Na contramão do parto humanizado

 

A violência obstétrica, parceira de mulheres pobres e negras, na verdade não escolhe alvos quando se trata do sistema público de saúde. É o caso do relato abaixo, de Aracelle Fonseca, garota inteligente e sagaz, que nunca teve medo de encarar a vida, muito menos cara feia. É jornalista, graduada também em Letras, e há alguns anos escolheu ser policial civil. Não se enquadra, portanto, na categoria que sofre o diabo em toda e qualquer circunstância e não tem ou não sabe onde e a quem reclamar.

É casada com um também policial civil. Portanto, são funcionários públicos do Estado de Minas Gerais. Por questão de princípio de cidadania, escolheram a maternidade do Instituto de Previdência do Estado de Minas Gerais (Ipsemg) para receber Cecília, uma garotinha muito amada e linda, que veio ao mundo há poucos dias, apesar de um monte de atropelos e absurdos. Viva a mamãe Aracelle, que não guarda silêncio da violência de que foram alvo ela e sua filhinha. Calar só perpetua o mal. Recebi a postagem da mãe de Aracelle, mas está no Facebook, providência de uma amiga de longa data. (Sulamita Esteliam, jornalista)

 

“Meu nome é Aracelle! Sou jornalista, formada em letras e Policial Civil. Antes de me tornar servidora do Estado de Minas Gerais, trabalhei por 9 anos no SINDPÚBLICOS-MG – Sindicato dos Trabalhadores no Serviço Público do Estado de Minas Gerais. Lá, aprendi que o IPSEMG – Instituto de Previdência dos Servidores Públicos de Minas Gerais, é patrimônio dos servidores. Aprendi a defendê-lo, a lutar por ele, a cobrar melhorias do governo! Quando me tornei servidora não pensei duas vezes: cancelei meu plano de saúde e me tornei beneficiária! Defensora que era, fiz propagandas positivas e defendia a ideia de que todos deveriam aderir ao plano para torná-lo forte e solidário, atendendo bem todas as classes de servidores públicos.

Engravidei no começo de 2019 e fiz meu pré-natal no IPSEMG. Nasci na maternidade do hospital Governador Israel Pinheiro (HGIP), hospital próprio do Instituto. E achava incrível poder ter minha filha lá! E assim passei minha gestação, tranquila, sem nenhum mal estar ou intercorrência. Praticando atividades físicas e sendo o mais saudável possível para conseguir ter um parto normal tranquilo e humanizado!

No dia 15/11/2019, com 40 semanas e 3 dias, começaram as tão esperadas contrações! Eu entrava em trabalho de parto naturalmente e aquilo me deixou muito feliz! Seguimos, meu marido e eu, pra maternidade do HGIP. Fomos atendidos por um médico que constatou uma dilatação de 3cm e contrações ritmadas! Surpresa número um: o médico disse que me examinaria novamente dentro de duas horas para ver se a dilatação teria evoluído… E que até lá eu poderia ficar andando pelo corredor do hospital, segurando nos corrimões e agachando a cada contração!

Eu estava com muita dor! Onde estava a tão esperada sala de pré-parto? O tão sonhado acolhimento? As bolas de Pilates? O chuveiro quente? A enfermeira carinhosa??? Éramos somente meu marido, eu e as dores das contrações em meio a pacientes, visitantes, faxineiros, atendentes! Éramos ninguém!

Passaram-se as duas horas e minhas dores estavam insuportáveis! Meu marido corre atrás do médico que resolve me examinar de novo, encontra uma dilatação de 5cm e decide, enfim, me internar. Ufa! Agora viria a tão sonhada sala de pré-parto… E ela veio! Uma maca velha, descascada e rodeada por cortinas. Ninguém me consolava… Ninguém me sentava na bola… Me furavam e iam embora! Furavam de novo! Eu chorava! Meu marido me carregou pra um banheiro com chuveiro que tinha num canto da sala. Ele tira minha camisola e me coloca no banho quente! Ele me pede calma… Ele agacha comigo a cada contração! Ele, eu, minhas contrações e mais ninguém!

Os 7cm de dilatação chegam e eu imploro pela anestesia… Vou para o bloco cirúrgico e uma anestesista trêmula chega, me fura várias vezes, deixa meu marido desesperado, mas consegue me anestesiar… Alívio! Continuo na batalha de fazer força a cada contração. Pressão cai e quase desmaio. Aplicam adrenalina e pressão sobe! Uma confusão! Me pedem pra ficar de pé e agachar nas contrações… Obedeço! Papai agacha comigo, segura na minha mão! Os médicos residentes conversam entre si e mexem no celular sem sequer olhar pra mim naquela situação em que eu tentava, com todas as minhas forças, trazer minha bebê ao mundo! Eu chorava… Estava exausta! Me pedem pra sentar na maca novamente… Tentam manobras manuais para encaixar o bebê… Me sinto insegura… Sinto aqueles residentes inseguros!

De repente, o cenário muda! Sou avisada de que o bebê entrou em sofrimento e seus batimentos cardíacos sobem de forma absurda! Há mecônio dentro de mim! Uma Cesárea de emergência precisava ser realizada! Mais anestesia naquelas mãos trêmulas… Um corte mal feito, grande e mal posicionado é realizado na minha barriga, minha bebê é retirada, meu útero lavado… Sou costurada de qualquer jeito! Me sinto abandonada, estranha… Mas quero ver minha neném… Cecília chegou linda e saudável às 22h50 daquele dia. Ufa! Naquele momento só o amor por ela era importante!

Vamos para o quarto e o abandono continua! Ninguém me limpa… Banho só na manhã seguinte… Um quarto pequeno, um banheiro pequeno, duas famílias, médicos escassos, alimentação ruim, acomodações para mãe e acompanhante desumanas! Nada que eu venha escrever aqui seria capaz de demonstrar o abandono em que a maternidade do IPSEMG se encontra… Saí de lá dois dias depois em pânico! E acho que me encontro um pouco assim até hoje, 15 dias depois, quando consigo escrever esse relato em meio a lágrimas!

Olho para a cicatriz em mim e choro! É nela que enxergo os maus tratos pelos quais passei! É nela que vejo a marca da violência obstétrica que sofri! Mas sei também que chegará o dia em que olharei para ela e não irei mais chorar… Porque será nela que terei orgulho de dizer que venci! Que minha filha, meu marido e eu vencemos… E tê-la em nossos braços é o que mais importa nessa vida! É o maior amor do mundo! E nada mais importa!

Já o IPSEMG? Feche a maternidade! Acabem com o Hospital! Ninguém mais precisa ser enganado e mal tratado dessa forma! Sejamos realistas! A defesa para a manutenção do IPSEMG a qualquer custo não pode continuar! Afinal, é a vida e a sanidade dos servidores e seus dependentes que devem ser prioridade na luta sindical!”

 

COMENTÁRIOS

6 respostas

  1. Hospital sucateado pelo descaso dos governos de Minas Gerais . Absurdo dos absurdos. Sou a avó da Cecília.

  2. Que absurdo, que tristeza… Que haja alguma providência

  3. Sinceramente, não percebi esse descaso. Acho que foi normal não ter te internado de cara, provavelmente queria avaliar se era trabalho de parto desencadeado por isso te pediu p andar e reavaliar…( normal ). Durante o trabalho de parto é normal tb realizar toque (furar é por sua conta), ninguém é obrigado ficar ao seu lado durante trabalho de parto te paparicando e incentivando, a não ser seu marido ou seu acompanhante ou uma doula se vc quiser pagar…Inclusive foi anestesiada, reclamou até da forma como foi feito isso…add. Pode ocorrer sofrimento fetal agudo e mecônio, que bom que foi diagnosticado a tempo. A cesariana por ter sido de urgência pode ocorrer algumas imperfeições, mas nada exagerado, tanto que vc não evoluiu com infecção no pós operatório. Se quer luxo…um quarto grande com banheira, hidromassagem e gente p te paparicar pague por isso, procure um hospital , avalie as instalações, veja antes se está no seu nível,,,se te serve.
    Minha senhora não acho com nenhum cabimento sua reclamação, na minha opinião!!!

    1. É muito fácil pra um macho falar sobre isso. Você não t lugar de fala. Cale-se. Ou é um médico desumano como a maioria dos nossos nesse país injusto ou só mais um macho sem noção , sem educação e alienado. Vá senta no seu sofá, coçar seu saco, assistir pornografia e peidar.

  4. Sinto muito pelo que vc passou, é um momento de sentimentos aflorados e o que mais queremos é acolhimento. Também tive meu bebê lá, foi em janeiro de 2019. Tive um parto induzido, é muito sofrimento com contrações, no fim deu tudo certo. Eu não gostei muito foi do tanto de enfermeira que tentava a todo custo fazer sair leite dos meus seios, simplesmente não saía. No mais eu fui bem atendida. Espero que vc esteja bem e essa experiência te deixe fortalecida para ajudar outras mulheres que se sintam desrespeitadas. Mas há profissionais e Profissionais, o problema pode estar na pessoa, não acredito que todos lá sejam péssimos, não desejo o fechamento da maternidade, desejo que toda a equipe passe por preparações específicas para atender melhor às mães.

  5. Sinto muito pelo que teve que passar ,tive minha Bb em julho de 2019 e fui super acolhida.
    Meu parto foi induzido, doloroso, porém humanizado.
    Tive acesso à sala de pré parto com bola,chuveiro,banqueta é todo amor do meu acompanhante.Agora equipe infelizmente não tem tempo pra ficar o tempo todo ao nosso lado não pq são escassos os profissionais.
    Minha única queixa foi a anestesista que foi grosa, mal educada e insensível.Agora o resto médico,residente,enfermeiro,técnico, higienização brilharam .

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