O bagulho é louco

SARAU DA PEDRA MOSTRA QUE A CRACOLÂNDIA NÃO É SÓ CRACK. TEM ARTE, RESISTÊNCIA E RENASCIMENTO

SARAU DA PEDRA MOSTRA QUE A CRACOLÂNDIA NÃO É SÓ CRACK. TEM ARTE, RESISTÊNCIA E RENASCIMENTO

Por Flávia Martinelli, Sato do Brasil e Adolfo Várzea/Jornalistas Livres
Fotos: Sato do Brasil/Jornalistas Livres

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Se no meio do caminho tinha uma pedra, nada impede que no meio de uma pedra exista um caminho. E nele, um sarau. Ali, no coração da Cracolândia, ponto excluído até dos moradores mais excluídos de São Paulo, música, dança, arte e poesia abriram um clarão na noite desta quarta-feira (25). Foi o Sarau da Pedra, nome perfeito para a linda iniciativa do projeto Casa Rodante/ Cidadania Rodante, que faz parte do “De Braços Abertos”, projeto de redução de danos da Prefeitura, parceria do coletivo casadalapa, Associação Sabiá e Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania da cidade de São Paulo.

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Com um carro de som (curiosamente criado em forma de carroça) e um projetor de vídeo na rua, o que se viu foi alegria e até leveza no quarteirão entre o largo Coração de Jesus e a rua Dino Bueno, no mal iluminado bairro da Luz. Os microfones estavam abertos para quem quisesse se apresentar e havia público para prestigiar. Para um desavisado, aquele poderia ser só mais um sarau de rua como outro qualquer: com risadas, abraços, poses para fotografias, bate-papo sobre causos e histórias de vida, espaço para mostrar aos parceiros que se sabe cantar, dançar ou até fazer performance caprichada para a vizinhança.

803718980_11244343301597820595Mas o Sarau da Pedra aconteceu em meio ao vai e vem do fluxo – o emaranhado de gente na busca ou no delírio da pedra. Isso, no entanto, não impediu que muitos interrompessem a marcha da fissura para prestigiar uma transsexual cantando Cássia Eller e Maria Rita ou aplaudir a dupla Chineladaaa, por exemplo. O show de do DJ Will Robson e do performer e escritor Pedro Guimarães misturou eletrofunk com imagens da pornochanchada brasileira, desenhos japoneses dos anos 80 e 90 e poesia social urbana. “O bagulho aqui foi louco”, descreveu uma espectadora. “Foi uma noite especial, a Cracolândia tá mudando e vai mostrar para a sociedade que aqui tem cultura. Eu hoje ocupei o meu tempo. Precisamos de quem faz algo diferente pra cair na mente e deixar o crack de lado.”

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É, o bagulho é louco…

Júlio Dojcsar, cenógrafo, grafiteiro, artista plástico que faz parte da organização do sarau e há dois anos trabalha na Cracolândia dá sua definição lugar: “aqui não é só crack. A Cracolândia é um quilombo urbano, é negra. É também uma área de resistência contra a especulação imobiliária e de resistência contra uma política de drogas super militarizada. É um tapa na cara da sociedade”.

Júlio fala de problemas que vão muito além da pedra e acredita que o local precisa ser entendido como uma zona de exceção. “Só assim seremos capazes de enxergar a Cracolândia a partir das leis e valores dela. E não a partir dos olhos de uma sociedade hipócrita que tem uma classe média que compra Rivotril por R$ 6,50 e coloca o dedo na cara de um usuário para dizer o que ele pode e não pode fazer”.

“Aqui não é só crack. A Cracolândia é um quilombo urbano, é negra”

Júlio lembra que quem vive na Cracolândia está à margem até dos mais marginalizados. “A sociedade trata a todos aqui como um bando de almas nuas, sem valor. Consideram os usuários menos que um morador de rua, menos que um bicho. Mas a gente que está aqui dentro olha tudo de um outro jeito. Quando vejo esse sarau, acho que sociedade pode mudar. E rápido. Como? Com menos revólver na cara e mais respeito e amor. Com o bairro sendo um espaço de quem vive nele. E com a rua sendo de todos. Sendo nossa.”

803717905_2050651722057916131 Falar dessa apropriação num bairro como a Luz ganha ainda mais relevância. O que se chama de Cracolândia é na verdade um depositório de usuários que muda de lugar conforme as pressões do mercado imobiliário do centro de São Paulo. Em 2005, o tudo piorou por causa do projeto Nova Luz, da gestão do prefeito Gilberto Kassab, que desfigurou completamente o bairro em planos de desapropriação para a construção de edifícios comerciais. Assim, não espanta o fato de a Cracolândia ter mudado de endereço conforme avançava a compra de imóveis por um conglomerado de empresas, hoje capitaneadas pela seguradora Porto Seguro que instalou sua sede na região.

“Aprendi a viver a vida contando que não vai dar tempo. Mas agora eu acho que vai dar, sim”

Várias casas dos arredores onde o Sarau da Pedra foi realizado já estão vendidas ou em vias de serem arrematadas. A preço de banana, claro. “Quando tudo estiver comprado e os novos imóveis começarem a ser construídos, facilmente vão empurrar os moradores do fluxo para outro lugar e teremos outras Cracolândias”, explica Julio, dessa vez interrompido por um morador que quis participar da conversa.
É Carlos Badarós que fez questão de dizer que sua família foi cigana e que ele aprendeu a “viver a vida contando que não vai dar tempo”. Badarós diz isso enquanto enumera balas alojadas e vários remendos que fez pelo corpo. “Já pensou se você vivesse a minha vida? Você ia achar que não ia dar tempo. Mas agora eu acho que vai dar, sim. Já cheguei aos 61 anos, até que deu tempo de viver muita coisa.” Júlio concorda. Afinal, se no meio do caminho tinha uma pedra, nada impediu que no meio de uma pedra existisse um caminho para Badarós. E, no caminho, um sarau onde Badarós disse que ainda dá tempo. Há de dar.

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Um comentário
  • Ana Aparecida Santos Silva.
    20 julho 2016 at 23:01
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    São trabalhos desse nível de humanidade que nos fazem vislumbrar uma luz no fim do túnel.

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