O primeiro debate presidencial nos EUA e a crise da democracia
Confronto entre os candidatos mais destacados da eleição deu mais uma demonstração de
como os agitadores podem usar nosso tempo atualista para destruir a democracia
Na noite da última terça-feira, 29, ocorreu o primeiro debate presidencial para as eleições americanas. Trata-se de um momento importante na corrida eleitoral a pouco mais de um mês da votação em 3 de novembro. O cenário se mostra ainda bastante imprevisível e atípico em muitos aspectos. A começar pelo fato de que, no momento mesmo em que o debate ocorria, alguns cidadãos já haviam depositado seu voto nos correios. Uma das faces do caos geral criado pela crise do coronavírus.
Mateus Pereira, Valdei Araujo, Walderez Ramalho, professores da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) em Mariana*
É comum que nesses espetáculos políticos o debate seja bastante tenso e acalorado. Mas com Trump a coisa atingiu outro nível. Ele subverte todas as regras de polidez e boa conduta que configuram a própria política como forma de mediar disputas. Biden também não deixou por menos: “Palhaço”, “mentiroso”, “racista” e “cachorrinho de Putin” foram alguns dos adjetivos usados pelo candidato democrata contra o seu adversário.
No entanto, há uma diferença de grau entre o comportamento dos dois candidatos que não pode deixar de ser sublinhada. Desde a primeira pergunta, Trump falava não apenas no seu tempo, mas também no de seu rival, talvez esperando irritá-lo e deixá-lo confuso. Biden reconhecidamente não é um bom debatedor – algo escancarado pela série de gafes que ele cometeu durante os debates para a nomeação do Partido Democrata. Mesmo com todas as limitações e provocações, o democrata parece ter ganhado o debate, segundo os principais institutos de pesquisa dos EUA. Mas o ponto que mais chamou a atenção foi a performance de Trump e, em especial, a sua insistência em não respeitar as regras que a sua própria campanha havia aceitado previamente.
Nem mesmo o moderador do debate, o aclamado jornalista Chris Wallace, escapou das interrupções constantes do candidato republicano. Ele precisou gritar e repreender Trump em mais de uma ocasião. Em uma delas[1][2] disse: “Senhor presidente, eu sou o moderador aqui!”. Ainda no começo do debate, logo na segunda pergunta, precisou relembrá-lo a respeito do sistema de saúde nos EUA. Gesto que se repetiu ao longo de todo o evento. Em uma de suas respostas, Trump chegou a dizer que sabia que teria que debater com Biden e o moderador, colocando em dúvida a imparcialidade de Wallace: “Não estou surpreso com isso”, ironizou Trump.
Por sua vez, Biden falou de forma muito mais lenta e com tom de voz mais baixo que seu adversário. Procurava olhar mais para a câmera e se dirigir diretamente ao público, e insistiu por diversas vezes na necessidade de pacificar e unificar o país. Tentou se apresentar como um moderado, enquanto Trump acusava-o de pretender implantar o socialismo nos EUA.
Até que ponto esse discurso de moderado será bem aceito pelo público? Se Biden vencer essa postura pode indicar algum caminho para a esquerda e o centro brasileiro? Essas são perguntas que nos faremos até o final dessa eleição, que terá impactos diretos no futuro do governo Bolsonaro.
Ao longo dos 90 minutos do espetáculo, Biden se manteve mais atento às regras pré-acordadas, fazendo menos interrupções e, quando era interrompido, parou de falar em alguns momentos, esperando a intervenção do moderador para garantir o seu tempo. No entanto, isso não foi possível durante todo o tempo do debate, em função das insistentes intromissões do atual presidente. “Você pode calar a boca por um minuto?”, perguntou retoricamente o candidato democrata, em diversos momentos do confronto.
Mas Trump não se calava. Recusava-se a dar tempo para Biden ou Wallace falarem, o que deixou claro a sua intenção em tumultuar o debate e a sua tentativa de dominar a cena. Ao portar-se como um agitador – ao mesmo tempo em que, contraditoriamente, repetia o mantra de sua campanha, “Lei e ordem” – Trump transformou o debate em um verdadeiro show de cacofonia. Para tentar dar ordem àquele caos, o moderador chegou a gritar contra o presidente. Aliás, um dos pontos levantados na imprensa foi a necessidade de mudar as regras para os próximos debates – sugerindo inclusive a possibilidade de se desligar o microfone quando um candidato falar no tempo reservado ao adversário.
Ao assumir o papel de agitador, Trump se revela mais uma vez como um político bastante sintonizado com a condição atualista, na qual convivemos com mudanças rápidas e contínuas sem, no entanto, criarmos a possibilidade de transformações estruturais. Nessa condição, o respeito às regras do jogo deixa de ter importância. Quanto a isso, o contraste entre os dois candidatos se revelou não só em relação às regras do debate em si, mas também quanto à própria legalidade da eleição deste ano. Enquanto Biden não hesitou em aceitar o resultado do pleito de novembro, qualquer que ele seja, Trump se recusa a assumir tal compromisso, acusando o voto por correio de ser uma fraude, exatamente como Bolsonaro e os bolsonaristas fizeram e farão em relação à urna eletrônica.
Há uma questão material, de fundo, importante e que torna o resultado da eleição americana imprevisível. Como bem afirma o cientista político polonês Adam Przeworski: “Eu tentava entender como alguém como Trump podia vencer uma eleição nos EUA e se manter popular entre 40% da população. A renda dos 50% da população pobre está estagnada desde o final dos anos 1970. As pessoas não acreditam que seus filhos estarão em melhor situação do que eles, o que acontecia desde 1820. Tivemos presidentes democratas e republicanos, e as pessoas percebem que quase nada mudou[3] .”[1] Para esse autor, a democracia pode ser definida como um regime político onde o governante deixa o poder quando perde as eleições. E é justamente isso que está em questão na atual eleição americana, como o debate deixou bastante claro frente à escandalosa atuação de Trump.
O passado é um elemento mobilizado pelos políticos atualistas para promover a agitação e dispersão. Com efeito, o primeiro debate televisivo da eleição americana deste ano confirmou o argumento que apresentamos em uma coluna anterior.[2] Ao tratar sobre o tema dos protestos contra o racismo, Biden apresentou um discurso que se coaduna com uma visão liberal-progressista da história, ao afirmar que a igualdade racial nunca foi plenamente alcançada nos EUA, mas que esse valor deveria servir como guia para o futuro. Uma ideia de história que reconhece as suas fraturas e imperfeições requerendo ação contínua no presente.
Trump, por sua vez, acusou a “esquerda” de promover o ódio e a divisão entre os americanos com a educação racial, e acusou essa pedagogia (“critical race theory”, ou “teoria racial crítica” em tradução livre) de destruir a essência americana de harmonia, convivência e paz. Ao propor essa visão simplista e congelada do povo americano, o espaço para a ação transformadora se fecha, bastando apenas atualizar tal essência idealizada e defendê-la contra aqueles que a ameaçam – nomeadamente a esquerda, os movimentos de negros e grupos minorizados que se recusam a aceitar o seu lugar nas hierarquias sociais que garantiriam a harmonia social: “Nós temos que voltar aos valores fundamentais deste país. Eles estão ensinando as pessoas que nosso país é um lugar horrível, que é um lugar racista, e eles estão ensinando as pessoas a odiar o nosso país. E eu não vou permitir que isso aconteça”.
Diante de tal afirmativa, Biden retrucou: “Ninguém está fazendo isso. Ele que é o racista”. E reafirmou a necessidade de unificar o país, atravessado pelos protestos contra as injustiças e desigualdades raciais. Essa nostalgia, vinculada a um passado mítico, que guardaria uma suposta “alma americana”, motiva o temor de que essa alma do povo está sob constante ameaça de se perder, graças à ação corruptora da “esquerda radical”. A questão é que com essa estrutura retórica, Trump opera em duas frentes: de um lado, ele se apresenta como o salvador patriota, o defensor da “verdadeira América”; de outro ele envia uma mensagem implícita (nem tanto) para a sua base, majoritariamente constituída de eleitores brancos de classe média, sem formação superior ou moradores de áreas rurais.
E aqui se nota como essa concepção essencializada de história se relaciona com a agitação atualista, encarnada pelo mandatário republicano. Ao se recusar a condenar abertamente os supremacistas brancos e acusar a esquerda, os grupos antifascistas e o Black Lives Matter como promotores da violência, Trump estimula o conflito interno no país e, consequentemente, o caos, a agitação, a radicalização e a divisão, afastando a possibilidade da moderação, da negociação e da construção do comum. É nesse ambiente que ele parece prosperar, ao custo (ou bonus) de corroer as próprias condições para a democracia.
Trump age como um bombeiro que usasse sua posição para atiçar e não apagar os incêndios. Intensificar o caos e o conflito pelo conflito é parte de sua estratégia, pois isso dá a ele a chance de se apresentar como o único com força e disposição para superar a crise. Já Biden, com um discurso mais alinhado com a tradição democrático-liberal, procurou se posicionar, nesse debate, em relação aos seus planos para a saúde, economia, segurança e meio ambiente, acusando o seu adversário de não ter plano nenhum para o futuro.
Mas, na condição atualista, falar sobre planos futuros parece ter menos importância do que saber navegar na agitação dos tempos e se apresentar como o defensor de uma essência idealizada que deve ser preservada a qualquer preço. Se, por um lado, a postura de agitador pode denotar um desespero por estar atrás das pesquisas, ela pode também passar a mensagem de força e destemor, de alguém que luta contra tudo e contra todos, inclusive contra o moderador do debate. De toda forma, o primeiro debate presidencial da eleição americana deste ano deu mais uma demonstração de como a democracia pode ser frágil frente agitadores populistas em um tempo atualista.
O destino do moderado e do agitador mostrará alguns caminhos de ação frente à atual crise democrática. É provável que se Biden vencer com uma margem apertada ou se os conflitos durante e depois da votação se disseminarem a eleição seja judicializada e conflitos de rua possam se espalhar pelo país. Trump está trabalhando firme para que isso aconteça, incentivando seus eleitores a fiscalizar os locais de votação e espalhando denúncias vazias acerca de fraudes. A nós, americanos do Sul, que vivemos sob uma democracia ameaçada, resta torcer para a vitória dos moderados. Mas, após assistir ao debate, fica a certeza de que a dúvida será a nossa companheira até o encerramento (ou mesmo depois) das eleições. Afinal, Trump surfa na onda atualista como um surfista experiente e isso não é pouco. Caso o campo democrático consiga sobreviver ao desafio, deverá ainda ser capaz de governar e reverter as causas estruturais que estão corroendo as democracias, em especial a concentração de renda e precarização do trabalho.
(*) Mateus Pereira e Valdei Araujo escreveram o Almanaque da Covid-19: 150 dias para não esquecer ou o encontro do presidente fake e um vírus real com Mayra Marques. Mateus Pereira e Valdei Araujo são professores de História na Universidade Federal de Ouro Preto em Mariana. Também são autores do livro Atualismo 1.0: como a ideia de atualização mudou o século XXI e organizadores de Do Fake ao Fato: (des)atualizando Bolsonaro, com Bruna Klem. Walderez Ramalho é doutorando em História na mesma instituição.
Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa. Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta. O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.
Irã Mall Foto: Eduardo Campos
A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico. Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream. Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.
Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.
Ritual de fogo “Chaharshanbe Suri” Foto: Eduardo Campos
A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.
O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra. Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental. Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões. A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida. Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele. Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa. Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens. A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas. A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos. O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás. O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.
Assassinato de 168 meninas, além do aiatolá Ali Khamenei, no primeiro dia dos bombardeios americanos-sionistas contra o Irã, mobiliza o país persa e engaja as crianças
O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.
Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.
A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.
O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.
Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.
Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.
Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé. Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.
Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres
Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.
Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.
Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.
Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.
Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.
Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.
Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.
*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina