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Somos todos brothers! Bolsonarismo e a vigilância digital

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ARTIGO

Mateus Pereira e Valdei Araujo, professores de História na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) em Mariana

 

 

Assim como o vírus da Covid-19 se infiltrou em nossos cotidianos, de maneira lenta e silenciosa até se tornar o assunto dominante, o bolsonarismo saiu de zonas cinzentas da sociedade brasileira, como que mercados Wuhan de ideias e comportamentos, para se tornar uma síndrome determinante de nossa vida política e social.

Mesmo que esse diário tenha sido motivado pela pandemia, nas condições atuais do Brasil somos obrigados a tratar do presidente como parte do problema. A pandemia parece ter tornado visível o parasita que ameaça a nossa existência como sociedade organizada. Quais as  condições ambientais que permitiram o surto bolsonarista e como essas condições poderão ser afetadas pelas consequências da pandemia? E como a polêmica sobre o monitoramento de celulares se relaciona com isso?

Podemos definir os elementos desse ambiente de muitas formas, pois ele é dinâmico e nem todos os seus componentes são novos. Apenas para nos orientar, vamos listar alguns dos elementos que permitiram o surto bolsonarista:

  1. A ideologia neoliberal e seus magnatas-mecenas, que desde os anos 1970 financiam iniciativas cujo único objetivo é enfraquecer os estados-nacionais e facilitar a maior concentração de riquezas da história humana;
  2. O fracasso dos sistemas educacionais em oferecer ferramentas críticas que sejam capazes de proteger a cidadania das formas mais básicas de manipulação e propaganda;
  3. Uma cultura pública que continuamente celebra o individualismo e a competição como únicas formas legítimas de interação entre as pessoas (enquanto escrevemos estas linhas o assunto mais discutido no Brasil é a 20ª edição do Big Brother. Temporariamente, o Jornal Nacional passou a falar dos nomes de grandes empresas que estão fazendo doações para combater a epidemia em nome da solidariedade. Por essa lógica a solidariedade é sempre vista como caridade.
  4. A tolerância da sociedade e seus representantes com a manipulação da religião, em particular nas vertentes neopentecostais, que se tornaram verdadeiro projetos de poder que misturam fé, cultura, fundamentalismo, negacionismo, interesses corporativos-comerciais e política; e
  5. Por fim, mas sem querer esgotar a lista, as diversas ondas da revolução digital que desde os anos 1970 vêm se acelerando. A partir do novo milênio esse universo digital parece ter dado lugar a uma nova variedade de capitalismo que a socióloga Shoshana Zuboff tem chamado de capitalismo de vigilância.

Hoje trataremos deste último item!

O estudo conjunto da UFRJ-FespSP que apontou que 55% das postagens no Twitter a favor do presidente são feitas por robôs surpreendeu poucas pessoas. Desde a eleição de 2018 as denúncias de uso ilegal das redes sociais têm se multiplicado sem gerar grandes consequências legais ou políticas. Poucas grandes empresas, todas elas estadunidenses, controlam efetivamente a realidade digital. A Google, dona do Youtube e de uma máquina de anúncios baseados em dados dos seus usuários; Facebook, que também controla o Whatsapp e o Instagram, Twitter, Apple e Amazon. Pouco tem sido feito para limitar o uso abusivo de suas plataformas, aliás, elas mesmas têm sido acusadas de abusarem do enorme poder que acumulam.

Mas afinal, que poder é esse?

Shohana Zuboff, em seu livro “A era do capitalismo de vigilância”, afirma que 2008 foi o momento-chave da tomada de consciência de uma nova forma de dominação. Pressionadas pela recessão, as empresas de tecnologia precisavam provar que eram capazes de gerar os enormes lucros que prometiam. A saída encontrada pela Google foi relaxar suas políticas de privacidade, de modo que pudesse usar mais livremente o enorme volume de dados que coletava sobre o comportamentos de seus usuários.

Todos já devem ter lido alguma solicitação ao instalar um programa ou um novo recurso no computador, tablet ou celular, cujo teor promete que a cessão das informações teria como objetivo a melhoria do serviço. Esses contratos ficaram cada vez mais longos e ilegíveis, à medida em que foram sendo ampliados os direitos das empresas sobre as informações confidenciais que estavam autorizadas quando o usuário clicava “Eu concordo”.

Legitimadas pela ideia da melhoria do serviço, as grandes corporações estavam, na verdade, acumulando um enorme “excedente comportamental”. Isto é, um volume maciço de dados sobre nossa intimidade, que pouco tinha a ver com os serviços, mas, sim, com a formatação de novos produtos para clientes corporativos e grupos políticos. A ponta desse iceberg ficou visível para todos no escândalo da Cambridge Analytics. Empresa quer roubou informações pessoais de mais de 87 milhões de usuários do Facebook e as usou para formular e direcionar propaganda política em eleições como a de Trump e o plebiscito que decidiu pela saída do Reino Unido da União Europeia, o chamado Brexit.

Em alguma medida a promessa de melhoria dos serviços tem sido cumprida, mas os dados que estamos constantemente cedendo para as empresas têm sido usados com outros objetivos. A Google descobriu e aperfeiçoou essa nova modalidade de capitalismo quando percebeu que poderia descobrir os estados emocionais das pessoas a partir de erros ortográficos e outros detalhes, quando os usuários digitam termos de pesquisa em seu serviço de busca. Esse processo foi aprofundado com a criação do Gmail em 1º de abril de 2004, que permite a coleta de dados pessoais e a personalização de anúncios eletrônicos. A venda de anúncios com base nesses dados logo passaria a ser a principal fonte de lucro da empresa.  

Zuboff nos dá um exemplo de como passamos rapidamente da utopia para a distopia digital. No ano 2000 foi lançado um experimento chamado “Aware Home” (Lar Consciente), que acoplava um conjunto de sensores a aparelhos e moradores de uma determinada residência em uma rede local. Era um experimento de computação omnipresencial que antecipava  o que depois ficou conhecido como internet das coisas.

Em 2018, o mercado das chamadas casas inteligentes foi avaliado em 36 bilhões de dólares. Ele envolve assistentes de voz, como o Google Home, e o Alexa, da Amazon, ambos já envolvidos em denúncias de invasão de privacidade, mas, também, uma infinidade de aparelhos inteligentes, como interruptores, lâmpadas e câmeras de vigilância, tudo 24 horas online.

Mas havia uma diferença ética e política fundamental no experimento do ano 2000: todos os dados gerados sobre cada um dos moradores estava disponível apenas para eles mesmos. O que temos chamado até aqui de capitalismo de vigilância é uma situação idêntica a da “Aware Home”, com a grande diferença de que os dados coletados e seu processamento em tempo real, por Inteligências Artificiais, estão, em sua maior parte, inacessíveis para nós mesmos e sob controle exclusivo das corporações ou dos hackers e empresas que conseguem burlar seus sistemas de proteção. As grandes corporações usam essa avalanche de dados, em tempo real, processados por um gigantesco poder computacional, para antecipar e induzir comportamentos.

Enquanto o capitalismo clássico estaria assentado em vários níveis de reciprocidade com a sociedade, inclusive certa ligação com instituições liberais-democráticas, o capitalismo de vigilância teria quebrado essas reciprocidades. A ideologia neoliberal que se expandiu a partir dos anos 1970 contribuiu para alimentar esse divórcio, dando lugar ao que Zuboff chama de mutação espúria do capitalismo.

Não queremos concluir aqui que o Bolsonarismo é um agente infiltrado do capitalismo de vigilância, apenas que ele parasita esse ambiente de modo bem sucedido, sem ameaçar o hospedeiro. Até certo ponto essa relação tem sido simbiótica, beneficiando os dois em algum sentido.

A adesão e agitação digital promovidas pelo bolsonarismo expande os bancos de dados das empresas do capitalismo de vigilância que, por sua vez, são bastantes permissivas com os pequenos abusos cometidos por seus usuários poderosos.

No caso do bolsonarismo, percebemos que ele cresceu desde 2014, no início dos trabalhos da Comissão Nacional da Verdade, a partir e no interior de uma comunidade de memória de negação do passado autoritário. E nunca nada foi feito para conter apologias e mentiras sobre a ditadura, por exemplo. Empresas como Facebook têm resistido a regular o uso de sua plataforma para a disseminação de fake news por grandes agentes políticos da nova direita global, como pode ser lido na matéria do The Guadian de dezembro de 2019.

Em 29 de março de 2020 toda a imprensa noticiou a decisão do Twitter de apagar duas postagens do perfil pessoal de Jair Bolsonaro, alegando que o conteúdo contrariava orientações das autoridades de saúde no combate à covid-19. Nenhum poder público havia solicitado a ação, mas, ainda assim, a empresa decidiu agir: uma gota no oceano de notícias e perfis falsos que infestam o Twitter, como mostrou a pesquisa que citamos no começo do artigo. Longe de representar um avanço, a decisão legitima a demanda das grandes corporações acerca de sua autorregulação e oculta os abusos em massa que toleram. O cenário não é diferente no Youtube, no Facebook ou Whatsapp. O Youtube tem sido amplamente condenado por usar um mecanismo de seleção de vídeos que reforça a polarização, tudo isso em nome de maiores lucros. 

Como retomar o controle de nossa própria vida, de assumir de volta os projetos de futuro que teriam sido substituídos pelos planejamentos corporativos, em sua cruzada anti-política e pelas expectativas atualistas de que devemos deixar as decisões coletivas para as máquinas inteligentes? A União Europeia e os estado da Califórnia aprovaram leis de proteção aos dados pessoais que são um passo importante em uma longa batalha.

Antes que pudéssemos avançar muito nesta direção, a pandemia nos tornou ainda mais dependentes das armadilhas da jaula digital. Como na fotografia de Victor Moriyama, a privacidade do lar ao qual fomos confinados é o grande laboratório do capitalismo de vigilância. Do dia para a noite ficou visível que, em alguma medida, somos todos membros involuntários de um Big Brother global do qual não conhecemos bem a audiência.

O direito à privacidade, e a própria existência de uma mente individual inviolável foram condições para as liberdades políticas conquistadas nos últimos séculos. Então nos perguntamos: o que vai acontecer quando a mente e a intimidade estiverem em tempo real monitoradas e condicionadas pelas grandes corporações ou pelos estados de vigilância no modelo chinês?

Essa nova e súbita demanda por digitalização tem ampliado o interesse de grupos que até então mantinham-se a uma distância segura das redes sociais. Quem sabe se dessa nova onda de interesse não possa também surgir uma consciência mais aguda das reformas que precisamos fazer? 

Quem herdará as estruturas do capitalismo de vigilância que estão sendo aperfeiçoadas para o combate da pandemia?

Ao longo de março e abril, vários países, inclusive o Brasil, em parte, inspirados no modelo chinês e sul coreano, montavam e ampliavam as suas estratégias de combate à crise a partir de práticas de vigilância digital, por exemplo, em relação à mobilidade, ao controle da temperatura corporal, dos movimentos, dos batimentos cardíacos, e também dos sinais de celular e dos acessos virtuais, entre outras ações. O Estado de São Paulo, recentemente, anunciou um acordo com as quatro grandes operadoras locais para produzir mapas das concentrações de pessoas pela cidade. No dia seguinte, o governo federal desistia de iniciativa semelhante, ao que tudo indica, por decisão direta do presidente, embora essa posição parece mudar com a indicação de um nome de confiança do bolsonarismo para o Ministério da Saúde. O novo ministro, com fortes ligações com Fábio Wajngarten, chefe da Secretaria Especial de Comunicação Social (SECOM)l, já deu sinais de que conta com os sistemas de vigilância para combater a pandemia.

Essas estruturas de vigilância ficarão cada vez mais disponíveis aos Estados após a pandemia, independentemente do tipo de governo, pois não se trata aqui de pensar a eficiência no controle da pandemia a partir da dicotomia entre ditaduras e democracias. Se a China parece ter sido bem sucedida utilizando-se de seu imenso controle social, a Coreia do Sul também tem sido um exemplo bem sucedido em uma ambiente mais aberto e democrático. A dimensão da tragédia americana e, possivelmente, a brasileira, se relaciona, diretamente, com a ineficiência de seus governantes.

Enquanto fechamos este artigo, recebemos de um amigo, no Whatsapp, um vídeo em que Flávio Bolsonaro divulga a ideia da TV Bolsonaro. Através de um aplicativo, promete superar as limitações que o Facebook estaria impondo aos bolsonaristas. Mais um lance em um jogo de xadrez cuja complexidade cresce a cada dia.

Fontes jornalísticas citadas:

https://www.theguardian.com/technology/2019/dec/02/mark-zuckerberg-facebook-policy-fake-ads

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-52101240

https://catracalivre.com.br/cidadania/55-dos-posts-feitos-a-favor-de-bolsonaro-no-twitter-sao-de-robos/

https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2020/04/14/bolsonaro-descarta-monitorar-deslocamentos-sp-quer-ampliar-sistema.htm

https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2020-04/sistema-vai-monitorar-aglomeracoes-em-sp-por-meio-de-celular

 

 

Geral

A satanização do Irã pela mídia ocidental, um processo em desconstrução

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Eduardo Nunes Campos*

Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa.
Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta.
O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.

Irã Mall Foto: Eduardo Campos

A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico.
Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream.
Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.

Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.

Ritual de fogo “Chaharshanbe Suri” Foto: Eduardo Campos

A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.

O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra.
Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental.
Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões.
A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida.
Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele.
Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa.
Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens.
A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas.
A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos.
O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás.
O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.

(*) Jornalista

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Internacional

IRÃ: A GUERRA DAS CRIANÇAS

Irã se prepara para receber 20 milhões de peregrinos nas cerimônias de despedida do aiatolá Khamenei, que se iniciam na próxima sexta-feira (3)

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O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.

Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.

A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.

O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.

Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.

Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.

Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé.  Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.

Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres

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Geral

O caso Mariana Ferrer, por Honoré de Balzac

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

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O caso Mariana Ferrer por Honoré de Balzac

Por Dirce Waltrick do Amarante*

Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.  

Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.

Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.

Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.

Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.  

*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina

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