Médica cubana assume secretaria de Saúde no norte do Rio

“O SUS é maravilhoso, é o sonho da atenção primária, mas no Brasil há uma cultura que ainda não está focada nesta área, o que atrapalha muito”

Por Júlia Maria de Assis, especial para os jornalistas livres

Não foram poucas as vezes em que ela teve que explicar que era sim uma médica e não uma agente comunista recrutada para a revolução armada que a esquerda queria fazer no Brasil, uma das muitas fake news envolvendo o programa Mais Médicos que inundaram as redes sociais de desinformação e preconceito. Foi preciso dialogar muito, desconstruir estereótipos e trabalhar duro.

Hoje questionamentos como esse praticamente não existem mais. E a cubana Arleny Váldés integrou-se de tal forma à comunidade que a acolheu há pouco mais de cinco anos que acaba de ser nomeada secretária municipal de Saúde de São João da Barra, cidade de 35 mil habitantes no norte do Estado do Rio de Janeiro.

Aos 32 anos, divorciada, sem filhos, Arleny tomou há dois anos uma das mais difíceis decisões de sua vida: permanecer no Brasil quando acabou seu contrato com o programa. Como consequência só pode voltar a Cuba em 2025. Sente saudades dos pais, avós, irmãos e sobrinhos – a última vez que viu a família foi em fevereiro de 2016, quando viajou de férias para casa –, mas não se arrepende da escolha. Sua mãe vem ao Brasil pela primeira vez no final deste ano para visitá-la e enquanto tenta segurar a ansiedade se dedica ao novo desafio de cuidar das políticas públicas de saúde no município.

Reforçar a atenção primária é prioridade para ela. E nem mesmo o momento de desmonte vivido no país a desmotiva. “Há uma involução na atenção primária, no SUS, mas a população e os profissionais na ponta resistem, lutam para manter as políticas de saúde pública. E defendem com argumentos, o que é importante”, afirma.

“Se vocês fazem tudo isso vou fazer o quê? Só dou consulta?”

Arleny se formou em 2010 e fez pós-graduação em Medicina da Família. Em 2012 foi para a Venezuela, onde ficou dois anos atuando em um programa similiar ao Mais Médicos, o Barrio Adentro. Recebeu a proposta para trabalhar no Brasil em janeiro de 2014. Dois meses depois chegou a Guarapari, no Espírito Santo, um dos quatro pólos de formação do Mais Médicos, para estudar português e Medicina brasileira.

Quando soube que seu destino seria São João da Barra foi para a internet pesquisar sobre a cidade. Não tinha ideia de como era o lugar. Chegou em maio para atuar como médica da família, primeiro para uma unidade de Grussaí e depois Atafona.

“Já cheguei organizando os medicamentos, o material, porque é isso também que os médicos fazem no meu país, e fiquei surpresa e impressionada ao ver que a equipe de enfermagem cuidava dessas tarefas, e com muita qualidade. Perguntei: ´Se vocês fazem tudo isso vou fazer o quê? Só dou consulta?`”.

O começo foi um desafio, mas Arleny lembra do apoio que recebeu da comunidade. “Havia muita curiosidade, principalmente com o sotaque, mas os pacientes me ensinavam, me falavam das gírias locais. Me senti acolhida e essa é uma semelhança grande com meu país, os amigos se tornam família”. Ela lidou com preconceito também, mas para ela não chegava a ser algo agressivo. “Sempre houve muita desinformação sobre Cuba, sobre o Mais Médicos, parte pelo que se falava na mídia, mas o bom é que as pessoas perguntam, estão dispostas a ouvir, e o diálogo foi desconstruindo tudo isso”.

Revalida concluído

Quando terminou seu contrato com o Mais Médicos em 2017 e ela informou aos pacientes e colegas de trabalho que teria que retornar para Cuba foi organizado até abaixo-assinado para que ficasse. Arleny nunca tinha falado com a prefeita Carla Machado (PP), que havia assumido o governo poucos meses antes, tanto que quando recebeu um telefonema dela pensou que fosse trote. “Ela me ligou e me convidou para ser uma das coordenadoras do ESF (Estratégia Saúde da Família) e então decidi ficar no Brasil”. Ela também coordenou a Atenção Básica e a Vigilância em Saúde.

Deixou de clinicar porque perdeu o direito, mas se inscreveu no Revalida, um processo demorado, e passou em todas as etapas.

Concluiu este ano e só está aguardando a chegada do registro no CRM para voltar a atender pacientes. “Vou tentar conciliar com o trabalho na secretária, porque sinto falta de atender as pessoas, de visitar as casas. Sou apaixonada por clinicar”.

Arleny estudou o SUS para trabalhar no Brasil e é só elogios ao sistema, mas reconhece as dificuldades para a execução real do que está no papel. “O SUS é maravilhoso, é o sonho da atenção primária, mas no Brasil há uma cultura que ainda não está focada nesta área, o que atrapalha muito”. E é esta justamente a prioridade da nova secretária. “Termos 100% de cobertura na atenção básica, o que é muito bom, além de contarmos com uma equipe ótima”.

É mais curiosidade do que preconceito

A estrutura comandada por Arleny conta com 26 unidades de saúde. Só de médicos são 174. Se há resistência dos colegas brasileiros de profissão? “Havia mais. O que acaba existindo é muito mais curiosidade. O preconceito vem da desinformação. Uma médica uma vez veio me dar um abraço, disse que tinha outra visão e ao conviver comigo passou a ter um pensamento diferente. Alguns médicos chegaram a viajar de férias para Cuba depois de ouvirem o que eu contava sobre meu país”.

Arleny não sabe se um dia voltará para Cuba. Ela não casou de novo – era casada com um médico cubano que também veio para o Brasil – mas pretende ter filhos e gostaria que nascessem em São João da Barra. Apesar de adaptada ao Brasil sente falta de casa. “Cuba é um país lindo, politicamente difícil de entender, até para nós cubanos, economicamente difícil. Mas a educação é maravilhosa, a saúde é maravilhosa”, destaca.

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