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Tribuna de juristas apresentará crimes de Bolsonaro contra a Humanidade

Muito se fala dos crimes cometidos por Jair Bolsonaro. Quais seriam esses crimes? Ele pode ser condenado? Quais as penas previstas para tais crimes?

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No dia 19 de agosto, seis juristas brasileiros realizaram a tribuna destinada a apresentar as condutas de Bolsonaro e a detalhar os procedimentos legais necessários para que, dentro da lei, ele seja afastado do cargo e responsabilizado pelos crimes contra a Humanidade, Meio Ambiente e Responsabilidade.

 

Bolsonaro é um criminoso. 

A crise sanitária em curso, representada pelo ameaçador coronavírus, foi potencializada pela gestão assassina de Jair Bolsonaro –apenas pelos registros oficiais, descontada a subnotificação, já se contam quase 100 mil brasileiros cujas vidas foram ceifadas pela doença, sem que o governo do ex-capitão tenha enunciado qualquer plano para evitar o contágio ou para minorar o sofrimento dos doentes. Em vez disso, Bolsonaro tripudiou sobre a dor e o luto de tantas famílias brasileiras, tratando a Covid-19 como uma “gripezinha”, esquivando-se de suas responsabilidades. “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?”, perguntou ele quando confrontado com o fato de o País então contabilizar 5 mil mortos. E emendou, de forma jocosa: “Sou Messias, mas não faço milagre.”

O escracho presidencial incluiu ainda essa fake news, perfeita síntese de sua crueldade: “O brasileiro tem de ser estudado, não pega nada. O cara pula em esgoto, sai, mergulha e não acontece nada.” Isso quando se sabe que o Brasil, por conta das mais do que precárias condições sanitárias de vida dos mais pobres, é recordista mundial em doenças extintas ou controladas em países desenvolvidos, como a tuberculose, a leishmaniose, hanseníase, sarampo e outras.  

Negacionista em relação aos severos danos da pandemia, o presidente do Brasil estimulou e personificou atitudes francamente anticientíficas e em oposição às diretrizes da Organização Mundial de Saúde. Chegou ao cúmulo de orientar seus seguidores a invadir hospitais para filmar supostos leitos vazios. Colocou assim em risco as vidas de pacientes, do corpo clínico que os assistia e dos próprios invasores. Estudo da Universidade Federal do ABC revelou que o discurso negacionista de Bolsonaro pode ter contribuído para a atitude igualmente negacionista de muitos de seus eleitores, inclusive levando não poucos a se negarem a usar máscaras de proteção contra o vírus.

Há método, contudo, nessa aparente insanidade. Bolsonaro ataca tudo o que lhe pareça representar as populações mais pobres e mais vulneráveis, e não seria diferente na Covid-19. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios –Pnad Covid-19, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), demonstrou que os brasileiros mais afetados pela doença, e a esmagadora maioria dos mortos, são pretos, pardos, pobres e sem estudo.  O Brasil apresenta o vergonhoso número de mais de mil mortes diárias por conta do vírus há dois meses. Trata-se de um número assustador –como se caíssem todos os dias dois Boeings 747, matando todos os passageiros. Todos os dias. Seria esse o novo normal?

Bolsonaro é um criminoso.

O presidente também vem promovendo políticas econômicas perversas, que estão jogando milhões de pessoas na miséria, ao mesmo tempo em que vem destruindo a educação, a saúde, a cultura, e a segurança públicas. Como se já não fosse o bastante, o primeiro mandatário da nação ufana-se de perseguir e tentar desmoralizar diuturnamente professores, médicos, policiais, a imprensa e todos os que ousem desafiá-lo.  

As ações do governo Bolsonaro, principalmente durante a pandemia, provocaram o aumento do desemprego. De acordo com o IBGE, 12,4 milhões de brasileiros estavam em busca de trabalho no final de junho. Fora os milhões de trabalhadores que deixaram de procurar emprego porque, afinal, não há vagas mesmo. Da força de trabalho total do Brasil de 105,2 milhões de pessoas, apenas 35,9 milhões têm carteira de trabalho assinada. Os demais submetem-se às condições sub-humanas da precarização. São coagidos a aceitar condições degradantes de trabalho porque ou é isso ou não se põe comida na mesa.

Bolsonaro é um criminoso.

Mas Bolsonaro não para por ai. Seus crimes não atingem somente a população pobre, os trabalhadores, os negros, as mulheres, os indígenas do Brasil. Eles ultrapassam nossas fronteiras e também afetam o Planeta. Bolsonaro ameaça o futuro da Terra. A Humanidade corre perigo quando homens como ele assumem o comando de uma nação como o Brasil, cujos recursos naturais, florestas e rios, respondem por boa parte do equilíbrio climático global.   

Bolsonaro está umbilicalmente atado aos interesses do que existe de mais predador, egoísta e cruel do espectro humano. Ele avança sobre Terras Indígenas e sobre a maior floresta tropical do mundo. No último ano, mais de 1 milhão de hectares foram queimados na Amazônia e no Pantanal, resultado de incêndios criminosos, provocados por fazendeiros e grileiros animados com o plano macabro de Bolsonaro de afrouxar a fiscalização do Ibama e ampliar na marra a fronteira agrícola.  Quem não lembra do “Dia do Fogo”, quando fazendeiros, madeireiros e empresários bolsonaristas da cidade de Novo Progresso, no sul do Pará, fizeram uma “vaquinha” para comprar combustível e incendiar a Floresta em “apoio” ao Presidente?

Levantamento realizado em maio deste ano pela Agência Pública mostra que mais de 2 mil propriedades privadas, autorizadas pelo governo federal, invadiram 250 mil hectares de Terras Indígenas, incluindo áreas onde vivem povos isolados. Além do aumento descomunal do desmatamento, os índios estão morrendo cada vez mais, vítimas da pistolagem contra os guardiões da floresta. E morrem também em decorrência da Covid-19, que está ceifando as vidas exatamente dos homens e mulheres mais velhos desses povos indígenas, cortando-lhes o acesso à sabedoria ancestral.

Em poucos anos, entraremos no que os cientistas chamam de “irreversibilidade”, um caminho sem volta. Nossas matas e florestas não terão mais capacidade de se regenerar e problemas como falta de água, desertificação e acidificação dos mares irão afetar a todos, sem distinção.  Todos os que não sejam bilionários com capacidade para comprar uma nave espacial e um pedaço de terra em outro planeta serão afetados.

Bolsonaro é um criminoso.

O racismo, o machismo e a homofobia também ganharam força no governo Bolsonaro. Assassinato de jovens cada vez mais jovens no Rio de Janeiro, por exemplo, tornou-se a triste rotina nas favelas e comunidades pobres. Lembre-se de Jenifer, Kauan, Kauã, Kauê, Ágatha e Kethellen, crianças entre 5 e 12 anos assassinadas em intervenções policiais. Segundo apuração do G1, em 2019, o Brasil teve aumento de 7,3% de casos de feminicídio em comparação com 2018. Pesquisa publicada pelo jornal Folha de S.Paulo, em março de 2019, comprovou o aumento da violência contra a população LGBT desde a eleição de Bolsonaro.

Esses e outros indicadores da realidade brasileira demonstram a urgência da retirada de Jair Bolsonaro do governo. Contudo, o impeachment deverá ser apenas um passo nesse processo. Jair Bolsonaro precisa ser responsabilizado pelo descaso com a vida, precisa ser responsabilizado pela morte de milhares de brasileiros e pelos crimes ambientais cometidos no período de seu governo.

A Tribuna de Juristas que acontecerá no dia 19 de agosto, às 14h, será um espaço privilegiado para a exposição das provas dos crimes do presidente à luz das leis vigentes do Brasil.

Conduzida pela Desembargadora Kenarik Boujikian, a Tribuna dos Juristas pretende também chamar à responsabilidade o Judiciário brasileiro a respeito da criminosa condução do país por Jair Bolsonaro.  

Como será?

Kenarik Boujikian, especialista em Direitos Humanos e cofundadora da AJD e ABJD, fará a abertura (10min), a condução da Tribuna e o encerramento (10min). Cada jurista falará durante 15min.

Integrantes da Tribuna

Deborah Duprat – desenvolveu a carreira de jurista, atuando em defesa dos Direitos Humanos.

Isadora BrandãoDefensora Pública de SP e coordenadora do Núcleo de Defesa da Diversidade e da Igualdade Racial.

Ivo Cípio Aurelianoadvogado indígena do Povo Makuxi. Membro da Rede de Advogados do Brasil. Membro da Comissão Especial da Defesa dos Direitos dos Povos Indígena do Conselho Federal da OAB.

Roberto Tardelli – integrante da Comissão de Direitos Humanos da OAB/SP e do Coletivo Transforma MP.

Sheila Santana de Carvalho – advogada de Direitos Humanos e da Coalizão Negra Por Direitos.

Thiago de Souza Amparo – ministra cursos sobre Direitos Humanos, diversidade e direito internacional.

A idealização e a organização do evento são dos professores universitários Rose Naves e Plínio de Arruda Sampaio Jr.

A transmissão será feita pelas redes sociais do Portal Jornalistas Livres.

 

APOIOS:

ABDJ Associação Brasileira de Juristas pela Democracia

Coletivo Transforma MP

Grupo Prerrogativas 

Centro Acadêmico 22 de Agosto

Direito PUC-SP

UNE – União Nacional dos Estudantes

UBS – União Brasileira dos Estudantes Secundaristas

Um agradecimento especial para os parceiros que retransmitiram o Tribunal em suas páginas:

 

– Comitê NACIONAL Lula Livre
– ABJD (Associação Brasileira de Juristas pelo Democracia)
– CTB (nacional)
– PCdoB – SP
– Frente Brasil Popular – FBP
– FBP – SP
– Barão de Itararé
– Barão de Itararé – SP
– Movimento Paulista de Solidariedade a Cuba
– MST
– Brasil de Fato
– Opera Mundi
– CUT – SP
– Vermelho
– PCdoB Nacional
– UNE
– GGN
– Coletivo Transforma MP
– SASP- Sindicato dos Advogadxs SP
– CTB – SP
– SindJor-SP
– MAB
– UBES – Uniao Brasileira dos Estudantes Secundaristas
– Central de Movimentos Populares – CMP
– TVT
– CA 22 de Agosto
– Grupo Prerrogativas 

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9 Comments

9 Comments

  1. Ricardo Criez

    14/08/20 at 21:35

    Que bela iniciativa, tem o meu total apoio!

  2. ZILDA TEREZA COTRIM

    19/08/20 at 0:48

    Iniciativas como esta trazem esperança para o país. Obrigada

  3. ZILDA TEREZA COTRIM

    19/08/20 at 0:52

    Inciativas como esta são findamentais para a liberdade do país. Obrigada.

  4. Roberto C. Barboza

    19/08/20 at 6:46

    Alguém tem que salvar este país das mãos dos facínoras FASCISTAS, enquanto há país. Supremo e legislativo estão com seus respectivos RABOS PRESOS com o GOLPE desde sua concepção. Então, cabe à sociedade civil e às cortes internacionais intervirem, antes que se estabeleça a barbárie generalizada e com desfecho imprevisível.
    #ForaBol卐onaroGenocida !.!.!

  5. Carlos Ad

    23/08/20 at 12:33

    Respeito opiniões, mas não consegui ouvir sequer uma opinião com inteligência mínima ou fato. Um monte de mimimi, simplesmente um NADA. Posicionamento político irrelevante e sem conteúdo.

  6. Pingback: Tribuna de juristas apresenta crimes de Bolsonaro contra a Humanidade

  7. Onofre C. Vieira

    23/08/20 at 22:52

    Consegui assistir na íntegra a videoconferência e entre meias verdades e muitas mentiras, o forte teor conotativo das opiniões, certamente fará das denúncias simples verborréia para inocuidade. Pelo menos no Youtube, dos 6,9 mil comentários, as reações negativas foram tantas, que ao que pareceu, o assunto só despertou interesses dos contrários.

  8. Donizetti de Paula Tavares

    25/08/20 at 8:25

    MENTIROSOS SEM VERGONHA

  9. Celutá bem

    12/09/20 at 12:15

    Tudo isso é mentiras mentiras mentiras mentiras mentiras e mais mentiras

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Geral

A satanização do Irã pela mídia ocidental, um processo em desconstrução

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Eduardo Nunes Campos*

Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa.
Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta.
O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.

Irã Mall Foto: Eduardo Campos

A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico.
Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream.
Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.

Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.

Ritual de fogo “Chaharshanbe Suri” Foto: Eduardo Campos

A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.

O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra.
Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental.
Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões.
A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida.
Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele.
Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa.
Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens.
A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas.
A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos.
O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás.
O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.

(*) Jornalista

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Internacional

IRÃ: A GUERRA DAS CRIANÇAS

Irã se prepara para receber 20 milhões de peregrinos nas cerimônias de despedida do aiatolá Khamenei, que se iniciam na próxima sexta-feira (3)

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O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.

Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.

A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.

O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.

Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.

Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.

Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé.  Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.

Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres

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Geral

O caso Mariana Ferrer, por Honoré de Balzac

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

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O caso Mariana Ferrer por Honoré de Balzac

Por Dirce Waltrick do Amarante*

Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.  

Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.

Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.

Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.

Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.  

*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina

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