Estamos em luto e o luto só acaba dia 23. Estamos em luta, há 520 anos, e a única coisa que queríamos era não precisar mais lutar. Cansa.
A gente queria a paz da floresta em pé, o frescor dos rios limpos, a vitalidade das flores, folhas e raízes que concedem o alimento. Mas estamos longe disso, e por mais que canse, fisicamente e espiritualmente, não podemos parar de lutar, quem não luta tá morto.
Nossa luta de 520 anos é contra a invasão, a colonização. A luta atual aqui no Jaraguá é pelo embargo definitivo da obra que queriam fazer ao lado da nossa aldeia, a gente quer a mata atlântica em pé, a gente quer que as escolas venham aqui e conheçam a floresta, conheçam nossa cultura, aprendam a preservar. Derrubaram mais de quinhentas árvores, queriam derrubar quatro mil. Não deixamos.
Já derrubaram árvores demais nesses 520 anos. Vejam a cidade de São Paulo: cinza, concretada, sufocada. E o pouco que resta de floresta, querem derrubar. Tantos animais extintos e os que resistem querem exterminar.
Eu não queria ir pro carnaval. Isso não é festa da minha cultura, não é o tipo de evento que eu vou pra me divertir. Mas estou em luto e em luta, e o carnaval foi uma trincheira da guerra que precisei ocupar junto com outras parentas. Guerreiros não fogem da luta e nessa luta aliados foram conquistados. Missão cumprida, pois vamos dar um passo de cada vez. Se lutas de 520 anos ainda não acabaram, não vamos resolver tudo em um carnaval. Quando olhei a Alessandra Negrini montada, eu, pessoalmente, não vi uma indígena lá. Vi a natureza, vi a floresta, achei ela linda.
Me perguntaram de apropriação cultural, e pra cada povo a apropriação vai ser vista em elementos diferentes. Um petyngua no bloco na mão de um Juruá ou até mesmo na minha, me ofenderia demais, seria apropriação mais que cultural, espiritual; porque no nosso nhandereko cultura e espiritualidade não são coisas definidas separadamente. Mas meus olhos não se ofenderam, e meu espírito não se entristeceu ao ver a Alessandra Negrini do jeito que ela estava.
Francio de Holanda / acervo Acadêmicos do Baixo Augusta
Não vi nenhum adereço indígena, só o grafismo, feito por um indígena. Grafismo não é fantasia. As fantasias ofendem, porque muitas vezes se tornam uma vergonha mesmo. Um grafismo não é de forma alguma uma vergonha. Quem tem isso na sua cultura não pode se envergonhar de estar pintado, e quem tem a honra de ser pintado por alguém que sabe o que está fazendo não deve se envergonhar também. Porque o jenipapo fica dias na nossa pele e conversa com o nosso espírito, quem se envergonhar vai ter consequências e aprendizados.
Não temos o desejo de sermos os donos da sabedoria, temos o desejo de proteger a mãe natureza, e parte da nossa sabedoria é estratégica no momento atual precisa ser compartilhada.
Nas aldeias em vários povos se abriram aos não indígenas, nossos pajés já rezaram pra não indígenas, pois um humano com dom de cura, se for sua missão não pode negar a cura a quem precisa. Indígenas que não sabem ou sabiam suas origens foram acolhidos e fortalecidos em seus processos de retomada.
Se banalizarem o que é a apropriação cultural, no limite os parentes que trabalham e sobrevivem da cultura, as comunidades que resistem e existem por que isso as segura, vão ser proibidas porque vão falar em apropriação cultural.
Os parentes não iam poder vender os artesanatos, porque se usarem é apropriação cultural. Os parentes não poderiam pintar as pessoas não indígenas nunca, não poderiam rezar em não indígenas. As aldeias que recebem tanto juruá quanto indígenas em retomada, iriam se fechar, já que estaríamos proibidos de compartilhar. Aí terminam de matar a gente e pronto, mas a gente não vai morrer sozinho, porque o céu vai cair em todo mundo.
Nossos inimigos atuais na luta aqui no Jaraguá são o dono da AmBev, o Itaú, e os outros acionistas da construtora tenda, que estão fazendo o que podem pra botar a gente na cadeia por defender a natureza, e fazendo de tudo pra exterminar nosso povo.
Estão escrevendo um montão de coisas, muitas pessoas atacando as lideranças indígenas que foram ao bloco, mas isso eu não tenho tempo nem dados móveis pra ficar lendo tudo. A escritura que me preocupa é a que o policial armado de fuzil trouxe aqui na ocupação com meu nome escrito, e de outros, em um processo de mais de 400 páginas por estarmos em luta contra a construtora Tenda.
Reclamaram comigo, porque eu não levei uma faixa escrito demarcação já. Estamos aqui segurando uma ocupação, que precisa de alimentos, que precisa de cobertores, lonas, água potável, lanternas pros xondaro fazerem ronda a noite. O que vocês fariam? Comprariam o necessário e urgente ou o pano e tinta pra pintar faixa? A gente recebe doações, mas a gente se segura coletivamente. Estamos aqui e precisamos também tirar dos nossos próprios bolsos pra resistir, porque só as doações não seguram.
Se nos trouxessem pano e tinta, vontade de pintar faixa não faltava, ideias também não. Mas um dos atrasos do mundo é que as pessoas não perceberam que não precisamos de uma faixa escrito demarcação já, pois nossos corpos e nossas vidas também já representam essa luta.
Acusaram a gente de não falar com a base. Aonde está a base? Aqui em São Paulo uma parte da base que está organizada e reunida está aqui na ocupação. Aqui conversamos e temos reuniões, e não só com guaranis, recebemos parentes dos povos Tupinambá, Wapichama, o sobrinho de Raoni Kaiapó. Alguns parentes de outras etnias às vezes não conseguem estar com a gente, mas nos contatam e nos apoiam, não estamos sozinhos. Sem rezador Kaiowá, o rezo deles chegou aqui por meio de um de nossos pajés, porque podemos não estar juntos no mesmo espaço, mas estamos lutando e rezando juntos.
E desde o começo estamos pedindo apoio de todos, ao mesmo tempo aflitos que abertos demais entram também os mal intencionados.
A gente não vai pra casa de cada pessoa que se diz base, a base se reúne em algum lugar. E quem não esteve aqui precisa rezar mais e não se estressar por coisas que não tiveram disponibilidade de participar, provavelmente estavam em outras lutas, mas se não puderam estar aqui, o que se ganha desarticulando e difamando o que aqui acontece? O que ganham expondo outros indígenas para o Juruá Kuery? Quem vai usar isso são os que querem nossa destruição. Mas nhanderu é bom. Porque no carnaval adentramos um terreno minado, mas hoje já começamos a colher frutos.
Tem pessoas que não conseguem ver, mas atrás de mim e de cada parenta que estavam ali comigo haviam mil guerreiras atrás. Hoje por causa de articulações que ocorreram no bloco conseguimos fazer nossa petição com as bandeiras da ocupação saísse de três mil assinaturas pra 30 mil, e é só o começo.
Hoje Bruno Covas teve até que bloquear os comentários em suas redes de tanto que foi cobrado pelos crimes ambientais que estão ocorrendo aqui, mas o governo deixa passar batido. Isso foi hoje, vamos com força e fé avançar, e chegar no amanhã. Que o coração de parentes que atacam parentes em luta seja tocado por Nhanderu. E aguyjevete pra quem luta!
Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa. Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta. O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.
Irã Mall Foto: Eduardo Campos
A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico. Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream. Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.
Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.
Ritual de fogo “Chaharshanbe Suri” Foto: Eduardo Campos
A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.
O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra. Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental. Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões. A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida. Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele. Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa. Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens. A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas. A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos. O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás. O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.
Assassinato de 168 meninas, além do aiatolá Ali Khamenei, no primeiro dia dos bombardeios americanos-sionistas contra o Irã, mobiliza o país persa e engaja as crianças
O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.
Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.
A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.
O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.
Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.
Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.
Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé. Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.
Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres
Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.
Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.
Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.
Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.
Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.
Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.
Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.
*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina