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Duas postulantes negras despontam como candidatas do PT à prefeitura da capital baiana, mas um homem branco também está forte no páreo eleitoral

Vilma e Denice - Reprodução Facebook

ARTIGO

RODRIGO PEREZ OLIVEIRA, professor de Teoria da História na Universidade Federal da Bahia

No Brasil, as eleições municipais acontecem sempre quando o presidente da República está chegando à metade do mandato. O impacto disso no debate eleitoral municipal não é bom. As questões locais, como saneamento básico, creche, iluminação urbana, acabam sendo ofuscadas pelas disputas nacionais. Isso é especialmente verdadeiro em grandes capitais.

As eleições municipais, portanto, sempre têm certa dimensão plebiscitária para o governo federal.

Depois das eleições presidenciais atípicas de 2018, onde um candidato sem estrutura partidária e tempo de propaganda na TV venceu a disputa, as eleições municipais de 2020 têm ainda maior relevância para o cenário político nacional. Todos queremos saber se o bolsonarismo é onda temporária ou cultura política já consolidada. Pesquisas de opinião são importantes, mas nada é melhor para a identificação de tendências políticas do que resultado oficial de eleição. A ver o que as urnas dirão no segundo semestre.

Em Salvador, a temperatura da disputa eleitoral está quente, quentíssima. Como por aqui o bolsonarismo puro sangue não é força política relevante, a competição se dará dentro do campo democrático, entre petismo e carlismo.

De um lado, o PT, liderado pelo governador Rui Costa e pelo senador Jacques Wagner. O carlismo é liderado por ACM Neto, do DEM e atual prefeito de Salvador, em segundo mandato.

Olhando de perto, porém, a situação é bem mais complexa. Explico.

O PT baiano está rachado. Os movimentos sociais de base querem a candidatura de Vilma Reis, mulher negra. Rui Costa e Jacques Wagner querem a candidatura de Denice Santiago, mulher negra, major da PM.

Nessa disputa interna, podemos perceber a manifestação dos grandes dilemas que atravessam a esquerda brasileira contemporânea.

Primeiro, entre os dois grupos há consenso a respeito da importância da representação identitária. Salvador é a capital mais negra do Brasil e nunca foi governada por pessoa negra. O PT pretende corrigir essa falha histórica.

As semelhanças, porém, acabam por aí. Sim, tanto Vilma Reis como Denice Santiago são mulheres negras. Mas não são negras da mesma forma, não performam a negritude do mesmo jeito.

Vilma Reis é quadro histórico dos movimentos sociais baianos. Socióloga, defensora pública, ativista dos direitos da população negra e LGBT. Vilma é aquilo que poderíamos chamar de “militante raiz” de esquerda, na estética e na agenda programática.

Muito diferente é o caso de Denice Santiago, major da Polícia Militar da Bahia, sem histórico de militância em movimentos sociais. Denice sequer é filiada ao Partido dos Trabalhadores. O ativismo político de Denice acontece mesmo nos quadros da PM, onde ela comanda desde março de 2015 a “ronda Maria da Penha”, que protege mais de 600 mulheres vítimas de violência doméstica.

Atentos à energia punitivista que atravessa a sociedade brasileira, Rui Costa e Jacques Wagner, políticos experimentados, sabem que a população se sente mais segura com policiamento ostensivo, com militar armado na rua. Se essa sensação de segurança está correta ou não de acordo com os especialistas na área é outra discussão. Fato é que a população está assusta e tomada por um sentimento hobbesiano, desejando o endurecimento do aparato repressor do Estado, nem que isso signifique restrição de algumas liberdades individuais.

No Rio de Janeiro, Wilson Witzel foi eleito prometendo que a policia ia “atirar na cabecinha” dos traficantes varejistas. Em São Paulo, João Dória prometeu que a partir do primeiro dia de seu mandado, a PM ia “atirar pra matar”. O próprio Rui Costa, reeleito em 2018 no primeiro turno, tem no policiamento ostensivo um de seus principais ativos políticos.

Na ocasião de uma chacina acontecida em bairro periférico de Salvador, Rui Costa disse que os policiais são como “artilheiros de time de futebol”. Na metáfora do governador, cada corpo derrubado no chão é um gol. Por essas e outras, a esquerda baiana diz que Rui Costa é o “Bolsonaro vermelho”.

Ao defender a candidatura de Denice Santiago, Rui Costa e Jacques Wagner tentam conciliar a demanda identitária por representatividade com o apelo eleitoral que um outsider ligado à segurança pública teria.

Já a esquerda baiana não se sente representada por Denice Rocha, que não aparece em público vestindo batas coloridas, ostentando penteado black power e citando Ângela Davis. Denice Rocha não tem o selo de qualidade “mulher negra de verdade” emitido pelos movimentos sociais.

Enquanto isso, o prefeito ACM Neto constrói o nome de Bruno Reis, vice-prefeito, que já aponta como franco favorito para a corrida eleitoral. “Netinho”, como se costuma falar aqui, é político muito habilidoso, um grande quadro da direita brasileira. Foi reeleito em 2016 em primeiro turno, impulsionado por obras de melhoramento urbano e contenção de encostas, construção de postos de saúde, e um serviço de comunicação social muito profissional.

Há mais de um ano, Salvador está rasgada por obras: BRT, revitalização de orlas na periferia, construção de praças e espaços públicos de socialização.

Sim, em Salvador tem orla na periferia, o que fascina este carioca, que cresceu numa cidade onde estar perto do mar é privilégio dos ricos.

Trânsito caótico, problemas seríssimos com alagamentos em dias de chuva. Mas Netinho dobrou a aposta e no ano eleitoral inaugurará dezenas de obras que impactarão positivamente na vida da população. Bruno Reis estará ao seu lado.

O mais provável é que aconteça o óbvio e Bruno Reis, homem branco, seja eleito com relativa facilidade, contando com o voto de milhares de mulheres negras da periferia e derrotando a mulher negra lançada pela esquerda, seja ela quem for.

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