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Presos e familiares denunciam irregularidades em presídio

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Carta que denúncia irregularidades na Penitenciária de Mairinque

Familiares e detentos da Penitenciária de Mairinque, região metropolitana de Sorocaba, denunciaram, por meio de uma carta dos presos e relatos de familiares, abusos cometidos pela unidade prisional mantida pela Secretaria da Administração penitenciária (SAP). Os abusos incluem racionamento de água, qualidade da comida e problemas de atendimento médico. Após denúncia situação parece ter chamado atenção de unidade.

Em uma carta intitulada como “Comunicado aos Visitantes”, denúncias sobre deficiências no cotidiano dos detentos são apresentadas em seis pontos, que terminam pedindo aos visitantes que denunciem a situação para mídias e “órgãos competentes”. A carta foi veiculada no final de janeiro e a reportagem falou com familiares de detentos da unidade.

A penitenciária de Mairinque foi inaugurada em 2015 ao custo de R$ 39.315.766,97, em execução do Governo do Estado. Projetada para receber 847 presos, ela comportava, segundo o site da SAP, no dia 14 de fevereiro último, 1.874 presos, sendo 1.027 presos acima do limite,  ou 2,21 vezes mais so do que a lotação a lotação.

A super lotação em presídios paulistas se intensificou com os governos do PSDB paulista, que tem hoje o governador João Doria como defensor de um discurso de linha dura para a segurança pública. Segundo levantamento da Folha de S. Paulo realizado em 2019, houve um aumento de 4 vezes no número de presos em no estado nos últimos 25 anos, se aproximando de 240 mil presos (alcançando 235.775 presos, segundo o levantamento).

As denúncias

Catarina*, mãe de um detento da unidade, contou sobre situações que presenciou durante visitas ao filho “quando eles trazem o leite já está quase azedando. Já achei bicho e pedra no feijão, e um pedaço de sobrecoxa queimada. Quando você leva um pouco a mais de comida eles fazem jogar fora”.

Contou também como é o cotidiano do filho: “Ele não tem atendimento médico. Teve furúnculo e sarna. Eu também peguei sarna lá” e “estava dormindo no chão, dividindo cela com trinta e seis presos. Já pensou? A Água ser ligada 4 vezes ao dia, trinta minutos para ser tomado banho e fazer suas necessidades. Para lavarem e limparem tudo”. Termina explicando: “A gente sabe o direito que eles têm. Eles erraram? Eles estão pegando pelo erro deles”.

Luisa*, irmã de outro detento da unidade, também confirma as denúncias: “Desde que de meu irmão foi transferido, emagreceu muito nesse presídio e na visita pudemos ver a situação em que eles vivem lá dentro, com comida de má qualidade”. Ela reforça a denúncia de Catarina. “A água é ligada 4 vezes por dia, durante 30 minutos, sendo que cada cela tem mais de 37 presos e acaba muitos não tendo tempo de fazer A higiene pessoal. As celas se encontram na sujeira devido à falta de água, os vasos sanitários com fezes e urina, ratos e outros bichos que aparecem dentro da cela. E faltam médicos e medicamentos. Onde já se viu uma cadeia não prestar socorro para um preso e eles não terem nem direito ao um medicamento? Isso é uma vergonha”. Ela complementa sua denúncia e fala sobre dificuldades na hora da visita: “Eu acho desagradável na hora da revista do scanner ser um agente masculino”. Perguntada sobre quantas vezes é um agente masculino que realiza a revista pelo scanner, responde: “Toda semana”.

A carta dos presos aponta os principais problemas vividos pelos internos:

Racionamento de água “sendo ligada 4 vezes ao dia (30 minutos) cada vez que é ligada, não suprindo a quantidade de reeducandos por celas, sendo que EM cada cela residem DE 33 a 37 reeducandos, APESAR DA capacidade de apenas 12 por cela… ficando os vasos sanitários com fezes e urinas.”

Limitações aos suprimentos de higiene Não suprindo as necessidades de cada reeducando.”

Negligências médicas: “a unidade não tem médico, não desce remédio para uso de rotina, nem é liberado aos visitantes trazerem, deixando várias situações simples se agravarem”. OS PRESOS RECLAMAM TAMBÉM QUE SÃO MALTRATADOS PELAS EQUIPES DE SAÚDE.

Qualidade da comida

Problemas nas entregas DE sedex, QUE demoram 30 dias para serem entregue aos reeducandos, chegando ao ponto de estragar os mantimentos, que SÃO comprados PELOS FAMILIARES.

Muitos dos presos, que não têm advogados, “não têm atendimento com o profissional da unidade nem ao menos recebem notícias SOBRE como está sua situação processual.”

Catarina, que visitou o filho após as denúncias conta que a situação parece ter mudado. “Dizem que estão abrindo um pouco mais a água”, mas também reclamou da visita: “Fiquei muito nervosa com a revista que eu passei, pelo constrangimento. Eu passei pela porta de metal, passei pelo scanner, aí depois ela veio pedir para eu erguer a blusa, abaixar a calça, erguer a perna da calça. E do outro lado tinha um policial. O policial até abaixou a cabeça quando viu. Foi bem constrangedor”.

O advogado Guilherme Castro, que conhece a unidade, conta que apos as denúncias “familiares estão sofrendo revistas pessoais mais severas, tanto na entrada bem como na saída do estabelecimento prisional. Existem relatos de que estas revistas estão sendo feitas para evitar totalmente a comunicação dos presos e reclamações no tocante aos abusos cometidos pelas penitenciárias”.

Outro lado

Questionada a SAP respondeu da seguinte forma:

“As denúncias são inverídicas! A Secretaria da Administração penitenciária informa que, na Penitenciária de Mairinque, assim como em todos os órgãos do Estado, é realizado o uso consciente da água, a fim de evitar desperdícios. Sobre as refeições na unidade, destacamos que elas são produzidas pelos próprios presos, na cozinha central do local, e imediatamente servidas, sendo que são fornecidas três alimentações (café, almoço e jantar) por dia” e completa que “Não houve qualquer episódio de localização de bichos ou pedras no feijão servido diariamente. Sobre produtos de higiene, esclarecemos que a distribuição de itens de limpeza e higiene é feita toda a semana. Além disso, a unidade oferece, para quem quiser algo a mais, folha de compra de materiais, que podem ser adquiridos com o pecúlio (pagamento recebido pelos presos que trabalham) e os detentos recebem também materiais dos visitantes”.

Com relação às questões de saúde, a SAP afirmam que: “A equipe médica da unidade é composta por um enfermeiro, auxiliares de enfermagem e um dentista, que realizam os atendimentos de saúde diariamente, além de acompanhar os tratamentos de doenças crônicas, assim como eventuais emergências acometidas pelos sentenciados. ” SOBRE o atendimento de advogados, A SAP afirma que: “Os reeducandos são atendidos pelos advogados da Funap/Defensoria, particulares e estagiários da FUNAP, como determina a lei. Eles também recebem informações sobre as decisões judiciais, bem como instruções sobre expedientes de benefícios por meio dos servidores que atuam no Setor do Centro Integrado de Movimentação e Informação Carcerária”.

Sobre as revistas a resposta foi: “A Pasta ressalta que não há revista vexatória. A revista dos visitantes consiste em passar no equipamento de Scanner Corporal, o qual é operado por servidor habilitado e do mesmo sexo”.

 

 

*Os nomes foram alterados para preservar os familiares e os detentos

 

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3 Comments

3 Comments

  1. Preta Soares

    17/02/20 at 15:54

    A são deveria se envergonhar de dizer uma mentira dessa, a carta tá aí denunciando, as visitas com seus relatos denúnciando, e eles se limitam a dizer que é mentira,por ação foram lá saber? Ou estão se valendo do que disse o diretor? Qual o destino da verba que o presídio recebe por cada preso? Porque se a gente paga, e pra fazer direito…

  2. Preta Soares

    17/02/20 at 15:56

    Onde digo “são” leia-se SAP

  3. Ana Regina Gayer

    17/02/20 at 16:51

    Mentira sobre a respeito da revista atrás do scanners e um agente homem e sim elas fazem levanta a roupas e no natal e ano novo eles passaram a pão de 3 dias e um pouco de água e todo final de semana eles não tem jantar porque tem visita é passado pão e água!!! referido que eles dão produtos pra higiene pessoal e limpeza é td mentira nos os familiares que levamos os produtos de limpeza e higiene pra nossos presos a cada 15dias não tem medicamentos e nem atendimento médico portanto um menino de 23 anos faleceu com um infarte por falta de atendimento e até hoje não foi tomada medidas através desse acontecimentos essa tal de Sap só trocou o diretor e nada mais só pq foi feita uma denúncia e os familiares do menino entrou com um processo contra a penitenciária são várias irregularidades constrangimento e opressão que passa os nossos presos e nos famílias e se nós reclamar os diretores e agentes não gosta e coloca nosso preso no castigo no pote sem nem um atendimento e lá tem sim sarna percevejos baratase ratos e desumano estou cansada de me calar com essa Sap que encobrir tds as desumanidade com os nossos detentos agradeço a atenção obrigado se puderam por esse relato que eu vivo sou mãe

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Geral

A satanização do Irã pela mídia ocidental, um processo em desconstrução

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Eduardo Nunes Campos*

Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa.
Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta.
O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.

Irã Mall Foto: Eduardo Campos

A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico.
Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream.
Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.

Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.

Ritual de fogo “Chaharshanbe Suri” Foto: Eduardo Campos

A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.

O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra.
Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental.
Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões.
A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida.
Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele.
Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa.
Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens.
A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas.
A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos.
O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás.
O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.

(*) Jornalista

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Internacional

IRÃ: A GUERRA DAS CRIANÇAS

Irã se prepara para receber 20 milhões de peregrinos nas cerimônias de despedida do aiatolá Khamenei, que se iniciam na próxima sexta-feira (3)

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O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.

Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.

A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.

O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.

Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.

Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.

Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé.  Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.

Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres

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Geral

O caso Mariana Ferrer, por Honoré de Balzac

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

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O caso Mariana Ferrer por Honoré de Balzac

Por Dirce Waltrick do Amarante*

Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.  

Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.

Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.

Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.

Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.  

*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina

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