QUEM SEQUESTROU LUCAS?

Lucas Eduardo, 14 anos, ao que tudo indica, tornou-se mais uma vítima das condutas equivocadas da Polícia Militar de São Paulo

Foto de Lucas / Arquivo pessoal
Segundo familiares, na última terça (12), o jovem foi raptado da frente de sua casa por policiais e colocado dentro de uma viatura. Até o fechamento dessa reportagem, Lucas continuava desaparecido.
Nesta sexta (15), sua família passou o dia no Instituto Médico Legal de Santo André para realizar exames de DNA, isso porque depois da pressão de reportagens veiculadas do dia do rapto para cá, um corpo de um jovem não identificado foi encontrado na represa Billings, região sul de SP, próximo do local onde Lucas fora sequestrado pela polícia.
Na quarta (13), pela manhã, o irmão de Lucas Eduardo Martins dos Santos registrou depoimento no 6° DP de Santo André, num dos trechos do Boletim consta que:
“por volta de 1h30 o declarante diz ter ouvindo barulho de carros e portas batendo em frente a sua residência, momento em que olhou pela janela e viu tratar-se de policiais militares, que se dirigiram a parte de baixo do imóvel, local onde residem seus irmãos e a madrasta T. Os policiais foram recebidos pela senhora T. (…) que foi indagada sobre quem residida naquela local e se havia algo de errado no interior da residência, e se poderiam adentrar”. Os policiais não entraram na casa, mas perguntaram quem morava lá e em seguida teriam ido embora.
Esses fatos aconteceram no Jardim Santa Cristina, região periférica de Santo André, onde Lucas, um garoto negro, como são os alvos prediletos da polícia brasileira, mora. Ainda no Boletim, o irmão de Lucas declarou que:
“no momento da chegada dos policiais, sua madrasta afirmou ter ouvindo uma voz, que não pode afirmar ser de Lucas, dizendo: eu moro aqui! Logo que os policiais deixaram o local, o declarante e seus familiares passaram a procurar por Lucas”.
Durante a busca avistaram um usuário de entorpecentes que costumeiramente perambula nas proximidades. Esse rapaz vestia uma blusa cinza, de moletom pertencente à Lucas.
O jovem irmão de Lucas questionou o usuário sobre como teria adquirido a blusa e esse respondeu: “encontrei atrás da E.E. Antônio Adib Chammas”. Neste momento familiares de Lucas foram até o local e acharam também um boné que o garoto usava naquela noite.
Na própria quarta moradores do bairro organizaram um ato público nas ruas do bairro, exigindo justiça e solução para o rapto do garoto. A manifestação seguiu pelas ruas próximas da Av São Bernardo, até que foi violentamente reprimido pela PM, com sua habitual resposta de tiros a esmo com bombas de gás e truculência. Na quinta (14) mais um ato de resistência foi realizado. Mais uma vez seguindo pela Av São Bernardo, até o terminal Vila Luzita, passando ela escola onde encontram as roupas de Lucas e finalizado na Av. São Bernardo. A polícia foi obrigada a se controlar, uma vez que o caso já havia sido veiculado por alguns veículos de imprensa.
A ouvidoria da PM já abriu um procedimento para acompanhar o caso. Enquanto isso, no exato momento em que você está lendo esse texto, os familiares do garoto seguem aflitos, fazendo buscas mas, principalmente transtornados com o desaparecimento. Fora o clima de terror, medo e hostilização que vizinhos têm passado com a conduta violenta da Polícia que intensificou as patrulhas, como nunca fora visto antes, com movimentações, olhares ameaçadores. A corporação diz ter afastado os policiais envolvidos. No IML, um corpo que fora exposto hoje à família não foi reconhecido. Os parentes fizeram exame de DNA e o Instituto Médico Legal deu um prazo de 10 dias úteis para o resultado.
Enquanto isso, a aflição e a tristeza são os sentimentos da família e moradores da comunidade de Lucas. Mas o medo de um Estado que deveria proteger, sobretudo crianças e adolescentes é sem dúvida, muito maior do que tudo. O pior é pensar que para talvez solucionar o rapto do garoto, o único meio e equipamento acessível para essa família, seja o próprio Estado. Mas como confiar numa Instituição que hostiliza, sequestra, barbariza e mata?
Sem dúvida, um dilema que de dentro dos espaços de privilégio é quase que invisibilizado por uma grande parcela da população. Um caso como esse, suscita, inclusive, a reforma do sistema de segurança, das alternativas sobre a abolição do tráfico de drogas e outros pontos que fazem com que a justiça seletiva esteja tão normatizada nos quatro cantos do país
A rede de colaboradores dos Jornalistas Livres vai acompanhar o caso, minuto a minuto e trará  atualizações em breve.
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Um comentário
  • LUANA OLIVEIRA DA SILVA
    1 dezembro 2019 at 6:31
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    precisa atualizar a reportagem. não deixem de gritar pelo menino Lucas, por favor

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