NÃO É SÓ FUTEBOL

Por Pedro Spinelli e Pedro Lovisi

Foto: CBF

O futebol, provavelmente a maior fonte de entretenimento do brasileiro, significa muito mais do que um jogo de “22 homens correndo atrás de uma bola”. O futebol salva vidas, gera esperança, resgata jovens sem nenhuma perspectiva de futuro e os transforma em estrelas: Em ídolos nacionais e mundiais.
Entretanto, não podemos considerar o esporte favorito do brasileiro simplesmente como uma diversão para alguns e “trampolim” social para outros. É necessário analisá-lo como um reflexo da sociedade e assim, apontar seus problemas, interpretá-los e corrigi-los. Em tempos onde o jogo é tão usado para fazer referência ao momento político brasileiro, vale a análise dos últimos acontecimentos do esporte preferido dos brasileiros.

RACISMO

O ódio e a intolerância são dois sentimentos fixados não só na cultura brasileira, mas também em quase todo o mundo. Logo, ódio nas ruas, há ódio nos estádios; intolerância nas ruas, intolerâncias nas torcidas. Vejamos alguns exemplos:

Caso Grafite, em 2005; caso Tinga e Aranha, em 2014 são apenas alguns dos famosos exemplos de atos racistas envolvendo jogadores brasileiros. Inclusive, todos eles apresentam a mesma trajetória: repercussão durante dias na grande mídia, esperança de punição aos agressores, repressão dos clubes envolvidos, e, no fim, liberdade ao criminoso. O então atleta do Cruzeiro Esporte Clube, Tinga, foi chamado de “macaco” por torcedores do Real Garcilaso, do Peru, em 2014. No mesmo ano, o goleiro que estava no Santos Futebol Clube, Aranha, foi ofendido pelo mesmo apelido por uma torcedora do Grêmio.

Alguns dirão que o caso Grafite foi diferente. O atacante brasileiro, quando jogava no São Paulo, foi ofendido por ser negro pelo atleta da equipe do Quilmes, da Argentina, durante uma partida pela Copa Libertadores em 2005. Desábato, acusado de racismo, ficou preso durante duas noites, mas após pagar uma fiança de R$10 mil foi liberado pela polícia. (“Ahhh o dinheiro!”)

Foto: Rafael Ribeiro/ CBF

Anos depois, o atacante brasileiro chegou até a confessar que se arrependia de ter acusado o argentino, em razão da “espetacularização” do acontecimento sem o devido foco ao combate ao racismo.

Outro caso semelhante foi o de Daniel Alves em uma partida pelo Campeonato Espanhol, em 2014. Após um torcedor do Villareal lançar uma banana em direção ao jogador, o então lateral do Barcelona pegou a fruta e a comeu. O gesto do brasileiro repercutiu em toda mídia brasileira e até virou campanha publicitária: “SomosTodosMacacos”. Na ocasião, a agência publicitária Loducca foi a responsável por criar o slogan que gerou alguns milhares de reais à empresa.
Dias depois, o lateral da seleção brasileira questionou o rumo que a campanha tomou e se declarou contrário a ela.

POLÍTICA

O futebol brasileiro também costuma acompanhar a situação política do país e em algumas vezes, até mesmo segue algum movimento de resistência.
Em 1980, em meio a ditadura militar, o sociólogo e então diretor de futebol do Sport Club Corinthians Paulista, Adilson Monteiro Alves, instaurou no clube de futebol uma gestão altamente democrática, na qual todos os funcionários do clube tinham o mesmo poder de voto, independentemente do cargo que ocupava. Além disso, o Corinthians estampava em seus uniformes frases de defesa ao movimento “Diretas Já” e contrárias a Ditadura instaurada no país naquela época. Esta Era no clube ficou conhecida como “Democracia Corinthiana”.

Ainda sobre futebol e política no Brasil, é importante apontar mais dois exemplos: Em meados de 2013 – ano de grandes manifestações contra o aumento de passagens de ônibus em diversas cidades e protestos contra os desvios de dinheiro público -, foi criado o Bom Senso F.C., movimento organizado por jogadores de diversos times brasileiros que defendia melhorias nas condições do futebol local.

Por fim, os escândalos de corrupção na Confederação Brasileira de Futebol (CBF), estão diretamente envolvidos com os crimes investigados na Operação Lava Jato, acarretando a prisão de vários poderosos da entidade, como o ex-presidente da CBF, José Maria Marin.

Portanto, é necessário que haja mais manifestações políticas dentro do futebol, tanto por parte dos clubes mas também principalmente pelos torcedores. Em pleno século 21, as arquibancadas brasileiras não podem mais ser palcos de cantos homofóbicos, xenofóbicos e racistas. É preciso denunciar e reprimir todo tipo de ação fascista, em qualquer ambiente que seja. Em tempos de ódio, a luta é a melhor resposta.

*Editado por Agatha Azevedo

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