociais e dos smartphones, bem como das novas tecnologias de processamento de dados manipulados para fins políticos. Nesse contexto, tornou-se possível criar e difundir mensagens sob medida para cada tipo de público, cada indivíduo ou grupo formula suas próprias percepções sobre o mundo a partir de narrativas (códigos) que não mais precisam ser expostos publicamente a todos para serem eficazes. Após alguns reconhecimentos iniciais, os algoritmos se encarregam de abastecer-nos das notícias que nos mobilizam, sempre com o mesmo teor e formato. Reforça-se, assim, o fenômeno das “bolhas”.[5] Esses códigos podem circular de forma subterrânea, de tal modo que o que parece absurdo e chocante para uns, é perfeitamente aceitável e normalizado para outros.
Esse ambiente de circulação de notícias e códigos é condizente com a ordem atualista de nosso tempo e, ao nosso ver, é um fator importante a ser considerado no desempenho surpreendente de Trump nestas eleições. E um dos preços a se pagar para tal sucesso é a radicalização do clima de agitação que tem marcado a nossa época. Esse quadro tem resultado inclusive em distúrbios psicológicos cada vez mais comuns, como o “transtorno do estresse eleitoral”, que segundo estimativas afeta sete em cada dez cidadãos estadunidenses.[6]
Os políticos atualistas claramente não se importam em pagar esse preço, na verdade eles têm lucrado com isso. Mas, ao fim e ao cabo, eles não podem evitar completamente os efeitos colaterais de suas apostas. Agitação e dispersão geram também cansaço no eleitorado. Biden e os democratas tomaram esse efeito como vetor de suas estratégias para estas eleições. Frente à irrefreável agitação de Trump, Biden se vendeu como a opção mais “centrista”, de moderação e convergência. A divergência entre as duas estratégias foi mais uma vez demonstrada logo após o fechamento da votação: enquanto Trump se apressou em declarar-se vencedor e dizer que irá judicializar a eleição em caso de derrota, Biden classificou tal postura como “ultrajante” e pregou calma aos seus apoiadores[7].
Mesmo que a vitória do democrata seja confirmada, é inegável que o preço desse lance foi bastante alto. A imprensa americana noticiou como parcelas importantes do eleitorado negro, que o próprio Biden afirmou ser “a chave para a vitória”, relataram estarem pouco motivados a votarem no candidato democrata.[8] O mesmo ocorreu entre parte do eleitorado hispânico, em especial na Flórida e no Texas. O conservadorismo nos costumes, a adesão a denominações evangélicas que tem crescido entre hispânicos e a tradição anticomunista dos cubanos, e agora também venezuelanos, na Flórida, são fenômenos a serem considerados. Enquanto fechamos essa coluna Trump ainda lidera na Pensilvânia, estado no qual o operariado branco migrou dos democratas para o trumpismo. No último debate, Biden acabou por reconhecer que teria que acabar com a exploração do altamente poluente gás de xisto, o que foi imediatamente explorado por Trump: “Eis uma declaração importante”, ironizou o presidente. Caso perca por margem apertada na Pensilvânia, onde os trabalhadores dessa indústria são amplamente sensíveis ao tema, talvez essa declaração tenha custado a eleição.
Para entender melhor essas flutuações teríamos que fazer algo pouco praticado durante a campanha, uma avaliação retrospectiva fundada em boa informação acerca das políticas públicas implementadas por democratas e republicanos, em especial nos governos Obama e Trump. O apoio ao republicano não é apenas resultado da mágica da comunicação, deriva também da tibieza das políticas democratas e dos acertos de Trump. Reforma do sistema criminal, política externa menos intervencionista, foco na economia e na criação de empregos, com bons resultados, ao menos até a pandemia.
A decisão das eleições primárias do Partido Democrata em nomear um candidato “centrista” para concorrer nessas eleições – ao contrário de uma opção mais radical do populismo de esquerda como Bernie Sanders – foi importante para unificar o partido (em especial o seu establishment) e angariar o apoio do eleitorado “cansado” da agitação radicalizada. Por outro lado, a figura moderada de Biden não se mostrou capaz de promover um grau de engajamento e mobilização do público à altura do seu adversário agitador, nem está claro ainda se seu discurso de união nacional conseguiu atrair eleitores de Trump. Essa diferença é importante em um contexto onde o voto não é obrigatório e, no caso particular das eleições deste ano, ainda mais desencorajado pela pandemia do coronavírus.
Mesmo assim, a moderação pode ter sido eficaz para para derrotar a agitação, mas não para desativá-la. E ainda não podemos assegurar como os EUA sairá dessas eleições, pois Trump continua sendo quem é. Há ainda o risco de o agitador perder e não aceitar sair, e as consequências disso poderão ser catastróficas. E mesmo que ele saia, o trumpismo – o negacionismo, o anti-esquerdismo, o desejo de retorno a um passado glorioso e mítico – ainda permanecerá em parcelas consideráveis da população.
O que tudo isso ensina para o campo democrático brasileiro, que tem de enfrentar a sua própria versão de agitador atualista? Desde o início da votação nos EUA, Bolsonaro disparou freneticamente uma série de tweets ressoando as alegações infundadas de seu ídolo sobre as eleições serem “fraudadas” a favor dos democratas, o que seria um risco para a “liberdade” e para o Brasil. Afinal, nosso agitador atualista tupiniquim sabe bem que a permanência de Trump é uma força de sustentação fundamental para ele. As relações entre EUA e Brasil deixaram de ser uma relação entre Estados, mas sim uma relação de “amizade” (leia-se emulação e, do nosso ponto de vista, subserviência) entre os chefes de turno da Casa Branca e do Palácio do Planalto.
Assim, e seguindo o estilo atualista de fazer política, Bolsonaro ressoa as afirmações sem fundamento de Trump, sem se preocupar com a veracidade e desprezando o princípio diplomático básico da impessoalidade. Mas Bolsonaro também tem seu próprio código “alternativo”, cujo enfrentamento é a tarefa prioritária das forças democráticas no Brasil, que deverá avaliar e tomar suas próprias escolhas para vencer o confronto. Assim como o trumpismo, nos Estados Unidos, o bolsonarismo é um fenômeno que não necessariamente depende da permanência de Bolsonaro no poder: ele mobiliza parcelas consideráveis da população através de seus discursos, que defendem o conservadorismo nos costumes, o liberalismo na economia, a luta contra “o sistema”, a religião e a admiração pelo militarismo.
Será que a aposta moderada e centrista será suficiente para derrotar o bolsonarismo aqui? Mesmo que por pouco? Ou, em nosso contexto particular, faz-se necessário redobrar a aposta na radicalização pela via da esquerda? Mesmo que a vitória de Biden seja confirmada, ainda não está claro qual das duas vias parece a mais indicada para o Brasil. Enfim, tudo indica um destino trágico da democracia liberal de “pequenas maiorias” em tempos de agitação atualista. Sem negar a nossa atual realidade, cabe a nós pensar e imaginar alternativas, por mais difícil que pareça ser em nosso atual nevoeiro e impregnados por uma sensação de asfixia. Além disso, a lentidão com que a apuração avança em alguns estados decisivos promete nos deixar hipnotizados pelos mapas eleitorais na expectativa da atualização decisiva.
(*) Mateus Pereira e Valdei Araujo escreveram o Almanaque da Covid-19: 150 dias para não esquecer ou o encontro do presidente fake e um vírus real com Mayra Marques. Ambos são professores de História na Universidade Federal de Ouro Preto, em Mariana (MG). Também são autores do livro Atualismo 1.0: como a ideia de atualização mudou o século XXI e organizadores de Do Fake ao Fato: (des)atualizando Bolsonaro, com Bruna Klem. Walderez Ramalho é doutorando em História na mesma instituição. Agradecemos à Márcia Motta e ao grupo Proprietas pelo apoio e interlocução nesse projeto.
[2] PEREIRA, Mateus; MARQUES, Mayra; ARAUJO, Valdei. Almanaque da COVID-19: 150 dias para não esquecer, ou a história do encontro entre um presidente fake e um vírus real. Vitória: Editora Milfontes, 2020.
[3] Usamos aqui um neologismo para dar conta da diferença que em inglês é mais clara entre a produção deliberada de notícias falsas (disinformation) e sua disseminação involuntária (misinformation).
[5] EMPOLI, Giuliano Da. Os engenheiros do caos: como as fake news, as teorias da conspiração e os algorítimos estão sendo utilizados para disseminar ódio, medo e influenciar eleições. São Paulo: Vestígio, 2019.
Ricardo Criez
14/08/20 at 21:35
Que bela iniciativa, tem o meu total apoio!
ZILDA TEREZA COTRIM
19/08/20 at 0:48
Iniciativas como esta trazem esperança para o país. Obrigada
ZILDA TEREZA COTRIM
19/08/20 at 0:52
Inciativas como esta são findamentais para a liberdade do país. Obrigada.
Roberto C. Barboza
19/08/20 at 6:46
Alguém tem que salvar este país das mãos dos facínoras FASCISTAS, enquanto há país. Supremo e legislativo estão com seus respectivos RABOS PRESOS com o GOLPE desde sua concepção. Então, cabe à sociedade civil e às cortes internacionais intervirem, antes que se estabeleça a barbárie generalizada e com desfecho imprevisível.
#ForaBol卐onaroGenocida !.!.!
Carlos Ad
23/08/20 at 12:33
Respeito opiniões, mas não consegui ouvir sequer uma opinião com inteligência mínima ou fato. Um monte de mimimi, simplesmente um NADA. Posicionamento político irrelevante e sem conteúdo.
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Onofre C. Vieira
23/08/20 at 22:52
Consegui assistir na íntegra a videoconferência e entre meias verdades e muitas mentiras, o forte teor conotativo das opiniões, certamente fará das denúncias simples verborréia para inocuidade. Pelo menos no Youtube, dos 6,9 mil comentários, as reações negativas foram tantas, que ao que pareceu, o assunto só despertou interesses dos contrários.
Donizetti de Paula Tavares
25/08/20 at 8:25
MENTIROSOS SEM VERGONHA
Celutá bem
12/09/20 at 12:15
Tudo isso é mentiras mentiras mentiras mentiras mentiras e mais mentiras